Despertar


Shinji estava arrumando suas coisas para se mudar, o que não significava muito, visto que seus pertences eram não mais que o suficiente para encher uma valise de mão não muito grande. Alguns uniformes de escola, algumas outras roupas que ele praticamente não usava, seu SDAT, um par de sapatos extra e seus pertences pessoais – escova de dente, desodorante, esse tipo de coisa. Seu material de escola ia na sua mochila – pelo menos o que estava ali, já que boa parte ficava no seu armário, na própria escola. Era mais prático dessa maneira.

Misato apenas observava, apoiada no batente da porta do quarto de Shinji.

"Sinto muito por abandonar vocês desse jeito, Misato..." disse Shinji, quando fechou, sem grande dificuldade, o zíper da valise.

"Não fique assim, Shinji... afinal de contas, você está conseguindo o que sempre quis, que é morar com o seu pai... não é verdade?" respondeu Misato.

"Sim, eu acho que você tem razão..." disse Shinji, com um sorriso constrangido no rosto.

"E além disso, você não vai pra tão longe. O Comandante não mora a mais de três quadras daqui..." disse Misato, apontando com a cabeça para um prédio que era visível da janela de Shinji; esse prédio era um dos mais altos de Tokyo-3, mesmo ficando no subúrbio. Em geral, todos os prédios de Tokyo-3 que tinham mais de cinco andares ficavam no centro; eram aqueles que eram recolhidos durante os ataques.

"Eu prometo vir visitar vocês..." dizia Shinji a cada dez minutos.

"Tá bom, Shinji, a gente já entendeu..." disse Asuka, visivelmente contrariada por ver Shinji sair do apartamento, "se você vier aqui tantas vezes quanto está prometendo, eu juro que me mudo também!"

"Asuka!" disse Misato, num tom repreensivo.

"Está tudo bem, Misato... eu sei que ela não quis dizer isso..." disse Shinji, num tom sereno, olhando diretamente nos olhos de Asuka.

Ao ver os olhos de Shinji olhando para os seus, Asuka quase não agüentou. Precisou sair correndo para que ninguém visse as lágrimas que ameaçavam sair escorrendo pelo seu rosto. Subiu até o telhado do prédio, sem perceber que Shinji estava logo atrás dela. Ele andava calmamente, com uma segurança que nunca aparentara ter. Como conseguia se manter assim, nem ele mesmo sabia. Tudo que Shinji sentia era que podia confiar em si mesmo.

Como previra, ele encontrou Asuka debruçada no parapeito, no topo do prédio. Ele tinha que admitir, Asuka era linda. Aquela era uma das visões mais belas que ele já tinha visto.

"Asuka...?" disse.

"Sai daqui..." disse, hesitante, Asuka.

Shinji deu um passo para trás, tencionando sair. Mas ele se deteve. 'Preciso resolver isso aqui e agora', pensou ele.

"Não", respondeu.

"Eu disse pra sair!" repetiu Asuka.

"Asuka, eu não vou sair daqui... desde aquele dia em que você desapareceu, minha vida não tem sido mais a mesma. Eu percebi que, de alguma forma... você... representa algo pra mim..."

Asuka tremeu ao ouvir isso. Então, era verdade. Ela acreditara até aquele dia que tudo não tinha passado de delírio seu devido à viagem que fizera naquele dia, indo parar num mundo completamente diferente... mas era verdade, não tinha sido imaginação sua...

"Asuka... quando eu te conheci eu jamais diria isso, mas..."

Será que aquilo era verdade mesmo? Como podia aquilo ser possível?

"Asuka, eu..."

Asuka não precisava ouvir o que Shinji ia dizer. Ela sabia exatamente o que ele estava tentando dizer. Ela queria dizer o mesmo. Mas havia algo que a impedia: o medo. Algo dentro dela dizia que ela não deveria se aproximar mais das pessoas... deveria se manter distante. Ela tentara por todos aqueles anos, mas... alguma coisa mais forte a empurrava para Shinji.

"Shinji, não..."

Shinji parou. A essa altura, estava a menos de um metro de distância de Asuka. Ela se virou para ele, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas.

"Não sei porque estou chorando desse jeito", disse, com um sorriso falso. "Você vai estar aqui perto... e... além disso, você não é o meu namorado nem nada disso... então eu não tenho porque ficar assim... além do mais, eu sempre disse... que meninos e meninas não deveriam morar juntos depois dos sete anos..."

"Pare com isso, Asuka..."

"Não, pare você... olha como você está me deixando! Eu nem consigo olhar pra você direito, sem querer estar perto de você..." disse Asuka. "Não me admira que tantas meninas na escola estejam de olho em você..." disse, com um sorriso melancólico.

"Na escola...? Eu... eu nunca percebi..." disse Shinji, envergonhado.

"Nossa, mas você é lerdo mesmo, hem?" disse Asuka, rindo de leve.

"Não é que eu seja lerdo, é que eu só tenho olhos pra você..." disse Shinji, constrangido.

Asuka arregalou os olhos. Aquilo sim, era inesperado. Em outras ocasiões, ela certamente teria colocado a vida de Shinji em perigo, bem como a de Kensuke e Touji, se eles estivessem por perto. Mas aquela não era a ocasião. A reação de Asuka foi contraditória à que se esperaria dela. Sem dizer mais nada, ela avançou para Shinji, que, quase num reflexo condicionado, hesitou. Mas Asuka não o ofendeu, nem o machucou. Ela enlaçou seus braços em volta de Shinji, e o apertou num abraço forte, apoiando a cabeça no seu ombro. Shinji, surpreso, pareceu perder a respiração por um momento. A garota ruiva de olhos azuis o estava abraçando, e ele podia sentir o cheiro de seus cabelos, ainda úmidos do banho. Sem pensar muito, Shinji retribuiu, colocando suas mãos nas costas de Asuka e apertando-a contra si mesmo, fazendo a sua parte num abraço longo e quente, há muito tempo adiado.

