Cap 4 – Fuga.
O fim de semana chegou.
Eu não fiquei feliz por isso. Não que eu costumasse ficar feliz com isso. Eu apenas ficava satisfeita que não tivesse que ir ao cursinho.
Eu não saia de casa nos fins de semana. Eu nunca gostei de sair de casa, de ficar na casa dos outros muito menos, nunca me senti confortável em nenhum lugar que não fosse a minha casa. Dormir fora era um pesadelo em que eu estava acordada.
Mas eu não estava ansiosa para esse fim de semana em particular porque eu ficaria irremediavelmente sozinha em casa com Rossana. Seria quase impossível evitar que ela trouxesse aquele assunto a tona.
Eu cheguei a pensar em um lugar pra ir. Mas eu não tinha par onde ir! No máximo dar uma volta no quarteirão? No parque? Na cidade? Isso não poderia durar o fim de semana inteiro! Talvez eu pudesse ir estudar na sala de estudos do cursinho que deveria estar aberta no sábado pelo menos, mas isso me levava ao meu outro motivo para não gostar desse final de semana. O estranho garoto oriental que eu não tinha certeza se eu havia imaginado.
Eu estava ansiosa pra ir ao cursinho de novo para confirmar que eu não estava ficando louca e que aquele menino realmente existia!! E também tinha medo de ir ao cursinho e descobrir que realmente ele não estava lá, que ele nunca esteve lá.
Passei a maior parte da manhã na cama, primeiro porque eu costumo demorar pra dormir de noite, segundo, porque assim Rossana passaria menos tempo comigo para conversar. Agüentei lá até duas da tarde. Quando Rossana veio me perguntar:
- Morreu?
- Eu só estou cansada. – eu respondi. Me levantando rápido pra fugir dela.
- Cansada do que??? Você não faz nada!!- zombou ela.
Sai do meu quarto antes que essa conversa fosse mais em frente.
Me troquei, e fui ver o que tinha para almoçar, mas dei de cara com Rossana me olhando com uma expressão curiosa.
- O que foi??? – perguntei
- Você está muito estranha.- analisou ela. – O que aconteceu?
- Nada. – eu disse pegando a minha bolsa pendurada no corrimão da escada. Rossana me seguia.
- Onde você está indo??? – perguntou ela.
- Vou comer fora. – respondi curtamente.
Rossana ficou quieta por um momento e então disse, enquanto eu calçava os tênis:
- Você esta me evitando???? – perguntou ela impressionada.
- Claro que não. Porque eu estaria?? – perguntei fingindo não haver nada.
- Foi pelo o que eu te contei não foi??? – disse ela nervosa – Eu sabia que você não podia ficar tão bem com tudo isso. Você ainda é tão jovem para entender...
- Não vem me falar que eu sou jovem!!!! Decida de uma vez se eu sou velha ou nova. Odeio que fiquem mudando de opinião com a circunstância! – eu disparei a Rossana.
- Não há nada que você possa fazer, entende??? – Rossana disse tentando se acalmar. – Você precisa aceitar quem você é e seguir em frente.
- Não preciso aceitar nada. – eu disse saindo e batendo a porta atrás de mim.
Da janela eu pude ouvir minha mãe gritar:
- Você vai ter que voltar uma hora.
Eu sempre imaginei o que eu faria e o que eu levaria se eu tivesse que fugir de casa por algum motivo. Eu nunca achei que o motivo poderia ser a incapacidade de morar com Rossana.
No meu plano original eu levava bastante dinheiro e algumas roupas, e partiria do metrô até a rodoviária e iria para a cidade do interior em que meus avós moravam. Mas eu não estava fazendo nada disso. Eu estava apenas com a roupa do corpo, e em minha bolsa não havia mais do que 12 reais, eu não teria como pegar metrô e ir pro interior só com esse dinheiro. E mesmo se eu tivesse dinheiro o suficiente, meus avós haviam morrido há três anos atrás. Eu não tinha para onde ir!
Se eu conhecesse meu avós paternos eles me acolheriam, e me manteriam longe da minha mãe louca. Parte da história de Rossana que eu acreditava ser verdade era o fato da família do meu pai não gostar dela. Por isso eles nunca me conheceram, eles não gostavam da minha mãe, talvez não tivessem nada contra mim. Talvez eles nem saibam da minha existência. Talvez eles já estejam mortos também, como os pais da minha mãe, como o meu próprio pai.
Fui andando inconscientemente, sem me dar conta sequer de onde eu estava indo. Quando eu me dei conta que eu estava numa esquina com um longo muro branco à frente. Eu estava no quarteirão do cemitério.
Me surpreendi por um momento pro eu ter ido inconscientemente pra lá, mas logo depois percebi que eu sempre tive o desejo secreto de passear por lá.
Eu caminhei até o portão de entrada e fiquei parada lá por um momento observando a paisagem. O próprio portão já era bonito. O ferro fazia formas de redemoinhos e pentagramas, como o que estava no meu pescoço, era grande e cinza. As escadas que desciam até os túmulos eram brancas e cobertas por pequenos azulejos reluzentes. As árvores tinham uma aparência triste, e tinham flores de varias cores, amarelo, rosa, violeta. Davam uma sensação de paz em contraste com todos os túmulos cinzas, alguns em azulejo preto. O cheiro era apenas levemente incômodo, o cheiro de morte dos cadáveres sendo decompostos aos meus pés.
Passei pelo portão de entrada e fui descendo as escadas. Andei um pouco entre os túmulos de arte gótica, analisando. Não era tão diferente de ir a um museu, observar obras de arte.
