Mercúrio ao Pôr do Sol
Capítulo Quatro
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O café-da-manhã no dia seguinte não teve nenhum dos jogos habituais, e Sulu e Chekov sequer falaram sobre as equações que tinham ou não usado no turno de trabalho anterior, ou definiram um novo objetivo para o turno seguinte. Chekov queria falar sobre a tatuagem.
Não que Sulu tenha se surpreendido com a curiosidade de Chekov, na verdade até que tinha sido curioso o garoto não ter falado disso durante a noite.
Não que eles tivessem falado muito durante a noite.
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Nesse mesmo dia a Enterprise encontrou seu primeiro grande problema, e deveriam salvar um planeta em perigo. Sulu se manteve calmo e se esforçou o máximo que pôde para ajudar a resolver. Pensamentos sobre a explosão de Vulcano não deixaram sua mente nem por um instante, mas nada deu errado desta vez. Uhura riu quando anunciou que estava tudo bem, e Sulu pôde soltar a respiração. Não haveria mortes, nem a culpa pouco lógica, nem os pesadelos; o planeta estava bem.
Pouco antes do fim do seu turno, Sulu parou a nave nas docas de uma base estelar, o real destino dela e onde deveria ter chegado algumas horas antes. Sulu imaginou que poderia descer um pouco, sair um pouco da nave, beber alguma coisa. Quando pensou em pedir permissão para o capitão, sentiu Chekov tocando seu braço.
– Vamos descer? – ele perguntou sorrindo, o sotaque rasgando a garganta. – Eu já pedi licença pra irmos.
Antes que pudesse lembrar de evitar, Sulu olhou para Kirk em busca de confirmação. Encontrou no rosto do Capitão um sorriso bonito que poderia ser colocado exatamente na fronteira entre a condescendência e a diversão maliciosa. Claro.
Sentindo-se corar e tentando olhar para qualquer outra coisa, Sulu acabou vendo o sorriso enorme que Uhura nem tentava disfarçar. E antes que visse a expressão de vitória e de eu te disse que você não resistiria no rosto de mais alguém (ninguém mais ali deveria saber, ou se importar, mas Sulu só conseguia irracionalmente pensar não olhe para Spock, não olhe pra Spock, não olhe...), Sulu segurou a mão de Chekov para saírem logo da nave.
– Você acha que eles já sabem? – questionou Chekov assim que eles viraram o primeiro corredor, mal escondendo um certo orgulho, uma certa felicidade na voz.
Sem saber direito o que responder, Sulu apenas sorriu e o beijou rapidamente antes de continuarem a andar.
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Naquela base estelar era fácil alugar uma sala com comunicadores civis e abrir comunicação em tempo real com a Terra. O preço normalmente não valia a pena, mas Chekov estava ansioso para falar com seus pais, e Sulu acabou um pouco contaminado pela ansiedade.
Depois de alguma espera diante da tela na cabine de conversação particular, viu os rostos de seus pais sorrirem sonolentos para ele. Apenas amanhecia em São Francisco, mas Sulu sabia que eles não iam se importar. Antes que percebesse já estava contando sobre o planeta que a Enterprise tinha acabado de salvar, deixando claro que a tripulação em si quase não correra riscos dessa vez – e era verdade.
Quando terminou de contar, seus pais deram parabéns preocupados e sua mãe começou a fazer as perguntas já esperadas, sobre alimentação de menos e trabalhar demais e correr perigo demais. Sulu respondeu calmamente, inclusive quando sua mãe perguntou, desenhando aspas no ar, se aquele sorriso diferente tinha um "motivo".
– Tem esse garoto... – Sulu começou, sorrindo um pouco mais. Viu sua mãe cutucar seu pai com o cotovelo, resmungando um sorridente "eu disse!" que por um momento lembrou a expressão de Uhura pouco antes. – ...ele é humano, russo. Se chama Pavel, Pavel Chekov.
– Chekov! Eu me lembro dos Chekov! – seu pai exclamou, parecendo surpreso. – Gente boa, os Chekov.
– Mas, querido – seu mãe sussurrou para o marido –, o garoto dos Chekov, você não lembra? Quantos anos ele tem, Hikaru? – ela perguntou olhando diretamente nos olhos do filho.
Ele coçou a nuca, pensativo. Sabia que Chekov era o melhor navegador que havia, sabia que era alguém disposto a trabalhar e a dar sua vida pela nave, sabia que era um adulto em qualquer termo. Sabia tudo que era importante para eles, mas sabia que, para quem olhava de fora, a idade de Chekov deveria importar. Não importava.
– Acho que ele tem dezoito, tinha dezessete quando nos conhecemos. Escutem... ele é muito inteligente, não é uma criança. Ele sabe o que está fazendo.
Sulu viu seus pais trocarem um olhar antes de voltarem a olhar para a tela.
– Confiamos em você, Hikaru – disse sua mãe, sem sorrir. – Mas veja bem o que está fazendo, hein.
– Os Chekov já sabem dessa história? – seu pai perguntou. Sulu olhou para a parede ao lado, onde ficava a sala em que Chekov deveria estar falando com a família.
– Devem estar sabendo agora. – ele sorriu. – Mas eu estou aqui, pagando uma pequena fortuna por essa ligação, e vocês ainda não disseram absolutamente nada sobre como estão as coisas aí!
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Chekov disse que seus pais estavam felizes. E que levaria Sulu para a Rússia, porque eles faziam questão absoluta.