Por um momento, nada mais no mundo interessava aos dois.

* *

"Está tudo bem, Major", disse Gendou, quando Misato disse que ia atrás de Shinji.

"Tem certeza, Comandante?" perguntou Misato.

"Sim, certeza absoluta..." disse, confiante. "Mudando de assunto, eu já pedi para que você me chamasse pelo meu nome..."

"Desculpe Com... digo, Gendou... mas você também continua me chamando de Major..." retrucou Misato.

"Er... bem... então vamos parar por aqui, certo... Misato?"

"Concordo", respondeu Misato, com um sorriso.

Gendou retribuiu o sorriso e foi até a porta, olhar o corredor. No mesmo momento, ele voltou dizendo:

"Não precisa mais se preocupar, eles estão vindo", disse, com um sorriso ainda maior no rosto.

Misato estranhou aquele sorriso. O que Gendou poderia ter visto que o deixaria daquele jeito? E o que ele queria dizer com 'eles'? Será que Shinji tinha mesmo ido atrás de Asuka? Será que...

Antes de Misato poder concluir seu raciocínio, Shinji e Asuka entraram pela porta e chegaram à sala, com um óbvio sorriso estampado em suas faces. Um sorriso ainda maior que o de Gendou se abriu em sua face quando ela notou que os dois estavam de mãos dadas.

* *

Misato ia falar alguma coisa para Shinji e Asuka, quando a campainha tocou. Ela foi ver quem era.

"Olá Rei, entre" disse Misato, acompanhando-a até a sala.

Rei notou Shinji e Asuka, e deixou escapar um sorriso maroto. Shinji e Asuka, que já estavam um pouco envergonhados, ficaram com suas faces totalmente enrubescidas.

"Rei... onde está a sua mala?" perguntou Misato, ao perceber que a menina de olhos vermelhos não carregava nada além de sua mochila de escola.

"Não tenho nenhuma mala, tudo que tenho cabe aqui", disse, apontando uma pequena sacola plástica de supermercado, onde carregava dois uniformes escolares extras, um maiô e um par de sapatos.

"Hmm... acho que precisamos dar um jeito nisso..." disse Misato. "O que acha, Asuka?"

Asuka acordou de seu torpor.

"Concordo!", disse.

"Ótimo, então. Gendou, Shinji, vocês podem ir. Eu e Asuka vamos levar Rei para um banho de loja."

"Banho de loja? Mas eu não posso pagar por isso..." disse Rei, tentando escapar.

"Claro que pode. Pilotos têm um salário também", disse Gendou.

"Têm?" disse Shinji, confuso. "Eu não sabia..."

"Eu também não... que salário é esse?" concordou Asuka.

"Ora... mesmo sem noção do jeito que eu era eu não ia ser louco de fazer os pilotos arriscarem a vida sem receberem nada em troca... além disso, já foi um sufoco para o Ministério do Trabalho do Japão nos deixar em paz..." explicou Gendou.

"Bem... mas mesmo tendo dinheiro, eu não tenho como gastá-lo..." disse Rei.

"Claro que tem... o seu cartão da NERV não serve só para entrar no Quartel-General..." retrucou o Comandante.

"Muito bem, agora que está tudo explicado... vamos!" disse Misato, pegando Asuka e Rei pela mão, e arrastando as duas para fora. Atrás delas, iam Shinji e Gendou.

Do lado de fora do apartamento, Misato trancou a porta e virou-se para Shinji.

"Bem, é isso. Shinji, não esqueça de vir nos visitar. Se bem que eu acho que não preciso dizer isso, já que a Asuka mora aqui..." disse, piscando um olho para Asuka, que, por sua vez, voltou a ficar vermelha, bem como Shinji.

* * *

Respeito. Era isso o que os Lilims lhe inspiravam. Ele os odiava, certamente, mas, ainda assim, eles lhe inspiravam respeito. Tinham conseguido derrotar todos os seus irmãos até agora. Mas a ele eles não poderiam sobreviver. Seus poderes estavam muito além dos poderes daquela cópia barata de Adão.

Ele observava Hakone do alto de uma montanha, contemplando Tokyo-3 e o Lago Ashinoko.

'Já não me importa mais quem vai habitar este mundo. Mas os humanos devem perecer. E logo irão. Só preciso encontrar Lilith, ela é a única que tem esse poder.'

Ele já sentira a presença de Lilith naquele lugar. Era apenas uma questão de tempo até ele descobrir como encontrá-lo e dominá-lo. Ele sabia que ele ainda devia estar com a Lança de Longinus enterrada em seu peito, como ele próprio o deixara na Lua Vermelha. De outra forma, ele mal conseguiria estar ali. A Luz da Alma de Lilith o impediria sequer de se aproximar daquele lugar.

'Não se esqueça, Tabris, que ela ainda é um membro da Suprema Tríade... você não pode com os poderes dela!' advertira Keel em seu último encontro. Idiota, ele jamais pretendera enfrentá-lo. Ele queria tirar proveito da sua vulnerabilidade e usar o seu poder sobre a humanidade para varrê-la da face da Terra.

"E, por falar em você, Keel... é hora de acertarmos nossas contas..." murmurou, olhando para Tokyo-3. Dizendo isso, dirigiu-se ao Quartel General.

* * *

"Belldandy, você tem certeza que não quer que a gente vá com você?" perguntou Urd.

"Sim. Essa missão é minha responsabilidade. Eu não posso envolver vocês nisso mais do que vocês já se envolveram. Eu tenho que resolver isso, de uma vez por todas", respondeu Belldandy.

"Mas, irmã..."

"Não se preocupe, Skuld, eu ficarei bem, prometo" disse Belldandy, interrompendo sua irmã mais nova com um sorriso.

"E quanto ao Keiichi?" perguntou Urd.