Eu estava com fome, mas o clima do dia estava bom para esse passeio, estava frio e nublado, havia um vislumbre de sol entre as nuvens que só servia para diferenciar a noite do dia, porque não esquentava. Me sentei em um dos túmulos e fiquei sentada lá por um momento, exalando o ar, respirando paz, tentando não pensar em nada.
Fiquei lá por algum tempo, não sei exatamente quanto tempo. Fui almoçar em um Fast Food qualquer, já que ficava aberto o dia inteiro. Comi o mais vagarosamente que pude. Quando saí estava quase escuro. Não queria voltar pra casa, então eu voltei para o cemitério, meu refúgio.
Haviam vários mendigos deitados ao redor de cemitério agora. Eles também pareciam achar que o cemitério era um bom lugar, um refúgio. Pela calçada também haviam rosas espatifadas, velas e outras coisas que eu não conseguia identificar, ingredientes de algum tipo de macumba.
Ao entrar fui andando sem rumo entre os túmulos, cada vez mais fundo pelo cemitério. Agora já era realmente noite, e a única luz vinha da lua crescente no céu, mas eu nunca tive medo do escuro. Me dei conta que fechariam o cemitério logo, mas não me importei, continuei andando pra mais longe na esperança que eles não me encontrassem e me fechassem lá dentro por toda a noite.
Eu estava com vontade de fazer algo assim, algo aparentemente sem sentido, apenas pra me perder de mim mesma, me esquecer de tudo. As pessoas costumam usar drogas pra isso, mas eu nunca usei drogas, nem sabia onde encontrá-las. Talvez bebida alcoólica também fizesse efeito, e os mendigos lá fora jogados no chão com suas garrafas quase fazias poderiam me ajudar, mas eu nunca gostei de beber, não iria começar a gostar agora.
Eu estava contente apenas de me ver sozinha, fora do mundo real, protegida pelos mortos naquele cemitério. Percebi sem muita surpresa quando um funcionário do cemitério passou perto de mim com uma lanterna sem me notar, as pessoas raramente me notavam, era como se eu fosse um dos mortos. Eu estava entre os meus agora.
Quando ele saiu de vista eu desci as escadas que iam para a parte israelita do cemitério, era uma ladeira. Em frente haviam os prédios da cidade com várias luzes acessas, a lua crescente em cima deles, poucos carros passavam ao lado da rua onde eu podia ver. Era uma paisagem tão bonita. O cemitério, a cidade, a lua.
Me deitei em cima de um dos túmulos, sentindo um fortíssimo cheiro de dama da noite no ar e fiquei admirando essa cena por bastante tempo, tentando gravá-la em minha mente, como uma fotografia. Fiquei acordada até grande parte da noite, acredito, pois quando acordei irritada com os poucos raios solares que começavam a tingir o céu, não eram mais que 6 da manhã.
Achei melhor ficar mais perto do portão de entrada, pra quando os homens o abrissem.
Quando fizeram isso eu saí sem ser notada, e rumei para a minha casa, decidindo que Rossana já devia ter morrido a essa altura de preocupação.
- Você quer me matar???? – gritava ela com a mesma roupa de ontem e fortes olheiras em baixo dos seus olhos castanhos. – Onde você estava o dia e a noite inteira????
- Calma mãe, eu to bem, está tudo bem. Eu só estava um pouco mal humorada.
- Então é assim? Você vai sumir sempre que estiver mal humorada???? Vai passar a noite que nem uma vadia na rua? Onde você passou a noite???
- Não mãe. Foi só dessa vez, eu juro. Já passou. Eu dormi na casa de uma amiga.
- Amiga?? – perguntou ela em tom de descrença. – Amiga de onde?
- Do cursinho. – respondi automaticamente.
- Não sabia que você tinha amigas. – disse ela ainda desconfiada.
- Viu? Não sou tão anti-social como você pensa. – eu disse sorrindo falsamente, mas Rossana não percebeu.
- Que bom. – disse ela.
Fui andando em direção a cozinha pra comer alguma coisa, aliviada que a desculpa tivesse sido convincente.
- Como ela chama?
- Quem? – perguntei me esquecendo.
- Sua amiga!!! – disse ela desconfiando de novo.
- Ah...- eu disse tentando pensar rápido. – Michele! – eu disse me lembrando de Michael.
- É.... o nome parece familiar. – disse ela obviamente não se lembrando que o nome do meu colega era Michael, e que por isso achava conhecido.
Rossana ficou tão desesperada durante toda a noite que nem dormiu. Ela tentou chamar a polícia, mas eles só começam a procurar quando o desaparecimento já tiver completado 24 horas. Por conta disso ela dormiu o dia inteiro e nem se lembrou do que queria conversar comigo antes da minha fuga. Funcionou melhor do que eu esperava. Fiquei com uma leve pena dela pela preocupação que causei, mas ela havia me causado um preocupação desnecessária antes. Era justo.
Na segunda fui para o cursinho neutralizada do fim de semana, sem nem em lembrar do motivo que eu estivesse estranhamente ansiosa e temerosa de ir aquele lugar na ultima semana.
Subi pelas escadas de incêndio tediosamente os dois andares, quando saí por ela quase dei de encontro com alguém que estava parado ao lado da porta da sala.
- AAAAAhhhhh – não consegui reprimir o grito baixo horrorizado quando reconheci quem era essa pessoa.
- Desculpe. Eu te assustei??? – perguntou o garoto branco de olhos puxados com um sorriso zombeteiro assustador.
"Porque você era de um mundo perfeito
Um mundo que me jogou fora hoje,hoje,hoje
Para sair correndo
Uma pílula pra te entorpecer
Uma pílula pra te emburrecer
Uma pílula pra te tornar qualquer outra pessoa
Mas nenhuma droga nesse mundo
Irá salvá-la dela mesma"
(Marilyn Manson – Coma White)
