Hajimemashite
Oohh...'' gemeu Asuka, olhando em volta através dos olhos ainda meio embaçados. Uma grande dor de cabeça a atravessava nesse instante, e ela mal tinha forças para se levantar. Quando finalmente a sua visão voltou ao normal, percebeu que não conhecia o lugar onde se encontrava. Estava deitada numa cama, com um cobertor e um travesseiro muito macios, num quarto simples, que tinha apenas a cama, o armário e uma escrivaninha perto da janela. Na mesa de cabeceira, algumas fotos, onde ela reconheceu uma garota, mas não soube dizer de onde a conhecia. Não sabia por quanto tempo estivera dormindo. De repente, ouviu o som de uma porta sendo aberta. Uma garota de cabelos castanho-escuros, um pouco mais baixa que ela e usando óculos, aparentando ter alguns anos a mais, se aproximou.

Ah! Finalmente você acordou! Espere um pouco aqui, vou chamar o Keiichi.''

Tudo que Asuka pôde fazer foi ficar com cara de interrogação. Mas quem diabos era aquela garota? Ela a conhecia? Nunca a tinha visto antes! E ela já a estava tratando com tanta familiaridade... e que lugar era este?

De repente, Asuka ouviu passos apressados em direção ao aposento em que se encontrava. Aberta a porta, surgiu novamente a garota que a tinha visto acordar, acompanhada provavelmente do irmão, um rapaz que aparentava se um ou dois anos mais velho que ela. Ainda meio atordoada pelo que tinha acontecido, Asuka não soltou nem um berro de desespero e nem voou em direção ao pescoço do rapaz.

Keiichi correu até a beirada da cama e começou a interrogar'' Asuka, visivelmente preocupado.

Belldandy, o que aconteceu? Onde você esteve?''

Do que você me chamou?'', perguntou Asuka.

Do seu nome, ora! Você é a Belldandy, lembra? Aquela deusa, que me apareceu do nada querendo resolver meus problemas? Que firmou um contrato comigo?'' disse Keiichi, acenando com as mãos, tentando imitar o que acontecera entre ele e Belldandy, quando eles firmaram o contrato.

Eu... eu não...'' murmurou Asuka, constrangida.

Keiichi e a outra garota se entreolharam, assustados. Keiichi então olhou novamente para Asuka. Asuka não percebeu que, enquanto Keiichi falava, mais duas cabeças apareceram à porta do quarto: Urd e Skuld, preocupadas com o que teria acontecido à sua irmã, desaparecida há mais de uma semana.

Está tudo bem, Belldandy. Todos queremos muito saber o que aconteceu pra você desaparecer por tanto tempo, mas só você pode nos dizer. Mas mesmo assim, vamos esperar que você se recupere. Depois, você nos dirá tudo o que aconteceu. Vamos, deite-se um pouco.''

Dizendo isso, Keiichi começou a empurrá-la de volta à cama. No entanto, finalmente sobressaiu-se de Asuka o seu temperamento um tanto quanto... irritadiço. Um instante antes disso, quase que instintivamente, Urd e Skuld literalmente desapareceram da porta do quarto.

O QUÊ VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO???'' berrou Asuka, acertando um bofete violento em Keiichi. Ecchi!! Ecchi!!'', gritava Asuka, com uma cara demoníaca, como se estivesse enfrentando um anjo, já de pé e quase trucidando Keiichi que, trinta segundos depois, sem saber o que fazer, juntou-se à irmã, do outro lado da rua.

Shinji estava visivelmente perturbado. Primeiro, uma garota tinha saído do seu espelho. Depois, Asuka havia caído nele. Agora, a garota que tinha saído do espelho estivera sentada a seu lado, esperando que ele acordasse. O mínimo que ele conseguiu fazer foi soltar um sonoro berro:

QUEM DIABOS É VOCÊ?!?!?!?!?!''

A garota assustou-se, mas, lembrando-se do que tinha acontecido, logo entendeu o que estava deixando Shinji tão aturdido.

Apressou-se em acalmá-lo:

Não se preocupe, Shinji-san... está tudo bem agora. Eu estou aqui. Não vou sair daqui enquanto você não estiver bom.''

M... mas... o que está acontecendo?'' perguntou Shinji, totalmente confuso.