"Eu não quero que ele saiba aonde eu fui. Ele pode querer vir atrás de mim, e isso é tremendamente perigoso. Eu confio em vocês para mantê-lo aqui."

"Certo", respondeu Urd.

Belldandy respondeu com um sorriso, e saiu.

O apartamento ficava no mesmo prédio do de Misato, alguns andares acima. Belldandy andava calmamente pelos corredores, até o elevador. Subiu até o último andar e dirigiu-se para o teto. Por uma questão de minutos ela não encontrou Shinji e Asuka saindo dali, abraçados.

Belldandy, então, fez-se invisível e alçou vôo, indo rapidamente em direção ao Quartel-General.

* * *

Já era noite quando Rei chegou com Misato e Asuka ao apartamento de Gendou e Shinji. Obviamente, foram eles dois a descarregar o carro e levar todas aquelas sacolas para o quarto que seria de Rei – que já estava devidamente mobiliado. Gendou tinha providenciado pessoalmente para que tanto Rei como Shinji tivessem, cada um, uma cama, um grande guarda-roupas, uma estante e uma escrivaninha, além de decoração e equipamento apropriado em seus quartos.

Era de se estranhar tamanha dedicação em um homem que até bem pouco tempo antes desprezava Shinji mais que tudo e simplesmente usava Rei como se fosse uma ferramenta. Gendou parecia ser outra pessoa desde aquele acidente com Shinji. Misato estava certa que alguma coisa que acontecera no dia em que Shinji voltara de dentro do Eva 01 o tinha feito mudar – mas o que poderia tê-lo feito mudar tão radicalmente era um mistério.

Shinji e Gendou foram levar as coisas de Rei para o quarto e depois voltaram para a sala, onde Misato, Asuka e Rei estavam sentadas no sofá, descansando um pouco. Assim que eles chegaram à sala, Misato disse:

"Bem, é hora de ir. Vamos Asuka."

"Tá bem..." disse, sem muita vontade, Asuka.

"Até mais, Rei, Shinji", disse Misato. "Acredito que nos veremos amanhã, certo Gendou?"

"Certamente", respondeu Gendou, levemente constrangido.

"Tchau, Rei" disse Asuka.

"Até amanhã", respondeu Rei.

"Até logo, Comandante", disse para Gendou.

"Até logo, Asuka", respondeu o Comandante.

"Eu vou com vocês até lá fora", disse Shinji.

"Asuka, eu te espero lá em casa!" disse Misato, com um sorriso malicioso.

Shinji e Asuka coraram de novo. Isso já estava virando uma rotina.

Shinji resolveu levar Asuka até o prédio onde ficava o apartamento de Misato. Os dois tinham mesmo o que conversar, de modo que a caminhada seria útil.

"Como vamos encarar o pessoal na escola amanhã?" foi a primeira pergunta de Shinji.

"Não sei. Mas provavelmente a pior parte vai ficar com você..." respondeu Asuka.

"Por que?"

"Ora, Shinji... você acha mesmo que eu não conheço a minha fama? Você me subestima se você acha isso... já posso até ver aquele tonto do Touji falando: 'demônios também amam'..."

"Er... bem.... pode ser..." disse Shinji, constrangido.

"Piadinhas não vão faltar... pode ter certeza!" disse Asuka. Pegando na mão de Shinji, completou:

"Mas, sinceramente, eu não me importo... não mais."

Aquele sorriso de Asuka amoleceu completamente Shinji. Aqueles olhos azuis pareciam penetrar fundo em sua alma.

Os dois continuaram conversando, por muito tempo, até chegarem ao apartamento de Misato. Chegando lá, finalmente se despediram. Dessa vez, Asuka não precisou pedir, Shinji não prendeu a respiração. Os dois se aproximaram um do outro, e Shinji colocou seus braços em volta de Asuka. Eles olharam um nos olhos do outro, e viram que aquilo era o que deveriam ter feito muito tempo antes. Mas não era o momento de remoer o passado, mas sim de viver o presente. Seus rostos de aproximaram lentamente e, aos poucos, eles fecharam seus olhos. Asuka pendeu um pouco a cabeça para a direita, e então aconteceu. Seus lábios se tocaram, e Shinji e Asuka finalmente deixaram sair o que estivera preso em seus corações por tanto tempo. Mesmo sendo ainda tão jovens, mesmo sendo chamados de crianças, não hesitaram em demonstrar o que sentiam um pelo outro. Continuaram abraçados ainda por algum tempo, de olhos fechados, apenas apreciando aquele momento o máximo que podiam. Seus corações pareciam ter parado por um instante, para voltar a bater no instante seguinte, com força renovada e em perfeita harmonia um com o outro.

Shinji e Asuka estavam juntos. E nada em todo o mundo poderia separá-los naquele instante.

* * *

O dia seguinte amanheceu em Tokyo-3. Shinji acordou um pouco mais cedo que de costume, tomou uma ducha e foi preparar o café da manhã. Ao chegar na cozinha, no entanto, encontrou seu pai e Rei já prontos e tomando seu café.

"Bom dia", disse Gendou.

"Er... bom dia" respondeu Shinji, um pouco confuso. "Eu ia preparar o café..."

"Não precisa, Shinji. Eu também sei cozinhar", explicou Gendou.

"Tudo bem... é que eu estava acostumado a preparar o café para todo mundo na casa da Misato..."

"Eu acho que todos nós vamos ter que nos reacostumar, agora que vivemos juntos..." disse Rei.

"É... eu acho que você tem razão..." disse Shinji.

"Especialmente você, Rei..." disse Gendou, com um toque de mistério.

"Como assim?" perguntou Shinji, confuso.

"Me encontrem hoje depois dos testes de sincronização. Há algo que eu preciso mostrar a vocês", respondeu Gendou.

