Coração pra Gi, pro Cris, pra Bruna, pra quem lê, pra quem deixa review, e um coração maior ainda pra Mary. (L)
Caso alguém não saiba, PADD é uma espécie de computador portátil. E esse chap cita alguma coisa da novelização, mas não fas falta se você não leu.
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Mercúrio ao Pôr do Sol
Capítulo Três
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Espaço, suor, medo, fogo, espada, sangue verde, Kirk, queda, dor.
Quando Sulu deu por si estava com o corpo erguido da cama, apoiado nos cotovelos, arfando e ensopado de suor. O mesmo pesadelo. Ele não tinha perguntado, porque não é o tipo de coisa que se pergunte, mas sempre achou que o capitão Kirk tinha os mesmos sonhos.
Matar pessoas. Não deveria ser um problema, ele era um militar e isso fazia parte das obrigações que tomara para si ao se alistar. E eram inimigos, iriam matá-lo sem hesitar, estavam matando seu irmão-em-armas. Não havia motivo racional para os pesadelos, para às vezes ter relances de sangue verde manchando as próprias mãos.
(O curioso é que, por mais que fossem seus dedos comandando parte das armas da Enterprise, os romulanos que estavam na explosão da Nerada nunca incomodavam seus pesadelos. Sulu evitava pensar no que isso significava.)
Plataforma, romulanos, Olsen, fogo, queda, Vulcano.
Dor.
Mas Sulu também lembrava vividamente (e de vez em quando isso aparecia no sonho, também) da felicidade ao sentir-se transportado, ao cair em segurança na sala de teletransporte da Enterprise sob os gritos alegres de Chekov. Lembrava que por pouco não beijara Kirk, naquele momento, tendo sido impedido por um repentino retorno do bom senso. Ainda lamentava que este não tivesse demorado apenas um pouco mais.
E era sempre esse pensamento que o fazia sorrir e espantava pra longe o pesadelo.
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O primeiro café-da-manhã que tomou com Chekov, por uma simples coincidência de encontrá-lo na fila do sintetizador de alimentos, virou um mar de burburinhos por toda a nave. Porque tanto quanto jantar juntos e Chekov assistir a treinos de esgrima, tomar café-da-manhã se tornou rapidamente algo que faziam sempre. Uma intervenção doce na eterna rotina, ou uma rotina doce entre as eternas intervenções.
Passar no deck de baixo, bater na porta, saudar o colega de quarto (alto, louro, nem bonito nem feio, gentil, sempre de pijamas quando Sulu chegava porque não tomava café no refeitório na esperança de dormir um pouco mais), assistir Chekov colocar as botas apressadamente, e irem para o refeitório.
No final da primeira semana de cafés-da-manhã eles já tinham estabelecido uma série de jogos, ao contrário da conversa descompromissada dos jantares. O preferido era a Equação Obrigatória: eles deveriam usar alguma equação específica no decorrer do período de trabalho, de forma visível e comprovável, mesmo que para algo inútil. Na manhã seguinte discutiam se o modo usado era válido ou não – e nunca seria válido se Chekov colocasse a nave em risco, mesmo que remotamente. Era um procedimento de segurança; Sulu conhecia Chekov e sabia bem o quanto o garoto gostava de ganhar.
Às vezes os jantares, mesmo que acompanhados de outros colegas de tripulação, eram tomados por sorrisos cúmplices que viravam risadas quando se olhavam nos olhos. Era apenas ansiedade, porque fazia parte do jogo não conversar sobre ele à noite, e sim apenas na hora do café. Claro que não parecia haver motivo algum para os sorrisos a quem observasse, e foi especialmente por isso que eles começaram a ser tratados como um casal por todos a bordo da nave.
Sulu percebeu, claro, e sabia que Chekov também tinha percebido. Porque às vezes eles sorriam e riam, entre olhares, e não tinha nada a ver com o jogo.
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Sulu rabiscava um desenho no PADD, esperando Chekov para jantar. Um dragão, muito mais estilizado e mal desenhado que o das suas costas, envolto de um mar de tinta azul salpicado de pontinhos brancos que supostamente eram estrelas.
Ele nem viu o capitão Kirk sentando à sua frente, apoiando o cotovelo na mesa e a mão no queixo, e olhando o desenho. Quando percebeu, não chegou a se assustar, e sorriu.
– Capitão. – cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso.
– Sulu. – Kirk respondeu, também sorrindo. Apontou para o desenho. – É um dragão?
– Sim, hum, é. – Sulu confirmou, repentinamente envergonhado por não saber desenhar muito bem.
– Um dragão entre as estrelas. Mais ou menos como a Enterprise. – ambos sorriram, e Sulu fez um gesto de "mais ou menos". Kirk continuou. – É a sua tatuagem, não é?
