A Lenda


Mais um dia normal estava começando em Tokyo-3. Shinji e Asuka estavam na cozinha, tomando o café da manhã, quando Misato apareceu da maneira usual, coçando a barriga e indo direto para a geladeira. Pegou uma lata de cerveja e sentou-se na mesa. Ato contínuo, abriu a lata e tomou-a de um só gole. Em seguida, deu o seu usual berro, e disse:

"É a melhor maneira de se começar o dia!"

Shinji nem sequer prestava atenção à Major. Não conseguia parar de pensar no que havia acontecido no dia anterior. Não podia deixar de se sentir incomodado com o modo como seu pai estava agindo. Pior ainda, hoje era dia de testes de sincronização na NERV, e isso significava que ele corria o risco de encontrá-lo de novo. E se isso acontecesse, Shinji não saberia como agir.

Misato, notando como Shinji estava se sentindo, preferiu não falar nada. Ainda.

* * *

Gendou e Fuyutsuki se dirigiam para o QG da NERV no vagão especial do trem que ia para o GeoFront.

"E então, como foi sua visita ontem?"

"Satisfatória."

"Como assim, satisfatória? Isso é tudo que você tem a dizer? Eu enfrentei os velhotes sozinho para que você pudesse fazer essa visita!"

"Bem... digamos que eu consegui o que queria... pelo menos deixei uma parte da máscara cair... e o Shinji enfrentou isso melhor que eu imaginava... estou feliz por isso" disse Gendou, com um leve sorriso no rosto, olhando para fora da janela.

Fuyutsuki sorriu também.

"Isso é bom..."

"E quanto aos velhotes?" perguntou Gendou, mudando de assunto.

"Não quiseram falar nada. Eles queriam que você estivesse ali de qualquer jeito. Eu acho que eles não confiam em mim."

"E por acaso você acha que eles confiam em mim?" perguntou Gendou, irônico

* * *

Misato chegava geralmente às 9:00 da manhã ao QG. Naquele dia, no entanto, ela teria que chegar um pouco mais cedo. Algo importante aconteceria naquele dia.

"Bom dia, Misato", disse Ritsuko assim que a viu.

"E então, a que horas ele chega?"

"Tenha paciência, ainda temos alguns preparativos para fazer... ele chega no fim da tarde, nós iremos buscá-lo no aeroporto."

"Que ótimo. Você me fez chegar a essa hora pra esperar o dia inteiro??"

"Você esqueceu que a Unidade 04 está em estado de congelamento?"

* * *

Num lugar desconhecido e escuro, doze blocos negros rodeavam um vulto.

"Queremos que você inutilize todas as Unidades da NERV. Eles não podem continuar com isso."

"Você resolveu me dar ordens agora, Keel?"

"V-você sabe que não..."

"Então não me diga o que fazer. Você se esquece de quem arquitetou tudo isso?"

"C-claro que não..."

"Ótimo. Agora alguém poderia me explicar como a situação foi ficar tão ruim como está, a ponto de eu ter que interferir pessoalmente?"

"A culpa é de um elemento estranho, que não sabemos ainda como..."

"Não se faça de idiota, Keel. Eu sei que foi a SEELE que enganou Belldandy. O que eu quero saber é como vocês foram idiotas a ponto de fazê-la chegar tão perto dos falsos Anjos. Que idéia foi aquela?! Fazê-la se aproximar de Shinji!"

"Bem, nós não..."

"Já chega. Não vou ouvir mais nenhuma das suas desculpas. Eu devo ir agora, vou acabar com isso de uma vez por todas."

Ao dizer isso, o vulto, que tinha uma aura brilhante em volta de si, desapareceu no meio da escuridão.

"Com toda essa arrogância, você irá arruinar seus próprios planos, Tabris..." murmurou Keel para si mesmo.

* * *

Keiichi, Urd e Skuld haviam se posicionado no símbolo desenhado no chão, como ordenavam as escrituras. Agora, Urd deveria invocar o encanto.

"Estendam as suas mãos para o centro", disse.

Keiichi e Urd obedeceram.

"Agora, ergam as suas mãos para o céu."