* *

Shinji saiu de casa carregando uma sacola, além da sua usual mochila de escola. Se, por um lado, não precisava mais se preocupar em preparar o café para três pessoas, Misato e Asuka tinham ficado sem quem fizesse isso por elas. Por isso, preparou o café da maneira usual, embrulhando-o e colocando-o em uma sacola. Rei o acompanhou.

Gendou, por sua vez, saiu junto com eles, indo, no entanto, direto para a estação de trem, onde pegaria o transporte para o Quartel General.

Shinji chegou com Rei às sete e meia da manhã no apartamento de Misato. Ele sabia que era mais ou menos a essa hora que as duas acordavam; conseguira, a muito custo, acostuma-las a acordar mais cedo para tomar um café da manhã decente. Tocou a campainha, cujo som foi seguido por um rugido de quem havia acabado de acordar.

A porta se abriu, para revelar Misato no seu estado atual de toda manhã: ainda de pijamas, coçando a barriga e resmungando.

"Bom dia, Misato", disse.

"Bom dia, Shinji-kun... Rei..." respondeu a Major.

"Bom dia, Major", disse Rei.

"Eu trouxe o café para vocês", disse Shinji.

"Ah, Shinji... não precisava..." disse Misato, dando licença para Shinji e Rei entrarem no apartamento. "Eu mesma ia preparar alguma coisa..."

"Você tinha razão em se preocupar, Shinji..." comentou Rei.

O coração de Shinji parou por um breve instante ao ouvir a segunda moradora daquele apartamento sair de seu quarto.

"Misato, quem... ah, oi... bom dia..." disse Asuka, ao sair do quarto que antes era de Shinji. Ela tinha uma expressão de quem não dormira direito a noite inteira.

"Bom dia, Asuka..." respondeu Shinji. Seu coração batia forte agora. "Eu trouxe café pra vocês..."

Asuka olhou para a sacola que Shinji trazia. Depois, olhou com um sorriso vencedor na cara para Misato.

"Tá vendo? Eu não falei?", disse.

"Sim, sim... tudo bem, Asuka... você acertou..." disse Misato, contrariada.

"Desculpe a intromissão, mas... o que está acontecendo aqui?" perguntou Rei.

"É que eu e a Misato apostamos pra ver se o Shinji ia passar aqui hoje de manhã", explicou Asuka.

"Pelo jeito, eu ganhei..." concluiu, ainda sorrindo para Misato.

Shinji foi até a cozinha e colocou o café na mesa para que Asuka e Misato pudessem se servir.

"Vocês não vão comer?" perguntou Misato, ao perceber que Shinji e Rei não faziam menção de se juntarem a ela e Asuka.

"Nós já comemos em casa, obrigada", respondeu Rei.

"Então, tudo bem", disse Asuka, aproveitando para pegar mais uma torrada.

* *

Terminado o café da manhã, Shinji, Asuka e Rei saíram para ir para a escola, deixando Misato em casa, arrumando-se para ir para o Quartel General.

Pouco depois, encontraram Touji e Kensuke, esperando no meio do caminho. Como usual, os dois correram para trás de Shinji para se proteger de Asuka.

"Esqueçam, seus idiotas, hoje vocês não vão ter o prazer de apanhar", retrucou Asuka ao movimento defensivo dos garotos. "E larguem o Shinji, já!", ordenou, puxando Shinji pelo braço para ficar ao seu lado. Nesse momento, o sinal de pedestres abriu. Asuka e Shinji, devidamente embaraçado, atravessaram a rua, seguidos por Rei e por Touji e Kensuke, esses dois últimos completamente bestificados.

"T-traidor..." murmurava Kensuke, olhando aterrorizado para Shinji.

Touji não sabia se ria ou se chorava de olhar para aquele casal, que não deixava de ser cômico, afinal de contas Asuka praticamente arrastava Shinji; a diferença é que agora ele estava a seu lado, e não atrás dela.

Rei apenas acompanhava o grupo, observando atentamente o comportamento de Asuka e Shinji. Ambos estavam muito diferentes de antes; Shinji deixara de ser o garoto tímido e assustado que chegara a Tokyo-3 durante o ataque do Terceiro Anjo.

* *

Na escola, como esperado, todo mundo parou para ver Shinji e Asuka almoçarem juntos pela primeira vez; Shinji sempre fizera o almoço de Asuka quando morava no apartamento de Misato, mas eles jamais haviam almoçado juntos – Shinji sempre ficava com Kensuke e Touji, enquanto Asuka ficava com Hikari e outras meninas. Outra coisa que tornava isso um fato bem curioso é que Asuka nunca sorria sem maldade para nenhum garoto na escola; no entanto, ela conversava animadamente com Shinji, distribuindo sorrisos a torto e a direito – de fato, o comportamento de Asuka tinha atraído a atenção tanto dos meninos da escola, cuja boa parte morria de inveja da sorte de Shinji, quanto das meninas, das quais uma parte igualmente grande tinha inveja de Asuka.

Fora isso, no entanto, o dia na escola se arrastou. O professor Fujisawa não cansava de falar sobre o Segundo Impacto. Ninguém, de fato, se lembrava de ele não ter passado um dia sequer sem falar a respeito. A única diferença era a incansável troca de mensagens entre os alunos através da rede de computadores da sala de aula. Shinji e Asuka eram seus principais alvos, obviamente.

Rei, invariavelmente, ficava olhando pela janela, ignorando completamente – bem como a maioria dos alunos – a ladainha do professor. Pensava, naquele momento, onde estaria Belldandy. Já fazia alguns dias que não a via, nem mesmo no Quartel General, onde supostamente ela estava infiltrada, disfarçada de major. A situação, apesar do que inspirava a relação de Shinji e Asuka, era bem preocupante; segundo Belldandy, a maior ameaça à humanidade estava prestes a chegar, na forma do mais terrível dos Anjos que tentavam destruí-la: Tabris. Quando ele atacaria? Mais importante, *como* ele atacaria? Os Anjos costumavam ter aparências nada usuais ou nem mesmo agradáveis... qual seria a forma desse último?

