Parentes


"Urd, vocês conseguiram alguma coisa?", perguntou Keiichi.

"Ainda nada... não há nem sinais dela em nenhum lugar do planeta..."

"Mas... como é possível?! Como assim, não há rastros? Onde ela está então? Onde? Urd?!"

Keiichi estava desesperado. Primeiro, Belldandy tinha ido viajar, se desculpando por não poder dizer qual o motivo dessa viagem. Mesmo apelando para o Contrato, Keiichi não tinha conseguido detê-la. Depois, Asuka tinha aparecido, com a forma de Belldandy, virando tudo de cabeça para baixo. Agora, Asuka também tinha desaparecido.

"Eu... eu não sei..."

"Será que nós nunca mais vamos encontrar a minha irmã?" perguntou Skuld.

"Talvez... num futuro distante..." murmurou Urd, desanimada.

"Futuro... pra mim não existe futuro sem a Belldandy..." murmurou Keiichi.

Skuld piscou os olhos, como se não tivesse ouvido direito o diálogo entre os dois.

"É isso!!! Só pode ser!" gritou de repente.

O que?"

"O futuro!"

"O futuro... sim, é claro! Como nós não pensamos nisso antes?!" disse Urd, como se tivesse descoberto a verdade. "Skuld, tente de novo localizá-la, mas dessa vez no futuro! E tente só no Japão!"

"Só no Japão...?"

"Bem, a Asuka chegou aqui falando japonês, não?"

"Sim... é verdade..."

Keiichi não estava entendendo o diálogo das duas irmãs.

"Alguma de vocês pode me explicar o que está acontecendo?"

"É simples! A gente não encontrou a Belldandy porque ela está na Terra, mas em uma época diferente!"

"Você quer dizer... que a Belldandy está... no futuro?"

"Sim! Isso mesmo!"

"M-mas... como?"

"Esquece, você não entenderia..." disse Skuld.

Keiichi ficou meio confuso, mas preferiu não falar nada.

"Pronto! Já fiz um novo pedido ao Yggdrasil, logo ele deve me enviar o resultado!"

"E em quanto tempo ele vai enviar a resposta?"

"Não sei, depende do que ele achar..."

A esperança voltou aos olhos dos três. Por um momento, eles chegaram a temer o pior. Mas a resposta de Yggdrasil correspondeu às expectativas. Belldandy estava no futuro.

"ACHEI! Ela está lá!!! Eu achei, achei, achei!!!", começou a gritar Skuld, quase chorando. Urd olhou para Keiichi, e após ponderar um pouco, disse:

"Preciso ir para o meu quarto... vou consultar alguns livros..."

"Livros? Você vai ler num momento desses?" perguntou Keiichi, emocionado e espantado em ver a frieza de Urd.

Urd apenas respondeu com um sorriso para Keiichi. Ele percebeu que logo saberia do que Urd falava. Skuld, pulando de alegria, abraçou Keiichi.

"Eu achei ela, Keiichi!"

"Maravilhoso, Skuld! Você é genial!" respondeu Keiichi, aderindo à euforia de Skuld.

* * *

Shinji, Asuka, Rei e Misato estavam na sala da residência Katsuragi, conversando em um fim de tarde da sábado. Belldandy estava na sacada do apartamento, olhando para o horizonte. Ela pensava em como estariam as coisas com Keiichi e suas irmãs. Ela rezava para que tudo estivesse em paz e correndo bem com eles. E também rezava para resolver essa situação de uma vez, ela queria voltar para casa. Para Keiichi.

"Belldandy, está tudo bem?" perguntou Rei, chegando sem que ela percebesse.

"Hã? Ah... olá, Ayanami-san... sim está tudo bem" respondeu Belldandy, sorrindo.

"Você não se parece muito com uma deusa", disse Rei.

"Você acha?"

"Sim. Você é sempre graciosa, simpática, sincera... é impossível para alguém te deixar brava. Mas... às vezes você não parece uma deusa. Por exemplo agora, você está preocupada com os seus. Eu achei que deuses não se preocupavam."