Quando os três fizeram isso, o símbolo desenhado no chão começou a brilhar. Urd começou a invocar o encanto. Conforme ela prosseguia, o brilho ficava mais e mais intenso. Aos poucos, um vento começou a circular à volta dos três e um rastro de luz que saía do círculo subiu para o céu. O vento foi ficando cada vez mais forte, a ponto de Keiichi ter dificuldades para respirar. O vento tornou-se tão forte que ameaçava levantá-los do chão. De fato, quando o brilho do símbolo se tornou intenso o suficiente para que nada mais pudesse ser visto, o vento conseguiu, por algumas vezes, fazer com que os pés de Keiichi, Urd e Skuld se levantassem a alguns centímetros do chão. Nesse ponto, Urd terminou de dizer o encanto. Ouviu-se um som parecido com um trovão, e milhares de vozes pareceram ecoar nos ouvidos dos três. De repente, outro som parecido com o primeiro fez-se ouvir e, pouco a pouco, o vento e o brilho começaram a diminuir. Eles três estavam de olhos fechados, de modo que não viram o brilho diminuir.

Quando Keiichi abriu seus olhos, não reconheceu o quintal de casa. Ele estava em outro lugar, com as mão esticadas para o céu e Urd e Skuld estavam à sua frente. Atrás delas, depois de um parapeito, era possível ver uma cidade com altas torres e, depois dessa cidade, três lagos rodeados por montanhas.

"Onde estamos?" perguntou.

Só então Urd e Skuld abriram seus olhos.

"Acho que conseguimos..." disse Urd.

"Precisamos achar a Belldandy!" exclamou Skuld.

* * *

As aulas já estavam acabando naquele momento. Shinji, Rei e Asuka encontraram Belldandy na saída da escola.

"Olá Belldandy!" disse Shinji.

"Olá, Shinji-san! Como foi a aula?"

"A mesma coisa de sempre..." disse Asuka.

"Fujisawa-sensei não consegue ficar sem falar no Segundo Impacto..."

"Entendo..." respondeu Belldandy. No mesmo instante, ela teve um sobressalto, e imediatamente olhou na direção do mirante que ficava na direção oposta aos Lagos Ashinoko.

"Belldandy, o que houve?"

"Olhe na direção do mirante... lá..." disse Belldandy, apontando.

Shinji e as garotas olharam na direção indicada por Belldandy, e puderam ver um rastro de luz que subia até o céu desaparecer.

"Mas o que... o que diabos é aquilo?!" exclamou Asuka.

Rei piscou os olhos por um instante, como se tivesse descoberto alguma coisa.

"Belldandy, você não acha que isso pode ser sinal de que alguém esteja lá?" perguntou.

"Tem razão, Ayanami-san! Vamos ver quem é!" disse Belldandy, abrindo a porta do carro da NERV no qual tinha vindo. Quando as três crianças entraram, ela fechou a porta e sentou-se no banco do passageiro da frente, dizendo ao motorista:

"Vá depressa para o mirante a oeste de Tokyo-3, por favor."

"Sim, tenente", respondeu o motorista, dando a partida no carro e saindo rapidamente na direção do mirante.

* * *

"Você tem certeza, Urd? Que lugar é esse?" perguntou Keiichi, aflito.

"Eu acho que sim", disse Skuld.

"Como você pode saber?" perguntou Keiichi.

"Ora Keiichi, até parece que você não conhece a Skuld!"

"Eu fiz uma pequena pesquisa antes da gente vir pra cá!" disse Skuld, orgulhosa. "Segundo o que eu achei, esta cidade se chama Tokyo-3. Ela foi construída como uma espécie de defesa contra algum tipo de ataque que eu não consegui descobrir o que é. Aqueles lagos lá se chamam Lagos Ashinoko. Esta é a região de Hakone. Tokyo deve estar a nordeste daqui e o monte Fuji fica a oeste. Ao sul, fica a península de Izu. O ano, se a gente acertou o alvo, é 2015."

"Nossa... bela pesquisa, Skuld!" disse Keiichi.

"Tem mais uma coisa..." disse Urd.