O toque de cinco celulares na sala de aula, seguido do barulho provocado pela sirene da escola e, logo depois, as da cidade, pareceram responder à sua primeira pergunta. Logo eles saberiam quem era aquele que eles esperavam que fosse o último Anjo.

* * *

Quando eles chegaram à NERV, no entanto, descobriram que não se tratava de nenhum a ameaça de algum Anjo; a situação parecia ser ainda mais séria.

"Misato! O que está acontecendo? O que pode estar atacando, se não é um Anjo??" perguntou Asuka, assim que encontrou Misato.

"Há vários Evas vindo pra cá, de várias direções!" disse Misato, rapidamente.

"Como é?" perguntou Kensuke, colocando-se à frente do grupo.

"Isso mesmo. Tem Unidades Evangelion desconhecidas vindo pra cá neste momento. Shinji, Asuka, Rei, Hikari, vão até as gaiolas, vocês vão encontrar a Ritsuko e o Kaworu lá", ordenou Misato. "Kensuke, você vem comigo."

"Ritsuko e quem??" perguntou Asuka.

"Kaworu, a Quinta Criança. Eu já não tinha apresentado vocês?"

"Er... eu acho que não, Misato..." disse Shinji.

"Droga, que cabeça a minha..."

"Apresentou, sim, Misato... é que foi no dia em que o Comandante..."

"Ah, sim. É verdade...", disse Misato, interrompendo Asuka. "Acho que o Shinji mal notou que ele estava ali... bem, vocês o encontrarão nas gaiolas. Não temos muito tempo. Kensuke, vamos!"

"Sim, senhora!" respondeu Kensuke, seguindo Misato.

Shinji e os outros foram para os vestiários, trocar de roupa. Quando estavam com seus plug-suits vestidos, dirigiram-se para as gaiolas, onde entrariam em seus Evas. Lá, eles encontraram Ritsuko e um garoto de cabelo cinza e olhos vermelhos – o que deixou Rei bastante apreensiva.

"Olá, crianças. Acho que vocês já conhecem o Kaworu, a Quinta Criança. Ele é o piloto designado para o Evangelion Unidade 04", introduziu Ritsuko.

"Olá", disse Kaworu.

"Olá, muito prazer", disse Shinji, apertando a mão de Kaworu, que retribuiu pressionando delicadamente a mão de Shinji.

Asuka notou a maneira como Kaworu olhou para Shinji, e obviamente não gostou nada.

"Fique longe do Shinji", murmurou Asuka para o garoto de cabelos cinzentos.

Ao ouvir isso, Kaworu piscou por um instante, parecendo desconcertado. Depois, lançou um olhar malicioso para Asuka, que tinha se colocado bem no meio da linha de visão entre ele e Shinji.

Hikari e Rei não puderam deixar de achar aquilo engraçado. Aparentemente, Asuka era *realmente* ciumenta.

Kaworu, então, voltou-se para elas duas.

Rei, por sua vez, nada disse. Apenas uma troca de olhar entre ela e o garoto foi capaz de substituir qualquer conversa. Apenas por formalidade, eles apertaram as mãos.

Pela primeira vez em muito tempo, a expressão na face de Rei tinha voltado a ser aquela mesma expressão absolutamente neutra, sem qualquer demonstração de sentimento ou algo parecido. Essa expressão havia desaparecido há algum tempo da face de Rei; mas não demorou muito para que Rei voltasse ao normal, de modo que ninguém chegou a perceber isso.

"Chega de formalidades, pessoal. Há uma ameaça séria vindo aí. Vocês precisam acionar os Evas o quanto antes", disse Ritsuko. Como que adivinhando, seu intercomunicador tocou.

"Ritsuko, o que está acontecendo aí embaixo? Porque os Evas ainda não estão prontos?" interrogou Misato através do aparelho.

"Eles já estão indo", respondeu.

Os cinco pilotos entraram nos entry-plugs e acionaram os Evas, quase todos ao mesmo tempo. Hikari ainda não estava totalmente acostumada com o procedimento completo.

"Não se preocupe, Hikari, se tudo der certo, você nem vai precisar se acostumar com isso", disse Shinji, através do intercomunicador, tentando consolar a menina, que parecia um tanto nervosa. Uma pequena ruga fez-se visível na testa de Asuka, e ela só desapareceu depois que Shinji pediu desculpas pelo canal privado.

Os cinco gigantescos robôs se alinharam nas linhas de lançamento.

Para quem estava por perto, a visão era única: o Evangelion azul de Rei era o primeiro, à esquerda, seguido pelo púrpura de Shinji, o vermelho de Asuka, o preto de Hikari e o verde de Kaworu.

"Evangelion, Unidades 0 a 4! Lançar!", ordenou Misato.

No mesmo instante, as amarras das cinco Unidades se soltaram e eles foram catapultados a toda velocidade em direção à superfície. Cinco aberturas localizadas ao redor de Tokyo-3 se abriram e os Evas saíram cada um por uma, de forma que eles formassem um círculo com alguns quilômetros de diâmetro cujo centro coincidia com o centro da cidade.

Alguns minutos muito tensos se passaram, com as comunicações cortadas. Todos estavam com os olhos fixos no horizonte, esperando ver alguma coisa. Nada aparecia. No entanto, segundo as indicações do MAGI, havia nada menos que nove Unidades se dirigindo ao Geofront. No entanto, ainda não haviam indicações visuais.

"Eu estou vendo", disse Rei, cortando o silêncio. Todos os Evangelions olharam na direção apontada por Rei.

"Concentrem-se nessa direção", ordenou Misato. Imediatamente, todas as Unidades se movimentaram até ficarem umas do lado das outras, formando uma fileira, esperando a chegada do inimigo.

