No dia seguinte...

Eram seis da manhã, e Aiacos se levantou silenciosamente para não acordar o namorado e saiu, indo até o seu quarto.

Chegou lá, foi até o banheiro e se olhou no espelho. Pensava como estava com a cara inchada de tanto chorar e lavou o rosto, acordando-o por completo. Saindo dali foi direto à sua cômoda pegar suas roupas de treinos, só que por costume e convivência, todo os dias treinava Sylphid logo pela manhã, se esqueceu de que ele não estava mais lá.

-Droga...o que eu estou fazendo? –Logo fechou a gaveta, fechando os olhos e abaixando a cabeça. Instantes depois voltou ao banheiro para tomar um bom banho de água fria.

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O moreno desceu para tomar seu café da manhã. Seguiu até a cozinha, e como não estava com muita fome, pegou apenas uma maçã que estava na cesta à mesa, e se sentou.

Estava longe com seus pensamentos enquanto comia. Não se demorou a ficar sozinho até sentir o cosmo de Radamanthys e fez uma cara de desgosto, sem o outro perceber.

-Está melhor? –Perguntava, assim que entrou na cozinha. Vestia apenas uma calça jeans, e era bem óbvio que o loiro adorava se exibir, mesmo no frio.

-Não. –Respondeu secamente, encarando a maçã com tal frieza que parecia que iria descontar sua raiva nela.

-A propósito, Pandora quer falar com você. –Ficou próximo a Aiacos, apoiando uma das mãos na mesa em que estavam, bem ao centro da cozinha.

-Vocês falam de mim enquanto transam? De quem sou a fantasia? De Pandora ou...de você? –Finalmente olhou para o outro, com uma expressão irônica e um interesse fingido.

Cerrando os olhos, Radamanthys abriu a boca para contestar, mas logo foi interrompido por outra pessoa.

-Radamanthys, não sabia que pensava em Aia enquanto comia Pandora. Que feio! Vou contar pra ela! –Disse, um Minos extremamente irônico adentrando a cozinha, se espreguiçando enquanto se aproximava por trás do namorado.

-Só quis transmitir um recado, porquê? –O loiro descamisado fitou sério o rosto, ainda irônico de Aiacos.-Te excita saber disso? –Finalizou a conversa roubando a maçã que o moreno comia à sua frente, não mais se apoiava, havia se sentado na mesa.

-Eu nem queria comer mesmo. –Aiacos desviou o olhar, dando de ombros e sentindo o namorado dar-lhe um abraço e um beijo em seu pescoço.

-Radamanthys, Pandora não é mais suficiente, pra você, não? E Não acho que Aiacos seja pro seu... hmm...nível. –Minos comentava calmamente, olhando para o outro loiro com desdém.

-Se quiser ela pra você, esteja à vontade. –O escorpiano deu um sorriso de canto bem malicioso.

-Eu creio que não, meu caro. Aiacos é mais que suficiente pra mim. –Virou a cabeça, olhando encantadoramente para o namorado.

-Até onde eu saiba, eu não sou um prêmio a ser disputado.1-Retribuiu o olhar ao namorado, tentando sorrir, embora sua expressão ainda permanecesse triste.

-Ainda bem que não. Sou muito ciumento pra suportar isso. –Tentou alegrar o outro, sorrindo. Depois aproximou mais seu rosto e o beijou atrevidamente em sua boca.

Aiacos correspondeu ao beijo, se entregando. Nenhum dos dois ligou para a presença do terceiro Juiz ali, e a cada instante, o beijo ia se tornado mais quente, e descaradamente, Radamanthys se inclinou para ver melhor o beijo, admitindo a si mesmo que estava gostando de observar a cena.

-Que café da manhã, hein? A pobre maçã foi deixada de lado...-disse baixinho para o pouco da fruta que ainda restava em sua mão.

-Deu de falar sozinho, Radamanthys? –Se afastou do beijo, ainda observando Aiacos.

