Cap 7 – Musa Impassível.
Quando o sol acordou foi o meu sinal de que era hora de dormir, mas ainda assim não consegui dormir muito. A fraca luz solar que emergia pela pequena janela me incomodava, eventualmente iria pedir a Rossana que a tampasse com tábuas.
Rossana como sempre acordou cedo e foi para o trabalho, eu acompanhei, ainda acordada, todos os seus passos pela casa, ainda não tinha vontade de encará-la, mas tinha consciência de que cedo ou tarde teria de ser feito. Assim como foi aceitar o fato de eu ser vampira.
Eu olhava o relógio ao lado da minha cama de trinta em trinta minutos. O tempo agora parecia tão inútil, tudo o que eu vivi até hoje parecia uma grande mentira, ou uma grande perda de tempo. Era estranho pensar que agora eu tinha todo o tempo do mundo, a eternidade. E eu estava sozinha nisso.
Levantei quando eram 2 horas, sem ter tido mais que 4 horas de sono. Fiquei o dia inteiro procurando qualquer programa bobo na televisão que pudesse me distrair, mas a televisão parecia mais perda de tempo que o normal, então voltei para o meu quarto para ouvir música. Incrivelmente, não importava o cd que eu colocasse, todas as músicas faziam sentido. Isso não era normal.
Quando o por do sol foi chegando e o meu quarto mergulhou na escuridão eu sai para me arrumar pra ir ao cursinho. Parecia mais que inútil ir ao cursinho agora, ter que encarar a verdade mais uma vez, encarar Thiers, o grande símbolo daquele fato.
Ao me trocar escolhi a minha calça jeans de sempre e uma blusa e jaqueta pretas. Eu costumava me vestir mais de azul ou branco, mas hoje o preto parecia me proteger, eu me sentia bem com ele mais do que me sentiria com qualquer outra cor. Como se eu precisasse de proteção sendo eu a verdadeira ameaça, mas de certa forma eu me sentia mais desprotegida do que nunca.
Chegando no cursinho, me dirigi para cima pelas escadas principais, e não pelas de incêndio como eu normalmente fazia. Subi até o segundo andar e tentei ignorar ao maximo o vulto sorridente que estava encostado do lado da escada em que eu geralmente subia. Me virei para o lado contrario, indo para a outra sala em vez da que eu deveria ir, eu estava seguindo os meus planos.
- Samantha. – eu ouvi uma voz chamar atrás de mim, não precisei me virar para saber quem era, o cheiro dele era perceptível a pouca distancia. Ainda assim eu fingi que não ouvi e entrei na sala rapidamente.
Na sala haviam muitos lugares vagos, eu sempre chegava incrivelmente cedo, me sentei do lado oposto de onde eu costumava sentar na outra sala, um pouco mais no fundo, do lado esquerdo, próxima a janela e longe da porta. Mikey não iria sentir muito a minha falta, nos primeiros dias provavelmente só acharia que eu estava faltando, e ao passar do tempo ele acharia que eu havia saído do cursinho. Era melhor pra ele, ele poderia conversar com quem ele quisesse, sentar-se com quem quisesse, ser feliz o quanto quisesse.
Peguei o meu livro usual pra ler me distraindo, só tirando os olhos dele quando o sinal bateu, quando fiz isso me deparei com a sala cheia. Eu felizmente sentava num lugar em que poucas pessoas gostavam de sentar, então as fileiras ao redor eram bastante vazias. Só havia alguém sentado atrás de mim que não reparei no rosto, mas provavelmente não conhecia.
Foi quando eu notei que eu estava estranhamente muito mais consciente de todas as pessoas ao meu redor. Eu podia sentir a presença de cada ser vivo ao meu redor, mesmo que eu não pudesse ver. E isso me incomodava. Seus rostos não importavam, todos pareciam iguais pra mim agora, diferenças banais de indivíduos da mesma espécie.
A aula então começou, tentei prestar atenção, mas não conseguia, quando eu me dava conta eu já não estava ouvindo de novo. As pessoas em volta me distraiam mesmo sem fazer qualquer movimento...Senti uma repentina saudade de Mikey e sua alegria contagiante, embora ela não me atingisse, era melhor a companhia de Mikey do que a companhia de todos os outros.
O sinal pra retardatários logo tocou, mas eu olhava pra frente, para a lousa, sem ver o que estava na minha frente. Foi quando eu senti uma energia diferente entrando pela porta, e eu soube antes de sentir o cheiro e olhar. Ali na porta estava entrando Thiers, acompanhado de um garoto baixo de cabelos bem espetado na parte de traz, e uma franja comprida acima dos olhos, olhos puxados, como os de Thiers. O garoto a seu lado era realmente estranho, mas nada comparado a Thiers, mesmo ele tendo um piercing rosa na orelha, o brinco longo prateado de Thiers chamava mais atenção, talvez apenas chamasse mais a minha atençao. Ninguém sequer olhava para aquelas estranhas criaturas andando pelo corredor no meio das carteiras...