É melhor não explicar nada agora... descanse.''

Mas eu já estou bem! Posso me levantar!''

Descanse'', disse Belldandy, numa voz suave, porém imperiosa. Shinji, ao ouvir aquela voz, de repente sentiu um sono muito pesado, e recostou novamente a cabeça sobre o travesseiro.

Belldandy passou a se perguntar, então, como tal confusão poderia ter acontecido. Pelo que se lembrava, ela tinha tido que sair numa missão secreta, designada pelo próprio Deus, algo que não poderia evitar. No entanto, esperava voltar logo. Tendo demorado quase uma semana, Belldandy se surpreendeu ao ter a impressão de que a sua missão a levava direto a Keiichi. Somando-se a isso o fato de que já fazia mais de uma semana que ela não o via, resolveu tentar teletransportar-se para onde julgava estar Keiichi. No entanto, qual não foi a sua surpresa quando, ao chegar esperando ver Keiichi de braços abertos, encontrou a Terceira Criança com roupas molhadas, aparentemente sendo perseguido pela Segunda Criança, que parecia disposta a matar qualquer um que se pusesse em sua frente. No meio da bagunça, a Segunda Criança tinha caído no espelho e, inxeplicavelmente, entrado nele, indo sabe-se lá para onde. De qualquer forma, considerando que seria melhor não causar muito tumulto, Belldandy achou por bem assumir temporariamente o lugar da Segunda Criança, até que essa situação pudesse ser resolvida.

Isso só me traz más lembranças, mas eu preciso fazer isso para que as coisas não piorem...'' pensou Belldandy, suprimindo na mente de Shinji as lembranças de momentos antes, quando Shinji a tinha visto antes de assumir as feições de Asuka.

Shinji acordou no dia seguinte sentindo-se estranhamente bem. Levantou-se sem demora, incrivelmente bem disposto. Mal estava se lembrando do que tinha acontecido na noite anterior. Quando se dirigiu à cozinha para fazer o café, no entanto, quase desmaiou devido ao choque. Misato estava com a maior cara de interrogação do mundo, sentada à mesa com duas cervejas na mão. Asuka estava no fogão, cantarolando uma canção alegre. Quando o viu, Asuka disse:

Bom dia, Shinji-san!''

B... bo... bo... bom dia, Asuka...''

Sente-se, que eu já vou lhe servir!'' disse Belldandy num tom alegre.

S... sim...''

Shinji teve dificuldades em comer o café da manhã. O choque o impedia de perceber o quanto a comida estava deliciosa. Quando ele se deu conta, já estava chegando na escola, já podendo compreender perfeitamente a cara de Kensuke e Touji, acompanhados por todos os outros colegas de classe que batiam os olhos em Belldandy, uma vez que ele mesmoo estava com essa cara. Ela estava entrando na sala cumprimentando a todos, distribuindo bons dias'' e como vais'' a torto e a direito. Kensuke e Touji começaram a confabular, cogitando a possibilidade de Asuka ter sido abduzida por alienígenas.

B... Belldandy... você está bem?'' perguntou Keiichi, assim que teve coragem de retornar à casa, algumas horas depois.

Do que você está falando, baixinho? Eu nem te conheço! Baka!''

Como assim, não me conhece? Nós moramos juntos!''

Não sei do que você está falando! Eu sou a incrível Souryu Asuka Langley, Segunda Criança, piloto designada do Evangelion Unidade 02! Eu jamais moraria com um pervertido imbecil como você!''

Como é? Asuka? Quem é Asuka? Você é a Belldandy, lembra? Aquela deusa, que saiu do espelho, firmou um contrato comigo...''

Bem...'' ponderou Asuka, um pouco menos nervosa. Que eu sou uma deusa, é óbvio... mas fazer um contrato? Com você? Nunca! Eu jamais faria isso!''

Como não?'' perguntou Keiichi, confuso. Segundos depois, seus olhos se arregalaram, como se ele tivesse acabado de descobrir algo. Já sei! Você está com amnésia! É isso!''

EU? Com amnésia? Você deve estar maluco! Eu sei muito bem quem eu sou! E lembro de tudo muito bem! Aliás... que diabos eu estou fazendo aqui?!?!?!?!'' disse Asuka, olhando à sua volta de repente.

Ora, você está em casa!''

