Cap 5 – Semelhança Vital.

Ele estava parado apoiado na parede que dividia a saída de incêndio e a porta da sala. Estava vestindo uma calça jeans escura, uma camiseta preta e uma jaqueta com a gola levantada atrás, o que lhe dava um aspecto muito diferente. Apesar do que chamava mais atenção nele ser o seu rosto tão incomum, hoje eu me distrai com os longos brincos prateados que ele usava.

- Claro que me assustou! – eu disse com a mão no peito acompanhando as batidas aceleradas do meu coração. – Porque você está parado !!!?? – eu dei a bronca.

- Eu sempre fiquei parado aqui, hoje foi apenas a primeira vez que você me notou. – ele disse com o sorriso assustador dele, parecendo divertido, fazendo os seus olhos puxados ficarem ainda menores.

- Nossa. – eu exclamei sem defesa. – Me desculpe. – disse me sentindo mal por nunca tê-lo notado ali, exatamente como as outras pessoas nunca me notavam também. Ninguém, além dele pareceu perceber o meu grito.

- Eu que tenho que me desculpar por assustá-la com a minha feiúra. – disse ele dando um sorriso maior e ainda mais assustador. – Espero que não se repita.

Antes que eu conseguisse encontrar o que dizer, o sinal tocou e o garoto disse.

- Boa aula pra você. – disse ainda parado no lugar.

- Pra você também. – eu consegui dizer.

Com alguma dificuldade me afastei dele e entrei na minha sala.

Ele é real! Eu não estou ficando louca!! Ou talvez eu esteja mais louca do que eu pensava, mas vou tentar acreditar na primeira possibilidade.

Ele estava lá. Ele estuda no meu cursinho, então ele não estava parado na porta só pra me observar aquele dia, ele não estava me seguindo nem nada. Quanta paranóia a minha, isso é tranqüilizador.

Entrei na sala ainda distraída, fui para o meu lugar habitual, Michael ainda não havia chegado, desorientada errei de cadeira sentando na que seria dele em vez da minha, pra logo depois ir para a carteira que me pertencia na ponta do corredor.

Não vi o que aconteceu nos primeiros minutos da aula antes do sinal para os retardatários tocar, nem sequer abri a mochila ou reparei que matéria o professor estava tentando ensinar lá do palco. Eu só acordei parcialmente dos meus pensamentos quando Mikey chegou.

- Oi Sam! – disse ele.

Me assustei rapidamente, tendo um deja vu, mas logo notei que era Michael e respondi.

- Oi Michael... – eu disse numa trágica tentativa de sorrir.

- Você está bem? – perguntou ele me examinando com a testa enrugada.

- Estou. Porque? – perguntei, apesar de sentir um leve enjôo agora que ele abriu a possibilidade de eu não estar bem.

- Você está muito pálida. Mais que o normal, se é que isso é possível! – disse ele divertido.

- Acho que estou um pouco enjoada. – eu disse sinceramente. – Às vezes isso acontece quando sinto um cheiro de perfume muito forte.

- Vai beber uma água no intervalo. – Mikey sugeriu, mas eu não gostei da idéia.

- Eu não gosto de água. - eu disse sendo chata.

Michael se calou derrotado, era difícil conversar comigo, era estranho ele ainda tentar. Pobre Mikey, eu mato a alegria dele.

Com Mikey calado tragicamente eu tentei pensar em outra razão razoável para o meu enjôo que não fosse o episódio com o estranho garoto no corredor. Quando eu percebi que não foi o garoto em si que me deixou inebriada, foi o cheiro dele! Exalava um cheiro extremamente forte dele, e estranhamente conhecido, mas eu não conseguia me lembrar de onde, ou o que o seu cheiro me lembrava.

As duas primeiras aulas se passaram entre pensamentos confusos a minha estranha obsessão por esse menino. Quando o sinal do intervalo tocou, ele me pegou de surpresa, e quando Michael me disse que ia descer, eu percebi que não tinha vontade nenhuma de ler o meu livro costumeiro, nem de fazer alguma lição, ou desenhar na apostila, ou até de ficar parada olhando pro nada como freqüentemente fazia dentro daquela sala nos intervalos. Mas eu surpreendi não só a Mikey, como a mim mesma quando eu disse:

- Eu vou com você.

