Cap 1 - Feliz Aniversário

Eu acordei quando ainda estava escuro, quando fui conferir o relógio:

5 AM

Tenho o estranho hábito de querer conferir a hora durante a noite. Uma certa obsessão talvez.

Mas hoje não é um dia qualquer, hoje eu completo 19 anos.

Dezenove anos....é uma idade tão inútil...Todo mundo espera ansiosamente pelos 18 pra fazer coisas que eu não tinha vontade de fazer. Como beber, nunca gostei de bebidas alcoólicas, na verdade nunca gostei de beber qualquer coisa, até água pura era nojento para mim; ou ir a baladas, odeio essa palavra, odeio estar no meio de um monte de pessoas,nunca me dei bem com as pessoas...a humanidade é desprezível... Mas também houve coisas as quais eu fui privada, como dirigir, minha mãe não tinha dinheiro pra me pagar auto-escola. Minha mãe era viúva, até onde eu sabia meu pai havia morrido antes de eu nascer, e ela nunca quis me falar muito sobre ele. Minha mãe nunca mais se relacionou com ninguém, se direcionando completamente a mim, as vezes era estranha essa reação, como se ela esperasse q eu fosse morrer a qualquer momento...eu nunca tive nenhuma doença séria.

Enfim. Mas fazer 19 anos, não tem nenhum adicional a essa idade...Você já passou daquele meio termo de ser adolescente ou adulto, e as pessoas esperam q você seja adulto mesmo que não se sinta assim. Eu sempre me senti mais nova do que eu realmente era, como se as coisas passassem mais devagar pra mim. Com a minha pele pálida de aparência frágil, meus cabelos longos até a cintura, castanho claro, meus olhos castanhos, 1,70 altura e peso médio, eu simplesmente não tinha cara de 19 anos!! Eu poderia me passar por 16 facilmente! Até por 15! E ser adulta, é completamente inaceitável.

Eu queria que houvesse um modo de parar isso. Que eu pudesse parar de envelhecer. Talvez seja síndrome de Peter Pan. A única forma disso é morrer, e eu não estou pronta pra morrer.

Descobri recentemente que eu tenho medo da morte. Tenho tido pesadelos por muitas noites em que eu morro de várias maneiras diferentes.... talvez porque meu aniversario estava chegando. Eu não estou preparada pra ser adulta, e não estou preparada pra morrer!

Dormi de novo e acordei às 8 da manhã. Eu durmo num quarto nos fundos da minha casa, um tanto longe de casa, eu gosto do isolamento. Fui até a cozinha onde minha mãe cumprimentou:

Feliz aniversário!

Obrigada. - eu respondi de má vontade.

Você é muito nova pra estar na crise dos 30!!! – disse ela notando meu mau humor.

Rossana, que é como minha mãe se chama, não era muito parecida comigo, seu cabelo era liso e preto ao invés de castanho, ela não era tão branca como eu, e nem tão alta. Ela tinha olhos também castanhos e sempre trazia uma expressão preocupada, o que a fazia parecer mais velha do que realmente era, ao contrario de mim. Ela insistiu em me levar há uma churrascaria para comemorar. Eu gostava muito de carne. Principalmente as de churrascarias.

Quando o garçom apareceu perguntando o que nós queríamos, eu disse:

Qualquer coisa, contanto q seja mal-passado.

Minha mãe me lançou um olhar reprovador, mas também um tanto preocupado.

Que foi?? – eu perguntei

Nada...- disse ela se recompondo – é só que você está a cada dia mais parecida com o seu pai.

Como eu saberia??? Você nunca me diz nada sobre ele... – eu devolvi.

Bem...acho que você já está bem crescida pra saber sobre algumas coisas, agora.

Odiava quando diziam que eu já estava crescida o bastante para as coisas, era mais um indicio de estar ficando velha. Mas nesse caso, era bom.

Hoje à noite, quando você voltar do cursinho eu explico tudo – disse ela mais pra ela mesma do que pra mim.