Esta aqui NÃO é a minha casa!''

Como não Belldandy? A gente mora aqui há mais de um ano!''

Mas porque você fica me chamando assim?!'' gritou Asuka, tentando se lembrar de onde ela conhecia aquele nome.

Belldandy é você!''

EU? Mas que coisa, eu já falei que me chamo Asuka!''

Você é a Belldandy!''

Eu sou a Asuka!''

Belldandy!''

Asuka!''

Belldandy!''

Asuka!''

Belldandy!''

Belldandy!''

Asuka!'' disse Keiichi, estapeando a própria cara no instante seguinte.

Ahá! Finalmente você reconheceu que eu sou a Asuka, e não a Belldandy...'' disse Asuka, com um sorriso maquiavélico na cara, pensando em transformar Keiichi no seu alvo temporário de provocações. Mas apenas temporário, afinal ela tinha algumas contas a acertar com o Baka-Shinji...

Keiichi pegou um espelho e mostrou para Asuka.

E por acaso você se parece com isso, senhorita Asuka?'', disse Keiichi, esperando uma resposta afirmativa.

Nem de longe! Eu sou muito mais linda que isso!''

Keiichi quase machucou o queixo por tê-lo batido no chão. Que diabos estaria acontecendo com Belldandy para deixá-la assim tão... alterada?

Pois essa é você!''

Não! Essa não posso ser eu! De jeito nenhum...'' Asuka começava a reconhecer, naquele espelho, a garota que ela tinha visto sobre Shinji antes de cair'' no espelho.

Mas...'' murmurou, percebendo que estava parecida com aquela garota. O que está acontecendo? Essa não sou eu! Essa não pode ser eu! Não pode!''

Como assim, não pode? Essa é você, Belldandy!''

Mas eu já disse que não sou a Belldandy!''

Como assim, não é a Belldandy?''

Não sou! Eu sou a Asuka!''

OK. Se você é essa tal de Asuka, então me explica a sua aparência e o fato de você estar aqui!''

Er... eu não sei como! Tudo que eu sei é que eu tinha entrado no quarto do Shinji... e aí eu vi aquela garota em cima dele... e aí eu pulei pra cima dela, e depois caí no espelho... e então eu acordei aqui!''

Uma interrogação tomou conta da cara de Keiichi. Agora ele já não entendia mais nada. Que diabos estaria acontecendo? Se aquela não era Belldandy, então porquê ela parecia sê-la? Como ela tinha ido parar ali? Onde estaria Belldandy? E, mais importante, quem era esse tal de Shinji??? Ele tinha muitas perguntas, e estava vendo que não seria nada fácil obter respostas para elas.

Bem, Asuka, já que é assim, e já que você não é a Belldandy, acho que temos que dar um jeito de resolver essa situação.''

O que você quer dizer?'' perguntou Asuka.

Vamos ter que arrumar um jeito de te mandar de volta.''

Ah, sim, claro. Afinal de contas, a melhor piloto de Eva não pode ficar longe da batalha!''

Sim, claro... mas enquanto isso, seria melhor que você assumisse o lugar de Belldandy.''

O QUÊ??!!! Seu pervertido! Vai ver aquela lá é sua marionete e você quer que eu a substitua! Vai ver isso tudo é armação sua!!! EU QUERO VOLTAR PRA CASA!!!''

Calma, calma! Eu juro que não fiz nada, e nem sou um pervertido. Mas imagine só se as pessoas descobrirem que você é a melhor de todos os pilotos de Evangelion... não vão mais nos deixar em paz!'' disse Keiichi, pensando consigo mesmo o que diabos seria um Evangelion...

Não me interessa! Eu VOU voltar pra Tokyo-3, não importa o que aconteça! E não vou ficar na mesma casa que você, seu baixinho de meia tigela! Nem pensar!''

Mas...''

Sem essa de 'mas'! Não quero saber!''

De repente, uma idéia surgiu na cabeça de Asuka como se fosse um raio. Ela alterou levemente a sua posição:

Eu posso até pensar em ficar por aqui por um tempinho... mas você vai ter que me oferecer alguma vantagem nisso! Afinal de contas, eu sou uma estrela internacional! Sou a melhor piloto de EVA que existe! Eles devem estar desesperados lá na NERV, tentando me achar!''