Belldandy foi pega de surpresa por essa afirmação de Rei. Ela já conseguia perceber o seu estado de espírito? Belldandy sorriu, e disse:

"Ayanami-san, você é mesmo incrível!"

Rei corou, piscando os olhos.

"Do... doushite?" (*)

"Você consegue me sondar, mesmo que seja sem querer. Você realmente tem talento!"

"Talento? Para quê?"

Belldandy sorriu, mas não respondeu à pergunta.

"Deuses não são muito diferentes das pessoas. Nós também temos sentimentos, mas em geral eles representam coisas diferentes para nós."

"Então porque..."

"Porque eu demonstrei uma reação humana a um sentimento?" Antecipou Belldandy.

"Sim."

Belldandy ficou um pouco encabulada. Essa era mais uma reação humana a um sentimento... Rei ainda não podia compreender essa reação partindo de Belldandy.

"Porque eu tenho sentimentos humanos para com o Keiichi-san. Eu o amo como pessoa, não apenas como ser vivo."

"O amor é um sentimento humano?"

"Esse tipo de amor, sim. Essa é uma das diferenças entre os deuses e os homens."

"Diferenças? Existem semelhanças, então?"

"Bem, sim..." respondeu Belldandy, pensativa.

"Então existe algum tipo de relação entre os deuses e os humanos...?"

"Você pega as coisas bem rápido, Ayanami-san! Você é realmente incrível!"

"Está correto o que eu disse?"

"Sim. Pense na alma como se ela fosse um ser vivo. Assim como existem diferentes tipos de seres vivos, existem diferentes tipos de almas. Cada um tem uma missão, e age num plano da existência. A alma humana tem características que a alma divina não possui, e vice-versa. No fim, as duas são equivalentes."

"Equivalentes? Então porque as pessoas não podem voar ou fazer outras coisas do mesmo modo que você?"

"Porque isso não faz parte da missão delas."

"E qual é a missão delas?"

Belldandy deixou sair o seu mais belo sorriso. Rei não pôde evitar sorrir junto com ela, tão forte e contagiante era aquela expressão.

"Isso é para os deuses saberem e para as pessoas descobrirem."

"Ei, vocês duas! Parem de confabular aí, a comida chegou!" gritou Asuka, anunciando a chegada da pizza que eles haviam pedido.

"Ei, Asuka, o que você tem aí?" perguntou Shinji, notando a sacola de fitas que Asuka tinha nas mãos, junto com as pizzas.

"Algumas velharias que eu peguei na locadora."

"Velharias?" perguntou Misato.

"Sim... eu acho que são da sua época", respondeu Asuka.

Nesse momento Rei e Belldandy entravam na sala, para se jutarem a Misato, Asuka e Shinji na mesa que havia no meio da sala.

"Deixa eu ver... AAHH!! Não acredito que você pegou isso!" gritou Misato, ao tirar um velho DVD de Ranma ½ da sacola.

"Pois é... eu estava voltando da escola hoje quando passei na frente da locadora... não consegui resistir, a Akane é a minha personagem favorita."

"É... ela parecida com você..." disse Shinji, pensativo...

"REPETE O QUE VOCÊ DISSE!!" berrou Asuka, acertando Shinji com uma pancada na cabeça.

"Ai, ai, ai... desculpa..."

"Baka...", resmungou Asuka.

'É... são bem parecidas mesmo...' pensou Misato, sorrindo.

De repente, a campainha tocou.

"Estranho", disse Misato, "não lembro de ter convidado mais ninguém... Shinji, vá atender, por favor."

"Sim..." respondeu Shinji, obediente.

Shinji caminhou até a porta. Ele se sentia bem, estava rodeado de pessoas com quem se importava, e que se importavam com ele. No entanto, esse sentimento de segurança logo desapareceu no momento em que ele abriu a porta.

"Olá, Shinji."