* * *

Belldandy estava no Quartel General. Devia aproveitar a chance que tinha, devido ao ataque repentino, e tentar encontrar o lugar onde Lilith se encontrava. De algum modo, ela soubera, desde a primeira vez que entrara no GeoFront, que aquele lugar era a lendária Lua Vermelha; portanto, Lilith só poderia estar ali. Era apenas uma questão de descobrir onde ele estava.

A Lenda não falava nada a respeito do confronto entre os anjos rebeldes e Lilith, de forma que Belldandy não imaginava como poderia encontrá-lo. Provavelmente, estava com sérios ferimentos, pois Belldandy mal conseguia sentir sua presença ali; era necessário um esforço além do comum para conseguir senti-lo.

* * *

Aos poucos, nove Evangelions brancos apareceram no horizonte. Parecia uma piada de mau gosto: alguém que dividia dos segredos da NERV aparentemente estava querendo se livrar deles.

"Keel, seu idiota..." murmurou Gendou.

"Ikari... o que houve?" perguntou Fuyutsuki, ouvindo o murmúrio do Comandante.

"São os velhotes, Kouzou. Esse é o ataque deles", disse Gendou, se retirando. "Por favor, assuma."

"Certo", respondeu Fuyutsuki, entendendo qual era a sua intenção.

Gendou saiu da Sala de Controle, e se dirigiu ao setor de detenção do Quartel General. Foi até o bloco de segurança máxima, no qual as celas não tinham nada mais que um vaso sanitário, uma cadeira e uma lâmpada bem fraca. Cada um desses cubículos era separado do mundo exterior por uma parece de trinta centímetros de concreto e por uma porta não menos desprezível.

Gendou caminhou um pouco e parou à frente de uma dessas celas. Digitou um código no terminal que havia ao lado da porta, fazendo-a deslizar para a direita, revelando, dentro do quarto, o responsável por aquele ataque repentino.

"Heheh... eu te avisei, Ikari... você não tem como escapar...".

"Pelo contrário, Keel... você é que está perdido. Mesmo que os seus Evas já tenham o órgão S², eles não serão capazes de nos atingir... nós temos tem 5 Evangelions... e nenhum deles é controlado por uma marionete..." respondeu Gendou.

"Heh... até parece... e a Primeira Criança, o que é então?"

"Ela deixou de ser uma marionete já faz tempo", retrucou.

Keel deixou escapar um sorriso malicioso.

"Ah, é? Tenho certeza que você soube aproveitá-la muito bem, então...", disse.

Gendou acertou um murro na cara de Keel assim que este terminou de falar, arrebentando seu aparelho ótico.

"Não se atreva a repetir uma coisa dessas."

"Heh... ficou nervosinho, é?" disse Keel, com a mão sobre seus olhos, que agora eram inúteis. Sem aqueles óculos especiais, Keel era completamente cego.

"Você está acabado, Keel. E eu vou garantir que você não interfira mais" finalizou Gendou. "Podem retirá-lo", ordenou. No momento seguinte, três soldados entraram na cela e levaram Keel. Gendou saiu atrás deles.

"O que há, Gendou? Aceitou a minha ajuda até agora, e de repente você se volta contra mim! O que houve com você? Aquele moleque te amoleceu, é?" gritou Keel.

Keel nem parecia mais o mesmo. Em outras situações, ele jamais teria falado daquele jeito, e muito menos teria gritado. Parecia, agora, nada mais que um velho rabugento e fraco. Ao que parecia, nem mesmo ele era inatingível.

Gendou andou até a frente dele, e o agarrou pelo colarinho, levantando-o do chão. A sua feição naquele momento realmente assustou até mesmo os soldados que estavam carregando Keel.

"Aquele... moleque, seu velho idiota... é meu filho!"

* * *

Os Evangelions inimigos estava agora frente a frente com as Unidades da NERV. As duas fileiras se encaravam, esperando quem fizesse o primeiro movimento.

De repente, as Unidades inimigas se curvaram, e asas saíram de suas costas. Alarmados, Shinji e os outros se prepararam para o ataque; no entanto, ao contrário do que esperavam, elas não atacaram; alçaram vôo e pousaram novamente, formando um círculo em volta dos cinco. Como que reagindo naturalmente, eles também formaram um círculo, voltados para fora, encarando os inimigos.

* * *

Belldandy continuava procurando por alguma pista de Lilith. Já tinha conseguido chegar a um nível bem mais subterrâneo da base, estando agora numa área surpreendentemente parecida com a base que havia mais acima; ao que tudo indicava, aquele lugar havia sido abandonado por algum motivo.

"Olá, Major, não esperava encontrá-la por aqui", disse alguém, subitamente, assustando Belldandy.

"Quem...?" disse Belldandy, voltando-se para ver de quem se tratava.

"Eu não sabia que você também dava uma de espiã, de vez em quando..." disse Kaji, saindo das sombras.

"Kaji-san...? O que faz aqui?" perguntou Belldandy, se recompondo do susto.

"Provavelmente a mesma coisa que você... estou tentando descobrir a verdade a respeito da NERV e dos Evangelions... há muitos mistérios que rondam essas armas, que todos dizem ser a nossa única esperança... você não concorda comigo?" disse, apontando uma arma para Belldandy.

Belldandy, por sua vez, percebeu o risco que Kaji acreditava que ela corria, e resolveu deixá-lo acreditar que realmente a ameaçava. Talvez assim pudesse descobrir alguma coisa.

"Er... Kaji-san... não é o que você está pensando...", disse.

"Como assim, não é o que eu estou pensando? Até parece que você não está ligada ao Comandante, provavelmente fazendo contra-espionagem para me desmascarar..." disse Kaji, acreditando firmemente que Belldandy estava ali para investigar suas ações. "Por isso, vou te mostrar o que o Comandante guarda com tanto cuidado...", disse.

Belldandy, imaginando o que Kaji poderia ter descoberto, apenas o seguiu pelos corredores escuros.