"O que é?", perguntou Keiichi, curioso.

"Eu tenho certeza de que acertamos o alvo."

"Porquê?" perguntou Skuld.

"Belldandy vem vindo pra cá."

Assim que Urd disse isso, Keiichi viu um carro vir em sua direção pela estrada que trazia até aquele mirante. Ele se aproximou e parou. No mesmo instante, sua porta dianteira direita se abriu e dela saiu uma moça usando algo que parecia ser um uniforme militar.

Keiichi demorou para perceber que se tratava de Belldandy, mesmo porque seus cabelos estavam mais curtos.

"Belldandy!!!" gritou, correndo em sua direção.

"Keiichi-san!!", exclamou, por sua vez, Belldandy, indo em direção a Keiichi.

Os dois se encontraram num forte e longo abraço, no qual dividiram todas as suas emoções e pensamentos, contidos por tanto tempo. Um abraço que representou todos os momentos que eles deixaram de partilhar durante horas que pareceram dias, dias que pareceram semanas, semanas que pareceram a eternidade.

"Keiichi-san! É tão bom vê-lo novamente!" exclamou Belldandy, com os olhos cheios de lágrimas.

"Eu não sei como agüentei ficar tanto tempo longe de você, Belldandy!" respondeu Keiichi.

Nesse momento, Shinji, Asuka e Rei estavam saindo do carro.

"Quem será ele?" perguntou Rei.

"Não sei... deve ser o tal do Keiichi..." especulou Shinji.

"E porque ele está usando aquelas roupas?" perguntou Rei.

"Eu não sei... mas ficou uma gracinha..." disse Asuka, segurando-se para não rir.

"Olá, Asuka!" disse Urd.

Shinji e Rei olharam confusos para Urd e Skuld, perguntando-se quem eram elas. E como elas conheciam Asuka.

"Oi..." disse Asuka, meio emburrada, meio cordial.

"E muito prazer... você deve ser o Shinji... Asuka vivia falando de você quando estava conosco" disse Urd, deixando Asuka vermelha como um pimentão e Shinji totalmente encabulado. Rei se limitou a soltar um sorriso, achando graça na reação dos dois.

"É... exatamente o que a gente achava..." disse Skuld, sorrindo para Urd. "E você é..."

"Ayanami Rei. Muito prazer", disse Rei, percebendo que Skuld falava com ela.

"Eu sou Urd, e esta é minha irmã Skuld. Somos irmãs de Belldandy".

"Eu já imaginava", disse Rei, com um sorriso.

* * *

O final da tarde se aproximava e, com isso, Misato e Ritsuko foram até o aeroporto esperar pela Quinta Criança.

"Como está a unidade 04?" perguntou Misato.

"Saiu do congelamento. Está praticamente pronta para a Quinta Criança."

"E não haverá problemas de sincronização?"

"Muito provavelmente sim, especialmente nas primeiras vezes. Apesar de termos feito tudo que podíamos, não podemos apagar por completo o fato de o Kensuke já tê-lo pilotado.", disse Ritsuko.

"Kensuke... ele tem aprendido rápido, não?", comentou Misato.

"Sim. Ele já está acompanhando Maya nas operações do MAGI. Ele é muito parecido com a mãe dele."

"Como assim? Você conheceu a mãe dele?"

Ritsuko não respondeu da primeira vez. Ela parecia estar querendo esconder alguma coisa sobre o passado de Kensuke.

"Ritsuko, o que tem a mãe do Kensuke?" insistiu Misato.

"Ela trabalhou na NERV, há muito tempo atrás."

"Trabalhou na NERV? E onde ela está agora?"

"Ela não está mais viva. Ela morreu no mesmo acidente que a mãe de Shinji."

"No mesmo acidente...?"

"Sim. Durante o acidente, a Unidade 01 entrou em modo berserk, e com isso algumas pessoas saíram feridas, pois o Eva estava no salão de testes... foi como daquela vez com a Unidade 00, só que nem todos conseguiram escapar... Satsuki não resistiu aos ferimentos e morreu no dia seguinte..." explicou Ritsuko.

