Capítulo O8.
Querido diário,
Essa noite é A noite. Sim, eu sei que eu devo ter escrito a mesma coisa pelo menos umas dez vezes nesse diário, mas dessa vez é real. Eu posso sentir, algo diferente vai acontecer... Algo bom, eu espero.
Esse baile vai ser grande. As roupas, as máscaras, os acompanhantes – Ninguém fala de outra coisa, virou uma obsessão. Até eu mesma estou obcecada. Às vezes me pego pensando sobre o que vou fazer no meu cabelo, que maquiagem vou usar e se o vestido ficaria mesmo bom.
Não será apenas o baile, para mim também será o meu aniversário, e eu usaria o maior presente de todos esta noite.
Sim, ela será perfeita.
Elena prendeu suas mexas douradas num lindo coque, casual mas ao mesmo tempo elegante. Ela fez os últimos retoques na maquiagem, passou o batom vermelho de novo e apertou suas bochechas pela última vez. Então, a parte mais importante: o colar, que antes pertencia a Katherine e que agora era dela. Ela analisou seu reflexo no espelho, seu lindo vestido vermelho vivo e sua máscara na sua mão, preta com detalhes da mesma cor do vestido.Ela estava perfeita; a garota que todas queriam ser e a que todos garotos queriam ter; amada e odiada.
Ela controlou o impulso de morder o lábio maquiado. Faltava alguma coisa. Toda vez que ela olhava seus olhos azuis ela via alguma coisa faltando, era como se houvesse algo escondido, algo que ela não podia explicar.
Ela suspirou e colocou a máscara.
- Oh, meu Deus! – ela ouviu tia Judith exclamar, e então ela estava ao lado de Elena, olhando o reflexo no espelho abismada – Como você está linda!
Elena sorriu.
- Obrigada, tia.
- E como você cresceu! – continuou ela – Parece que foi ontem que eu a vi engatinhando e amanhã você já fará dezoito anos!
Tia Judith afagou o cabelo feito de Elena com cuidado.
- Você parece tanto com sua mãe... Ela ficaria orgulhosa.
- Você acha? – sussurrou Elena.
- Eu tenho certeza – ela enxugou uma lágrima que caia no seu rosto, e Elena lutou contra as lágrimas ameaçavam a cair a borrar toda a maquiagem – Você quer carona para o baile?
- Eu gostaria, mas já combinei com Stefan...
O rosto de tia Judith endureceu.
- Claro, claro... Divirta-se.
O baile era no ginásio do colégio, mas Elena tinha razão quando disse que era um evento grande. Ninguém poderia falar que era um simples ginásio ou mais uma festinha de adolescentes. Não, aquele baile parecia ser feito para estrelas de Hollywood, pois era idêntico aos bailes de máscaras que aparecem em filmes.
No início Elena tinha achado uma idéia meio patética fazer todos usarem máscaras, afinal todos se conheciam, o cabelo ou a estrutura física poderiam facilmente denunciá-los. Por isso ela se surpreendera ao perceber que teve que se esforçar para achar Meredith, sua melhor amiga.
Isso será interessante, pensara Elena.
A primeira dança foi com Stefan, e os dois foram meio hesitantes para a pista de dança. Stefan, porque estava estranho; Elena, porque estava preocupada sobre Stefan estar estranho.
Os dois foram quietos para o baile, e também permaneceram quietos por um tempo enquanto dançavam. Elena não conseguia olhar para os olhos de Stefan, uma atitude incomum para ela.
Só quando a música já estava na metade que Stefan falou:
- Você está usando o colar – o grande anuncio do ano.
Elena apenas deu um meio sorriso.
- Então... – Stefan começou – eu andei pensando muito sobre ontem e... – ele hesitou.
- Sim? – perguntou cautelosa.
Ele olhou fixamente nos olhos de Elena, dando ênfase ao que ele iria dizer.
- Eu não quero que você veja Damon nunca mais, Elena.
Ela não respondeu, confusa demais para pensar em algo a dizer.
- Eu sei que às vezes você não tem escolha, mas você precisa evitar o máximo possível, entendido?
- Não – respondeu ela.
- Não?
- A única coisa que eu entendi é que você está me proibindo de fazer alguma coisa, e isso não pode ser verdade. Então não, eu não entendi.
Ele suspirou.
- Elena, não seja difícil. Nós dois sabemos o quão perigoso Damon pode ser.
- Damon não apresenta nenhuma ameaça à mim.
- Parece que você quer vê-lo novamente.
- Eu não quero, como eu também não quero que vocês briguem por minha causa.
Stefan parou de dançar e segurou os braços de Elena com força, forçando ela a olhar em seu olhos.
- Elena, você sabe a ameaça que ele representa.
Ela semicerrou os olhos.
- Ameaça que ele representa a minha segurança ou a nossa relação?
Ela sabia que estava sendo rude, mas não havia como pedir para que ela se acalmasse enquanto falavam o que ela deveria fazer. Ela simplesmente não suportava receber ordens. Se nem mesmo sua tia podia, como ela aceitaria as exigências do namorado? Isso não aconteceria, nem que o namorado fosse Stefan.
