Parte Dois

David está tentando dormir. Tipo, ele realmente está tentando dormir, de fato tanto que ele está, mesmo, contando carneiros. Sim, carneiros estão pulando uma cerca em sua mente. Ele está ficando mais agitado do que cansado, entretanto.

De repente, ele ouve risadas e abre seus olhos para olhar para Pierre. Ele está escorado na batente da porta do banheiro do quarto de hotel deles; seu cabelo está molhado, desde que ele acabou de sair do banho. O sorriso que ele está mandando para David ainda o faz derreter depois desses três anos.

-O quê? – David resmunga, tendo ficado bom em esconder suas emoções do vocalista. Eles estavam promovendo seu segundo álbum afinal, o que queria dizer já era quase três anos com seu pequeno segredo.

-Nada. – Pierre responde, diversão ainda em seus olhos. – Mas o bico que você estava mandando para o teto, com os olhos fechados, estava bem engraçado.

David o olha de cara feia: - Eu te odeio.

Pierre não diz nada, enquanto anda para dentro do quarto e se joga na cama de David, ao lado dele, empurrando-o para que os dois caibam na cama. A carranca do baixista fica maior, mesmo que ele esteja lutando contra um corar. Ele odeia que Pierre ainda cause essas reações nele e tudo o que ele pode fazer é tentar escondê-las dele.

-Ei, David. – Pierre diz, seus olhos no teto e um pequeno franzir em suas sobrancelhas. – Eu estava pensando em uma coisa.

Virando-se de lado, então ele estava encarando Pierre, ele pega essa chance para olhar para o rosto do outro de perto.

-Mm?

-Você se lembra do que você disse há dois anos?

David pisca, enquanto sente uma revirada temerosa em seu estômago. Eles nunca tinham falado sobre isso novamente e ele pede a Deus que Pierre não esteja pensando nisso agora. Não antes ou depois do que Sebastien disse. Por favor.

Mantendo todo seu nervosismo para si mesmo, ele responde: - Cara, eu disse um monte de coisas.

Pierre sorri um pouco perante isso: - É, eu tenho notado como você nunca cala a boca.

Empurrando-o levemente, David murmura: - Idiota.

Seu sorriso se alargando, Pierre vira sua cabeça para olhar para David, mas seu sorriso some quando aquele olhar contemplativo volta: - É sério. Você contou pra ele?

David desvia o olhar nervosamente: - Pierre...

-Eu não vou pressionar. – Pierre informa calmamente. – É só que Sebastien trouxe a tona um ponto válido. Nós sabemos que você é gay há dois anos e você nunca namorou um cara. – o franzir dele se intensificou. – E, exceto por aquele cara que você me disse que estava apaixonado, você nunca mencionou ou pareceu gostar de qualquer outra pessoa.

Os olhos de David encaram o colchão, enquanto sua voz se tornando tensa: - Pierre.

-Eu te disse que você podia me contar qualquer coisa. – Pierre diz e David pode ouvir o fraco traço de magoa em sua voz. – Eu nunca mencionei isso ou contei para alguém por dois anos, David. Eu só... – ele suspira. – Você guarda isso há tanto tempo e ele sequer sabe. Eu não acho que seja realmente justo.

David faz seu melhor para não se inquietar, enquanto pergunta: - Como você sabe se eu não gosto dele mais?

-David. – é uma palavra, mas David não precisa de outras, por que é claro que Pierre sabe. Eles são melhores amigos. A ironia, é claro, é que Pierre não sabe que é ele, não escapa de David.

Com um suspiro, David murmura: - É complicado.

-Por quê? – Pierre pergunta suavemente.

David mordisca seu lábio inferior e deseja que aqueles malditos carneiros tivessem funcionado, por que ele não quer ter essa conversa. Ele não quer acabar confessando, quando ele sabe que Pierre não vai retribuir.

-David? – Pierre diz novamente, mas quando David não dá nenhuma indicação de que ele sequer está ouvindo, Pierre continua. – Ei, olha pra mim?