Eles pararam em uma das primeiras fileiras, mas não havendo lugar Thiers finalmente olhou ao redor, e então seus olhos encontraram os meus, ele sorriu brevemente, não o seu sorriso assustador com dentes afiados de sempre, mas um meio sorriso contido, como se estivesse tentando não rir...Então ele chamou o garoto estranho ao seu lado e apontou para onde eu estava. Porque diabos ele está apontando pra mim??? Fiquei paralisada e nem sequer consegui desviar o olhar enquanto eles se dirigiam para onde eu estava. E então quando eles estavam na fileira em frente da minha eles pararam e sentaram a várias carteiras a minha direita, na fileira da frente. Senti um alivio momentâneo que logo foi substituído por uma sensação de alerta....Eu não me sentia confortável com eles tão perto, o cheiro era muito forte e familiar, onde eu o havia sentido antes??? Eu conseguia perceber cada pequeno movimento que eles faziam, o que me deixava mais desconfortável era saber que provavelmente eles conseguiam perceber os meus também. E a minha horrível tensão com sua presença. Sim, o garoto ao lado de Thiers era um vampiro também. Eu apenas sentia isso, e agora eu entendia porque Thiers sempre soube que eu era uma vampira.
Quando o intervalo chegou, eu logo peguei o meu livro, não só por distração, mas pra me esconder de Thiers e seu companheiro que se levantavam e saiam da sala, Thiers com o seu sorriso contido, o garoto ao seu lado não aprecia consciente da minha presença, ou da presença de qualquer pessoa.
No momento que eles saíram eu relaxei. Agora não deveria ser tão difícil quanto pensei, Thiers não iria tentar falar comigo, se esforçar ou perguntar o que havia acontecido pelo meu estranho comportamento com ele. Era como se ele já soubesse, como se ele sentisse.
Então seria mais fácil ignorá-lo. Vir aquele lugar dia após dia, ou melhor dizendo, noite após noite, e ir embora sem falar com ninguém. Um dia eu iria embora e me esqueceria de tudo que aconteceu ali. Não. Eu sabia que eu nunca poderia esquecer o que aconteceu ali, provavelmente por toda eternidade eu me lembraria do rosto de Thiers e o seu sorriso de vampiro assustador dirigido a mim.
Já era julho, os dias passavam rápido e imperceptíveis. As férias estavam há poucos dias de distancia, eu nem sabia ao certo quanto tempo ainda tinha. Eu achava que estaria ansiosa pelas férias, de me ver livre de todas as pessoas. Mas eu não estava, eu sentia me sentia entre os meus ali, com Thiers e seus amigos sentados mais a frente na sala de aula, mesmo que eu não falasse com eles, ou olhasse na cara deles.
Eu descobri que era quinta-feira quando olhei pra lousa e vi lá um recado da coordenação:
"Quinta-feira, 3 de julho de 2008.
Pegar apostila 4 na secretaria."
Droga, eu odiava ir na secretaria. Eu pegaria amanha, logo que chegasse quando a maioria das pessoas ainda não havia chegado. Senti o já conhecido cheiro de Thiers se aproximando, então voltei a ler o meu livro, que eu já estava lendo pela 5a vez. Agora o cheiro não era mais tão forte pra mim, eu já havia me acostumado.
- Oi??... desculpa. – Uma voz feminina a minha frente chamou. Olhei desconfiada por cima do livro em duvida se a pessoa realmente estava falando comigo. Encontei os olhos puxados de uma menina pequena e magra de óculos, com uma roupa fofinha amarela e azul bebê. Será que só havia orientais nesse cursinho??? – Eu estava pensando – continuou ela, que estava sentada na carteira em frente a minha, levemente virada pra trás para olhar pra mim. – Você vai prestar o que??? – a menina perguntou.
- Er....Artes plásticas. – eu respondi ainda em dúvida se essa estranha menina estava falando comigo. Normalmente ninguém falava comigo. Ela deveria estar me confundindo com alguém, ou querendo alguma coisa.
- Aahhh, que legal!!! Achei que você ia prestar direito. – disse um pouco encabulada.
- Er...eu não vou...- eu disse ainda confusa.
- Eu vou prestar direito. – disse ela com um largo sorriso. – Queria ter uma idéia dos meus concorrentes.
- Aahh! – eu exclamei achando agora a conversa um pouco mais plausível. – Meu amig....er...conhecido, Michael – eu corrigi, achando estranho pensar na palavra amigo seguida pelo nome de Mikey, que eu não falava a semanas. – vai prestar direito também. – eu informei.
- E você??? Se não fosse prestar artes plásticas o que prestaria??? – ela perguntou. O que me deixou confusa de novo. Porque ela continuava conversando comigo? Ela queria que eu quisesse prestar direito tanto assim? Se não, o que ela queria?
