Pais e Filhos


Mais um dia estava começando em Tokyo-3. No entanto, Shinji não iria para a escola naquele dia.

Ele levantou mais tarde naquele dia, depois que Asuka e Misato já haviam saído. Tomou seu banho e preparou um rápido café da manhã. Por volta das 10 horas, ele saiu de casa, em direção à estação de trens. Chegando lá, ele pegou o trem que ia na direção do cemitério.

Numa estação no meio do caminho, Shinji se surpreendeu ao ver Rei entrando no vagão e sentando-se a seu lado.

"Rei... o que você está fazendo aqui?" perguntou.

"O Comandante Ikari me pediu que te acompanhasse até o cemitério", respondeu Rei.

"Meu pai...?"

"Sim. Em parte eu também queria vir, pois faz tempo que nós não conversamos", disse Rei.

"Sim, é verdade..." disse Shinji, pensativo.

Um silêncio meio desconfortável surgiu entre os dois por alguns momentos.

"Como têm sido as coisas com Asuka?" perguntou Rei.

"Como assim?"

"Segundo você me contou, você teve algumas impressões a respeito dela naquele dia que ela desapareceu..."

"Ah, sim... bem... ao que parece, ela não se lembra de nada, porque ela tem agido normalmente comigo desde que voltou... se é que dá pra chamar aquilo de normalmente..." disse Shinji.

"Sei..." disse Rei, sem saber o que dizer.

Mais uma vez, aquele silêncio desconfortável voltou a reinar. Aquela era uma situação desconfortável. Shinji estava indo visitar um túmulo onde o corpo de sua mãe não estava, e ainda por cima teria que enfrentar seu pai. Ainda que Gendou estivesse tentando se redimir, Shinji ainda tinha um certo receio em deixar que seu pai chegasse até ele desse modo.

Shinji olhou para o horizonte através da janela do trem, tentando buscar alguma resposta para suas perguntas. Era esse o grande motivo pelo qual ele ia visitar o túmulo: buscar respostas. Ainda que ele se sentisse desconfortável na sua presença, seu pai era provavelmente a única pessoa que tinha essas respostas. E Shinji sabia que seu pai estaria disposto a contar-lhe a verdade.

Pelo menos, era o que ele achava.

* * *

"Você não acha isso esquisito?" perguntou Misato.

"Sim, claro que acho. Mas não podemos fazer nada a respeito. Afinal de contas, apesar de estranho, é uma coisa boa que ele tenha conseguido sincronizar com o Eva tão bem..." respondeu Ritsuko.

"Não é disso que eu estou falando... tem alguma coisa suspeita a respeito desse garoto..." disse Misato.

"Sobre quem vocês estão falando?" perguntou Kensuke, chegando de repente.

"Kensuke?! O que você faz aqui?" perguntou Misato, surpresa.

"Eu? Nada, só estava passando... aí eu vi vocês conversando e parei pra ouvir..."

"Você já terminou de estudar aqueles mapas que eu te dei?" perguntou Misato, assumindo a posição de chefe.

"Sim, senhora. Tracei todas as possibilidades de ataque e marquei os pontos adequados para posicionamento dos Evas para cada situação."

"E quanto à checagem do MAGI? Já está programada?" perguntou Ritsuko.

"Sim, senhora. Começará em três horas uma checagem completa e atualização do sistema", respondeu Kensuke, prontamente.

Misato e Ritsuko se entreolharam. Ritsuko disse o que passava na mente das duas.

"Realmente teria sido um desperdício deixar você pilotando um Eva..." disse, sorridente.

"Muito obrigado!!" disse Kensuke, orgulhoso.

* * *

O trem finalmente estava chegando na sua estação final, nos limites de Tokyo-3. Shinji e Rei desceram ali, de onde iriam a pé até o vasto cemitério.

Chegando ali, eles se depararam com a imensa quantidade de lápides negras que formavam um tapete mórbido sobre a superfície branca do cimento no piso do lugar. Todas as lápides tinham dois números, linha e coluna, para que pudessem ser facilmente localizadas.

Shinji e Rei não precisaram procurar muito para achar a lápide que iam visitar; já havia uma pessoa esperando por eles ali.

"Olá, Shinji, Rei", disse Gendou.

