Cap 6 – A Ignorância é uma Benção.
Entrei no prédio do cursinho novamente, sem vontade. Ficar ao lado daquele menino fazia eu me sentir bem, fazia eu me sentir normal, ele era tão mais estranho que eu. Mas eu logo estava de volta a sala aquecida de calor humano.
Indo para o meu lugar me arrependi mortalmente de não ter ficado um pouco mais, ou talvez sempre, lá fora! Mikey estava sentado no lugar de sempre, mas ao seu lado estava Luíza, a garota que eu não gostava. Ela só sentava-se com Mikey quando brigava com o namorado que estudava na nossa mesma sala, ou quando nem os amigos nem o namorado vinham, e Mikey a recebia sempre com um grande sorriso, mas não era por isso que eu não gostava dela, eu não tinha nenhum motivo concreto para não gostar dela, eu apenas não gostava.
Com a cara feia eu fui para o meu lugar e me sentei fingindo que ela não estava ali, não a cumprimentando. Mikey, contente como quase sempre, se virou pra mim sorrindo.
- Onde você estava Sam? – perguntou.
- Eu fui lá fora, tomar ar fresco. – eu respondi olhando apenas para ele, como se Luíza não estivesse olhando.
- Aaahh, mas você ficou lá fora sozinha? Porque não me chamou? Eu iria com você! – disse ele mais feliz do que costuma ser na minha presença, provavelmente porque Luiza era constituída pelo mesmo sentimento.
- Eu não estava sozinha. – eu disse, achando estranho ouvir isso sobre mim mesma.
- Não? Com quem você estava? – perguntou Mikey achando estranho que tivesse falado com outra pessoa, ou sequer olhado na cara de uma.
- Não sei o nome dele. – eu disse, só me dando conta disso agora. – É um garoto japonês, um cabelo estranho com mechas vermelhas. – eu descrevi.
- Acho que eu nunca vi. – disse Mikey, e então para o meu descontentamento, virou-se para Luiza e perguntou – Conhece esse garoto?
- Nunca vi. – disse ela curtamente, provavelmente pensando que era o meu amigo imaginário. Ela era o tipo de pessoa que conhecia todo mundo, e era a prova viva de que não importa quantas pessoas você conhece, são poucas as que realmente são amigas.
Passamos todas as aulas que se seguiram nessa desconfortável situação. Mikey falava de uma com a outra, assuntos diferentes na maioria das vezes, e tentava nos interagir. Mas eu não facilitava as coisas propositalmente, até que ele parou de tentar. Eu gostava que Mikey tivesse companhia, alguém que ele pudesse conversar banalidades e fazer piadas, e eu dava completa liberdade que ele fosse sentar-se com outras pessoas, contanto que fosse longe de mim. Odeio ser obrigada a interagir, mesmo que minimamente, com gente que eu não quero, e eu não costumava querer interagir com ninguém.
Quando a aula acabou eu joguei tudo dentro da minha bolsa rapidamente e saí lançando um tchau apenas a Michael, enquanto o professor ainda contava uma piada final, alguns alunos envergonhados de sair primeiro me seguiram assim que me levantei. Desci as escadas com pressa porque não queria que os dois me alcançassem apesar de nem terem começado a arrumar as coisas, faz parte da minha mania de perseguição.
As pessoas saíam extremamente rápido também, na segunda-feira, então quando eu saí para a noite já havia uma considerável quantidade de pessoas lá.
Continuei o meu passo rápido desviando de uma pessoa ou outra que não me via quando passava, ou quando estava andando devagar demais a minha frente. Quando uma mão gelada me puxou pelo braço.
- Ei! – a pessoa disse me pegando de surpresa, dando de cara com o sorriso já conhecido, e ainda me assustando levemente, não havia como eu me acostumar com aquele rosto chegando do nada.- Você é rápida.
- Eu gosto de sair antes de todos. – eu disse sorrindo também. – Evita certos problemas.
- Verdade – concordou ele divertido. – Então, eu esqueci de te perguntar. Como você se chama?
- Samantha.- eu disse feliz que estivéssemos evoluindo ao nível da conversa, indo para um patamar mais real e menos constrangedor.
- Samantha. – repetiu ele. – Belo nome. A propósito, sou o Thiers. – disse apertando a minha mão com o sorriso zombeteiro, como se o nome fosse uma piada.
- Thiers? – repeti sem certeza. – Não é um nome que se costuma ouvir.
- Pois é. – disse ele rindo abertamente. – Mas existem outros por aí, acredite!
- Bem, tenho que ir logo. Hoje eu tenho que voltar de ônibus e se eu perder o primeiro o outro demora muito pra passar, e as essas horas da noite... – eu contei.
- Aaaahh, fique mais um pouco. – pediu ele, enquanto eu via Mikey e Luisa saindo do cursinho. – Sei que nada de mal pode acontecer a você.
- Mas a minha mãe vai...- comecei a dizer, mas ele me interrompeu, segurando meus braços como se pudesse me impedir a força de ir.
- Vai! Eu prometo que é só um pouco. – ele disse.- Você não entende. Eu nunca achei alguém como eu que não fosse da família. – ele revirou os olhos quando disse a última palavra. – Eu quero te mostrar a minha segunda casa. – disse ele com um sorriso imenso.
- Você acha que eu vou pra casa de alguém que eu acabei de conhecer, no meio da noite? – perguntei incrédula que ele me sugerisse isso tão inocentemente.
- Aahhh. – zombou ele. – Que mal eu poderia fazer a você? Você é uma vampira!