Ele lentamente ergue sua cabeça, realmente desejando que Pierre não tivesse tanto poder sobre ele, por que isso sempre o coloca nesse tipo de situação. Quando seus olhos se encontram, o sorriso de Pierre é suave. É o sorriso que ele dá quando ele está tentando ser amigo e confortante. David odeia esse sorriso, por que isso o lembra que Pierre não o ama.

-Ele gosta de garotas. – David, de repente, se ouve dizendo. Sua voz soa amarga até para si mesmo.

Pierre franze o cenho, antes de simpatia preencher suas expressões, assim que ele alcança David e o puxa. David suspira um pouco quando sua cabeça descansa no ombro de Pierre: - Você tem certeza?

-Eu... Meio que tenho? – ele sente os braços de Pierre se enlaçar ao seu redor e ele, hesitante, faz o mesmo com Pierre, continuando. – É muito arriscado para tentar.

-Você não vai se arrepender eventualmente?

David hesita, antes de responder quietamente: - Provavelmente, mas machucaria mais não tê-lo de nenhuma maneira, mesmo se isso signifique continuar platônico.

A mão de Pierre está acariciando levemente as costas de David: - Eu ainda acho que você deveria deixá-lo saber.

-Bem, o que você faria se eu confessasse pra você? – no segundo em que isso sai, David sente seus olhos se arregalarem e ele quer se chutar e, talvez, correr para o mais longe que ele pode. Por que, porra, ele disse isso?!

Se Pierre notou seu pânico interno, entretanto, ele não mostra, enquanto responde, não perdendo nenhum momento da conversa: - Eu não teria problemas com isso. Só pessoas inseguras teriam e pessoas assim realmente não valem seu tempo, David.

O coração de David está batendo rapidamente, mesmo que ele faça seu melhor para manter sua respiração controlada: - Você promete?

Ele pode ouvir a confusão na voz de Pierre quando ele responde: - Sim, é claro.

Lentamente erguendo sua cabeça, ele olha nos olhos confusos de Pierre e, quando seus olhares se encontram, David sente a esquina de seus lábios se erguerem em um sorriso esperançoso, que também mostra todo seu nervosismo. Os olhos de Pierre se arregalam quase instantaneamente e os olhos de David se abaixam, enquanto ele rapidamente pega a sua única chance e, levemente, dá um selinho nos lábios do outro.

Mal dura um segundo, antes que ele se afaste completamente, os braços de Pierre caindo do redor do seu corpo para descansar na cama. Ele olha para o rosto abalado de Pierre, antes de rapidamente olhar para seu colo, amedrontado.

-Você... Você prometeu que não ficaria bravo. – David murmura, sentindo-se como ele se sentiu há dois anos, nervoso e completamente vulnerável.

-É. – Pierre murmura e David sente uma mão agarrar sua camiseta, antes de ele ser levemente puxado para frente. Ele olha para Pierre, para encontrá-lo sorrindo um pouco embaraçado. – Eu só não estava esperando que fosse eu.

David não diz nada, mas quando sua camiseta é puxada novamente, ele se permite mover até que eles estejam na mesma posição de antes. O coração de David está disparado em seu peito e ele não sabe se deve ter esperanças ou não.

-Pierre? – ele pergunta, antes de rapidamente adicionar. – Por favor, não me dê esperanças, por favor.

Ele sente a mão de Pierre começar a acariciar a base de sua coluna hesitantemente e se arrepia, permitindo-se entregar ao toque.

-Isso é diferente. – Pierre comenta e David vai se afastar, mas Pierre o pára e adiciona: - Mas não é ruim.

David se mexe e se ergue perante isso, olhando para Pierre com confusão, medo e esperança ao mesmo tempo: - Então, o que é?

-É... – Pierre pausa, antes de sorrir e é igual ao sorriso de melhor amigo, mas há algo mais ali também. – Você e eu.

David sente seu coração palpitar e seu sorriso fica mais suave e feliz e, antes que ele possa se parar, ele subitamente tem seus lábios pressionados contra os de Pierre. Ele está um pouco surpreso, mas completamente extasiado quando os lábios de Pierre sorriem contra os dele e ele não hesita em beijar David de volta.