Okay, Sulu pensou, Doutor McCoy. Mas por que McCoy contara sobre isso ao capitão? Não deveria parecer importante a mais ninguém. Por outro lado, era Kirk, e não adiantava fingir que não havia satisfação alguma em dividir isso com aquele com quem dividira a batalha e a queda. E com quem acreditava dividir os pesadelos também, quem sabe.
– É sim, senhor.
– Disseram para mim que é uma tatuagem realmente bonita. – Kirk colocou a mão sobre o ombro de Sulu. – Caso precise conversar ou qualquer coisa, Sulu. É só vir falar comigo.
Sulu assentiu, agradecendo. Kirk pareceu se preparar para levantar, mas Sulu segurou a mão apoiada em seu ombro.
– Kirk, você tem... sonhos? Com aquele dia?
– Tenho. – Kirk suspirou de forma um tanto dramática; combinava com ele. – Mas apesar de tudo, devo confessar que gosto da parte de reviver as batalhas. E da que vencemos, ao final.
Sorrindo abertamente, Sulu soltou a mão do capitão, que se levantou. Entendera o que Kirk queria dizer – se a vitória não fosse o importante, para que teriam lutado? Era só uma questão de tempo.
– Obrigado.
– Não há de quê, Sulu. – Kirk respondeu. Virou as costas, mas voltou. – E, a propósito, sobre o alferes Chekov...
– ...não há nada entre mim e o alferes Chekov, capitão. – continuou Sulu, prevendo divertido o que Kirk diria.
– Ah, não? – Kirk sorriu. – Acredito que saiba que não haverá necessidade de esconder ou se justificar, embora eu fosse gostar de ser informado.
Sulu registrou o uso do verbo no futuro incondicional. Bem, ao menos Kirk não acreditava que estivesse mentindo.
– Será um prazer, capitão.
– Imagino que será, tenente. – Kirk sorriu, e Sulu sorriu de volta, ligeiramente exasperado e com vontade de rir alto. – Agora, com licença.
Assim que Kirk se afastou, Sulu riu baixinho e voltou a atenção para o desenho. Estava feio, considerou, mas continuou rabiscando o céu e marcando estrelas no guardanapo.
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Durante o jantar, Chekov falava sobre a nova forma de se ver as equações de dobra e teleporte, trazida por Scott. Era visível o quanto admirava o engenheiro-chefe, sobre quem que Sulu na verdade não tinha uma opinião formada; era um engenheiro genial, é claro, mas era quase impossível vê-lo sem pensar no engenheiro-chefe Olsen, no fogo, nos romulanos e na queda. Era estranho.
Afastando esses pensamentos, Sulu divagou um pouco sobre se seria válida ou não a forma como usara a equação de hoje. Trapaceara um pouco, e torcia pra que Chekov percebesse quando avaliassem no dia seguinte, porque não queria ter que confessar.
– Você não está me ouvindo, certo? – a voz cheia do sotaque adorável cortou seus pensamentos, e Sulu ergueu os olhos para encontrar os olhos claramente insultados de Chekov.
– Não, Pavel, não estou. – sorriu, desarmando um pouco o alferes. Lembrou de um dos primeiros diálogos que tiveram, na ponte, e decidiu mentir um pouco. – Estava pensando naquele seminário que eu fiquei de pegar com você, se lembra?
– Claro que sim! – o olhar rude de Chekov se dissolveu num sorriso. – Aquele curso avançado sobre técnicas de evasão. Mas por que está pensando nisso agora?
Sulu prendeu a respiração por um segundo antes de soltá-la num suspiro. Certo. Não era bem um agora-ou-nunca, mas seria agora, e ponto.
– É que eu lembrei que você nunca foi ao meu quarto... E pensei que essa poderia ser uma boa desculpa para convidá-lo.
Chekov derrubou o copo que estava segurando, fazendo com que todos no refeitório olhassem para ele. Obviamente isso fez com que corasse ainda mais, e assumisse o ar solene de sempre que estava envergonhado, em contraste com o largo sorriso de Sulu. Só quando voltou de ter enxugado o chão e pego o copo inquebrável de debaixo da mesa que Chekov respondeu, absurdamente vermelho e sério.
– Às vinte e uma estarei lá, tenente.
Sulu se concentrou em não rir quando concordou, milésimos de segundo antes de Chekov sair andando apressado e sumir pela porta do corredor. As pessoas o olhavam, curiosas, talvez acreditando que tinha sido uma briga de casal.
C-a-s-a-l. Ca-sal. Casal. Soava terrivelmente bem, Sulu considerou, enquanto levantava e se dirigia para o quarto. Tomar um banho, pensar, e esperar que o tempo passasse bem rápido até as nove da noite.
Continua.