"Que história triste para o Kensuke... perder a mãe no mesmo dia que o Shinji..." disse Misato.

"Não foi só isso... Kensuke e Shinji não perderam apenas suas mães naquele dia..."

"Como assim?" perguntou Misato, confusa.

"Cada um deles perdeu uma tia", revelou Ritsuko.

"Uma tia...? O que você quer dizer com isso?"

"Gonnosuke e Yui eram irmãos, o que faz de Shinji e Kensuke primos."

"Primos?! E eles por acaso sabem disso?" perguntou Misato, espantada.

"Não. O Comandante Ikari jamais dirigiu uma palavra a Shinji depois daquele dia e Gonnosuke preferiu não falar nada para Kensuke também..."

"Como assim?! Eles têm o direito de saber!"

"Foi a escolha de Gon e Gendou, Misato. Não cabe a você decidir por eles."

Misato ficou revoltada, mas Ritsuko estava certa no final das contas. Mais dia, menos dia, Kensuke e Shinji iriam saber a verdade.

"Ali está ele", disse Ritsuko, tirando Misato de seus pensamentos. Ela apontava um garoto em uniforme escolar, carregando uma mochila. Ele era magro, tinha cabelos cinzentos e perturbadores olhos vermelhos – exatamente como os de Rei.

* * *

Shinji, Asuka, Rei e os outros estavam indo para o apartamento de Misato.

"Agora alguém pode nos dizer porquê essa confusão toda começou?" perguntou Urd, assim que chegaram.

"Não sabemos direito", disse Belldandy.

"Nem mesmo você?" perguntou Skuld, confusa.

"Bem, eu sei parte da história..."

"Que ela nunca contou pra gente", resmungou Asuka.

"Mas você nunca me pediu para explicar, Asuka-san", retrucou Belldandy.

"Hein? Como não? Eu perguntei logo quando voltei!!!" exclamou Asuka.

"Você me perguntou como eu tinha vindo parar aqui, e isso eu realmente não sei", disse Belldandy.

"Então conte o que você sabe!" reclamou Asuka, quase interrogando Belldandy.

"Ei Asuka, vai com calma..." disse Shinji, tentando acalmá-la.

"Cala a boca, Shinji. Ou você por acaso não quer saber o que diabos ELA está fazendo aqui?!" gritou Asuka.

"Você está falando de mim?" perguntou Rei.

"Claro que não, Garota-Maravilha. Hoje em dia você até que não está ruim. Eu estou falando da Senhorita Docinho aí!" disse Asuka, apontando para Belldandy.

"EI! Vejá lá como fala da minha irmã!!!" exclamou Skuld, se levantando e encarando Asuka.

As duas ficaram olhando uma dentro dos olhos da outra. Era quase possível sentir faíscas saindo da região entre seus rostos. Urd tentou acalmar os ânimos.

"Ei, vocês duas, parem com essa implicância..." disse, separando Asuka e Skuld. "Essas duas já não se davam bem lá no templo..."

"Com você também não foi nenhuma maravilha, Urd-san..." disse Keiichi.

"Hmpf! Olha só quem fala..." disse Asuka.

Gotas de suor cresceram nas testas de Belldandy, Shinji e Rei, vendo aqueles quatro quase se engalfinhando.

"Você saiu me perseguindo pelo templo inteiro!" gritou Skuld.

"Você acertou aquela coisa idiota na minha cabeça!" gritou Asuka, mais alto.

"Porque você estava ME perseguindo antes!" gritou Urd, ainda mais alto.

"Eu..." tentou se expressar Keiichi.

"CALABOCA!!!!" gritaram Asuka, Urd e Skuld, fazendo Keiichi cair atrás do sofá.

"Keiichi-san, você está bem?" perguntou Belldandy, ajudando Keiichi a se levantar de trás do sofá.

"Sim... obrigado, Belldandy..." respondeu Keiichi, sentando-se ao lado de Belldandy.

De repente, Skuld se lembrou de uma coisa.

"Ah, não! Eu esqueci a minha marreta no templo!" disse, dando um tapa na própria testa.