-Eu só pensei alto. –Sabia que estava segurando vela e sobrando ali. Mas justamente por ser cara-de-pau, ele não se mexeu, só continuou a comer a maçã, e os dois à sua frente com os olhos.

Finalmente o moreno se levantou.

-Preciso falar com ela, agora? –Olhou para o namorado. –Porquê senão ele não sai do nosso pé. –Fez uma cara nada bonita.

-Agora nem se eu quisesse, ela ainda está dormindo. –Com pouco caso olhou para o canceriano.

-A noite foi de mais ou de menos, Radamanthys? –Minos riu discretamente da própria piada.

-Achei que o que eu e Pandora fazíamos na cama não te interessava. –Se levantou da mesa, indo até o lixo jogar o resto da fruta.

-Pela resposta, a noite foi de menos, meu amor. –Deu um rápido sorriso.

Minos se animou pelo namorado ter entrado na brincadeira, e voltou a rir. Fato que fez até Radamanthys cair na risada.

-Valeu pelo palhaço...-disse Minos fingindo estar ofendido.

-Já chega vocês dois. Radamanthys cai fora.

-Porquê justo eu? Manda o norueguês metido à gente aí, não eu.

Aiacos apenas secou friamente o loiro, enquanto abraçava o namorado.

-Se tiverem que fazer alguma coisa pode fazer, não me importo nem um pouco. –Não observava nenhum dos dois.

-Radamanthys. –Só se ouvia uma voz seca e fria vinda do Juiz de Grifo.

-Tá, já fui. Que estresse, eu hein...coitado do Sylphid, ainda bem que não tem de agüentar mais tanta grosseria...

Percebendo que o namorado entristecera-se de novo, o sangue de Minos subiu, mas ainda manteve a razão ao se dirigir novamente ao escorpiano.

-RADAMANTHYS!

Não demorou, em segundos o dito cujo não se encontrava mais na cozinha. Grifo respirou fundo e envolveu o namorado entre seus braços.

-Aia, Aia...é difícil, mas você precisa superar.

-Só eu, né? –Olhou entristecido para o namorado, recebendo um sorriso também entristecido como resposta.

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Era meio-dia, e finalmente Pandora havia despertado, não fazia nem trinta minutos. Já tomado banho e vestida com seu costumeiro vestido negro, dirigiu-se até seu escritório. Ao chegar, ligou o computador, apressada, pensando no quanto estava arrependida de acordar aquele horário. Sempre pontual, o-d-i-a-v-a atrasos.

Sentou-se na cadeira de sua escrivaninha e abrindo uma das gavetas, pegou alguns documentos e pôs próximo ao computador. Documentos que constavam alguns candidatos ao cargo de aprendiz. Como não sabia se Aiacos tivesse recebido a notícia de que precisavam se falar, ela tentou por seu cosmo, embora temendo que o pegasse...desprevenido.

"Aiacos, preciso lhe falar, está disponível?".

"Senhora Pandora, estou indo até seu escritório agora mesmo". –Deu um leve suspiro. Estava em seu quarto. Minos o deixou ali para depois ir até a academia na parte térrea do Castelo para treinar Lune. Pois bem, o moreno sai de seu aposento em direção ao escritório da 'chefinha', como Sylphid costumava chamar Pandora.

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Bateu na porta, e entrou sem esperar resposta. Deu um rápido 'boa tarde' à dama, e sentou-se na cadeira perto da mesa.

-O que deseja, senhora Pandora?

-Aiacos...-Pegou os documentos que ali estavam até então.-...vou ser bem direta, preciso que você volte a treinar algum dos soldados, e na minha mão contém alguns nomes que provavelmente...-Pra variar, se não era interrompida por Minos, era pelo namorado dele.

-De jeito algum. –Soltou tranqüilamente enquanto entrelaçava os dedos, apoiando-os em seu colo.

-Por favor, eu sei que é difícil, e entendo ainda mais que está claro que você ainda não superou a perda de seu pupilo. –Deu uma pausa. –Mas preciso que você continue o seu trabalho, Aiacos, por mais complicado que as coisas estejam.