"Olá", disse Shinji, evitando olhar para o rosto de seu pai.

"Olá, Comandante", disse Rei, por sua vez esboçando um sorriso por estar junto àquele que ela considerava como seu próprio pai.

Shinji se abaixou e colocou as flores que trouxe junto às que seu pai tinha colocado pouco antes deles chegarem. Depois disso, ficou alguns momentos em silêncio, orando por sua mãe. Onde quer que ela estivesse, Shinji queria que ela estivesse bem.

"Você se lembra daquele dia, não, Shinji?" pergundou Gendou.

"Na verdade, não... Só me lembro de algumas sensações... medo, angústia, desespero... Acho que eu era criança demais para me lembrar direito do último dia que eu tive uma família..." disse Shinji, num tom de voz amargurado.

"Me perdoe, Shinji. Eu sei que errei... que agi errado... mas fiz aquilo porque estava fora de mim, e não queria mais me machucar... e você está agindo da mesma forma agora... impedindo que nos reconciliemos... nós podemos deixar isso para trás, Shinji... quanto mais nos afastarmos um do outro, pior será... eu levei dez longos anos para descobrir isso... não quero que você passe pelo que eu passei..."

Shinji pensou um pouco, olhando sempre para a lápide de sua mãe.

"... entendo", disse, fechando os olhos. "Mas é difícil acreditar que um pai que me tratou como um estranho todos esses anos de repente sinta-se arrependido", disse.

"Foi algo que aconteceu quando você estava dentro do Eva que me fez mudar", disse Gendou.

"E o que foi?" perguntou Shinji.

"Eu... não sei se devo dizer", respondeu Gendou.

Os dois ficaram novamente em silêncio. Um silêncio desconfortável. Ambos sabiam que tinham muito o que conversar, mas não sabiam por onde começar e estavam igualmente inibidos.

"A minha mãe não está realmente aqui, está?" perguntou Shinji.

"...não", respondeu Gendou, "não está".

"De alguma forma, eu sabia. Não sei como, mas eu sabia...." disse Shinji.

Rei sentiu que estava sobrando ali. Shinji e Gendou tinham muito que conversar.

"Bem, eu... estarei esperando na saída...", disse. Quando ia se retirar, no entanto, Gendou a deteve:

"Não vá, Rei... por favor."

"Porque não...?" perguntou Rei, confusa.

"Porque o que eu vou dizer tem a ver com você também..." disse Gendou.

"...comigo?" perguntou Rei, confusa.

"Sim."

* * *

"Porque você não está no cemitério, Gon?" perguntou Ritsuko ao encontrar Gonnosuke no Quartel General.

"Porque ele está lá", respondeu Gon.

"Ah... você não quer se encontrar com 'ele'?" perguntou Ritsuko, enfatizando com ironia o pronome.

"Não... é que, se Shinji estiver lá, ele pode desconfiar do meu parentesco com Yui."

"Não entendo porque vocês ficam escondendo isso dos garotos. Não faz o menor sentido..." disse Ritsuko.

Gon não respondeu.

"Olá!" disse Kensuke, pegando Ritsuko de surpresa pela segunda vez. "Sobre o que vocês estavam falando?"

"Er... nada de importante..." disse Ritsuko.

"Hmm... então tá", disse Kensuke, sem dar muita importância ao assunto, "oi pai, desculpe ter saído sem avisar, é que eu tinha muita coisa pra fazer por aqui hoje..."

"Tudo bem, filho, mas... você não deveria estar na escola agora?" perguntou Gon.

"Er... bem, eu... er... eu preciso ir andando! Até mais!" disse Kensuke, escapando da bronca.

* * *

"Shinji... Rei... quero que vocês dois venham morar comigo", disse Gendou.

"Como?!" disseram, quase em uníssono, Shinji e Rei.

"Isso mesmo... quero que nós três moremos juntos... como uma família..."

