Capitulo 2 – Brincadeira sem graça.
- OQUÊ????? – perguntei eu horrorizada.
- Bem... na verdade você é meia vampira. – continuou ela pensativa.
- Mãe...Você ta ficando louca? – perguntei ficando preocupada com ela.
- O seu pai era um vampiro também, Samantha. – disse ela escondendo o rosto nas mãos. – Ele era um vampiro e eu nunca deveria ter me aproximado dele.
- Mãe. Pensa bem... meu pai não pode ter sido um vampiro. – disse eu tentando pensar racionalmente.- Vampiros são imortais! E o meu pai morreu.
- O seu pai foi assassinado! – disse ela.
- Assassinado??? – exclamei horrorizada. – Você me disse que ele morreu de câncer!
- Eu menti! Como eu ia dizer pra uma menina de 5 anos que o pai vampiro dela tinha sido assassinado pelo bando dele? – perguntou ela com lágrimas nos olhos.
- O que você quer dizer com....o bando dele? – perguntei em um sussurro.
- Os outros vampiros mataram ele. – disse ela olhando pela janela. – Ele não devia ter se relacionado comigo. E eu ainda fiquei grávida...Vê como isso foi errado?
- Nada disso faz sentido!!!! – eu disse me levantando, gritando. – porque você está me dizendo isso?
- Porque é a verdade! – disse ela se levantando também. – Talvez você esteja com uma mente muito humana agora, e não possa entender.
- Você esta ficando LOUCA! É isso que eu entendo – eu gritei de volta.
Eu fui andando para o meu isolado quarto, mas Rossana me seguiu.
- Eu estou louca???? – desafiou ela- Você não acha estranho você crescer mais lentamente que as outras pessoas? Ou o porque de você não gostar do sol? Ou não gostar de água, mas sim de sangue!
- Mas....isso não tem nada a ver! – eu disse tentando permanecer racional.
Já estávamos no meu quarto, minha mãe se sentou na cama e me fez sentar ao lado dela.
- Seu pai se chamava Edward Vandork III. E ele fazia parte de uma família de vampiros muito conservadora, eles nunca gostaram que ele se relacionasse comigo. Eu o conheci em um cemitério, no enterro de uma prima desconhecida minha. – contava Rossana. Ela nunca havia me contado como conheceu o meu pai. - Ele me alertou que não era boa companhia, mas ele era tão educado, lisonjeiro, como aquele homem poderia representar algum mal a mim? – ela se perguntou. – Mas eu devia tê-lo ouvido. Eu me apaixonei rápido demais por ele.
Eu escutava calada, tirando a palavra vampiro da história, as palavras de minha mãe pareciam sinceras.
- Ele me contou o que ele era uma semana antes de eu descobrir que eu estava grávida. Eu no começo, como você, não achei que fosse sério, mas ele me mostrou! – disse ela. – Não tem como se explicar o que eu vi! O que ele fez! Então eu me afastei dele. E nunca mais pretendia vê-lo. Mas então, uma semana depois, eu descobri que estava grávida! – disse ela me encarando.
- De mim. – completei eu.
- Eu não precisei procurá-lo. Ele veio até mim. E quando eu o contei da gravidez ele me alertou que o bebê que eu esperava seria um deles! – disse ela com os olhos vermelhos. – Eu estava preocupada demais com ter um vampiro crescendo dentro de mim pra pensar o que a família dele acharia, que era com o que ele se preocupava....e então....Nós fugimos. – Disse ela.
- A família do meu pai não me queria?? – perguntei quase sem voz, num sussurro.
- Não. – disse ela. – Eu disse que eles eram conservadores, eles nunca iriam querer uma humana esperando uma meio vampira na família deles. – disse ela revirando os olhos.- Então, eu e o seu pai fugimos, eu até me esquecia do que ele era as vezes.... foram os melhores 8 meses da minha vida! – disse ela com um olhar sonhador. – Seu pai foi tão gentil comigo na gravidez, ele atendia a tudo o que eu queria, até mais do que eu queria. Mas tudo o que eu queria era ficar com ele e com você para sempre! Era tudo o que eu sempre estivesse procurando!
Ela dizia isso com olhos sonhadores. Mas de repente seu olhar ficou angustiado de novo.
- Mas eu só podia estar sonhando que eles nos deixariam em paz. – completou Rossana. – Eles nos encontraram. Edward lutava contra seus próprios irmãos quando eu o deixei. – e então as lagrimas corriam pelo rosto dela livremente. – E ele me deu tempo de fugir, fugir com você! – disse ela pegando minhas mãos. – Edward foi morto aquela noite. Eles o mataram. Ele nem teve chance. E nós também não teríamos se eles decidissem nos pegar. – disse Rossana se referindo a ela e a mim. – Mas acho que eles não nos acharam muito importantes para seguir uma grande caçada. Mas as vezes eu tenho medo que eles só estejam esperando que...- e então ela se calou.
- Mãe? – eu chamei. Ela continuo parada com as mãos junto as minhas, me olhando com o olhar vidrado.
- Nada filha...- disse ela. – Eu disse tudo isso pra te explicar que quando você completar 20 anos, a sua transformação estará completa!
- Minha transformação?? – perguntei tentando entender, quase acreditando na história toda.
- Você será uma vampira completa quando fizer 20 anos! – Terminou ela.
Silêncio. Eu tentava digerir isso.