Mikey ficou confuso, mas feliz de que ao menos uma vez mais eu o acompanhasse a cantina. Eu o havia acompanhado apenas um dia no começo do ano, e pela experiência traumática que sofri sendo empurrada e esbarrada, não importando onde eu ficasse parada, permaneci os intervalos dentro da sala desde então. As chances de alguém sentar em cima de mim eram menores.

Saindo da sala eu olhei para o lugar onde o garoto disse que costumava ficar, mas ele não estava ali. Então ao descer as escadas procurei atentamente pelo semblante estranho no meio das pessoas tão normais. Mas não o vi. Quando Michael comprou o que queria e me sugeriu que voltássemos para cima ele encontrou uma garota que conhecia que eu não gostava, e tinha a impressão que os sentimentos dela por mim eram recíprocos. Mas eu não estava com vontade de voltar a sala, então me dirigi para fora do prédio, passando pela catraca e saindo para a noite fria, seria bom tomar um ar fresco.

Estava bastante frio lá fora, por conta disso havia poucas pessoas fumando hoje. Não quis me sentar perto das plantas, onde as pessoas costumavam sentar, eu estava cansada de ficar sentada durante a aula. Ao invés disso eu saí pelos portões azuis e fui um pouco mais à frente, encostando-me nele em um lugar longe do guarda de segurança e dos outros alunos. Fechei os olhos e inspirei, sentindo o cheiro da noite, para logo em seguida sentir o mesmo enjôo de mais cedo. Ao abrir os olhos, me deparei com o culpado. Reprimi outro grito.

- Não assustei você de novo, assustei? – perguntou o garoto de olhos puxados e sorriso assustador.

- ...Não...- eu menti mal, e ele pareceu notar isso.

- Tudo bem. Pode me dizer que sim, estou acostumado a assustar as pessoas...- disse ele sereno, olhando para a lua no céu, não mais parecendo assustador. – Elas insistem em me dizer que eu apareço do nada, quando na verdade elas que se dirigem exatamente para o lugar em que eu estava sem me ver. – disse ele me olhando pelo canto dos olhos, fazendo cara de paisagem.

- Oohh, você já estava aqui?? – eu perguntei, mas antes das palavras saírem da minha boca eu já sabia a resposta, ele já estava lá antes de eu chegar, esse era o mesmo lugar que eu o vi encostado pela primeira vez. – Me desculpa. – eu disse novamente, me desencostando da grade para deixá-lo sozinho, como devia ser.

- Não precisa sair. – disse ele mais sereno, me olhando diretamente agora. – e não sei por que você insiste em se desculpar. – ele terminou, voltando a encostar-se à grade, assim que eu o fiz, e continuo olhando para a lua.

- É porque eu sei como é não ser notada. – eu disse sendo mais sincera do que eu pretendia ser, me abrindo para aquele garoto estranho. – As pessoas vivem me empurrando, se esbarrando, não importa quantas pessoas tenha em volta, elas sempre querem passar por mim! - Me arrependi assim que o disse.

Ele me lançou o olhar de canto de novo, erguendo as sobrancelhas, sério. E depois lançou seu já conhecido sorriso assustador, que foi quando eu notei que ele não tinha a intenção que fosse assustador, ele apenas sorria desse jeito.

- Eu tenho impressão que temos muitas coisas em comum...- disse ele sem deixar claras as suas razões para pensar assim.

- Como o que? – eu perguntei curiosa.

- Bem, só para começar, termos escolhido exatamente essa parte do engradado nessa noite gélida para nos refugiar, e termos trombado essa manhã, sendo que ninguém nos nota então supostamente nós também não deveríamos nos notar. Entre outras inegáveis características que somadas nos levariam a uma única e vital semelhança. – analisou ele. – Mas, temos uma clara diferença. – disse olhando diretamente nos meus olhos com a cabeça um pouco inclinada para a esquerda.

- Qual?? – eu perguntei tentando achar fundamento em tudo que ele acabara de dizer.

- Eu notei você há muito tempo. – ele finalmente disse.

- Oohh...- eu exclamei sem saber o que dizer, olhando para seus tênis envergonhada, que eram da mesma marca que os meus.

- Desde o primeiro dia eu a notei. Você ficou parada aqui na frente por um tempo antes de entrar, e só quando um garoto usando óculos trombou com você que entrou. – contou ele.