Er...''

Imagine só! Eles perderam quase toda a força de batalha deles! Agora eles só têm aquele imbecil do Shinji e a Garota-Maravilha... hahahahahahah!!! Que piada! Devem estar rezando pra não aparecer nenhum anjo por lá...''

Eu vou ter que dar um jeito de voltar logo pra lá, antes que algum anjo apareça! Senão...'' de repente, Asuka percebeu que tinha sido deixada sozinha no quarto.

EI! Seu baixinho idiota! O que você está pensando?!?! Volte aqui!!!''

Só se você parar de contar vantagem'', disse Keiichi do corredor.

Quem estava contando vantagem???''

VOCÊ!''

Quem, eu? Imagina, eu apenas estava falando a verdade!!! Anda logo, me diga o que você vai me oferecer pela honra de me hospedar!!''

Bem... o que eu posso oferecer é um lugar para você dormir, comida, roupa (já que você aparentemente está no corpo da Belldandy, você pode usar as roupas dela)... e se você quiser pode ir à faculdade no lugar dela, afinal de contas nada pode ser pior que perder aulas...''

Fa... faculdade?!?! Mein Gott! Nem aqui eu me livro dessa maldição! E por falar nisso, eu quero saber já quem mora aqui, além de você e daquela menina!''

Ambos foram à sala. Lá estavam Megumi, Urd e Skuld, parcialmente inteiradas do que tinha acontecido.

Essa é minha irmã, Megumi...'' disse Keiichi, apresentando a irmã a Asuka.

Megumi... porque diabos um nome que eu nunca ouvi me soa familiar?'' pensou Asuka.

Esta é Urd e esta é Skuld, irmãs de Belldandy.''

Onee-sama!! O que aconteceu?!?!'' disse Skuld, pulando em direção a Asuka.

Ei! O que você pensa que está fazendo?!?!''

Estou te abraçando, irmã!''

Mas eu não sou sua irmã!''

Como assim, não é nossa irmã?'' interferiu Urd.

Bem... isso lá é verdade...'' disse Keiichi.

Como assim?'' perguntou Skuld, sem entender nada.

Eu não sou a Belldandy!'' disse Asuka, livrando-se de Skuld.

Hmm...'' disse Urd, olhando atentamente para Asuka.

Parece que ela trocou de lugar com Belldandy de algum jeito...''

Sim, estou vendo a sua verdadeira imagem. Uma menininha ruiva. Meio feinha, usando uma roupa esquisita, toda vermelha, grudada no corpo, e umas coisinhas no cabelo... que estranho!'' disse Urd, querendo se divertir um pouco.

O QUÊ?!'' disse Asuka, pulando para cima de Urd, que só teve tempo de ver uma mancha vindo em sua direção.

Cuidado! A Belldandy saiu do controle!''

Asuka, olhos brilhando, sorriso demoníaco na cara, saiu perseguindo Urd como se fosse o EVA-01 em berserk''.

Skuld, faça alguma coisa!'' gritou Urd, em pânico.

Fazer o quê?!'', gritou Skuld, também em pânico.

QUALQUER COISA!!!!!''

Skuld sacou o porrete que costumava usar para eliminar bugs e acertou a cabeça de Asuka. No mesmo momento, Asuka parou de perseguir Urd para perseguir Skuld.

Mas o que é isso?!!! Ela nem sentiu a pancada!!!!'' berrou Skuld, correndo como uma desesperada da fúria de Asuka.

Mas quem é essa menina?'' perguntou-se Urd, invocando uma magia de sono. Felizmente, a magia teve algum'' efeito e Asuka voltou ao normal.

Mas... era pra ela dormir!'' estranhou Urd. Mesmo tendo voltado ao normal, Asuka ainda estava irritada. Uma nuvem negra com pequenas descargas elétricas acima de sua cabeça indicava isso. De repente ela voltou o olhar para Keiichi.

E você! Qual o seu nome?!''

M... meu... meu nome? M... Mo... Morisato Keiichi!''

"timo. Agora eu posso dizer uma coisa que eu estou com vontade desde que te vi pela primeira vez.''

E o que é?'' perguntou Keiichi, esperançoso.

KEIICHI NO BAKA!!!!!!!!!!!!!!!!''

Dizendo isso, caiu num sono extremamente pesado.