Aquele lugar era incrivelmente parecido com a base atual. Aquele próprio lugar parecia ter sido usado como base, antes do atual. O que teria acontecido para forçar todos a construírem um novo complexo? Belldandy seguia Kaji por vários corredores, passando por salas que, excetuado o caos em que se encontravam, eram idêntica às atuais, centenas de metros acima, inclusive uma sala que lembrava uma sala de testes de sincronia, com os vidros de proteção quebrados, com uma marca que parecia ter sido originada pela mão de um Eva.

Eles continuaram andando, até chegar a uma grande porta de metal. Kaji abriu-a utilizando um código numérico e passando o seu cartão por um leitor. A porta se abriu, para revelar outro corredor, onde eram visíveis várias portas de metal fechadas, e um portal gigantesco ao fundo. Um Eva passaria por aquele portal.

Kaji foi andando direto até ele, achou um console que ficava à esquerda, na parece, digitou dois códigos e passou seu cartão. Nesse momento, a imensa porta de metal começou a se movimentar, revelando o que havia na sala seguinte.

* * *

"Eu não agüento mais esperar! Eu vou atacar!" disse Asuka.

"Asuka, espere!" disse Misato pelo intercomunicador. Mas já era tarde. Asuka investia contra um dos Evas inimigos, lança em punho.

"Shinji, me dê cobertura!" gritou.

"C... certo!" respondeu Shinji, se movimentando para ficar logo atrás da Unidade 02.

Asuka investiu com tudo no primeiro Eva, fincando a lança com toda força eu seu peito, danificando o núcleo. Jogando-o no chão e se apoiando em cima dele, tomou a sua arma, que parecia uma grande lâmina, com dois espaços para as mãos de um Eva. Feito isso, ela partiu para cima do segundo Eva, que rechaçou o golpe.

"Bem, então é isso... eu não vou ficar aqui parado", disse Kaworu, investindo também contra a Unidade que estava ao lado da que Asuka estava atacando.

"Hikari... vamos ficar aqui, dando cobertura aos três", disse Rei.

"Certo", respondeu Hikari.

As Unidades de Rei e Hikari se posicionaram de forma a cobrir a retaguarda de Shinji, Asuka e Kaworu o melhor possível, armadas com duas lanças de lâmina progressiva – uma espécie de faca progressiva com um cabo muito longo.

Asuka manejava com certa dificuldade a estranha lança que tomara do primeiro Eva, mas conseguia se desviar dos ataques do inimigo. Kaworu, por sua vez, também tinha conseguido tomar a arma de seu inimigo, golpeando-o na cabeça logo em seguida.

O Eva que estava à direita de Shinji ameaçou atacar Asuka, o que fez Shinji reagir e atacá-lo. Antes que o Eva inimigo pudesse perceber, Shinji tinha enfiado o machado da Unidade 01 em seu núcleo, tirando-o de ação.

'Não importa se há uma pessoa aí dentro...' pensava Shinji consigo mesmo. 'Se ela tenta machucar a Asuka, eu não me importo...'

Asuka conseguiu desviar do inimigo e acertar um golpe certeiro em seu pescoço, quase arrancando-lhe a cabeça.

Contando com os Evas inimigos que Shinji e Kaworu havam derrubado, quatro deles já haviam sido inutilizados, de forma que haviam restado cinco.

"Ótimo... agora é um pra um..." comentou Asuka entre os dentes.

Naquele momento, o Comandante chegou à Sala de Controle.

"Qual a situação?" perguntou.

"São nove Evas inimigos ao todo", disse Misato. "Quatro deles já foram derrubados. No momento eles estão parados. Os nossos Evas estão em círculo, de costas uns para os outros, cercados pelos inimigos" concluiu, imaginando porque os outros Evas não aproveitaram quando Asuka atacou.

"Mande-os atacar", ordenou Gendou.

"Entendido", respondeu Misato. "Vocês ouviram! Ataquem!", ordenou pelo microfone.

"Espera!" disse Hikari, no momento em que os cinco Evas iam avançar para atacar os inimigos. "Se a gente atacar sem mais nem menos, a gente não vai ter muita chance. Eu proponho que eu e Rei fiquemos na retaguarda de vocês três. Assim, vocês podem atacar enquanto a gente cuida pra que vocês não sejam atacados".

"Hikari está certa", disse Misato. "Façam como ela propôs."

"Entendido!" disseram as cinco vozes através do intercomunicador.

Logo depois disso, os Evangelions azul e preto se posicionaram de forma a cobrir o verde, o vermelho e o púrpura.

Asuka foi a primeira a avançar, usando a lâmina que havia tomado do primeiro Eva para atacar o que estava bem à sua frente. Ela foi acompanhada de perto por Shinji e Kaworu, que fizeram o mesmo, pela sua direita e pela esquerda, respectivamente.

Asuka tentou acertar a cabeça de seu inimigo com a lâmina, mas ele se defendeu com a sua própria, fazendo a arma de Asuka voltar pelo caminho que havia feito. Ato contínuo, o Eva inimigo fez o mesmo, não dando tempo a Asuka de bloquear o ataque. Ela girou o corpo, de forma que a lâmina passou de raspão pelo peito de seu Eva. Com a força do golpe, a lâmina ficou presa no chão, o que possibilitou a Asuka dar um golpe certeiro no Eva inimigo, arrancando-lhe a cabeça.

"Heh... menos um!" disse, comemorando.

Kaworu atacou o Eva à sua frente. Investiu contra ele e, desviando-se do golpe defensivo, fincou sua lança no peito da Unidade inimiga, sem dar muita chance de reação.

"Sua vez, Shinji... mostre o que sabe... heheh..." disse Asuka, desafiando.

"Asuka, não destraia o Shinji!", bronqueou Misato pelo intercomunicador.

"Tá, tá..." resmungou a ruiva.

Shinji preferiu esperar o Eva branco atacar, o que levou algum tempo, já que os dois não pareciam ter a tendência de tomar a iniciativa.

