O céu já escurecia suavemente e os pássaros enalteciam a noite próxima quando Sakura e os ANBU finalmente chegaram na estrada que levava a Konoha.
Durante todo aquele percurso, a kunoichi não se cansara em prescrutar os céus a procura de qualquer sinal de Itachi, que se desfizera em mil pássaros há algumas horas para escapar dos ANBU. Sabendo da experiência e inteligência pertencentes ao Uchiha mais velho, Sakura sabia que ele estava bem, mas não podia deixar de se preocupar com ele e querer qualquer indício que indicasse a proximidade dele.
Mas por mais que a garota se esforçasse para que nada escapasse a seus olhos, não conseguiu achar um único indício que representasse Itachi. Ela suspirou, resignada; baixou os olhos para os pés que pisavam a grama e pôs-se a prestar mais atenção no caminho.
Sakura e os ANBU atravessaram as grandes portas que guardavam Konoha, ladeadas por muros enormes e fortes. Mas a Haruno não reparou em nenhum daqueles detalhes familiares que sempre atraíam tanto sua atenção; sua mente parecia incapaz de pensar em qualquer outro que não fosse o Uchiha de longos cabelos negros, olhos rubros e a pele suavemente morena.
A garota piscou os olhos, e lembrou-se que tinha que voltar para casa. Sentia-se desesperadamente necessitada de um banho decente, e além disso, queria poder afundar no seu travesseiro sem que nada mais a incomodasse, para, quem sabe, tentar tirar aquele enorme vazio que Itachi lacunara em seu coração.
-Você vem conosco-resmungou um ANBU, puxando o pulso dela no instante em que a Haruno desviava-se para sua própria casa.
-Por quê?-quis saber ela.-Eu estou bem, não preciso de nada.
-A Godaime quer vê-la.
Sakura bufou, mal-humorada, e seguiu a contragosto os ninjas pela rua principal de Konoha.
Chegaram ao enorme prédio onde estava Tsunade, e ao mesmo tempo cansada e transtornada, Sakura se perguntou o que Tsunade queria com ela num momento confuso como aquele.
O ANBU que lhe puxara pelo pulso bateu 2 vezes na porta. Após dois segundos, a porta foi aberta por Shizune, a secretária de Tsunade.
-Tsunade-sama, eles chegaram.
Sakura adentrou a sala, seguindo os ANBU. Tsunade estava sentada atrás da enorme e atulhada escrivaninha, parecendo ao mesmo tempo nervosa e ansiosa.
-Vocês dois, venham aqui. Preciso do relatório completo da missão.-Tsunade fez sinal para os ANBU se aproximarem.
-Missão?-interrompeu a discípula da Godaime.-então todos aqueles ANBU foram realmente mandados para me resgatar?
Tsunade respondeu sem levantar os olhos do papel que preenchia.
-Não, embora eu pretendesse formar uma equipe de busca para lhe achar ainda hoje, Sakura. Peço desculpas pela demora em resgatar você, tenho estado muito ocupada. Foi realmente uma sorte que meus ANBU tenham encontrado-a.
Sakura considerava mais um azar do que uma sorte ser resgatada de alguém que a tratava tão bem e que ela tanto amava, mas permaneceu em silêncio. O único barulho na sala era o farfalhar da Godaime riscando o papel.
-Shizune, por favor, anote o que os ANBU disserem.-após um breve "Sim, Tsunade-sama!" vindo de Shizume, a Hokage se dirigiu à Haruno.-Sakura, pode ir descansar um pouco.
-Huh? Mas a senhora não queria falar comigo?-quis saber ela.
-Sim, é claro que tenho que conversar com você, mas não agora. Descanse um pouco que depois eu mandarei lhe chamar.
Alegre por finalmente poder se refazer dos penosos dias que passara, a kunoichi médica fez um cumprimento à sua mestra e saiu apressada pelas ruas de Konoha. Ao verem aquela garota de cabelos rosados, um pouco suja, um pouco cansada, escondendo um sorriso apaixonado no canto dos lábios, as pessoas sorriam e a cumprimentavam, sem imaginar todas as desventuras que aquela moça enfrentara e ainda haveria de enfrentar.
Somente quando a noite já tomara conta do céu é que o Uchiha mais velho pôde retornar à sua forma normal. No meio da mata fechada, ninguém pôde presenciar os milhares de corvos negros se unindo para formar o corpo belo e definido de Uchiha Itachi.
O Akatsuki caminhou pela grama dominada pelo negrume da noite. Estava ferido, cansado e dolorido, mas estranhamente feliz, como ele raramente se sentia, ainda mais naquelas condições. Muitas poucas coisas tinham o poder de fazer aquele Uchiha feliz: uma delas era o seu poder, do qual se orgulhava, outra era o seu próprio e obsessivo prazer de matar aqueles que lhe incomodavam; e outra, que ele só conseguira descobrir naquele dia, se chamava Haruno Sakura.
Enquanto mirava a lua esbelta pairando nos céus, Itachi se perguntou se sua pequena flor de Konoha estaria pensando nele também. Era estranho se sentir assim; jamais sentira algo semelhante. Odiava a idéia de ter amor correndo por suas veias, odiava a idéia de gostar de uma mulher tão... tão inigualável quanto Sakura; mas amava-a, amava-a com uma ternura e uma paixão irrefreável que ele nunca sentira na vida.
Assim estava devaneiando quando ouviu uma indagação de surpresa, a alguns atrás centímetros da árovre onde ele se recostava.
-Itachi?