Elena respirou fundo. Mas o namorado era Stefan. Dando ordens ou não, ela ainda o amava mais que tudo, e ela sabia que estava o fazendo sofrer. Sabia o quanto toda aquela situação representava para ele, como parecia que a história estava se repetindo. Seria insensível da parte dela continuar brigando.
- Stefan, eu sei que você está preocupado – disse ela docemente – Mas eu não sou Katherine, como você mesmo disse.
- Eu sei, mas Katherine sabia se virar.
- Eu também sei.
- Ela era uma vampira, você é apenas uma frágil humana.
Apenas uma frágil humana? Respirou fundo.
Ela afagou a bochecha dele.
- Eu te amo, Stefan Salvatore, sempre e para sempre.
Ele suspirou.
- Eu sei, mas isso não muda nada.
- O que isso quer dizer?
- Você não verá Damon de novo.
- Isso é uma ordem?
Ele não respondeu, só a fitava fixa e misteriosamente.
- Eu não cumpro ordens.
- As minhas você compre.
Ela arregalou os olhos e, enojada, livrou-se dos braços dele.
- O quão diferente isso te faz do seu irmão, Stefan? – falou ela numa voz cortante – Você está usando sua força para realizar suas vontades? Você irá me impedir de fazer o que eu quero com o seu poder? Vai também usar o seu poder de persuasão em mim, Stefan?
- É para te proteger – ele respondeu na defensiva.
- Nós dois sabemos para o que isso é.
Com um último olhar gelado ela virou-se e foi para longe de Stefan.
Deus, eu não acredito que briguei com Stefan por causa de Damon. E eu nem mesmo queria vê-lo novamente! Se ele apenas pedisse com jeito... – ela repetia isso para si mesma de novo e de novo.
Ela olhou para a mesa de bebidas em busca de alguém para se distrair. Ela viu Meredith e Matt, então optou por Matt... Meredith era muito perceptiva.
- Ei, Matt – perguntou.
Matt estava bem bonitinho, com aquele terno e seu rosto inocente. Ela via nele algo especial e não se arrependia de nada do que eles passaram juntos. De fato, era o contrário. Ela agradecia todos os dias por ter Matt como amigo.
Lembrando-se dos tempos junto de Matt, ela ficou surpresa que toda a bondade havia desaparecido dos seus olhos quando ele olhou para ela, e ao invés de inocência e alegria, havia apenas ódio e desprezo.
- Você não estava com um vestido branco...? – ele pareceu confuso, mas logo virou o rosto.
- Hm... Não.
- Tanto faz.
Ela recuou um pouco com o tom rude dele.
- Então, Matt... – hesitou – Quer dançar?
- O quê? Agora eu sou digno de uma dança? Pensei que Elena Gilbert era boa demais para mim... O que a fez me chamar para dançar agora? Foi por que você sentiu pena? Por que você se sentiu culpada?
- Não, Matt, eu nunca...
- Qualquer que for a razão, Elena, não precisa se incomodar. Eu não a incomodarei de novo.
E então ele se retirou, sem explicações. Ela observou aturdida Matt desaparecer na multidão.
Ela não tinha visto Caroline se aproximar.
- Hmmm... – murmurou – Eu queria ter filmado isso. Elena Gilbert levando um fora? – Caroline riu – Finalmente alguém enxergou a vaca que você é.
- Estou cheia de você hoje, Caroline – ela ainda olhava para o ponto que Matt desaparecera.
Caroline a ignorou.
- Veio sem acompanhante? – Caroline sorriu.
- Não, ao contrário de certas pessoas, eu tenho namorado.
Caroline ignorou essa também.
- Então, você viu com quem eu vim? – perguntou, mexendo no seu cabelo.
- Sinceramente, eu não me importo.
- Pensei que você se importa, afinal já vi vocês dois juntos... Talvez eu esteja enganada, mas conhece algum Damon Smith?
- Damon?! – sua voz subiu algumas oitavas involuntariamente.
- Oh... Você se importa – Caroline sorriu, maliciosa – É um rosto difícil de esquecer, não é?
- Você veio com Damon? Damon veio com você?
Ela disse a si mesma que não estava com ciúmes, e sim surpresa.
- Surpresa? Achou que ele escolheria você? Devo agradecer, não estaria com Damon assim se eu tivesse ficado com Stefan e...
Elena riu.
- É, como se algum dia você pôde ficar com Stefan!
Caroline semicerrou os olhos.
- Você só está com inveja porque eu consegui alguém que você não conseguiu.
Foi a vez de Elena de sorrir maliciosamente.
- Você está enganada ao achar que eu não... o consegui – ela piscou e Elena achou que os olhos de Caroline iam saltar para fora do rosto – E, a propósito, o que é isso no seu vestido? Penas? Argh, seu gosto contínua horrível. – acrescentou.
Antes que Caroline pudesse rebater, a voz da diretora McKensie soou no ginásio.