Shinji não respondeu, simplesmente virando o rosto. Sua expressão fechada indicou às garotas na sala que alguém que não era exatamente bem-vindo estava do lado de fora da porta.

"Shinji, quem é...?" perguntou Misato, indo até a porta para ver de quem se tratava. Ela estacou assim que viu o seu semblante.

"Major Katsuragi, eu gostaria de falar com o Shinji por um momento, a sós."

"Está bem..." respondeu Misato.

"Misato..." murmurou Shinji.

"Vocês devem ter muita coisa para conversar. Estaremos na cozinha", disse Misato, levando Rei, Asuka e Belldandy consigo.

Quando as quatro se retiraram da sala, Shinji falou:

"O que você quer aqui?"

"Precisamos conversar."

"Sobre o quê? Sobre como eu sou útil?" perguntou Shinji, atirando um dardo de ressentimento.

"Por favor... não torne isso mais difícil do que já é..."

* * *

Urd voltou de seu quarto, trazendo consigo um manuscrito muito antigo.

"Skuld, me ajude aqui!"

"O... o que você vai fazer, Urd?" perguntou, receoso, Keiichi.

"Não se preocupe... vamos encontrar a Belldandy. Skuld!"

"Estou indo..."

As duas começaram a desenhar um grande símbolo sagrado no chão.

* * *

Havia doze blocos negros rodeando o Sub-Comandante Fuyutsuki.

"Onde está Ikari?" perguntou o bloco número 01.

"Eu não sei."

"Isso é incomum. Ele nunca faltou a uma reunião antes. O que está acontecendo, Kouzou?"

"Eu não sei."

"A SEELE não quer desculpas! Quer explicações! Como vocês permitiram que algo assim acontecesse com a Unidade 01?", interferiu o bloco que carregava o número 05.

"Isso escapou ao nosso controle."

"Não diga bobagens. A NERV existe para controlar esse demônio", retrucou o terceiro bloco.

"Algo assim é inaceitável", completou o número 01.

"Não houve como evitar isso", respondeu Fuyutsuki.

"Adiaremos esta reunião até que Ikari tenha coragem de nos enfrentar."

Fuyutsuki se sentiu aliviado ao ver os blocos desaparecerem da sala de reunião, um a um. Nunca tinha enfrentado o comitê sozinho antes. Gendou sempre estivera ali, confrontando as idéias maquiavélicas daquele bando de velhos.

* * *

Ritsuko estava sozinha no refeitório da NERV, tomando um café antes de ir para casa, quando ouviu passos se aproximarem.

"Você demorou para me procurar novamente."

"Eu estive ocupado."

"Sim, é claro... o seu filho..."

"Não tem nada a ver com ele. Tem a ver com o nosso passado."

"Passado?"

"Você chamaria de outra forma?"

"Chamaria de... história em comum", disse Ritsuko, tomando um gole de café.

* * *

"Shinji, eu lhe devo desculpas."

Shinji foi pego desprevenido por essa afirmação. Não era o que ele esperava. Bem, ele jamais esperaria que seu pai viesse visitá-lo ali. Uma afirmação dessa perto desse fato não significava nada.

"Eu não te tratei como um filho..."

"O que... como.... porque..." murmurava Shinji para si mesmo. Ele estava tão confuso que não conseguia sequer dizer alguma coisa.

"Shinji, eu... eu não sei o que dizer..."

Esse não parecia o seu pai. Esse parecia ser outro homem. Ikari Gendou sempre sabia o que dizer, sempre sabia o que fazer. E, geralmente, isso magoava alguém. Esse parecia um homem frágil, sem forças. Não parecia capaz de machucar quem quer que fosse.

Shinji finalmente conseguiu colocar seus pensamentos em ordem. Shinji conseguiu fazer a pergunta que estava em sua garganta há muito tempo.

"Porquê? Por que você me rejeitou?"

"Eu... eu... estava confuso demais com a perda da sua mãe... eu... eu não quis nunca mais ter qualquer tipo de relação com outra pessoa... por isso eu te mandei para longe de mim..." disse Gendou, desviando o olhar.