- Er...acho que Arte e Tecnologia. È o que eu vou colocar como segunda opção...- eu disse. – Antes eu ia prestar moda, mas eu tentei algumas vezes numa faculdade em outro estado, porque não tem faculdade de moda por aqui, mas eu não consegui passar, é muito concorrido, então eu decidi prestar artes plásticas aqui mesmo. – eu expliquei fazendo um discurso estranhamente grande para aquela estranha que insistia em conversar comigo. Senti imediatamente que havia falado demais. Ela não estava interessada na minha vida.
- Tudo relacionado a artes então??? – ela disse sorrindo.
- Ééé.. – eu disse tímida e monosilabamente tentando não repetir o meu monólogo.
- Ah...E o que você faz pra isso??? – ela perguntou insistindo em prolongar aquela estranha conversa. Cheguei a considerar a possibilidade que ela fosse lésbica e estivesse tentando dar em cima de mim, mas logo descartei a possibilidade.
- Como assim??? Você quis dizer pra estudar??? – eu perguntei sem entender a pergunta dela.
- Ééé. Com relação as artes. – ela explicou. – Você desenha, pinta, faz cursos?
- Aahh, eu desenho desde pequena, eu fiz um curso curto só ano passado, e estudei história da arte, foi quando eu descobri que eu gostaria de fazer artes plásticas. – eu fiz outro pequeno monologo sobre a minha vida. Mas eu não parecia estar incomodando ela, talvez ela quisesse apenas conversar comigo. Isso costumava ser normal para as outras pessoas, não??? Seria apenas eu a não estar acostumada a esse tipo de atenção?
- Aahhh que demais! – disse ela animada. – Eu acho história da arte fascinante! Que tipo de arte que você mais gosta?? – ela perguntou.
- Arte gótica. – eu respondi para a minha surpresa.
- Aquelas dos cemitérios??? – perguntou ela rindo.
- Também! – eu disse. Eu continuava indo passear no cemitério de vez em quando. Era o meu jeito de escapar do mundo real, mas eu nunca mais passei a noite lá, eu só ia durante o dia.
- Já viu aquela escultura de Victor Brecheret que estava praticamente perdida no cemitério por anos num túmulo??? – ela citou, me provando que entendia do assunto, e que tinha uma razão para ainda estar falando comigo.
- Sim. È linda a história dela, chama Musa Impassível, se eu não me engano. – eu disse feliz de conseguir manter uma conversa com um ser humano por tanto tempo, eu não estava acostumada a isso. – Você nunca pensou em fazer Historia da Arte??
- Não, não. Eu só conheço essa porque costumava vê-la no cemitério. – disse ela balançando os ombros.
Antes que eu conseguisse perguntar pra ela com que costume ela ia visitar o cemitério a procura por obras de arte perdidas o professor chegou e começou a dar aula, fazendo a garota se virar pra frente. Thiers não estava no seu lugar costumeiro na frente da sala, hoje ele estava sentado a duas fileiras a minha frente, a menina que havia falado comigo logo atrás dele, ele estava sentado ao lado dos dois garotos por quem sempre era acompanhado. Além do garoto de cabelo arrepiado, havia um outro muito bonito. Ele também era oriental, e tinha um cabelo parecido com o de Thiers só que bem cuidado, liso e brilhoso. Ele era quase tão alto quanto Thiers, mas tinha uma postura reta e impecável. O seu rosto pálido era perfeitamente proporcional, desde seus olhos puxados, seu nariz pequeno e seus lábios com dentes brancos e retos. Ele era realmente bonito e muito perturbador, eu sentia uma energia hostil vinda dele, como se ele não gostasse de mim embora ele nunca tivesse olhado sequer uma vez para a minha cara, que eu tivesse notado. E ele estava sempre com Thiers, a não ser na saída, porque Thiers sempre saía mais cedo, na penúltima aula. Eles sempre chegavam juntos no segundo sinal para a primeira aula, agora Thiers não ficava mais me esperando ao lado da escada de incêndio.
Quando chegou o intervalo a menina se virou pra mim de novo e perguntou:
- Qual é seu nome mesmo que eu esqueci??? – ela perguntou
- È que eu não disse o meu nome. È Samantha. – eu disse sorrindo. – E o seu?
- Hosun. – ela respondeu. – É esquisito eu sei. Vou lá embaixo. – disse ela acenando.
Voltei a ler o meu livro como o de costume. E me peguei lembrando da "Musa Impassível" de Brecheret, perdida no cemitério. Então me senti compatível a ela de forma paradoxal, perdida no mundo real quando na verdade eu deveria pertencer ao cemitério.
(For Reasons Unknown – The Killers)
"Entrei no meu ritmo
Eu voei
Eu sei que se o destino é bondoso
Então eu tenho o resto na minha vida.
Mas meu coração, ele não bate
Não bate como costumava bater (...)"