O rapaz se virou ao ouvir seu nome pronunciado pela voz conhecida. Parado ali, no meio da grama selvagem, estava um jovem, ligeiramente mais novo que ele, com cabelos louro-escuros presos num elegante rabo-de-cavalo, uma farta franja caindo-lhe sobre o lado esquerdo do rosto, e vestes idênticas ao do Uchiha.
-Deidara, só podia ser-resmungou Itachi.-O que diabos faz aqui?
-Me mandaram procurar você-retrucou o outro calmamente.-E, por falar nisso, onde está aquela kunoichizinha médica de Konoha, un? Que eu saiba, a sua parte na missão era raptar aquela menina.
-Sei muito bem a minha parte, obrigado-respondeu secamente o Uchiha.-eu a capturei, mas uns ANBU levaram-a de volta.- ele não se deu ao trabalho de mencionar tudo o que acontecera entre ele e Sakura, pois isso só interessava a ele mesmo.
Deidara franziu a testa.
-Ficou dois dias no meio do mato e só fez isso? Você é devagar, un. E ainda por cima está mais rasgado que um pano velho.-brincou ele.
Itachi fez uma careta para ele, e seguiu-o pela mata escura até a caverna da Akatsuki. Não sabia ao certo porque, mas o seu animado acompanhante, que sempre tinha o poder de irritá-lo com suas brincadeiras bobas, não conseguiu tirar o Uchiha do sério naquele dia. Ele só conseguia focar sua mente naquele rosto delineado, naqueles lábios macios e naqueles cabelos róseos que estavam tão distantes dele, mas tão perto, ao mesmo tempo, na sua mente conturbada.
Sakura acordou com pancadas violentas na sua porta. Mal-humorada, a Haruno levantou-se para atender a porta. No meio tempo desde que Tsunade a despensara, ela tinha tomado banho, botado vestes limpas e tentado dormir um pouco, embora tudo o que tenha conseguido fazer tenha sido fechar os olhos, pois era impossível dormir quando cada fibra de seu corpo e de sua mente pediam por Uchiha Itachi.
-Yo, Sakura-chan!-cumprimentou Naruto, que estava do outro lado da porta, quando ela a abriu.-Ainda bem que você está de volta, eu estava preocupado! Sei que você deve estar cansada e devia estar dormindo, mas a Tsunade-obaa-chan quer falar com você.
-Certo-resmungou ela, mal-humorada.-Obrigada, Naruto. Estou indo em um segundo.
Ele despediu-se dela e saiu porta afora. Sakura correu ao espelho, ajeitando os cabelos da melhor forma que conseguiu, e seguiu para ver Tsunade.
Enquanto seguia pelas ruas de Konoha, Sakura sentia o vento despentear seus cabelos primorosamente penteados, mas não se incomodou. Era difícil se incomodar com qualquer coisa que fosse quando ela pensav que, há umas poucas horas, tinha beijado Uchiha Itachi.
-Entre!-o grito de Tsunade depois que ela bateu na porta despertou a Haruno das sensações dos lábios do Uchiha mais velho nos seus. Ela entrou apressada, fechando a porta atrás de si, e lançou um olhar inocente para Tsunade.
-Sakura, vou direto ao ponto-falou brevemente a Hokage.-tenho uma missão para você.
-Outra? Já? Mas eu acabei de ser resgatada de um seqüestro!-protestou a garota.-E o Naruto e o Sai mal terminaram a missão...
-Você não vai com eles-interrompeu Tsunade.-Você vai com Hyuuga Hinata.
O queixo de Sakura caiu.
-Com a Hinata? Por que com ela? Que tipo de missão é essa? E por que logo eu, se acabei de voltar de um seqüestro?
Tsunade suspirou, enquanto remexia nos papéis pousados na escrivaninha.
-É uma missão que só você pode fazer, Sakura. Pensei em mandar Naruto e Sai com você, mas eles ainda estão muito debilitados por causa da última missão, e Hinata se voluntariou. Quis mandar mais alguém para ir junto de você, mas acabei chegando a conclusão que quanto menos gente, melhor. Assim chama menos atenção.
-E por que somente eu posso fazer essa missão?
-Porque você é a única capaz de fazer Itachi se dobrar às suas vontades. Ele a ama.
O rosto da Haruno corou violentamente; ela olhou indignada para Tsunade, torcendo as mãos nervosamente no colo.
-O que d-diabos está dizendo?-gaguejou ela.
-Meus ANBU viram quando ele a beijou e fugiu para impedir que você se ferisse de alguma forma.
Sakura fechou-se em envergonhado silêncio. Não imaginava que aqueles ANBU fossem tão fofoqueiros.
-E essa missão tem algo a haver com o I-Itachi-kun?-quis saber ela.
-Precisamente. Você é a única capaz disso. Quanto menos Akatsuki, melhor.
Sakura ficou calada.
-Quero que você encontre-o novamente, Sakura, e faça-o chegar a um determinado local onde uma tropa ANBU espera por ele. Com isso, menos um Akatsuki, menos um perigo para Konoha.
-Não vou fazer isso.-respondeu a Haruno calmamente.
Tsunade levantou-se da mesa e encarou Sakura de frente.
-Não é uma questão de escolha.-falou a mulher.-Uma kunoichi de Konoha tem por obrigação defender a sua vila. Se você não quiser fazer isso, e optar ser iludida por um amor infantil e sem rumo, então desista de ser a mulher que quer virar, Sakura. Faça essa missão, ou desista de sua vida de kunoichi.
O ambiente estava silencioso; mas Sakura sentia como se o mundo desabasse ao seu redor numa estrondosa tempestade conflitante. Os olhos verdes da kunoichi sustentaram firmemente o olhar severo que vinha dos olhos castanhos de sua mestra, mas por dentro, a Haruno não sustentava coisa alguma, nem mesmo a si mesma.