"Ah, eu não vou ficar aqui assistindo... ainda tem mais dois Evas inimigos pra atacar!" disse Asuka, virando-se para atacar mais um Eva. Quando ela fez isso, ela notou o que ninguém havia percebido: Rei e Hikari estavam sofrendo para conter dois Evas brancos e furiosos. "Droga!" disse, correndo para ajudá-las, pulando em um deles. Kaworu preferiu ficar na retaguarda das três meninas.

Os três inimigos que Rei e Hikari tentavam deter atacavam furiosamente, e elas se defendiam como podiam; Rei se esquivava dos ataques e dava chutes para afastá-los, enquanto Hikari preferia simplesmente investir contra eles, torcendo que eles não a acertassem; de fato, alguma experiência fazia falta nesse caso. Asuka pulou justamente no eva que a estava atacando naquele momento, com a lança direcionada à face dele. Ela não acertou em cheio, mas causou um grave ferimento em seu ombro. Ato contínuo, Asuka aproveitou a investida de Hikari contra esse Eva e, quando ele caiu no chão, fincou a lança em seu peito, acertando-o no seu núcleo.

Shinji, por sua vez, finalmente cansou-se de esperar que o Eva o atacasse. Resolveu investir contra ele, com o machado armado, pronto para acertar o pescoço do inimigo. No entanto, a lança dele veio repentinamente contra ele, e ao se esquivar ele perdeu o equilíbrio, o que o fez cair no chão, do lado direito de seu oponente, que o olhou de cima abaixo, e moveu a sua lança numa circunferência rente ao chão, tencionando cortá-lo ao meio, mas foi impedido por Kaworu, que colocou a sua própria lança no meio do caminho, impedindo que ele atingisse a Unidade 01. Graças a isso, Shinji, sem pensar muito, pôde se levantar e atingir o abdômen do inimigo com o machado, provocando um grande ferimento. Isso fez com que ele se curvasse, e Shinji acertou um segundo golpe com o machado no que seria o seu queixo, arrancando sua mandíbula. Kaworu aproveitou e acertou um golpe certeiro com sua lança na região entre o pescoço e o ombro do oponente, criando uma abertura que seguia até quase alcançar a metade de seu dorso. Isso o tirou completamente de ação.

Shinji olhou impressionado para seu novo colega.

"O-obrigado..." disse.

"De nada..." respondeu Kaworu, com um sorriso.

Restava apenas um deles agora.

Rei e Asuka se entreolharam por um momento.

O que aconteceu em seguida deixaria a todos perplexos. Rei se abaixou e pegou a lança do Eva que Asuka tinha acabado de derrubar e a empunhou com o braço direito. Asuka empunhava a sua com o braço direito. As duas se alinharam, e cruzaram as duas lanças na diagonal, formando um "X" à frente delas. No momento exato, quando o Eva inimigo ficou bem à frente delas, as duas partiram, investido contra ele; quando chegaram perto, começaram a erguer as duas lanças rapidamente, empregando todas as suas forças, num ataque em forma de cruz que atingiu ambos os alvos, derrubando-o na mesma hora; ato contínuo, elas fizeram uma volta no ar com suas lanças e as cravaram nos seus oponentes.

Dessa forma, elas finalizaram magistralmente a defesa de Tokyo-3 de sua maior ameaça até então. Elas próprias ficaram impressionadas com tal trabalho de equipe; considerando-se que elas mal se suportavam quando se conheceram, aquilo era um avanço inegável.

* * *

Muito abaixo de onde a batalha ocorria, Kaji e Belldandy esperavam que a imensa porta na frente da qual eles se encontravam se abrisse. Assim que se abriu uma fenda de um pouco mais de um metro, eles passaram para uma imensa sala que, ainda que mal iluminada, parecia realmente gigantesca.

Belldandy sentia agora uma presença muito forte; estava certa de que Lilith estava ali.

De fato, quando as luzes se acenderam, elas revelaram um imenso ser de aparência humana, aproximadamente do tamanho de um Evangelion. Ele estava preso a uma imensa cruz vermelha. Além disso, havia um a imensa lança cravada em seu peito – a Lança de Longinus.

Belldandy estava boquiaberta.

Kaji soltou um sorriso vitorioso.

"Pelo jeito você não sabia disso... não sabia que o Comandante esconde Adão aqui embaixo...", disse.

"Esse não é Adão..." retrucou Belldandy. "Esse é Lilith... aprisionado na Lua Vermelha pelos Anjos Rebeldes em tempos imemoriais...", disse, com o olhar fixo na máscara que cobria o rosto de Lilith.

Dessa vez, Kaji foi quem ficou boquiaberto.

"O que...?" perguntou, hesitante.

Belldandy nunca parecera tão séria antes.

"Se Lilith realmente está aqui, quer dizer que a ameaça realmente existe e é muito séria... talvez o próprio Tabris já saiba a respeito deste lugar...", dizia para si mesma.

"Do que você está falando?" disse Kaji, exasperado. Aquela major sabia muito mais do que ele imaginava. Kaji mal sabia do que ela estava falando. "Que história é essa de 'Tabris' e 'Lilith'?", interrogou, apontando uma arma para Belldandy.

Belldandy olhou para o rosto desconcertado de Kaji. Ela soltou um sorriso misterioso, e saiu tranqüilamente pela imensa porta, desaparecendo na escuridão.

Kaji ficou ali ainda, por algum tempo. Virou-se e observou Lilith. Por um instante, ele achou que era alvo de seu olhar.

Voltou-se para sair, não sem antes dar uma última olhada para o grande ser branco às suas costas. 'Será possível...?', pensou. E retirou-se, deixando as luzes atrás de si iluminarem Lilith.

A imensa porta se fechou com um estrondo.

Com imensa dificuldade, Lilith ergueu sua cabeça na direção de onde viera aquele ruído.

"Finalmente... é chegada a hora da retomada..."