Erneut (by MistressAlice)
Estava distraído. Não conseguia parar de pensar na noite anterior, tudo era tão estranho. O som, a voz, o lugar. Procurou em sua cabeça algo lógico para aquilo tudo, mas em vão.
-Bom dia, ruivo besta.
-Eh. –Foi só o que conseguiu falar, distraído em pensamentos e enquanto servia uma xícara de café para si.
-Nossa, parece que viu um fantasma... – Atrás da Borboleta, Edward lhe envolvia a cintura num abraço, ainda sonolento, e ao contrário do namorado, não se dirigiu à Valentine.
-Talvez... Talvez.
O louro virou o rosto para olhar Sylph que também não entendeu aquele jeito perdido do outro. Por fim, foram até a mesa de café da manhã para comerem e se distraírem.
-Myu... – Falou ao se virar na bancada, esquecendo de seu café.
-Eu...? – Tinha roubado de uma cesta de pães, um pão de queijo e ao dar uma mordida, ouviu seu nome e instantaneamente virou o rosto para olhá-lo.
Pensou em falar, mas como não se dava tão bem com Edward, se sentiu inibido e saiu da cozinha, sem mais nem menos. – Nada...
-Valentine precisa de um médico, estou me preocupando.
-My, ele precisa é de muito Valium... – Nisso, o moreno riu maldoso.
-Ed!
-Hahahaha!
O ruivo ainda ouviu uma risada, mas nem se importou, caminhou meio perdido, incomodado com o que tinha acontecido.
-Graças aos Deuses achei você. Podemos conversar?
Só quando quase trombou com o mais alto foi que notou sua presença. –Minos? Hã?
-Dormindo ainda?
Desviou o olhar ao responder. – Sim.
-Algo está errado. –Falou para si, mas em um tom suficiente para o outro acabar ouvindo.
-Está tudo bem, vai fala. – O olhou um tanto impaciente.
O louro levantou uma sobrancelha, não gostando muito do tom, mas resolveu relevar. –Quero falar sobre Aiacos.
-Está cedo demais para me causar náuseas, Mi.
-Vou trancar vocês dois num quarto escuro para se entenderem.
-E daí eu viro canibal e escandalizo. – Respondeu em deboche.
-Valentine, olha como fala comigo. Bom, queria que você parasse de encrencar com ele. – Cruzou os braços, mostrando certa autoridade.
-Entenda de uma vez, Minos. – O olhou sério. – Nós dois juntos não vamos dar certo. Portanto você, Radamanthys e Pandora têm que abrir os olhos.
-Não, ouça você. Primeiro exijo que você fale direito comigo. Segundo, Aiacos é o meu namorado, e quero que o respeite na minha frente e pelas nossas costas. Terceiro, vocês dois são adultos e têm que se comportar como tal. Se não se gostam socialmente, ao menos sejam civilizados profissionalmente. Já chega essa birra de vocês, independente do motivo. Eu gosto muito dos dois para ter que ficar de um lado só. E pessoalmente: por favor, vocês estão me deixando muito triste agindo assim.
O mais novo pôs as mãos nos bolsos da calça preta que vestia e o olhou. – Acho que no momento isso é o que menos me preocupa. Ou seja, tanto faz.
-Então o que anda preocupando tanto assim você? Hoje está excepcionalmente estranho.
-Se eu dissesse que... E se... – Deu algumas pausas, pensando se falava a verdade. "Não, Minos vai me achar ainda mais maluco". Depois dos pensamentos, balançou a cabeça em negativa. – Está tudo bem, só estou cansado...
-Não é verdade, eu conheço você muito bem e além disso, está na sua cara que algo não está bem, ou normal.
O ruivo pensou bem, e mesmo achando a idéia de dizer, muito maluca, resolveu arriscar, afinal, era o Minos, seu mestre, alguém que admirava e que no fundo, amava além da conta.
-Ontem aconteceu uma coisa es-- - Percebeu uma outra voz chamar o nome dele, e fez uma cara feia. – "Droga!"
-Minos! – Chamou pelo nome do namorado, engrossando a voz ao vê-lo com o ruivo. Aproximou-se do loiro e lhe deu um selinho demorado na boca, e claro, ignorou Valentine. – Vamos, estou com fome. – O puxou pela mão para a cozinha, não deixando que Minos se opusesse à sua "ordem".
Harpie tentou se opor, mas não conseguiu, percebendo que não teria atenção de nenhum dos dois. Nisso, voltou ao caminho que fazia, decidindo ir tomar ar nos jardins do Castelo. "Ninguém vai acreditar em mim... E porque é que eu estou insistindo nisso? Estava cansado para caramba, e ah!" Acabou por concluir de si mesmo enquanto andava.
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Não havia quase ninguém pelos diâmetros do grande jardim que havia lá fora. Salvo as exceções como Kiew que atormentava Gordon, e Niobe que participava da bagunça, e alguns empregados que iam e vinham em seus diversos afazeres. Observou cada um ali, sentindo uma nostalgia dentro de si, e novamente, uma tristeza.
Lembrou-se de alguns outros momentos com Sylphid, como fez a noite passada, e conseqüentemente, nas vezes que passavam horas ali, zoando, brincando, se atormentando e até brigando, já que ambos eram cabeças muito duras na amizade que tinham.
"Escrevo minha própria história, e vivo à sua margem sozinho".