Era isso o que vinha deixando Shinji ansioso nos últimos dias. O fato de seu pai, querendo se redimir, chamá-lo para morar consigo. Shinji já esperava que Gendou, em algum momento, dissesse isso. No entanto, ele sabia que não haveria resposta fácil de ser dada. Por um lado, Shinji não queria, de maneira nenhuma, deixar o apartamento de Misato. Ele sentia-se em casa ali; tinha levado algum tempo até se acostumar ao lugar que, pela primeira vez em muito tempo, chamava de lar. Por outro lado, tudo que ele queria na vida era ter a sua família reconstituída. Quando chegara a Tokyo-3, tinha esperanças de que isso aconteceria, mas foi pego de surpresa pelo modo como seu pai o tratara. Agora, que finalmente isso se realizaria, ele não sabia o que dizer.

Rei estava numa situação ainda pior. Por toda a sua vida ela havia morado sozinha, suas noites eram sempre solitárias. Não sabia o que era uma família, não sabia o que significava morar com outras pessoas na mesma casa. Isso a deixava com os nervos à flor da pele. Comparado a ela, Shinji sabia exatamente o que fazer.

"Eu... não consigo entender..." disse, pausadamente, "porque o senhor está me chamando para me juntar a vocês dois..."

"Você sabe o porquê, Rei..."

Rei olhou para o Comandante, espantada. O que ele queria dizer com isso?

"Eu a vejo como minha filha, Rei... por isso quero que você também more conosco", disse Gendou.

"Eu..." murmurou Rei, tentando articular uma resposta. No fundo, ela sabia que isso era verdade, e estava feliz pelo Comandante confirmar isso novamente. Ela retribuía o sentimento do Comandante, pois o via como o pai que ela nunca tivera. Levando isso em consideração, ela tomou sua decisão.

"Eu irei se o Shinji for."

Essa afirmação pegou Shinji de surpresa.

"Eu... eu... não sei o que dizer..." disse Shinji.

"Não precisa me responder agora", disse Gendou, "me procure quando tiver uma resposta. Eu estarei esperando".

Dizendo isso, apoiou sua mão sobre o ombro de Shinji, e disse:

"Até breve, meu filho. Até, Rei."

"Adeus", respondeu Rei.

Shinji não disse nada, enquanto Gendou se afastou.

* * *

No dia seguinte, ainda sem saber direito o que fazer, Shinji foi normalmente para a escola.

"O que você pretende fazer, Shinji-san?" perguntou Belldandy ao saber o que Gendou tinha pedido a Shinji.

"Eu... não sei ainda..." respondeu Shinji, hesitante.

"Como assim, não sabe? Essa é a sua chance! Aproveite!" disse Keiichi, tentando reanimar Shinji. "Afinal de contas, ele é seu pai, não? Não é isso que você quer, morar com o seu pai?"

"Bem, eu... eu acho que sim..." disse Shinji.

"Keiichi, seu burro, o problema é que o pai do Shinji rejeitou ele por dez anos antes que isso acontecesse", explicou Skuld.

Keiichi ficou um pouco embaraçado ao ouvir aquilo. Ele não sabia da história de Shinji, e por isso não conseguira entender porque ele hesitava em morar com seu pai. Agora, no entanto, posto a par do fato de que Gendou nunca mais fora o mesmo depois do desaparecimento de Yui, já considerava a hipótese de mudar de opinião.

"Esse é de fato um lugar bem estranho..." comentou Urd.

"Porquê você diz isso?" perguntou Asuka, que até então havia estado em silêncio.

"Coisas esquisitas acontecem... monstros gigantes tentam destruir a cidade, as pessoas são paranóicas por motivos obscuros, todos têm segredos que fazem de tudo pra esconder..."

"Hmm... olha só quem fala..." disse Asuka, irônica. "Só pra começar, você é uma Deusa! Bem como a Skuld e a Belldandy! Além disso, a Skuld fica caçando aqueles bichinhos esquisitos que vocês chamam de bugs com essa marreta esquisita! Isso sem falar que, se tem monstros querendo destruir a cidade, eles são Anjos, ou seja, aqueles que deveriam ser *seus* colegas de serviço!"

"É... pode ser... mas pelo menos eu não sou paranóica quanto à minha competência!" retrucou Skuld.

"Ah não... lá vão essas três de novo..." murmurou para si mesmo Shinji enquanto as três se engalfinhavam.

* * *

Gendou estava a caminho da NERV quando foi abordado por um grupo de homens que pareciam a segurança da NERV. No entanto, a missão deles não era protegê-lo.