– Eles sempre souberam, sabe. – Chekov murmurou, como quem deixa escapar um segredo. Sulu lembrou dos dois velhinhos gentis que conhecera, de como a senhora Chekov colocou a mão em seu braço e lhe disse uma porção de pequenas coisas gentis sobre o filho. Na ocasião, ela disse que ele preferia agir sozinho, mas não gostava da solidão; Sulu via isso com muita clareza, agora. E achava adorável.
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Os dias passaram suavemente, depois disso. Missões emocionantes, missões tediosas, coisas estranhas acontecendo, vida em risco, universo em risco, rotina. O rosto adormecido de Chekov e os cafés da manhã barulhentos, Uhura e os jantares confidentes, conhecer o resto da tripulação, fazer mais e mais amigos, mandar e receber comunicações de casa, pilotar a melhor nave da galáxia.
Os pesadelos não pararam, e novas dores surgiram para se juntar às antigas. Sempre havia a missão que dava errado, as pessoas impossíveis de salvar, os planetas fatalmente condenados. Havia também as coisas que davam certo, as chances de Kirk ser um perfeito herói e as vezes em que tudo era simplesmente divertido, ou ridículo, o que costumava dar na mesma.
Seu planeta estaria sempre com ele, Sulu sabia, e sua família, e suas raízes, e as pessoas queridas que tinham ido embora, ou que tinham ficado para trás. Ainda rabiscava a própria tatuagem no PADD quando estava distraído, e um dia Chekov lhe disse que o desenho estava todo errado – e Sulu percebeu que não conhecia muito bem o dragão e as estrelas. Era engraçado, isso, mas não havia espelhos suficientes em seu quarto; e o mistério sobre isso, sobre algo que era ele mesmo, fazia parte do que era importante.
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A Enterprise teve um batalha árdua com os klingons. Partes da nave foram destruídas, pessoas morreram, e agora seguiam muito lentamente para a base mais próxima, em busca de reparos e reposição da tripulação.
Só depois da rota traçada e a nave colocada a caminho que Kirk liberou o primeiro staff para descanso. Com a adrenalina baixando, Sulu sentia como se todos os seus ossos estivessem quebrados, todos os seus músculos distendidos. Caminhou devagar para um bom banho, e saindo dele entreouviu uma conversa. Voz de mulher, trêmula, magoada.
"Vulcano deveria ter sido deixado em paz, o planeta dos klingons é que deveria ter explodido. Talek e Peter estariam vivos, agora"
E Sulu pensou nisso durante muito tempo, em como era ilógico e injusto, nada disso deveria acontecer. E as pessoas não deveriam ter que pensar assim, que passar por tanto sofrimento a ponto de ter que pensar assim. Chegou no jardim botânico ainda pensando, deitou de comprido ao lado das begônias, ainda pensando.
Passaram duas horas antes de Chekov encontrá-lo. Parou de pé ao seu lado, oferecendo a mão para Sulu levantar.
– Parece que estamos sempre quase morrendo. – o sotaque russo andava arrefecendo, mas parecia pior agora.
Sulu sorriu e se levantou, estendendo a mão para Chekov. No lugar de se erguer com ela, puxou o garoto para deitar ao lado dele.
– E estamos. Porque é o jeito de o universo dizer que estamos vivos.
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Chekov começava tocando cada estrela, com as pontas dos dedos. Então os olhos do dragão, a boca, a cabeça, o corpo serpentino, as patas, a ponta da cauda. Tocava então uma estrela com os lábios, sem chegar a beijá-la, antes de começar a fazer o caminho contrário com as pontas dos dedos. Nunca errava ao voltar pelas mesmas estrelas tocadas anteriormente, navegando pelo corpo de Sulu como fazia pelo espaço profundo. Ao final do trajeto, tocava os lábios de Sulu e o beijava.
Só então, vagando entre as estrelas, eles dormiam.
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Fim.
Procrastinei uma vida inteira antes de começar e antes de terminar de escrever esse capítulo. É o último, e foi difícil começar a me despedir da fic, principalmente do Sulu que eu apenas comecei a esboçar aqui. Ele foi criado juntando uma série de referências – no final, não é nem o Sulu do George Takei, nem o do John Cho, mas algo entre os dois, ou não. Um bom, calmo e destemido coração, cheio de arrogância jovial, é como eu descreveria qualquer um deles, Sulu em sua essência mais básica.
Todas, todas as minhas fics nascem de crenças que eu não saberia expressar de outra forma. Esta nasceu da crença que a destruição de Vulcano seria um evento grande na vida de todo mundo na Enterprise, e poderia ser contada a história de cada um deles, sobre a perspectiva de alguém que viu todo um planeta morrer. Eu decidi contar especificamente a história do Sulu porque tinha acabado de ler Kobayashi Maru, um romance do universo expandido de Jornada que tem toda uma parte só sobre ele e tal. E também porque a imagem dele com uma tatuagem me pareceu muito sexy e interessante o bastante para ser uma linha condutora, uma espinha dorsal numa história que não tem nenhum plot no sentido clássico da palavra.
Novamente meu muito obrigada pro meu harém, a.k.a. Mary, Gi, Bruna, Fuu e Cris. Amo vocês.
Obrigada também a todos que deixaram review (nem sei como dizer como foram importantes (L)), e a todos que leram sem dizer nada. Espero que tenham aproveitado a viagem!