Eu não vou no cursinho no meu aniversario - afinal fazer aniversario tinha q ter uma vantagem.

Okay.... Ainda assim, à noite. – terminou ela. Não reclamei caso ela por acaso mudasse de idéia.

Ela me assistiu saborear o sangue que escorria da carne, enquanto ela comia a salada.

Eu fazia cursinho à noite esse ano....Nunca gostei muito do sol, da luz do dia, me incomodava, mas eu costumava estudar de dia antes. Foi bom mudar pra noite esse ano, e me esconder do sol o dia inteiro dentro de casa.

Mas ainda assim eu não gostava de ir até lá. Eu só tinha um amigo lá.... Michael. Michael era alto e magro, um tanto desengonçado. Tinha cabelo loiro escuro encaracolado, usava óculos e tinha uma aparência inteligente. As outras pessoas raramente pareciam me notar, ou se importar comigo. Mikey talvez só tivesse me notado porque trombou comigo, literalmente, no primeiro dia, ao tentar entrar na sala ele não me viu e deu de encontro comigo, nos falamos desde então. Mas nós éramos muito diferentes, como se fossemos de espécies distintas, como se...ele fosse o sol e eu a lua.

Mikey era muito animado às vezes, e gostava de falar bastante. Ele irradiava luz. Às vezes ele não conseguia controlar o tamanho de sua animação, e eu não sou a melhor companhia, eu sou fria, sempre fui fria, minha conversa não flui por muito tempo com as pessoas, mas Mikey se esforçava. Ele sofre de transtorno bipolar, então de vez em quando, como se fosse um eclipse, a luz dele parava de irradiar, e ele ficava triste e mal queria falar. Às vezes eu preferia ele assim, porque ficava mais parecido comigo, mas na maioria das vezes eu sentia como se eu estivesse sugando a felicidade dele, a sua luz.

Ninguém se aproximava de nós, mesmo Mikey sendo muito comunicativo, era como se eu fosse um catalisador reverso ambulante! Eu tinha pena de fazer isso com Mikey, e já havia lhe dado à opção de se afastar de mim, mas ele se negou. Mikey queria ser um bom amigo.

No fim da tarde, Rossana me levou junto com alguns amigos da família ao boliche.

Eu era muito ruim no jogo, mas o achava divertido embora nunca ganhasse. Em uma jogada particularmente ruim a bola arrancou um pedaço da minha unha, logo começou a sangrar. Eu instantaneamente levei o meu dedo a boca e suguei o sangue, tinha um gosto bom.

Rossana não gostou nada disso, me lançou um olhar assustado e reprovador.

O sangue logo parou.

Fiquei o dia todo esperando Rossana falar comigo sobre o que ela disse que faria. Mas ela não veio...Até que o boliche acabou e nós fomos para casa nos despedindo de nossas companhias.

Quando chegamos em casa eram 21:00 horas. Foi mais ou menos a hora em que nasci há 19 anos atrás.

Samantha. – minha mãe me chamou com uma voz preocupada. – Está na hora de eu te contar algo que eu deveria ter contado há muito tempo.

Sobre o meu pai? – perguntei

É...- disse ela pensativa – também sobre o seu pai, mas o mais importante, é sobre você!

O que?? Sobre mim? – eu processei lentamente – Eu sou adotada? – perguntei confusa. Isso explicaria muita coisa.

Não! Não seja ridícula...– disse ela revirando os olhos, mas ainda parecendo preocupada – Eu me pergunto se demorei demais pra contar-lhe isso, agora só falta um ano! Está muito perto...– ela disse frustrada.

Mãe! Para de enrolação e diz logo! – eu disse me enchendo do suspense.

Samantha...- Rossana continuou. – Você é uma vampira!

"Hoje é o melhor
Dia que eu já vivi
Não posso esperar o amanhã
Amanhã é muito distante
Meus olhos se queimarão
Antes de alcança-lo

Eu queria mais
Do que a vida poderia me dar
Entediado pela rotina
De poupar prestigio"

(Today – Smashing Pumpkins)