"Você... eu..." Shinji voltou a ficar confuso. Seu pai, querendo se isolar do resto das pessoas? Mas quem fazia isso era... ele mesmo. Shinji imaginou se existia alguma possibilidade de ser parecido com seu pai. Estranhamente, esse pensamento pareceu familiar para ele. Não era a primeira vez que ele pensava nisso. Mas... quando tinha sido a outra vez, então? Shinji não sabia, isto é, não se lembrava.

Um silêncio desconfortável passou a reinar na sala.

Incontáveis minutos se passaram sem que um sussurro fosse ouvido.

* * *

"Ah! Eu não agüento mais! Eu vou até lá!"

"Não, Asuka! Espere! O que você vai fazer?"

"Eu preciso ver quem é que está deixando o Shinji desse jeito!"

A cozinha estava ficando pequena para o temperamento de Asuka.

"Asuka, acalme-se. Você não vai ajudar assim", disse Rei, calmamente.

"Sem essa, Garota Maravilha. Eu vou até lá, e pronto!"

"Asuka, não!" foi a última coisa que Misato disse antes que Asuka saísse correndo pela porta, sem perceber que Rei estava na sua frente.

* * *

A confusão na cozinha chamou a atenção de pai e filho. De repente, duas pessoas caíram pela porta semi-aberta. Primeiro, Rei, e depois Asuka, caindo em cima dela. Atrás delas, vieram Misato e Belldandy.

O espanto tomou conta da face de Gendou, o desespero da de Shinji.

Asuka e Rei ficaram tão surpresas ao ver a cara do Comandante que se esqueceram de se levantar. Misato, igualmente surpresa, não reparou e, ao tentar andar, tropeçou e caiu em cima das duas. Belldandy não tropeçou, e caminhou calmamente até onde estavam Shinji e Gendou.

"Boa noite, Comandante."

"Er... boa noite... Tenente..." disse Gendou, totalmente sem jeito, "er... eu tenho que ir... agora... tenho uns... compromissos..."

Shinji se sentiu aliviado por ver que Gendou ia finalmente embora. Ele ainda não tinha conseguido compreender exatamente o que havia acontecido ali. Belldandy, no entanto, tomou as rédeas da situação:

"Comandante, porque o senhor não fica conosco e divide uma refeição conosco? Temos também alguns DVD's, que vamos assistir em seguida... não gostaria de nos acompanhar?"

A expressão de Belldandy era tão graciosa que ser humano nenhum na face da Terra ousaria recusar esse convite. Shinji, no entanto, voltou à realidade para se sentir miserável ante o que a deusa havia acabado de fazer. Misato, Asuka e Rei, que estavam se levantando, voltaram a cair ao ouvirem as palavras de Belldandy.

"Isso se a Major não se importar, é claro... mas, considerando que o senhor é pai do Shinji-san, eu acho que não haverá problemas. Não é verdade, Major?" disse Belldandy, olhando para Misato.

Percebendo que era o centro das atenções, Misato se recompôs instantaneamente. Ao mesmo tempo, entendeu quais eram as intenções de Belldandy. Com um sorriso malicioso, disse:

"É claro que não! Por favor, junte-se a nós, Comandante!"

"S-será um prazer..."

* * *

Urd e Skuld haviam finalmente acabado de desenhar um enorme símbolo no quintal.

"Pronto! Agora, basta que três deusas se posicionem nos lugares certos e tcham!! Estaremos a caminho!"

"Er... o que você disse...?" perguntou Keiichi.

"Eu disse... basta três deusas se posicionarem nos lugares certos e..."

Keiichi e Skuld desenvolveram enormes gotas de suor, e cobriram suas caras com as mãos.

"Baka..." resmungou Skuld.

"Er... oops!" disse Urd, coçando a nuca.

"Ai! E agora, o que nós vamos fazer?! A minha irmã não está aqui pra fazer o trio com a gente!" disse Skuld, já meio chorosa.