"O que vocês querem?" perguntou Gendou, sem obter resposta verbal. Pela atitude dos homens, ele imaginou do que se tratava. "Pois bem, levem-me a ele, então", disse, sem resistir quando eles o algemaram e o colocaram dentro de um carro, que saiu a toda velocidade.

* * *

Quando Shinji, Belldandy, Asuka e Rei chegaram à NERV, o caos tomava conta do lugar.

"O que houve aqui?" perguntou Rei a um oficial que passava.

"Raptaram o Comandante!" disse o oficial, antes de sair correndo.

"...raptado?" murmurou Shinji, mal acreditando no que ouvira.

"Shinji..." murmurou Rei, olhando para ele, com medo de sua reação. Ela e Shinji eram as duas pessoas que, naquele momento, de alguma forma, estavam vendo parte de suas vidas desmoronar. Bem ou mal, Gendou era o único parente que ambos possuíam – ou supunham possuir.

"Não... não pode ser... justo agora... porquê... porquê...? Porquê?!" exclamou Shinji.

Até mesmo Asuka estava assustada. Se o Comandante tinha sido raptado com essa facilidade, o que não poderia acontecer a eles, pilotos, que eram os principais elementos no funcionamento do Eva?

Eles correram até a Sala de Controle, onde esperavam encontrar Misato e os outros.

Kensuke corria de um lado para o outro, monitorando o MAGI e examinando um mapa.

"Kensuke!" disse Shinji.

"Shinji! Você... já sabe?" perguntou Kensuke.

"Sim... já..." respondeu Shinji.

"A Misato tava te procurando!" disse Kensuke.

"Shinji-kun!" disse Misato, chegando no momento em que Kensuke terminava de falar.

"Misato..." murmurou Shinji.

Dizendo isso, ele caiu de joelhos no chão. Misato correu até ele para levantá-lo.

"Shinji-kun..."

"Porquê...? Porque a minha vida tem que ser tão miserável...?!" perguntou Shinji, com lágrimas nos olhos. "Eu não agüento mais! Não agüento! Eu não posso ter um único dia de paz nessa vida! O que foi que eu fiz, Misato-san? Me diz! O que foi que eu fiz pra merecer isso?!"

"Você não fez nada, Shinji-kun... isso não é sua culpa..." disse Misato, tentando consolar o garoto.

Belldandy, mesmo estando apenas disfarçada como membro da NERV, estava ajudando no que era possível. Hikari havia acabado de chegar, de forma que praticamente todos os pilotos estavam ali. Rei sentia-se praticamente da mesma forma que Shinji. A diferença é que sua vida não havia sido miserável – ela nem sequer tinha tido uma vida antes de conhecê-lo. Mas Gendou era como um pai para ela. Era a única pessoa – além de Shinji – em quem ela realmente confiava. Asuka, por sua vez, estava confusa. Tinha pena de Shinji, queria ir até ele e abraçá-lo, consolá-lo, mas algo dentro dela a impedia de fazer isso. Pela sua expressão, no entanto, era possível perceber que ela estava bem irada com aqueles que tinham raptado o Comandante e feito Shinji chorar daquele jeito.

"Ei, Kensuke-kun," disse Hikari, "o que está acontecendo?"

"Alguém raptou o Comandante..." respondeu Kensuke.

"O Comandante?! Mas como? Onde estavam os seguranças da NERV?"

"Nocauteados, num beco perto do lugar onde acreditamos que ele tenha desaparecido", respondeu Ritsuko, entrando na sala. "Kensuke, você achou alguma coisa?"

"Eu estou tentando cruzar as informações de rastreamento do MAGI com esse mapa aqui", disse Kensuke. "Ao que tudo indica, eles o puseram num carro e saíram da cidade, porque eu perdi o rastro aqui", disse, apontando uma localização no mapa, "mas a partir desse ponto, o MAGI não consegue achar mais nenhum sinal do rastreador do Comandante".

"Certo. Kaji, você está aí?" perguntou Ritsuko.

"Sim", respondeu Kaji, que até então estivera, sem ser percebido, apoiado no batente de uma das portas de acesso à Sala de Comando.

"Então é a sua vez de mostrar um pouco de serviço por aqui..." disse Misato.

Kaji apenas sorriu para Misato.

"Shinji... não se preocupe", disse.