-Pandora, eu não vou treinar outro garoto. Quem quer que seja.

-Que tal o Pharaó de Esfinge? –Permaneceu na insistência.

-Não.

-Flégias de Lycaon?

-De modo algum.

- Aiacos, por favor, colabore, ou vou ter de lhe ordenar as coisas, Juiz. –Disse um pouco brava.-Tá, já sei quem é perfeito pra você. –Passou um olhar rápido aos documentos.

- Quem? –Sabia que quando ela chegava à uma conclusão sozinha, boa coisa não era.

-Valentine de Harpia. –Encarou o Juiz à sua frente e sorriu vitoriosa, pra aquele espectro ele não podia negar e sabia disso.

-Mas ele é do Radamanthys, pelas suas ordens eu não posso fazer isso. E se não bastasse, também é pupilo de Minos, ou você não sabe disso?

-É, eu soube que ele infringiu as regras, mas ele aprendendo alguma coisa, já é satisfatório. Aliás, é algo que não anda ocorrendo. –Tornou a colocar as papeladas de volta à mesa.

-O que quer dizer?

-Radamanthys anda ocupado treinando Myu de Borboleta e seu namorado toma conta de Lune. –Insistiu o olhar a Aiacos.

-Eu já entendi, Pandora...-Muito a contragosto aceitou Valentine e desviou o olhar do sorriso irritante da moça.

-Ótimo! Valentine de Harpia é seu a partir de agora! Quer que eu dê a notícia ou você...-Foi novamente interrompida.

-Eu falo! –Ligeiramente bravo, respondeu levantando-se e assinando o documento do seu novo aprendiz.

Logo em seguida se retirou do escritório, deixando uma Pandora feliz atrás.

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Depois da morte de Sylphid, Aiacos se tornara um pouco diferente. Já não era mais tão calmo assim, se ofendia com muita facilidade, andava irritativo e a tristeza que o consumia, embora passageira, estava sendo mais intensa do que em outros momentos de sua vida2.

Foi até a academia, seu novo pupilo assistia aos treinos do amigo e pra babar em cima de Minos, coisa que Aiacos a-m-a-v-a do fundo de seu coração. E de muito mau humor, porém mantendo a calma, entrou na dita academia.

-Mestre Aiacos! –Disse Lune, levando um soco na cara por sua falta de atenção.

-Aia! –Minos sorriu abertamente.

De Valentine, só levou um sorriso. Embora fossem amigos, Aiacos tinha um certo ressentimento ao ruivo pelo fato dele amar seu namorado.

-O que Pandora queria, meu amor? –Enquanto segurava o punho do aprendiz que queria descontar o soco.

-Tenho uma ótima novidade...-O seu olhar saltou de Minos, para Lune, parando em Valentine.

-O que houve? –Sua expressão feliz se tornou preocupada.

-Adotei um novo discípulo.

-Quem? –Foi em coro a pergunta. Os três espantaram-se.

-Valentine.

-Eu não creio...-O próprio ruivo disse alto.

-Pode crer, Valentine. –O moreno deu um leve sorriso.

A expressão de Minos era de incredulidade. Queria rir, mas sabia que isso seria ofensivo ao namorado.

-Sério que você aceitou? –Minos estava feliz, mas no fundo desconfiava de ver que Aiacos se recuperou tão bem.

O canceriano deu um sorriso de canto, aparentemente calmo e se virou indo embora, deixando Minos MUITO curioso.

Notas da Autora.

1 Sempre que escuto essa frase, "Não sou um prêmio a ser disputado", me vêm à cabeça o desenho da Disney, Aladdin. Pois é, pode se dizer que foi tirado do desenho mesmo.

2 Pra bom entendedor, meia palavra basta. pisca

É, não ia ter continuação, mas idéias vieram à minha cabeça e isso está interessante.

Surpresas aguardam Aiacos.