Verlierer (by MistressAlice)

-Valentine! – O loiro o segurou pelo braço, com tal força e repreensão na voz.

-Não precisa me agarrar desse jeito em pleno corredor, Myu. Fala, não precisa violentar.

-Às vezes acho que se Sylphid estivesse vivo, você não teria se tornado um homem tão amargo. Está certo que somos espectros, mas, por Hades, isso é ataque à outros membros do exército! Isso dá punição, das graves.

O ruivo deu de ombros ao término de discurso da Borboleta. Ficou frustrado por Myu ter descoberto outra façanha sua, mas como sempre, ele estava certo. Bufou ao se lembrar que ele o conhecia bem por demais.

-Não enche o meu saco. É, sou amargo mesmo, e daí? –Tentou soltar a mão do outro de seu braço, cujo aperto ficava cada vez mais forte.

-E daí que não precisa descontar nos nossos mestres! E daí que você é um idiota.

-Flégias é um fofoqueiro da porra. E qual a novidade? – O olhou com descaso.

-Você perdeu diversas chances da sua vida para falar a verdade para o Basilisco, mas não precisa—

-Não! Pára por aí. – Por fim, se soltou bruscamente do braço dele. - Concordo que eu hesitei em contar ao Syl o que eu sentia, o fiz, pois eu não sabia no que podia dar, e eu não queria me machucar. Mas não troque as bolas, machuca, falou? Não tem nada a ver eu e o Sylphid, com eu e o Aiacos.

-Então você tá apaixonado pelo Aiacos. – Cruzou os braços, ignorando a piadinha e o olhando com cinismo.

Valentine ficou em choque pelo que ouviu, achou aquilo tão absurdo que fez menção de enforcar o aquariano.

-Tire suas patinhas de mim, Passarinho. Você me disse outro dia que não quer o mestre Minos pra você. Sylphid se vai e o mais perto dele que você tem é o Aiacos. E coincidentemente, você e ele estão numa briga que tem muita gente desconfiando que não passa de uma tensão sexual.

-Claro, tenho sonhos molhados com o mestre do Sylphid. –Estava óbvio o sarcasmo no tom e nas palavras. – Ai, Myu. De TODAS as besteiras que você já me falou essa é a pior. Tanto que me dá o direito de achar que você ainda tem vontade de transar com o idiota do Flégias.

-Sim, fantasio quando durmo com o Edward, até ele já sabe disso. – Chicoteou com mais sarcasmo. – Estou decepcionado com você. – Deu um suspiro triste e saiu de perto dele, indo embora.

Harpia ficou ali parado, pensando e vendo o outro partir.

-Que absurdo. Aiacos só me desperta nojo... E Myu, você não é o único decepcionado comigo. – Balbuciou a si, antes de se retirar.

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Penteava os longos cabelos negros na frente do espelho no banheiro em seu quarto. Olhava a si mesmo com certa frieza e maldade. Em sua cabeça não se conformava com a traição do namorado, e ainda pior, não se conformava com a proteção que Minos dava à Valentine.

-Valentine é inocente, né? Radamanthys então é santo. Zeus!!! – Falava consigo no espelho, e segundos depois, ouviu umas batidas contínuas na porta de seu aposento.

-Aiacos, sou eu. Me deixa entrar.

Acabou por reconhecer a voz de Minos, e em resposta, ficou em silêncio.

-Oras, vamos conversar. Eu sei que você está aí, estou sentindo o seu cosmo, não adianta me deixar no vácuo.

-Droga de cosmo... – Guardou sua escova e prendeu os cabelos em rabo de cavalo alto, para provocá-lo e foi atender a porta. Abriu e deu as costas, indo até a escrivaninha se entreter com uma papelada.

O louro entrou e fechou a porta. Vestia um agasalho branco e calças jeans, azuis em um tom claro, e tinha os cabelos soltos.

-Solta os cabelos.

-Só falta querer que eu pinte de vermelho.

-Aiacos, vou te dar um tapa. Ainda nisso?

-Nossa, você fala, pensei que eu imaginava a sua voz.

Minos desviou o olhar, chateado da forma como estava sendo tratado.

-Você está inflexível. Portanto, não dá para conversarmos. – O olha, fazendo menção de sair do quarto. – A hora que estiver mais compreensível, me procura.

-Não vou procurar você. Disse que queria conversar agora, então para o quê veio?

-Talvez só para ver você. Já pedi desculpas, justifiquei de forma sincera, expliquei os fatos e você nem olhando na minha cara está.