- Vamos supor que toda essa história de eu ser vampira seja verdade. – eu disse. – Eu não me queimo no sol, eu não me alimento de sangue, eu não estou parada no tempo, eu cresço! Se não eu não teria feito 19 anos hoje não é? – eu perguntei com raiva
- Isso é porque você ainda é meio vampira. Você ainda tem muito da sua parte humana. Mas já tem algumas características da sua metade vampira. É só você prestar atenção. Você não é como os outros. Você nunca foi como os outros Samantha.
Fiquei paralisada por um longo momento enquanto minha mãe me observava com um olhar piedoso. Até que ela disse.
- Eu vou deixá-la dormir...- disse Rossana se levantando. – Boa noite querida. – disse ela por fim me dando um beijo na testa.
Era verdade. Era tudo verdade!
Eu sempre fui diferente. Eu sempre me senti diferente! Além das poucas características que Rossana citou, eu ainda tinha muito mais coisas estranhas. Será que eu fui sempre assim??? Tão branca, tão fria, tão morta??? Não, eu não fui sempre assim, eu fui ficando assim! Ou que eu só achava que eu parecia assim agora porque minha mãe me disse essa loucura??? É uma loucura! Vampiros não existem!
Mas se existissem, e se eu fosse um deles, eu seria imortal!
Mas meu pai vampiro morreu.
Mas meu pai vampiro morreu.
Mas meu pai vampiro morreu!
Acordei no dia seguinte tarde. Nem sequer quis olhar as horas, mas o sol estava quase a pino. Ele queimou os meus olhos quando o encarei.
Rossana já havia saído pra trabalhar, e havia me deixado um bilhete como todo o dia.
"Samantha,
Espero que esteja se sentindo bem hoje, e que tenha entendido o que eu quis dizer ontem. Desculpe se eu a assustei.
Eu deixei um bife na geladeira pra você almoçar.
Beijos, Rossana."
Okay. Aquele bilhete confirmava. Tudo havia sido apenas uma brincadeira!
"Espero q tenha entendido (...)" – eu re-li – A brincadeira! É claro!
"Desculpe se eu a assustei." Rossana e as brincadeiras nada a ver dela!!!! Minha mãe sempre foi muito brincalhona. Mas essa foi assustadora!
Assisti televisão até a hora do almoço. Quando finalmente fui pegar o meu bife na geladeira.
Ele estava cru, gelado, sangrento.
Me veio o estranho impulso de comer ele assim mesmo.
Afastei o pensamento e o coloquei para esquentar.
Estava decidida a ignorar essa teoria. Afinal foi tudo uma brincadeira de Rossana. Só pode ter sido uma brincadeira!
Quando deu 18:30 eu saí para ir ao cursinho. Eu até estava com vontade de ir ao cursinho hoje. Ver gente normal. Me sentir normal. Como se isso fosse possível. Eu nunca me senti normal.
Cheguei adiantada. Mas eu trouxe um livro na bolsa para me distrair enquanto a aula não começava. Tive que ficar na secretaria por algum tempo para pagar a mensalidade, e eles sempre demoravam irritantemente. Subi até o 2o andar, a fim de ler o meu livro, mas quando entrei na sala Michael já estava lá.
- Olá – eu cumprimentei, me sentando ao seu lado, feliz ao vê-lo, por ele ser tão.... normal!
- Oi!! – disse ele me dando um beijo no rosto. Coisa que ele não costumava a fazer, mas deve ter sentido o meu inesperado bom humor em relação a ele. – Nossa como você ta gelada. Deve ser porque você acabou de chegar.
- Er.... é! – eu disse pra dispensar maiores comentários.
- Deve estar frio lá fora. – disse ele pensativo me olhando com uma expressão confusa. Visivelmente não estava tão frio assim lá fora.
A aula passou normalmente.
Fiquei aliviada quando terminou e sai o mais rápido o possível pela porta, era por isso que eu gostava de sentar perto da porta, eu era quase sempre a primeira a sair, o que evitava que as pessoas esbarrassem acidentalmente em mim.
Passei pelas catracas rapidamente, algumas pessoas saiam apressadas também. Hoje eu estava vestindo meu casaco longo preto preferido, calça jeans e meu all star azul de sempre. Usava meu cabelo castanho longo dividido no meio solto, e trazia um pentagrama no pescoço que eu usava todos os dias, que pra mim era símbolo do meu ateísmo, que foi depois de me converter ao wicca que deixei de acreditar em religiões, inclusive wicca.
Quando saí para a noite eu o vi. Encostado nas longas grades do portão do cursinho mais à frente. Ele usava roupas pretas e diferentes, seu cabelo era castanho repicado, mais longo na parte da orelha, tinha algumas mechas cuidadosamente distribuídas avermelhadas, era alto e estranhamente magro, tinha um sorriso assustador zombatório quando olhava pra mim, observando o meu olhar assustado pelos olhos escuros puxados dele, senti o olhar dele me seguir quando passei pro ele e continuei em frente.
Entrei no carro da minha mãe rapidamente, feliz por ela estar me tirando fora do perigo que parecia me representar esse menino.
Ele me assustava! Não por ele ser tão diferente, ou pelo seu sorriso zombatório, como se ele soubesse algo sobre mim, mesmo que eu nunca o tivesse notado antes. O que me assustou nele, foi como ele era branco, estranhamente branco para um oriental, branco como eu!
"O mundo é um vampiro, enviado pra sugar
Destruídores furtivos, te fazem enfrentar as chamas
E o quê que ganho, pela minha dor?
Desejos traídos, e as moedas do negócio
Apesar de saber
Acredito que continuarei
Neste meu frio e gelado velho trabalho
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado
E alguem dirá que o que está perdido não se pode recuperar (...)"
(Bullet with Butterfly Wings – Smashing Pumpkins)