'Mãe...' pensou Shinji, 'porque isso sempre tem que acontecer? Porque? Justo agora, que ele estava começando a me ver como um filho... porquê?? O que foi que eu fiz pra merecer isso?! Onde foi que eu errei?!'

"Shinji... está tudo bem... nós vamos encontrá-lo..." dizia Misato, tentando consolar Shinji.

'Misato... ela tem razão... eu não tenho culpa... a culpa é deles... são eles que me fazem sofrer... a culpa é deles... sempre foi... culpa deles...'

"Ei, baka-Shinji... deixa de ser maricas... a culpa não é sua... o Comandante vai ficar bem, ele é um cara durão..." disse Asuka, aproximando-se de Shinji. Ela podia se sentir muito desconfortável tomando essa atitude, mas de certa forma sentia que era a coisa certa a fazer. Mesmo que todos estranhassem.

"Eu vou encontrar o Comandante. Quem quer que tenha feito isso, não vai sair limpo dessa", disse Kaji.

"Pode apostar que não..." murmurou Shinji, sério. Pela primeira vez, o tom de voz de Shinji meteu medo até mesmo em Asuka.

"Shinji-kun...?" disse Misato.

"Não, Misato. Até hoje eu deixei que os outros fizessem de mim o que queriam. Mas até mesmo eu tenho um limite. Esses caras raptaram o meu pai e eles vão pagar muito caro..." disse Shinji, ainda no mesmo tom de voz. Dessa vez, Misato sentiu um frio na espinha ao ouvi-lo falar assim.

"Com licença... estou interrompendo algo?" perguntou uma voz que vinha de outra porta.

"Ahn? Ah, não, Kaworu, de maneira nenhuma... entre, por favor..." disse Ritsuko.

"Agora sim todos os pilotos estão reunidos..." disse Kaji.

"Eu sou Nagisa Kaworu. Sou a Quinta Criança, designado para pilotar o Evangelion Unidade 04."

"Que cara inconveniente..." murmurou Asuka.

Kaworu olhou direto para Asuka assim que ela disse isso. Seu olhar era tão penetrante quanto o de Rei, mas, ao contrário da Primeira Criança, o seu olhar era agressivo, quase ofensivo. Asuka desviou o olhar, espantada pelo fato de Kaworu também ter olhos vermelhos.

Shinji, a essa altura, já estava de pé, e seu olhar parecia comandar todos que estavam à sua volta. Ele nem sequer parecia ter notado a presença de Kaworu ali. A partir daquele momento, ele passou a lembrar a atitude de seu pai. Seu olhar era praticamente o mesmo, ele impunha autoridade sobre aqueles que cruzavam o seu caminho. Do nada, ele começou a dar ordens, e as pessoas começaram a obedecer. 'É o filho do Comandante', pensavam. Ele deveria saber o que estava fazendo.

O que ninguém podia realmente entender é de onde ele tinha tirado essa mudança tão radical de personalidade. Shinji era sempre um garoto tímido, que se deixava intimidar pelo primeiro que aparecesse. Agora, estava enfrentando todo mundo e dando ordens como se fosse seu pai.

* * *

Gendou estava em uma sala escura, amarrado em uma cadeira. Ele não fazia idéia de onde estava, pois havia sido encapuzado assim que os homens que o raptaram chegaram a um cruzamento com uma linha de trem.

Uma porta se abriu atrás dele. A luz era forte o suficiente para ofuscar a sua visão, uma vez que havia um espelho à sua frente. Ele não viu quem era o homem que estava entrando na sala, mas sabia muito bem quem ele era.

"Já faz muito tempo desde a última vez que nos encontramos pessoalmente...", disse Gendou.

"Você sabe muito bem que é o único que sobreviveu a me encontrar pessoalmente, Ikari-kun..."

"Sim... é verdade... mas a que preço?"

"Você concordou em tentar..." disse o homem.

"Eu era um inconseqüente e não fazia idéia dos seus planos..."

"Ah é? E agora, você se arrependeu?"

Um silêncio de alguns segundos dominou a sala.

"Sim... Keel."

"Você me decepciona, Ikari..."

"É problema seu... não quero mais saber dessa sua idéia maluca de acabar com o mundo..."

"Mas o que... o que aconteceu para que você mudasse de idéia?"

