Cap 9 – Em Todo Lugar.
Quando se perde a noção do tempo ele passa ridiculamente rápido. E foi assim que as férias se passaram. Mas já era hora de voltar a realidade.
Não consegui esquecer as férias inteiras que eu tinha que pegar as novas apostilas na secretaria. Então, logo que cheguei fui direto para lá, sem a mínima vontade, odiava ficar na fila com as pessoas, e falar com a moça da secretaria que era simpática.
A secretaria era do lado da cantina, então estava sempre lotado de gente por todos os lados. Eu mal conseguia distinguir onde estava a fila, ou quem estava na fila. Até que uma multidão se afastou, e eu vi a fila, ela estava pequena, só havia duas pessoas esperando pra ser atendidas. Mas não eram pessoas as duas criaturas paradas na fila olhando estranhamente para mim, eram dois vampiros.
Thiers e o vampiro bonito pararam repentinamente de conversar quando eu entrei em cena. Eu congelei no lugar por puro instinto de preservação. Até me lembrar que era uma vampira, portanto imortal, ou pelo menos logo seria, então me dirigi ao meu lugar na fila, atrás do vampiro bonito.
Thiers ria-se abertamente, e isso me irritou. O vampiro bonito virou o pescoço um pouco para conferir se eu estava atrás dele, e então virou pra frente de novo. Os dois ficaram sem se falar por algum tempo, mas logo recomeçaram. Apesar de eu estar logo atrás deles eu não conseguia ouvir uma palavra do que diziam. Eu não estava me sentindo bem ali, com Thiers rindo da minha cara e o outro me espiando por cima do ombro. Eu tentava olhar para os lados, para o chão, para o teto, para qualquer lugar que eles não estivessem, mas meus olhos pareciam me obrigar a olhar para eles, como se fosse um imã. E então o vampiro bonito finalmente se virou por completo e me olhou curioso, me analisando, como se não entendesse porque eu parecia tão inconfortável com a presença deles, e então voltou a olhar pra frente para falar com Thiers.
Eu odiei aquilo e tive vontade de sair correndo daquele lugar. Mas sou e sempre fui muito orgulhosa então firmei os pés no chão e usei o meu melhor olhar de ódio quando os dois voltaram a me olhar. Eles não disseram nada. Thiers continuava sorrindo assustadoramente consigo mesmo quando o outro vampiro saiu da fila nos deixando sozinhos.
Achei que ele pudesse se virar, e tentasse falar comigo, mas ele não o fez. Eu tenho o poder de afastar as pessoas, e pelo o visto de afastar vampiros também, eu nunca seria alguém sociável com vários amigos como minha mãe sonhava.
Pelo menos ficar atrás da Thiers era menos constrangedor, já que ele não se virou para me encarar, como o outro fez, então eu podia olhar pra frente despreocupadamente, e com a saída da outro vampiro ficou um bom espaço entre nós, o que eu não dei nem um passo para encurtar.
Então, como uma reação automática quando alguém se aproxima, eu olhei para o lado e dei de cara com o vampiro bonito chegando. Ele me pegou desprevenida, me olhando de um jeito zombador, mas não como Thiers fazia, o ar zombador de Thiers não pretendia ser assustador, era simpático. O desse vampiro era intimidador, ele me fazia sentir como se eu fosse a mais rele humana da face da terra! Não sei como ele conseguia fazer isso só com um olhar.
Ele se pôs entre mim e Thiers novamente, ainda me encarando, antes de virar para frente pra falar com Thiers. E eu notei que não era o olhar dele que me fazia sentir insignificante, era a presença dele. Ele tinha o cabelo bem preto e tão liso e sedoso que daria inveja a qualquer garota com chapinha e creme hidratante, cortado com longas pontas e dividido para o lado, de um jeito que a sua franja ficava perfeitamente bagunçada, jogada para cima. Ele era tão, ou talvez mais branco que eu, sem qualquer imperfeição. Seu nariz era pequeno e bem centrado, seus olhos puxados, bem desenhados, os lábios finos e sobrancelhas grossas. Ele era um pouco mais baixo que eu, cerca de 2 centímetros. E ele era intimidantemente lindo, ainda mais de perto. Mas não era esse o motivo que me fazia sentir insignificante, ele me passava a energia que me odiava, eu senti desde o momento que o vi, mesmo de longe na sala, mas agora, com ele olhando para mim, aquela energia parecia capaz de me matar.
Finalmente chegou a vez de Thiers, o garoto bonito se despediu, falando que o via na sala, e eu fiquei esperando Thiers acabar. Quando Thiers saiu, eu dei um passo a frente, mas então a mulher da secretaria o chamou de novo e ele voltou, eu dei um passo pra trás, quase batendo nele. Ele logo saiu novamente, sem olhar pra mim, com o seu sorriso assustador típico nos lábios.
Quando cheguei a porta da classe vacilei, senti que não teria coragem de entrar e sentir o olhar dos dois em mim, e principalmente a energia degradante do outro vampiro.