"Calma, calma... a gente pensa em alguma coisa..." disse Keiichi, tentando consolá-la.

"Sim... eu já pensei em alguma coisa..." disse Urd, olhando para o rapaz com um sorriso maquiavélico.

"Er... Urd-san... o que você está pensando...?" perguntou Keiichi, com medo de ouvir a resposta.

"Ei Skuld... a gente tem uma roupa da Belldandy sobrando, não tem?"

"Sim. Sim... nós temos..." disse Skuld, compreendendo as intenções da irmã.

* * *

"Gon, você sabe que o que aconteceu com Satsuki não foi minha culpa..." disse Ritsuko.

"Eu não te culpo. Você já deveria saber disso..."

"Ainda bem. Eu não ia querer carregar essa sua mágoa para o túmulo..."

"Ritsuko... por favor..."

"Você sabe que parte da responsabilidade era minha. Eu poderia ter agido mais rápido quando o Eva entrou em modo berserk..."

"Não houve jeito, foi uma emergência e estavam todos nervosos. Eu nunca vi o Comandante daquele jeito..."

"De fato... naquele dia ele estava irreconhecível..." falou Ritsuko, pensativa.

"Mas não é sobre ele que eu vim falar."

"Imaginei..."

"Eu só queria esclarecer uma coisa..." disse Gon.

"É como se eu já soubesse..."

"O que aconteceu com a Unidade 01... foi como daquela vez, não?"

"Sim... foi."

"Então... como foi que ele retornou?"

"Eu ainda não sei. Mas com certeza não foi por nossa causa."

"Como assim? O que você acha que aconteceu então?" perguntou Gon, confuso.

"Yui não quis que ele ficasse no Eva."

"Yui...?"

"É claro. Você por acaso achou que ela havia morrido?"

"E não era isso que eu deveria pensar?"

"Não sei... cada um tem uma opinião sobre o Eva... a própria Yui tinha a dela... mas eu te garanto uma coisa... ela não morreu naquele acidente..."

"Você quer dizer que ela estava no controle?"

"Não seja bobo. É claro que não. O Eva estava em modo berserk. Você sabe melhor que eu que Yui gostava de Satsuki como se fosse sua própria irmã."

"Sei..."

"Gon... por favor... você acha que a sua própria irmã iria querer fazê-lo sofrer?"

* * *

"Kawaiiii!" disse Urd, quando viu Keiichi sair do quarto.

"Até que fica bem em você", disse Skuld.

"Eu não acho..." disse Keiichi, rezando para que não houvesse ninguém com uma câmera fotográfica por perto para ver o seu momento de vergonha.

"São as roupas da mulher que você ama! Você não deveria estar envergonhado!"

"Mesmo assim! São roupas femininas! Como você espera que eu me sinta vestindo isso?!"

"Anda logo, é o melhor que a gente pode fazer! Anda, fica ali!"

"Aqui?"

"Sim, isso. Agora tome isso", disse Urd, jogando um certo para Keiichi. "Ah, alguém deveria fotografar isso! Ficou tão bonitinho!" exclamou.

"Anda logo, eu quero encontrar a minha irmã!" reclamou Skuld.

"Tá bom, tá bom, já vai... que coisa..."

* * *

O clima não estava muito agradável na residência Katsuragi a essa altura dos acontecimentos. Todos estavam constrangidos, especialmente Shinji e Gendou. Ninguém sabia direito como se comportar, e muito menos como puxar conversa. Belldandy tentou remediar a situação, tentando evitar assuntos relacionados à NERV. Uma tarefa nada fácil.

"E então Comandante, como tem passado?" perguntou.

"B-bem, obrigado..." respondeu Gendou, evasivo.

"Você gosta de animes, Comandante?"

"Eu... eu andei assistindo bastante... quando era jovem..."

"Ah, sei... e quais animes você assistiu?"

"Assisti muitos... eu gostava bastante de animes que tivessem a história bastante complexa..."