"Eu percebi que nunca perdi Yui. Ela sempre esteve comigo."

"Idiota. Você é apenas um peão num jogo de xadrez que mal pode entender..." disse Keel, arrogante.

"Não, Keel... o peão é você, e você é tão digno de pena que nem mesmo percebe isso... aquele moleque está te dominando cada vez mais e você nem percebe..." disse Gendou.

"Não diga bobagens!"

"Não é nenhuma bobagem... o moleque está te usando como uma marionete para atingir os objetivos dele... e você nem percebe as conseqüências dos seus atos... assim como quando eu estava sob o seu controle..."

"Pare com isso! Você não tem idéia do que está dizendo!"

"Não tente esconder a verdade... eu estava lá com você quando ele surgiu..."

"..."

Keel não falava mais nada. Ele tinha capturado Gendou para encurralá-lo e tentar retomar o controle sobre ele, mas era o contrário o que estava acontecendo. Gendou o estava encurralando... o desgraçado estava colocando-o contra a parede!

* * *

"Kensuke! Deixa eu ver esse mapa!" disse Shinji.

"Er... certo!"

"Onde você disse que eles desapareceram?"

"Bem aqui", disse, apontando um ponto no mapa.

"Certo. Misato, você e Kaji vêm comigo, vamos tentar descobrir pra onde eles o levaram! Ritsuko, por favor tente recuperar o controle deste lugar... se o meu pai chegar e vir essa bagunça, cabeças podem rolar! Kensuke... se você descobrir mais alguma coisa, me avise!"

"Er... Shinji..." disse Asuka, "o que a gente faz?" perguntou, apontando para si mesma, Rei e Hikari.

"Fiquem de prontidão. Se precisarmos dos Evas, eu chamo vocês", disse Shinji.

A maneira como Shinji agia era surpreendente. O garoto tímido de antes agora agia com desenvoltura e liderança naturais. Mesmo sem ter autoridade para tal, ele era obedecido, pois, além da força do nome de sua família dentro da NERV, ele era o único que era capaz de pilotar o Evangelion Unidade 01, que era a principal arma da Agência. Sem ele, a NERV estaria perdida.

* * *

Belldandy voltou para casa assim que pôde, para avisar às suas irmãs sobre o que estava acontecendo.

"...você quer dizer que o fim está chegando, Belldandy?" perguntou Urd.

"Eu... imagino que sim... eu estava na NERV hoje quando soubemos que o Comandante Ikari foi raptado... e além disso... eu acho que O encontrei..." disse Belldandy.

"Ele...? Você viu ele?" perguntou Skuld.

"Sim... eu não tenho dúvidas... era Ele..."

"Então o fim está realmente próximo..." disse Urd, "se Tabris já apareceu, então precisamos agir rápido", concluiu.

"Sim, é verdade... mas o que vamos fazer? Sem Peorth, não vamos conseguir derrotá-lo..." disse Urd.

"Eu sei... mas eu sei onde Peorth está..." disse Belldandy.

"Você... sabe?!" perguntaram Urd e Skuld, espantadas.

"Bem, mais ou menos... Peorth ainda não despertou... mas está adormecido dentro de uma pessoa..." disse Belldandy.

"Uma pessoa...? E quem é essa pessoa?!" perguntou Skuld.

"Vocês já devem ter percebido que essa pessoa não é uma pessoa comum..." disse Belldandy.

"Hein...? Será possível que seja ela??" perguntou Urd.

* * *

"Ikari... você vai me pagar por esse insulto..."

"Duvido... não há mais nada que você possa fazer contra mim, Keel. No entanto, eu ainda posso arruinar os seus planos..." disse Gendou, com um sorriso nos lábios.

"Essa é boa! Olhe para você... amarrado numa cadeira, numa sala escura, prestes a pagar com a vida pela sua traição... e ainda tenta me ameaçar!"

"Heh... você não conhece a minha família..." disse Gendou, irônico. "Além disso... não vai demorar muito para eles me encontrarem..."

* * *

Shinji, Kaji e Misato estavam no ponto onde o sinal de Gendou havia sido detectado pela última vez. Ali, eles encontraram o transmissor que ele carregava escondido no uniforme.

"Tudo indica que eles pegaram um outro transporte aqui..." disse Kaji.