"Er... Skuld-san... ele está nas suas costas…" disse Keiichi.

"Hein? Ah! Aqui está... obrigado, Keiichi!" disse, com um sorriso. Logo depois. Ela acertou a cabeça de Asuka com a marreta, deixando-a inconsciente.

"EI! O que você fez?!?!" gritou Shinji, se levantando, desesperado.

"Não se preocupa não, ela tá bem, só que agora ela tá quietinha!" disse Skuld, com um sorriso.

"O problema não é esse... é que depois ela vai descontar em mim..." disse Shinji, em total desânimo.

"Não se preocupe... depois a gente dá um jeitinho..." disse Urd.

Todos olharam com descrença para Urd.

"Ei... o que foi...? Digo, Belldandy, você não vai contar nada pra gente?"

"Ah, sim... vou sim", disse Belldandy. "Eu havia sido chamada pelo próprio Kami-sama para descobrir o que estava acontecendo no futuro, pois a linha da história tinha se alterado drasticamente de uma hora para a outra, e ninguém conseguia descobrir o porquê. As minhas investigações me trouxeram até Tokyo-3, neste ano, que é quando, estranhamente, a História acaba."

"Como assim, acaba?" perguntou Rei, confusa.

"Pense na História como uma linha. Em algum ponto no último ano do século XX, o futuro a partir daquele ponto desapareceu e nada ficou no seu lugar. Isso significa que a linha da História está sendo tecida à medida que os acontecimentos ocorrem. Ao invés de seguirem a linha, eles a criam."

"Ah! Então foi por isso que a Skuld não conseguiu descobrir nada além deste ponto na história!"

"Sim", disse Belldandy com um sorriso. "Eu sempre tentava entrar em contato com vocês, mas por algum motivo que eu ainda não consegui desvendar, tudo o que eu consegui foi chegar até o Shinji-san."

"Isso foi naquela noite que a Asuka caiu no espelho?"

"Sim, exatamente. Por algum motivo, eu fiquei aqui e ela seguiu o caminho que eu tinha conseguido criar até o templo. É como se alguém tivesse interferido na conexão..."

"E o que mais você descobriu, onee-sama?" perguntou Skuld, curiosa.

"Bem... Urd, Skuld, vocês lembram daquela lenda que nos contaram uma vez no Céu, sobre anjos rebeldes que queriam tomar o lugar da humanidade?" perguntou Belldandy.

"O quê, aquela historinha que a gente contava pra Skuld dormir quando ela era pequena?"

"Sim, essa mesmo..."

"O que tem ela? Ela é só uma lenda, não é?" perguntou Skuld.

"Era o que eu achava também, mas... vocês lembram daquelas figuras que havia na escritura que contava a lenda?" perguntou Belldandy.

"Sim, eu me lembro..." respondeu Urd.

"Eu vi alguns daqueles Anjos..." disse Belldandy.

"Você o QUÊ?!" gritou Skuld, ao mesmo tempo assustada e animada.

"Eu acho que a Lenda é verdadeira..." disse Belldandy.

"Alguém poderia por favor explicar o que é essa Lenda?" perguntou Rei.

"É uma Lenda sobre a criação da Vida..."

"E você poderia explicar pra gente o que diz essa Lenda?" pediu Shinji.

"Sim, está bem..." concordou Belldandy. "Vou contar uma versão resumida...", disse, antes de começar.