"Eu já preferia os de ação", disse Misato, tentanto dar uma certa descontração à conversa. "Mas o meu preferido sempre foi Ranma..." disse Misato, sorrindo para os DVDs na sacola.

"Eu preferia coisas mais densas, como Gasaraki ou Lain..." respondeu o Comandante, deixando-se levar pelo clima da conversa. Ele estava começando a se descontrair, algo que não acontecia há muitos anos.

Asuka também foi entrando na conversa aos poucos.

"Eu prefiro mais o Gundam... apesar de ter acompanhado o Pokémons da Galáxia Perdida sem perder nenhum episódio quando era criança..."

"Ah, mas isso aí não conta... qualquer um hoje em dia viu algum Pokémon quando era criança... esse negócio durou uns oito anos! Uma série atrás da outra... que loucura..."

Rei sentia-se um pouco constrangida por não conhecer nenhum anime. Ela não conseguia entender muita coisa daquela conversa, pois eles estavam falando de coisas que ela jamais tinha visto na vida.

E se Rei estava constrangida, Shinji sentia-se ainda pior. Ele estava assustado. Que homem era esse, que dizia ser Gendou? Não poderia ser o mesmo, Shinji acreditava. Simplesmente não podia. Era diferente demais do Comandante que ele conhecia, e parecido demais com ele próprio. Não, não podia ser. Simplesmente não podia. Shinji levantou-se da mesa e correu para seu quarto, batendo a porta atrás de si.

Gendou não disse uma palavra. Apenas acompanhou a reação de Shinji, como se já esperasse por isso.

"Shinji, volte já aqui!" disse Misato. "Como você pode fazer uma coisa dessas com o seu pai aqui?"

"Está tudo bem, Major", disse Gendou.

"Comandante Ikari, eu..."

"Não precisa falar nada, Major. Eu já esperava que ele fizesse isso. Na verdade, estou impressionado. Eu não esperava que ele sequer ouvisse o que eu tinha a dizer. Estou satisfeito."

"Satisfeito...?"

"Sim. Sei perfeitamente bem que esta mudança parece totalmente radical, tendo em vista o modo como eu o tratava antes. Mas depois do acidente com a Unidade 01 eu percebi uma coisa que me fez mudar de atitude. Quero me reconciliar com meu filho."

"O senhor tem certeza, Comandante?"

"Por favor... me chame de Gendou, quando não estivermos na NERV... o Shinji não é o único que odeia aquele lugar..."

"O senhor... você... sabia disso? Sabia que Shinji odeia a NERV?"

"É claro que sim. Ele é meu filho, e sempre foi parecido comigo. Eu o conheço bem, apesar de ter sido um pai ausente..." disse Gendou, com ares de arrependimento. "Ele herdou sua aparência e seu temperamento de mim... mas em outros aspectos ele é bastante parecido com a mãe..."

Dizendo isso, Gendou se levantou e caminhou até a porta.

"Tenham uma boa noite", disse, despedindo-se.

A porta se fechou, deixando Rei, Asuka e Misato totalmente surpresas. Belldandy, naturalmente, já previa que isso aconteceria.

'Eu sabia...' pensou, sorrindo para si mesma.

* * *

"Ei, olá vocês dois..." disse Kaji, interrompendo a conversa de Gon e Ritsuko.

"Olá, Kaji..."

"Gon, há quanto tempo! Não sabia que você estava trabalhando por aqui!"

"Pois é... estou na seção 2..."

"Ora... quem diria... e aí, como tem passado? Faz anos que eu não te vejo!"

"É, eu tenho sobrevivido..."

"Precisamos sentar para conversar qualquer dia desses... bem, estou indo pra casa."

"Você pode me dar uma carona?"

"Claro. Vamos!"

"Até logo, Gon. Pense no que eu te disse."

"A gente se vê, Gon! Se cuida, hein?" disse Kaji.

Os dois saíram, deixando Gonnosuke a sós com a vista do Geofront. Gon olhou para a pirâmide.

'Satsuki...' foi seu único pensamento.