O mundo parou. As pessoas ao redor pareciam em câmera lenta ao passar por mim, as luzes dos carros cegavam os meus olhos, me confundindo. Eu tentava achar uma brecha nessa situação. Ele não disse isso!
- Quem te disse isso? – eu perguntei com raiva. A expressão dele mudou de repente, uma ruga se formando na testa, não entendendo a minha reação. – Foi a Rossana não foi???? – eu explodi. – Ela te obrigou a me dizer isso em vingança do que eu fiz na outra noite, não é? Isso é muito sujo!
- Fique calma. – começou ele, o sorriso desaparecendo. – Não se preocupe, não precisa fingir nada pra mim. Eu sei disso porque também sou um vampiro! – ele disse lançando seu sorriso assustador novamente.
E foi quando eu me dei conta o porque de seu sorriso ser assustador. Nele havia dois caninos compridos e afiados.
Dei as costas pra ele correndo, cega pelas lágrimas que surgiam, e atravessei a rua movimentada em grande velocidade, os carros passando muito próximos a mim.
Não olhei pra trás, mas no meu último vislumbre de Thiers, antes de eu sair correndo, o seu rosto apresentava apenas uma grande confusão.
Por pura sorte cheguei na hora exata em que o ônibus parava no ponto, algumas pessoas já a postos para entrar primeiro. Empurrei todas elas com raiva, que sequer conseguiram ver o que as atingiu, e sentei bem no fundo do ônibus à janela, da qual eu vi enquanto o ônibus partia, Thiers lá em baixo me analisando com a compreensão brilhando em seus olhos puxados.
Cheguei em casa ainda um pouco abalada, mas as lágrimas já secas no meu rosto, e com a aceitação pesando nos meus ombros.
Rossana que estava deitada no sofá, quase adormecida, sobressaltou-se quando eu entrei pela porta da sala.
- Filha. Que bom que já chegou. – disse sentando-se no sofá rapidamente, ainda um pouco tonta pelo sono. E então reparando no meu estado disse – Samantha, o que aconte...?
- Era verdade não era? – eu perguntei séria. – Tudo o que você disse era verdade.
Ela ficou sem entender por um momento e então sua face assumiu uma expressão bondosa de pena.
- Eu sabia que uma hora você iria entender. – Rossana disse finalmente.
Olhei pra baixo e engoli em seco e fui para o meu quarto como um zumbi, me trancando lá.
Rossana não me seguiu, nem tentou conversar, ela sabia que nesse momento o melhor era eu ficar sozinha.
Fiquei com os olhos abertos, arregalados, a noite toda, mergulhada em pensamentos.
Isso agora era certo. Thiers era um vampiro, as presas, a pela branca, as falas estranhas que ele havia dito que eu não conseguia ver lógica e claro, a estranha semelhança comigo. Agora tudo fazia muito sentido. Eu era uma vampira.
Passei a noite toda acordada. Talvez eu tivesse que me acostumar com isso agora, trocar o dia pela noite, até os vinte anos, quando o sol começasse a me machucar. E quanto ao que eu teria que começar a comer? A caçar! Como eu caçaria as pessoas? Eu ficaria na esquina do cemitério esperando alguém tão desnaturado, quanto eu no outro dia, passeando por lá sozinho? Eu não tenho nenhuma habilidade extra sendo vampira, eu não vôo porque não me transformo em morcego, ou pelo menos nunca tentei, eu não sou incrivelmente rápida ou tenho instintos de saber quem é mais fraco que eu, como numa cadeia alimentar, a seleção natural.
Eu preciso aprender tanta coisa ainda. Coisas que minha mãe provavelmente não poderia me explicar, pois pelo o que eu saiba, ela sabe tanto de vampiros quanto eu. Eu, uma vampira! Meia vampira, que seja. Não existe um livro que explique como ser vampira. Talvez eu devesse começar a procurar, algo que pudesse parecer minimamente real. Mas vampiros não eram reais há algumas semanas atrás, e eu não estou sonhando. Eu estivesse negando isso por tanto tempo, mas no fundo eu sempre fui diferente, eu sempre me senti diferente. E agora isso é mais evidente do que nunca.
Thiers e eu tínhamos apenas uma semelhança vital, como ele disse, nós dois éramos vampiros. Sentia raiva dele agora, por ele ter aberto os meus olhos pra essa realidade que eu não queria enfrentar. Eu achava que éramos apenas duas pessoas nos conhecendo, nos tornando amigos, quem sabe? Mas eu estava nessa sozinha e ia ter que me virar de algum fui auto-suficiente e isso não ia mudar agora, nunca precisei de amigos idiotas japoneses que riem da minha cara com uma descoberta tão óbvia que eu deveria ter feito á tanto tempo, eu devia ser tão patética pra ele agora.
Eu iria me afastar de Mikey, agora fazia menos sentido ainda a lua e o sol andarem juntos, e eu não sabia que mal eu poderia fazer a ele. Se eu fosse fazer mal a alguém opções é o que não faltavam naquele cursinho mal povoado. O negocio é saber o que você quer, e não deixar ninguém atrapalhar.
Eu faria isso sozinha, e Thiers não ia me atrapalhar.
(Dreams – The Cranberries)
"(...) Eu sei que já me senti assim antes
Mas agora eu estou sentindo ainda mais
Porque isso veio de você
E então eu abro os olhos e vejo
A pessoa caída aqui sou eu
Uma maneira diferente de ser"