"Para onde leva este trilho?" perguntou Misato.

"Tokyo-2", disse Shinji, olhando em um mapa. Quase no mesmo instante, ele discou um número em seu celular.

"Kensuke, sou eu", disse. "Mande um VTSL para cá."

"Shinji...?" murmurou Misato.

"Sim, Misato-san?" perguntou Shinji.

"Você... está agindo muito estranho desde aquela hora na NERV... está tudo bem?"

"Eu... não sei, Misato... mas alguma coisa dentro de mim está meio que tomando conta das minhas ações. Eu não sei se estou fazendo a coisa certa, mas resolvi deixar os meus impulsos tomarem conta e tomar uma atitude... decidi tentar passar por cima da minha timidez. É meu pai que está lá, preso, e eu vou fazer de tudo para conseguir tê-lo de volta. Nunca mais vou deixar aqueles que importam pra mim sozinhos. Nunca", disse Shinji. E ele disse isso com tal convicção que foi impossível a Misato ter qualquer dúvida. Para ela, os olhos de Shinji jamais mentiam.

Nesse momento, o veículo que Shinji pedira chegou. Ele, Kaji e Misato embarcaram.

"Vamos seguir essa linha de trem até Tokyo-2", disse.

"Entendido", disse o piloto.

"Atentem para qualquer detalhe que virem – uma casa isolada perto do trilho, carros abandonados, marcas de pneu, sinais de infra-vermelho... qualquer coisa. Não há população civil aqui, então vocês têm permissão para atirar em qualquer alvo suspeito", disse Kaji aos homens que estavam no veículo.

Shinji teve uma idéia e, no mesmo instante, pegou o celular.

"Kensuke? Sou eu de novo. Você consegue usar os satélites para escanear a área de Tokyo-2?"

"Posso tentar", disse Kensuke, "mas pode levar algum tempo."

"Faça isso, e escaneie com maior intensidade nas proximidades dessa linha de trem que estamos seguindo."

"Certo."

* * *

Cerca de meia hora se passou desde o momento em que Shinji pedira a Kensuke para procurar quaisquer sinais na região da linha de trem. Nesse meio tempo, mais alguns VTSL´s chegaram à região da linha, trazendo homens armados, a pedido de Shinji.

Tudo indicava que a sua intenção era invadir e resgatar Gendou a qualquer custo.

Nesse momento, o celular de Shinji tocou.

"Shinji!"

"Kensuke! Diga, achou alguma coisa?" perguntou Shinji, ao perceber a voz do amigo do outro lado da linha.

"Sim! O rastreamento por satélite indicou uma casa abandonada às margens da linha de trem! Está a uns 30 quilômetros do ponto onde perdemos o sinal do Comandante!"

"Entendido", disse Shinji, desligando o telefone. Virando-se para o piloto, disse:

"Volte para o ponto onde você nos pegou, e ande 30 quilômetros sobre a linha de trem."

"Entendido", respondeu o piloto.

Em cerca de cinco minutos, foi possível avistar, no meio do nada, uma casa bem ao lado dos trilhos.

Shinji ordenou que todos os VTSL´s formassem um círculo voando acima da casa e pousassem ao mesmo tempo. Assim que eles tocaram o chão, cerca de 50 homens armados saíram deles e cercaram a casa. Shinji andou até a porta e a abriu para ter uma das visões mais aterradoras de sua vida.

Keel estava debruçado sobre Gendou, e tinha seu visor jogado no chão. De seus olhos saíam dois feixes de luz que entravam diretamente nos olhos de Gendou, que lutava para se libertar. Keel berrava como um louco, sem se dar conta do que acontecia à sua volta.

"Acabou, Ikari! Você é meu novamente! Você irá fazer tudo que eu mandar!!! A NERV voltará a ser meu fantoche!! Nada poderá me impedir!!!" berrava, quase babando em cima de Gendou.

"NÃÃÃÃÃOOO!!!!!" gritou Shinji, ainda mais alto que Keel. Isso o distraiu, e ele se virou para ver quem tinha gritado aquilo. Shinji, no entanto, já estava preparado e acertou a sua cabeça com uma coronhada com a arma de Kaji. Ato contínuo, Shinji deu ainda um chute praticamente no mesmo lugar onde tinha acertado o golpe, e imediatamente foi soltar seu pai, que havia desmaiado assim que Keel o soltara.