"Ninguém além de Kami-sama sabe ao certo como a Vida foi criada. Essa Lenda é a única pista que existe, e mesmo assim ela não é muito esclarecedora. Ela fala que, quando Kami-sama criou a vida pela primeira vez, ele incumbiu três Seres Superiores de tomarem conta das três partes de sua criação: Deuses, Anjos e Humanos. O responsável pelos Deuses era Peorth, o dos Anjos era Adão e o dos Humanos era Lillith. Desse modo, Peorth deu origem aos Deuses, Adão deu origem aos Anjos e Lillith deu origem aos Humanos. Os Deuses ficavam no Céu, os Humanos na Terra e os Anjos eram mensageiros, eles faziam a ligação entre a Terra e o Céu. Tem sido assim até hoje. No entanto, um número cada vez maior de Anjos, liderado por quinze deles, com ciúmes dos Deuses e dos Humanos, e eles resolveram então tomar a Terra para si próprios. Adão foi contra isso, mas esses Anjos o aprisionaram num lugar que ficou conhecido como Lua Branca. Logo depois, eles perceberam que, para tomar a Terra, teriam que tirar Lillith do caminho, e por isso eles o aprisionaram em um outro lugar, conhecido como a Lua Vermelha. Peorth, liderando os Deuses e com a ajuda de Kami-sama, conseguiu derrotar os quinze lídres dos Anjos rebeldes e os aprisionou em vários lugares diferentes. Logo depois disso, Peorth desapareceu e ninguém nunca mais o viu. Dizem que ele aguarda o retorno de Adão e Lillith, para que os três possam finalmente retomar os seus lugares."

"Nossa... que história..." comentou Shinji quando Belldandy terminou.

"Nós achávamos que isso tudo era apenas uma lenda, pois afinal de contas ninguém nunca viu Peorth..." disse Urd.

"Sim, é verdade... no entanto, agora eu temo que essa lenda seja verdadeira..." disse Belldandy.

"Se isso for verdade... então ainda restam mais dois Anjos para nos atacarem..." disse Rei.

"Sim..." disse Belldandy, pensativa.

"Eu... eu acho que sei onde Adão estava..." murmurou Asuka, se levantando do chão.

"Mas... o que... você ouviu a conversa?!" perguntou Skuld, espantada com a resistência física de Asuka.

"É claro... você acha que uma coisinha daquelas ia me deter?" disse Asuka, passando a mão em sua cabeça. "Se bem que eu fiquei com uma bela enxaqueca..." disse, se dirigindo para a cozinha.

"Ei, aonde você vai?! Você não disse que sabia onde Adão está?"

"Peraí, eu vou pegar um analgésico!" reclamou Asuka.

Assim que voltou, com um comprimido e um copo de água na mão, Asuka disse:

"Antes de mais nada..." disse, engolindo o comprimido, "eu não disse que sei onde ele está, eu disse que sei onde ele estava."

"Como assim?" perguntou Urd, confusa.

"Adão estava na Antártida. Isso significa que essa tal de Lua Branca é, ou era, lá."

"E o que aconteceu para que ele saísse de lá?" perguntou Belldandy.

"O Segundo Impacto", disse Rei. "Os Humanos encontraram Adão lá, e passaram a estudá-lo. No dia 16 de setembro de 2000, um experimento fracassou e Adão se libertou por alguns instantes, causando o Segundo Impacto. Por ter liberado tanta energia, Adão ficou reduzido a um embrião e foi congelado e guardado em um lugar seguro, no Geofront."

"No Geofront?" perguntou Shinji.

"Sim. Eu imagino que seja por isso que os Anjos sempre ataquem os Humanos aqui. Eles devem imaginar que, fundindo-se a Adão, poderão causar o Terceiro Impacto, e varrer os Humanos da Terra", concluiu Rei.

Com isso, todos na sala ficaram em silêncio. Shinji perguntava-se o que seu pai tinha a ver com tudo isso. E o que tinha acontecido para que ele, tão repentinamente, passasse a tratá-lo de forma diferente de antes. De repente, a mente de Shinji tinha ido parar em outro lugar.

* * *

"Bem-vindo a Tokyo-3! Eu sou a Misato, Chefe de Operações da NERV. Muito prazer!" disse Misato.

"Obrigado. Eu sou Kaworu. Nagisa Kaworu. Muito prazer."

"Esta aqui é a Dra. Akagi Ritsuko, Chefe da Seção Técnica."

"Muito prazer", disse Ritsuko, seguindo-se à iniciativa de Misato.

"É um prazer conhecê-la", respondeu Kaworu.

"Vamos, temos muito trabalho nos esperando no Geofront. E eu imagino que você queira ver o seu Eva, certo?" disse Misato.

"Sim, mal posso esperar para vê-lo", respondeu Kaworu, sempre sorrindo.