- O propósito do baile de máscaras é para ser um evento interativo, e isso não está acontecendo pois, pelo que vejo, todos estão com os mesmo grupos de amigos de sempre. Por isso, decidimos fazer uma... brincadeira. Vocês vão dançar com pares diferentes. Toda vez que trocar de música vocês vão trocar de pares aleatoriamente, para interagir com novos colegas e fazer deles seus amigos.
Sem outra desculpa, Caroline ergueu o queixo e procurou um par, carrancuda como sempre.
A máscara não disfarçava o rosto de Elena, e muitos garotos disputavam uma dança, agarrando-se a oportunidade de tê-la em seus braços ao menos uma vida – uma realização, sem dúvida. Ela ainda estava meio aturdida com tudo o que acontecera e não queixou-se de quem dançava. Tinha apenas uma fraca lembrança do primeiro, que era um garoto tremendamente sortudo do clube de xadrez, e do terceiro, somente mais um que fazia parte do time de futebol da escola. Na quarta música, quando foram trocar de pares, Elena avistou Matt que, ao ver Elena, mudou seu caminho abruptamente, deixando-a parada no meio da pista de dança sem par. Ela ficou esperando alguém a puxar durante dez, quinze segundos, sentindo-se frustrada e humilhada.
Obviamente Elena não ficou muito tempo sem um par. De início ela não importou-se com quem a puxou para dançar, naquele abraço aconchegante que lhe parecia familiar. Até então ter um vislumbre de seus olhos, aqueles olhos negros que ela reconheceria em qualquer lugar. Nem aquela máscara azul gelo conseguia cobrir a beleza e o perigo seu rosto proporcionava.
Damon sorriu torto.
- Ainda com medo de mim?
- Não – respondeu rápido.
Ele riu suavemente.
- Você veio aqui com Caroline? – Ela lutou para não parecer uma namorada ciumenta; sem sucesso.
Seu sorriso se alargou.
- Ciúmes? – ele inclinou seu rosto para mais perto do dela, e seu hálito frio e refrescante geravam sensações estranhas na pele de Elena.
Ela ignorou essas sensações e ergueu o queixo.
- Nos seus sonhos.
Damon olhou para além dela e fechou o rosto, mostrando-se tão perigoso quanto Stefan havia falado ainda naquela noite,
- Elena, querida – Caroline chamou, sua voz meigamente cheia de veneno – Seu namorado está esperando por você.
Elena sorriu, escondendo a decepção de ser interrompida.
- Ciúmes, Caroline? – Elena perguntou. Damon riu baixinho – mas seu olhar permaneceu intenso - ao ouvi-la repetir o que ele mesmo perguntou a dois segundos atrás.
Caroline semicerrou os olhos.
- Não o faça esperar.
Elena a olhou da cabeça aos pés. Caroline era uma boa adversária, mas não a altura. Elena ainda era a rainha e nada que Caroline faça ou diga irá mudar isso. Elena podia fazer o que quiser, podia ignorá-la ou xingá-la, mas qualquer um que presenciasse pensaria que era uma briga por Damon, e ela não se rebaixaria a tanto.
Ela afastou-se de Damon ainda sorrindo. Ele pareceu divertido, mas ao mesmo tempo desapontado.
- O quê? Não vai revidar? Está sem palavras, Elena? – Caroline perguntou, provocante.
- Eu tenho milhões de coisas que gostaria de dizer, mas isso causaria um escândalo.
- Está com medo de perder o trono? – ela ergueu as sobrancelhas.
Elena riu alto.
Não foi difícil encontrar Stefan. Ele estava sentado no fundo do salão, quieto e sozinho como sempre. Ela ainda estava brava com ele, mas precisava ao menos avisá-lo que iria para casa. Essa noite foi exaustiva, e ela não sabia se podia agüentar outra bomba. Repreendeu-se por não ter escolhido outro vestido. Aquele era vermelho demais, vivo demais. Um contraste, de fato. O de Caroline era negro, de Meredith branco e o de Bonnie também era de um tom claro. Nada que lhe causasse inveja.
- Eu te levo – disse Stefan.
- Não precisa... – sua voz estava monótona.
- Eu insisto.
O ambiente ainda estava tenso entre os dois. Elena perguntou-se quando, ou se, Stefan pediria desculpa. Ela não queria ir para a cama brigada com ele, o dia seguinte seria seu aniversário e ela não estava com humor para festividades.
- Obrigada – Elena disse ao chegar em casa.
- De nada – Stefan sorriu. O sorriso não chegava nos olhos.
- Durma bem – ele disse.
- Obrigada – Elena repetiu, insatisfeita.
Ela tirou os saltos antes de entrar em casa, evitando acordar sua tia e Margaret com o barulho. A porta do seu quarto não fez nenhum ruído ao abrir, mas Elena teve que se controlar para não gritar ou cair com o susto.
Uma mesinha com velas acessas estava situada no meio do quarto e, adiante, uma silhueta usando um terno escuro e uma máscara azul gelo.
Damon sorriu para Elena.