Perdido em meios seus pensamentos, como sempre fazia, ouviu os arbustos e flores ali se mexerem, como se um vento os transpassasse. Mas não havia movimento da natureza. O ruivo olhou, estranhando novamente um movimento sem meios e sentiu um arrepio.
-Zeus, o que há de errado comigo, para variar? Não estou no Inferno para sentir essas coisas sem explicação. – Falou novamente sozinho, preocupando-se que sua mente estava lhe pregando peças, já que andava emocionalmente abalado.
Em questão de instantes, sentiu um vento passar por si, como ocorreu com as plantas ali perto. E como da outra vez, não havia vento natural. Foi como se alguém passasse por si, e se não bastasse essa sensação, sentiu um perfume. "São as flores..."
"Sou o único que nota a minha presença, e todas as vozes que ouço, são apenas ecos de meus desejos".
Alguns segundos depois, em que ainda prestava atenção no aroma estranhamente conhecido, ouviu seu nome, novamente ao longe.
"Impotente, enfrento a minha solidão. Impotente, lhe dou a face".
Momento depois ouviu de novo, mais claro e mais perto. Acabou por paralisar ao finalmente reconhecer à sua frente, o motivo de toda aquela confusão em sua cabeça, que durava desde ontem.
"Desintegrado em milhões de pedaços, arrasto-me em milhares de direções".
-Valentine. – Falou calmo e claro o dono daquela voz que o ruivo não compreendia anteriormente.
Engoliu seco, não conseguindo responder.
-Também estou muito feliz em rever você! – Falou, em claro tom de deboche, como de costume.
-Você está morto! – Finalmente respondeu inconformado de vê-lo e ouvi-lo. Além de ter a expressão em extremo choque.
-Por maioria de votos sim, mas não estou tão morto quanto vocês esperavam. – Disse o loiro, concluindo.
-É mentira que é você! – Nisso, ergueu um dedo para cutucá-lo, ainda não levando fé da existência do outro.
-Eu já disse, eu não morri sua anta. – A voz já tinha um início de impaciência.
-Mas como você está vivo? Todos... Eu... – Seus olhos começaram a se encherem de lágrimas, mas não sabia se era de tristeza ou felicidade.
O loiro estendeu a mão para tocar carinhosamente no outro. – Val, não precisa chorar, deram que eu estava morto, mas eu desapareci justamente para evitar ser morto.
-Porque fez isso?! – Respondeu, chorando e bravo.
"E não seguirei firme o suficiente a sua mão. Escapei em falsos sonhos".
-Preferia que eu morresse? – Deu um sorriso, convincente.
O ruivo acabou por se jogar nos braços dele, chorando e o apertando forte no abraço, sendo correspondido.
"Sentei-me em lugares ocupados, busquei a Glória de estar contigo e encontrei a ridícula solidão".
-Val...
-Hã? –Falou em meio ao abraço, porém achando que era do seu drama, se afastou. – Ah, desculpe.
-Não, não por isso... Mas é que... Ontem... Eu ouvi...
O olhou com os olhos um pouco arregalados, temendo algo que não sabia direito o que era.
-Você ontem de noite, disse... – O olhou, meio tímido. -... Que me amava...
-Sabia que havia algo além de mim naquele quarto.
- Eu queria insistir, mas como percebi que estava para dormir, fiquei em silêncio.
Valentine abraçou a si mesmo, desviando o rosto e mordendo o lábio inferior. – Aquilo que eu disse, era sério...
-Por que nunca me disse?
-Certeza eu tinha, mas não quanto ao futuro da nossa amizade.
-Você tem razão, mas poderia ter arriscado. – O olha, com atenção.
-Eu sei, mas como me sacrificaria tendo você de qualquer maneira e nunca percebi alguma chance de retorno dos seus sentimentos, preferi deixar isso de lado.
"Eu sou o respirar da sua pele".
-Agora, você tem uma segunda chance. – Aproximou-se dele, olhando fixamente nos olhos verdes do ruivo.
"Sou o veludo ao redor do seu corpo".
-Isso não vai estragar a nossa amizade? – Estava perdido no olhar azul e profundo do outro.
-Se depender de mim, não será apenas uma amizade... – Manteve o sorriso sincero.
-Eu amo você, Sylphid. – Deu um sorriso leve, ao ouvi-lo.
O "ex-morto" colocou o rosto dele entre suas mãos, deixando as bocas bem próximas. – Eu também, amo você, ruivo.
-Você tem muito que me explicar desse sumiço, viu? Não esqueci não... – Riu, de forma doce.
-Só conto depois que me beijar e aceitar o pedido de namoro. Namora comigo, Valentine?
O ruivo pôs ambos os braços em volta do pescoço do loiro e acabou por responder através de um beijo apaixonado e longo.
Era indescritível a alegria de Harpia por tê-lo ali. Toda a tristeza que o consumia desde a notícia, toda a raiva pela solidão e o ódio por Aiacos sumiram completamente, existindo apenas os dois ali, em seus pensamentos e no mundo. Ficaram ali por horas, trocando palavras, carícias e se amando, descontando a ausência um do outro.
"Sou o beijo em seu pescoço, sou o brilho de seus cílios. Não importa quão depressa você corra, sou uma parte de si!".
Notas da autora: "Erneut" – "Novamente" em Alemão.
Frases soltas entre aspas são letras das músicas "Eisamkeit" e "Lichtgestalt" da banda Lacrimosa.