-Talvez por eu não acreditar no que fala?

-Isso já não é comigo. São os seus valores, você acredita no que quiser. Eu só abri uma porta para você conhecer os fatos. Mas se não quer, não vou obrigá-lo.

-Se você me visse beijando o Sylphid, como você agiria? – Por fim, se virou, encostando-se à mesa e o olhando, cruzando os braços em seguida.

-Eu já vi. Muito isso. E fiquei com você até hoje. Por mais ciúme que tenha me atacado, eu confiei em você, sabendo que não me largaria por um pivetinho que nem saiu das fraldas. E Sylphid era tão louco por você quanto o Valentine é... Foi, enfim, comigo.

-Você está me tratando como culpado agora.

-Não. Desculpa dizer isso, mas você está agindo como ignorante. Não como culpado.

O moreno o olhou surpreso.

-Continua, a lista tá pequena, amor. – Respondeu, demonstrando ironia.

-Você está agindo feito criança, Aiacos. Nada do que eu vá dizer vai resolver de alguma coisa. Eu só vim aqui, para ver se ao menos uma vez nessa situação, você fosse mais compreensivo comigo. Por mais errado que eu esteja. Só que fique bem claro, que você não iria me perder. Garanto e juro que o que eu sinto pelo Harpia é o mesmo que você sente pelo Basilisco. – O louro, vendo que estender a conversa de nada ia adiantar, só ia gerar mais estresse, terminou de falar e abriu a porta.

-Parece que não está considerando o meu ciúme, Minos. Não posso fazer nada! Eu amo você! Não dá para olhar você aos carinhos com um ex-aluno seu e eu ficar sorrindo, adorando a visão. E já que viu muito de mim com o meu ex-aluno, então estamos quites.

-Se estamos quites, você não tem moral alguma para me criticar.

-Desculpe então pela minha falta de direito.

-Aiacos... Vamos parar com isso, vai. A situação só tende a piorar.

-Enquanto Valentine for meu aluno, a minha vida será um inferno. E não posso nem conversar com a Pandora.

-Vocês ainda podem se entender.

-Claro, só preciso que ele apareça na minha frente para eu enforcá-lo e mandar de volta ao Cocytos.

-Aiacooos! – Fechou a porta, dando alguns passos para adentrar mais o quarto. Dá uma chance para ele. – Se aproximou do namorado, apoiando a mão na mesa. – Eu tento falar com ele.

-Ele se abre para você que é uma beleza. – Já demonstrava um pouco de birra ao virar o rosto para não encarar o namorado tão perto.

-Se ironizar de novo, encerro a conversa aqui e não ajudo mais nenhum dos dois. Literalmente saio fora. É ridícula essa guerra de vocês dois. E acho ainda mais ridícula por ser por minha causa.

-Seu ego adora que eu sei.

-Mais uma e leva outro tapa. Já são dois. – Sentiu-se um pouco mais aliviado por perceber que ele já colocava um tom de brincadeira na conversa.

-Três é meu número da sorte.

-Então continua. Quero ver qual a contagem de hoje. – Tirou a mão da mesa e pôs nos cabelos do namorado, soltando-os do rabo de cavalo.

-Você vai ter um combo agora: tapa mais um castigo. Sofri para prender essa porcaria. A não ser que adore escândalos e queira ver o Valentine puxar os meus cabelos numa briga. – Olhou o ariano ao canto do olho.

-Três. E só eu posso puxar os seus cabelos.

-Sadomasoquista.

-Admita, você gosta... – Os olhos dourados do ariano brilharam de malícia no meio da brincadeira.

-De você puxando os meus cabelos ou de ser sadomasoquista? Especifica, não tenho bola de cristal, loiro. – Mais calmo, virou o rosto, olhando-o.

Para provocá-lo e deixar a situação mais calma, deu um leve puxão nos cabelos negros do namorado, que soltou uma rápida risadinha maliciosa.

-Aiacos, eu amo você. Espero que possa me desculpar pelo erro... – Ainda com as mãos a segurar o cabelo do outro, aproximou seu rosto do dele, e encostando no namorado, com carinho.

-Eu... Só não quero perder você. Não queria ter agido dessa forma, mas foi mais do que a minha razão... – Descruzou os braços trazendo Minos à sua frente e colocando-o entre suas pernas.

-Você não vai, eu juro. Eu amo você demais para pensar em ficarmos longe. – Soltou os cabelos dele e o abraçou, colocando a cabeça em seu ombro, e o outro acabou por fazer o mesmo.