'Menina estranha' pensou Urd.

'Menina muito estranha' pensou Skuld.

'Menina maluca' pensou Keiichi.

'Gostei dela' pensou Megumi, com um leve sorriso no rosto.

Naquele dia, as aulas tinham sido especialmente maçantes. Shinji estava esgotado. Rei, invariavelmente, faltava nas quartas-feiras, o que tinha se tornado um transtorno a mais para Shinji. E para piorar Asuka ainda parecia estar maluca, tratando todos com educação, falando do modo mais formal possível e arrancando elogios do professor pela sua impressionante melhora na caligrafia e conhecimento de kanji. Justo Asuka, que quase não sabia nenhum kanji até alguns dias antes, agora parecia uma erudita. E era essa Asuka que o estava acompanhando para casa, agora. Nem parecia a mesma: tinha um sorriso suave na face, quase parecendo angelical. Não tinha nada a ver com o sorriso costumeiro, arrogante e cheio de si, que Asuka estava acostumada a usar. Parecia uma Asuka... totalmente diferente. Ela estava sendo gentil até com Touji e Kensuke!

Shinji não parava de se perguntar o que teria acontecido a Asuka para que ela ficasse daquele jeito. Mas também não tinha coragem de perguntar para ela. Temia que a velha personalidade de Asuka voltasse e ele apanhasse - de novo.

Chegando em casa, Shinji foi direto para seu quarto, dormir um pouco. Belldandy resolveu ficar limpando a casa.

Quando eram mais ou menos cinco horas da tarde, Shinji foi acordado por ela:

Shinji-san! Shinji-san! Esqueceu-se de que nós temos testes de sincronizaçao hoje? Misato-san nos avisou hoje de manhã! Você precisa se levantar, senão poderá perder o teste!''

Hã... ah... está bem, Asuka... já vou...''

Asuka? Preocupada com o atraso de Shinji?

Vamos, depressa!'' continuava dizendo Asuka.

Já vou, já vou!'' respondia Shinji.

Assim que Shinji saiu do quarto, Asuka pegou sua mão e começou a arrastá-lo rapidamente pelo caminho até a estação de trens. Shinji sentiu que o modo como Asuka apertava a sua mão era diferente: era um toque suave, mas ao mesmo tempo forte a ponto de Shinji não conseguir moxer a mão um único centímetro, completamente diferente de antes, quando Asuka simplesmente espremia a sua mão até (quase) quebrar.

Até mesmo Rei estava estranhando a atitude da Segunda Criança. Ela jamais agira assim. Qualquer um era capaz de perceber que havia algo errado com ela. Perceber o que havia de errado com ela, apenas Rei conseguia. Aquela não era a Segunda Criança, e o teste de hoje provaria isso. No entanto, como sempre, ela preferiu guardar as suas opiniões para si mesma, pelo menos por enquanto.

No entanto, o teste de Asuka apenas revelou um ligeiro aumento na sa taxa de sincronização com o Eva-02. Nada de anormal. Mas aquilo era impossível. Provavelmente, apenas a Dra. Akagi, o Comandante Ikari e o Sub-Comandante Fuyutsuki conheciam os mistérios da interface entre o ser humano e o Eva mais do que Rei. No entanto, não havia absolutamente nada errado com as taxas de Asuka. Rei não conseguia entender o que estava acontecendo, pois apenas a própria Segunda Criança poderia ter taxas como aquelas, e com aquele padrão de comunicação com o Eva. Além disso, se outra pessoa que não fosse Souryu tentasse sincronizar-se com o Eva, fatalmente este entraria em modo berserk'', devido às suas próprias características de construção. Rei também sabia que Asuka não tinha irmã gêmea, o que descartava de qualquer modo que uma pessoa comum tivesse tomado o seu lugar.

Ironicamente, a Dra. Akagi resolveu reter Shinji mais um pouco. De novo. Rei simplesmente não acreditou. O que diabos a Dra. Akagi queria tanto com Shinji? O simples fato de o Eva-01 ser o mais poderoso deles significava que Shinji tinha que se submeter ao dobro de testes que os outros pilotos? No entanto, Rei percebeu que essa era uma boa oportunidade para tentar descobrir o que poderia estar acontecendo com Souryu.