"Pai! Pai! Você está me ouvindo?! Pai!" gritava Shinji, desesperado, com Gendou caído em seu colo, desamarrado por Kaji e Misato.

* * *

Com o resgate de Gendou, o caos que tomara conta do Quartel General da NERV se dissipou. Shinji, depois de ter agido com autoridade, praticamente voltou ao normal. Ele próprio não se lembrava direito do que fizera. Ritsuko ainda não tinha explicação para o fato de Shinji ter voltado à sua personalidade normal depois do ocorrido, embora isso parecesse algum tipo de bloqueio mental causado pelo stress da operação.

"De alguma forma, o subconsciente de Shinji tomou conta enquanto ele estava acordado e fez com que ele agisse daquela maneira. Geralmente o subconsciente só assume durante o sono, e é isso que não conseguimos entender", dizia Ritsuko, tentando explicar o caso.

O Comandante estava na enfermaria da NERV. Inexplicavelmente, ele estava fisica e mentalmente esgotado quando foi encontrado por Shinji e os outros. Ao que tudo indicava, Keel, que agora era mantido preso no Quartel General, era o responsável por isso, mas ninguém tinha nenhuma pista de como ele fizera aquilo, uma vez que não havia sido encontrado nenhum tipo de equipamento no local.

* * *

O quarto calmo e iluminado apenas pela luz que passava pelas pesadas cortinas que cobriam as janelas, pela primeira vez, transmitia alguma paz para Shinji, que estava sentado ao lado da cama, esperando Gendou acordar.

Aquele quarto não lhe trazia boas lembranças. Ali ele acordara por várias vezes, depois de enfrentar algum Anjo. Aquele teto, que para ele sempre parecera tão pouco familiar, naquele dia passou a ter um outro significado. Pela primeira vez em muito tempo, ele estava ao lado de seu pai e não se sentia rejeitado. Pelo contrário. Shinji tinha se decidido a aceitar o pedido de seu pai. Iria morar com ele, iria tentar restaurar, pelo menos parcialmente, sua família.

A visão de Gendou deitado sobre a cama era algo que Shinji não sabia direito como encarar. Gendou estava sem óculos, vestindo um pijama de hospital, dormindo tranqüilamente.

Nesse momento, Gendou abriu seus olhos. Olhou por alguns minutos para o teto.

"Não é um teto familiar..." disse, suspirando. Depois disso, olhou para Shinji.

"Olá, Shinji..." disse, "o que aconteceu?"

"O senhor... não se lembra de nada?" perguntou Shinji, confuso.

"Eu... não me lembro muito bem do que aconteceu..."

"O senhor foi seqüestrado..."

"Disso eu me lembro... eu me lembro de estar com uma pessoa que eu conhecia... eu estava algemado numa cadeira... tivemos uma discussão... depois disso eu não lembro de mais nada..." disse Gendou, esforçando-se por lembrar de mais algum detalhe.

"Bem... isso... não importa muito agora..." disse Shinji, "o que importa é que agora o senhor está aqui... a salvo..."

"Obrigado, filho..." disse Gendou, olhando para Shinji.

"Eu... eu andei pensando na sua proposta..." disse Shinji.

Gendou arregalou os olhos.

"Eu decidi que vou morar com o senhor..." disse Shinji.

Um sorriso se abriu na face de Gendou.

"Nesse caso..." disse, sentando na cama e se apoiando em sua cabeceira, "você vai ter que parar de me chamar de 'senhor'..."

"Sim, senhor..." respondeu Shinji.

Nesse momento, os dois ouviram delicadas batidas na porta. Em seguida, Rei entrou no quarto. Ao ver Gendou recuperado, ela largou a sacola de roupas que carregava e correu até o Comandante, pegando em suas mãos.

"Bem-vindo de volta, Comandante..." disse, com um grande sorriso em sua face e com os olhos brilhando.

"Obrigado, Rei..." disse Gendou, meio sem jeito. "Mas... para que você trouxe essa sacola de roupas?" perguntou.

"São roupas suas... você não pretende sair daqui desse jeito, não é mesmo?" disse Rei, num tom divertido.

Os três riram descontraídamente.