- Ele é meu único amigo. – eu disse me sentindo estranha em usar a palavra amigo para denominar Mikey, normalmente eu usava o substantivo colega, mas não queria parecer tão patética a esse estranho que eu acabara de esbarrar. – Ele só me notou porque trombou de frente comigo. E porque é educado o suficiente pra pedir desculpas por isso. – eu acrescentei me lembrando de todas as pessoas que esbarram em mim e nem se dão ao trabalho de olhar pra trás.

- Quase que nem você fez comigo. – disse ele.

- Bem, na verdade eu parei pra brigar com você em vez de me desculpar. – eu lembrei envergonhada.

- O estranho é, - continuou ele como se eu não o tivesse interrompido. – que eu fico parado exatamente naquele lugar desde o início das aulas esperando você entrar na sala, e todas as saídas nesse mesmo lugar para vê-la sair, e você nunca tinha se dado conta disso.

- Você já tinha me apontado isso antes, e eu já pedi desculpas. – eu disse o interrompendo de novo de saco cheio que ele ficasse jogando isso na minha cara.

- A pergunta é, - continuou ele revirando os olhos por um momento com a minha interrupção. – Porque hoje?

- Como? – eu perguntei não conseguindo entender o raciocínio dele.

- Porque você me notou hoje? Você não trombou em mim na verdade, você passa exatamente a mesma distância por mim todos os dias e não me vê lá. Porque hoje você me viu? – ele perguntou para o céu, como se estivesse falando consigo mesmo, ou fosse uma pergunta retórica.

- Na verdade. – eu comecei dizendo já sabendo que eu me arrependeria. – Eu já tinha notado você em outro dia.

- É? – ele olhou pra mim tão rápido que me assustou brevemente. Mas eu continuei.

- É, um dia que você estava parado aqui, na hora que eu fui embora. – eu comecei a contar, mas fui interrompida.

- Eu achei que você tinha notado. E eu pensei ter visto medo nos seus olhos ao correr para o carro que vem te buscar. – Ele disse com o olhar vago para a lua de novo. – Quem é aquela que te leva?

- Minha mãe. – eu respondi, achando que era obvio.

Ele pareceu achar isso estranho, uma menina de 19 anos que a mãe vem buscar no cursinho, eu sabia que era patética. E o olhar confuso dele confirmou isso. Mas então continuou a contar de onde tinha parado.

- Mas eu pensei que havia sido ilusão minha, porque você não me viu nos dias que se seguiram. E o medo nos seus olhos, – disse ele olhando em meus olhos confuso mais uma vez. – porque logo você teria medo de mim? – ele disse dando uma risada assustadora, que talvez não fosse proposital, logo em seguida.

Eu quase me desculpei novamente quando ele disse isso, e tentei me lembrar porque eu me assustei tanto com ele aquele dia, fora a aparência e sorriso estranhos dele.

- Nessa vez que eu te vi não tinha quase ninguém em volta então...- eu comecei, mas ele interrompeu.

- Nessa vez? – perguntou perplexo. – Você me notou outras vezes???

- Só mais uma, na verdade. Mas tinha muita gente em volta, eu não tinha certeza que era você...- eu comecei.

- Como você me notou se eu nem esbarrei em você? – ele perguntou com aquele ar acadêmico novamente. – E se não fosse preciso eu esbarrar em você, porque você não me notou antes?

- Eu não sei...- eu disse tentando eu mesma entender a razão disso, aquele garoto estranho deveria ter chamado minha atenção antes.

Ouvi o sinal de fim do intervalo tocar lá dentro. Me desencostei do portão para entrar, olhando para o garoto esperando que ele seguisse meu exemplo, mas ele não o fez.

- Que mistérios envolvem a nossa espécie, não? – ele disse lançando o seu sorriso zombeteiro, encurvado em minha direção.

- È. – eu sorri. – Você não vai entrar?

- Vou. – disse ele, encostando a cabeça na grade novamente, olhando o céu, sonhador. – mas vou ficar mais um pouco aqui.

- As mulheres não deixam entrar depois que a aula já começou. – eu avisei.

- Elas nunca me vêem quando passo por elas. Uma vez passei com um capacete e elas nem viram. – e voltando a olhar pra mim, acrescentou sorrindo. – Estranho não?

- Muito. – eu disse sorrindo anotando mentalmente que não podia entrar com capacetes lá. – Bem, eu não vou arriscar.

- Até mais. – despediu-se ele.

(Ordinary day – Vanessa Carlton)

"Apenas um dia

Apenas um dia comum

Tentando passar.

Apenas um garoto

Apenas um garoto comum

Mas ele estava olhando para o céu..."