Belldandy, ao saber que Shinji ficaria um pouco mais, por sua vez, lamentou por Shinji, e resolveu esperá-lo na saída. Parou para pensar um pouco no que poderia estar acontecendo lá no templo. Por algum motivo ela não conseguia saber o que se passava lá.

Quem é você?'', ouviu de repente, atrás de si.

Belldandy voltou-se para encontrar Rei encarando-a.

Ah, olá, Ayanami-san... tudo bem?''

Você não é Souryu. Quem é você?''

Belldandy percebeu na hora que tinha alguma coisa estranha com aquela garota. Ela não era uma pessoa normal.

Por que você acha que eu não sou a Asuka?''

Souryu jamais agiria desse modo.''

Como assim?''

Gentil, educada. Você nem bateu no Ikari-kun.''

Ora, as pessoas podem mudar, não?''

Podem mudar, mas não trocar de personalidade, e muito menos de uma hora para outra. Isso não é legítimo, nem sequer representa uma mudança.''

Belldandy percebeu que poderia confiar em Rei.

Está bem. Admitindo que eu não seja Asuka-san, como você sabe disso?''

Rei congelou por um momento. O que ela estava dizendo? Como tinha percebido que aquela não era, definitivamente, Souryu Asuka Langley? Apenas pela mudança radical por que ela passara? Definitivamnte, não. Algo em seu íntimo dizia que algo estava errado, que aquela era a pessoa errada. Aliás, que aquela que se dizia ser Asuka nem mesmo era uma pessoa comum. Mas, o que era esse algo? Rei não tinha uma resposta. Ela apenas sabia.

Não sei'' disse, finalmente.

Você é especial, Ayanami-san. No momento oportuno eu lhe confiarei o segredo do que aconteceu. Então, você entenderá. Mas agora não é o momento, aí vem o Kaji-san.''

Kaji se aproximava nesse momento das duas garotas. Provocativo, perguntou:

Olá meninas. Não estão brigando hoje? Hmm... acho que vai chover. Inclusive aqui dentro do GeoFront...''

Ayanami-san e eu fizemos as pazes, Kaji-san!''

Ah, isso é bom. Então quer dizer que agora você serão amigas inseparáveis, daquelas que não se desgrudam nunca... sei'' disse Kaji, rindo para si mesmo.

Rei ruborizou-se. Outra sensação inédita, desta vez com essa pessoa que dizia ser Souryu e que estava sendo tão amável com ela. Rei quisera entender mais sobre si mesma. Queria poder compreender melhor o seu passado. Não conseguia entender porque o Comandante Ikari esondia tanto as coisas dela. E porque ele não gostava do filho.

Preciso ir embora'' disse Rei, apressada.

Outra hora conversamos...''

Rei parou, pensativa.

Como devo chamá-la?''

Chame-me de Belldandy, quando estivermos sós, e de Asuka, quando estivermos em companhia de outras pessoas. Sayonara, Ayanami-san.''

Sayonara, Belldandy.''

Nesse momento, as duas garotas se separaram. Rei foi para casa, Belldandy foi ao encontro de Shinji.

Tendo chegado em casa, Rei estacou de repente, como se tivesse esquecido alguma coisa. No entanto, lembrava-se do que tinha feito naquele dia. Tinha tomado uma iniciativa. De novo. Aquilo estava se tornando costumeiro. Rei aos poucos se acostumava com a idéia de não ter que seguir ordens. Como isso era possível? Como era possível que ela estivesse tomando iniciativas? Como era possível que ela começasse a questionar as atitudes do Comandante Ikari? Porque ela sentia afeição por Ikari-kun, como se o conhecesse há muito tempo? Porque ela o chamava de Ikari-kun? Porque ela tinha se sentido inconformada com a atitude da Dra. Akagi? Porque ela estava questionando as pessoas? Por outro lado, porque ela não tinha feito isso antes? Se as outras pessoas o faziam, porque ela também não poderia fazê-lo? Se ela não fazia isso antes, isso queria dizer que ela não era igual às outras pessoas? Então, porque ela existia? Quem era ela? O que era ela? Todas essas perguntas inundaram de repente a mente de Rei. Alguma coisa dentro dela dizia que ela teria que mudar de vida. Alguma coisa dentro dela estava querendo se libertar. Alguma coisa... humana.