-Eu te amo, Minos. – Deu um leve beijo no pescoço dele, com bastante carinho e fechou os olhos. – Desculpa.

-Não vou, você não fez nada, meu amor. – Nisso, sorriu.

-Ainda mereço os tapas? – Riu de leve.

-Não, você está sendo um bom garoto.

Por fim, o moreno também sorriu e ficou em silêncio, curtindo o carinho e cosmo quente do outro juiz.

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Mexia em seus arquivos no notebook vermelho que havia ganhado de Radamanthys como presente, do Natal anterior. E em sua cabeça havia muitas coisas. As palavras de Myu que ainda tentava refletir buscando uma verdade, a época natalina que chegava mais uma vez, planos para tentar desmascarar Garuda de alguma forma e que ao mesmo tempo se misturava com as palavras que o amigo havia dito.

Porém, tudo isso sumiu instantaneamente ao encontrar uma foto de Sylphid perdida entre as pastas. Ampliou e enquanto apoiava um cotovelo em sua mesa, arrumou os óculos e ficou prestando atenção na foto. Doía olhar. Mas pela primeira vez, depois da morte dele, iria insistir.

A foto típica de celular refletia sentimentos doces. Sylphid sorria enquanto olhava para a câmera, estava sentado em um banco no jardim do Castelo Heinstein. E atrás dele, fazendo uma palhaçada bem infantil, estava Myu.

O ruivo acabou por se lembrar desse dia, foi a última vez que os três estavam juntos. Depois, houve a leva de espectros em missões, e dentre eles, Basilisco foi o único que não voltou, e Myu, começou a namorar. Talvez isso tenha sido tão ruim quanto a morte do outro. Valentine sorriu pelo sorriso do outro e sem perceber, uma lágrima caiu no teclado.

-Sylphid... Eu te amo. – Falou bem baixinho, mas com uma esperança tola de que ele ouvisse.

Como se sentia há muito tempo, seu mundo tinha desabado pela perda. Nisso, a tristeza voltou e ele reiniciou o choro e alguns minutos depois, adormeceu no teclado.

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Horas depois, acordou de susto. Olhou a hora e viu que passava da meia-noite e meia. Em seguida, se levantou, estranhando a porta que dava para o terraço estar aberta, e nisso, franziu o cenho. Fechou, dando de ombros e indo desligar seu notebook. Bocejou, ouvindo outro barulho estranho na mesma porta, mas dessa vez ela não havia se aberto.

Tirou a roupa, sentindo um calafrio anormal e pôs suas roupas de dormir. Uma camiseta velha, branca com detalhes em rosas vermelhas e uma bermuda branca folgada. Antes de se deitar foi até a porta, verificando se nada havia de errado. Dando-se por satisfeito, foi se deitar em sua cama. Demorou um pouco a pegar no sono, porque parou para prestar atenção se o barulho continuava. E como a resposta foi negativa, caiu no sono novamente e rapidamente.

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Era um campo. Aberto, céu claro, sem um floco de neve no chão. Situação totalmente atípica em um lugar como a Alemanha, no inverno, semanas em vésperas de Natal.

Olhou ao longe e viu alguém. Mas não reconheceu. Esfregou os olhos e quando olhou novamente, não havia nada além de si mesmo naquele campo.

-Valentine!

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-Ah!

Harpia se sentou na cama, assustado com o sonho. Foi como se sentisse o toque de alguém, sombrio e seu nome sendo chamado em seu ouvido. Não reconheceu onde estava no sonho e não reconheceu a voz, e muito menos conseguiu olhar para ver quem era.

Respirou fundo, frustrado, porém curioso por tudo que aconteceu lá dentro. Deitou e ficou tentando descobrir o que foi aquilo. E muito tempo depois foi que conseguiu dormir, tranqüilo.

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Notas da autora: Fanfiction em caminho para término. Mas até lá, tem muito para acontecer. Agora, depois de um tempo de conversas e esclarescimentos, a tensão tende a aumentar entre todos os envolvidos. Será que a suposição de Myu é certa? Minos e Aiacos realmente estão bem de novo? Valentine está incomodado, será que é a culpa de não ter dito a verdade no momento certo? As respostas ficam para a próxima.

Obrigada mais uma vez pelos reviews e pelo incentivo de continuação, isso ajudou a render um ótimo capítulo. Assim como eu, espero que tenham gostado deste, também.

Verlierer: "Perdedor" em Alemão.