Então eu dei meia volta, trombando com alguém quando eu mudei a direção do curso, a pessoa murmurou um xingamento e seguiu seu caminho, e eu segui o meu para a minha antiga sala.
Quando entrei lá me lembrei porque tinha saído de lá da primeira vez.
- SAM! – o garoto de óculos, Michael, acenou da carteira que nós costumávamos sentar.
Me vi sem escolha e fui na direção dele. Michael me obrigava a aflorar o máximo de simpatia que eu era capaz.
- oi Mikey. – eu disse me sentando ao seu lado.
- Meu Deus. – ele exclamou. – Quanto tempo! Achei que você tinha saído do curso!
- Não saí! – eu disse em uma tentativa de ser animada, mas soou falso.
- Mas onde você estava todo esse tempo? – ele começou a perguntar, mas para minha sorte o professor começou a dar aula nesse momento, o que me deu uma desculpa para ficar quieta, como se eu quisesse muito prestar atenção na aula.
Eu não queria que Michael soubesse que estive na sala ao lado, porque caso eu fosse voltar para lá, e eu iria voltar assim que pudesse, ele não iria saber onde me procurar.
Eu preferia ter que encarar novamente aqueles vampiros a fazer mal a Mikey. Michael foi a coisa mais próxima de uma amizade que tive na vida, eu não mataria a única pessoa que foi legal comigo no mundo. E eu sabia que isso era possível, eu não me importaria em matar 99% das pessoas do planeta, então que criatura deplorável eu me tornaria?
Fiquei pensando nisso durante a aula, me sentindo mais sozinha do que nunca estando ao lado de Michael. Ele tentava falar comigo, mas eu não conseguia falar com ele, fingir que eu era como ele. Fiquei pensando o que aconteceria quando minha mãe morresse e eu ficasse sozinha pela eternidade! Que dramático. Talvez fosse por isso que ela fosse obsecada para que eu fizesse amizades.
Quando a última aula acabou eu saí apressada, sem sequer me despedir de Michael ou olhar para os lados. Esbarrei sem remorso em várias pessoas que tentavam sair antes de mim. Não agüentava mais um segundo naquele lugar. Vampiros que me odeiam em uma sala, um humano que gosta de mim correndo risco de vida na outra. Eu pediria para minha mãe não me obrigar a ir lá de novo, não valia a pena.
Depois de alguns empurrões consegui sair da sala, mas virando para as escadas dei de encontro com outra pessoa na frente do bebedouro.
- Ooww! Cuidado aí. – exclamou Thiers, sorrindo pra mim, me segurando pelo braço para evitar que eu caísse quando trombei com ele.
- Você!!! – eu exclamei com raiva pra ele. – Porque você tem que estar em todos os lugares?? – perguntei.
Ele não disse nada, e deixou de sorrir assustadoramente, mudando para um sorriso contido, sem dentes, como quem pede desculpas, ou como alguém que tenta não discutir com um louco.
E então a raiva foi tanta que eu comecei a chorar. É tão irritante chorar de raiva, o que me fazia chorar mais ainda! Chorar no meio do corredor do cursinho, quando ainda não é época de vestibular é humilhante. O lado bom é que nunca ninguém me notava, então ninguém ia reparar. O lado ruim é que Thiers notava, e ele estava bem ali, na minha frente.
- Não precisa chorar. – disse Thiers, em uma tentativa frustrada de me consolar por algo que não sabia. Ele me abraçou e eu não tive forças nem para parar de chorar e nem muito menos para me afastar dele, então fiquei por ali mesmo.
Quanto finalmente me acalmei eu não disse nada, apenas me afastei um pouco dele, saindo do seu abraço confortador, ficando de frente pra ele, mas sem olhá-lo.
- E aí. Tá melhor? – Thiers perguntou timidamente, provavelmente com medo que eu o xingasse de novo, ou batesse nele.
- Eu estava com raiva de você. – eu expliquei.
- Agora? Mas o que foi que eu fiz?? – ele perguntou inocentemente.
- Antes. Você me obrigou a aceitar o que eu era. – eu respondi, finalmente olhando para ele. Ele não parecia entender muito bem o que eu quis dizer.
Os olhos de Thiers se desviaram de mim por um momento, e eu não precisei olhar pra trás para sentir que os outros vampiros o estavam esperando.
- Eu tenho que ir. – ele disse rapidamente. – Mas amanha você se senta comigo? – ele convidou já a meio passo de distância.
- Er...ta. – eu disse sem certeza de que eu faria isso mesmo.
- Então te vejo amanhã! – Ele disse por fim e disparou pelas escadas atrás de seus amigos que já tinham descido.
[Dying in the Sun - The Cranberries]
"(..)Você vai se apegar a mim?
Estou me sentindo frágil
Você vai se apegar a mim?
Nós nunca falharemos
Eu queria ser tão perfeita, você entende?
Eu queria ser tão perfeita
Como morrer ao sol
Como morrer ao sol
Como morrer ao sol
Como morrer... "
