Cap 10 – Teoria da Conspiração.
Eu estava parada em frente ao prédio tentando me decidir. Ser sociável nunca foi muito comigo. Eu costumava olhar feio para as pessoas mesmo quando elas não fizeram nada contra mim, sem qualquer propósito ou motivo, as vezes sem perceber. Eu não tive amigos no colégio, as pessoas passavam longe de mim, até quando eu era criança e não tinha a aparência branca-quase-morta.
Eu não tinha certeza se eu conseguia fazer isso. O que aconteceria se eu me sentasse com Thiers na sala? Nós nos tornaríamos amigos? Provavelmente. Pelo menos é o que costuma acontecer com as pessoas. Mas o que me preocupava eram os amigos de Thiers, principalmente o vampiro bonito. Thiers nos apresentaria? Eu sentaria perto dele como se nada tivesse acontecido? E se o outro vampiro também não gostasse de mim? E se os dois se unissem e obrigassem Thiers a se livrar de mim? Se fosse assim, era melhor eu nem sequer saber o que a palavra amizade significa na pratica para depois ser rejeitada e jogada fora. Não é isso que todos temem? A rejeição?
Respirei e inspirei uma vez e então entrei. Passando pelas catracas eu decidi:
- Não vou me sentar com ele.
Eu iria me sentar com Mikey só mais um dia, Thiers ficaria chateado e me ignoraria como fez no ultimo mês. Depois eu voltaria para a sala ao lado e viveríamos todos como se eu nunca tivesse existido. Era um bom plano.
Subi pelas escadas de incêndio, como costumava fazer no começo do ano. E só quando cheguei nos últimos degraus que me lembrei e disse pra mim mesma:
- Tomara que ele não esteja aqui.
Mas ele estava.
- Olá. – Thiers disse com o sorriso assustador ainda maior do que de costume, me esperando ao lado da saída de incêndio, como fazia desde o começo das aulas, segundo ele.
- Oi. – eu disse tentando pensar em uma desculpa para não me sentar com ele. Meu cachorro morreu e não estou para conversas, tem uma amiga me esperando, tenho que estudar pro vestibular, sou uma vampira e posso te matar. A última era a mais convincente, mas não assustaria ele.
- Então...Acho que você tem muito que explicar. – ele disse desencostando-se da parede e ficando ao meu lado.
- Hum...por onde devo começar? – perguntei esperando descobrir o que ele queria saber.
- Do começo! – ele disse rindo. Que clichê!
Ele começou a andar e me vi obrigada a acompanhá-lo, indo para a sala onde os amigos dele estariam.
Entramos na sala, meus olhos foram diretamente para o lugar onde eles sempre se sentavam. Mas ele não estava ali. Procurei rapidamente pelo resto da sala, já sabendo que não o encontraria, pois não sentia a estranha energia voltada a mim.
Thiers me guiou para o exato lugar que eles sempre sentavam. Eu me sentei na cadeira do corredor e ele na do lado esquerdo.
- Pode começar. – disse Thiers quando nos sentamos, se virando para mim.
- Eu nunca fui uma criança normal. – eu disse automaticamente.
- Ahn???- ele perguntou sem entender.
- Você não disse para eu começar do começo?? – eu perguntei levantando uma sobrancelha.
- Eu quis dizer desde que a gente se conheceu! – ele disse rindo. – Se não isso parece uma reunião dos serial killers anônimos!
- Ah. Bem. Minha mãe só me contou isso a pouco tempo. – eu expliquei.
- Você não consegue falar uma frase que eu entenda? – ele me interrompeu sorrindo.
- Então me faça uma pergunta concreta! – eu disse, já começando a me irritar.
- Porque você fugiu de mim quando eu contei que era um vampiro? – Thiers perguntou.
A resposta pareceria óbvia para qualquer pessoa que visse essa conversa de fora. Mas para mim as coisas eram diferentes, eu também era uma vampira.
- Porque você me contou que eu era vampira. – eu disse.
- Você não sabia que era vampira? – ele perguntou confuso.
- Não.
- Como?? – Ele perguntou inconformado.
- Não fale como se eu fosse burra. Minha mãe nunca me contou!!! Como que eu poderia saber que não era só uma lenda?? – eu o questionei brava.
- Ahn...beber sangue, não poder andar no sol, coração sem bater. Você achou que isso tudo era normal? – Thiers disse ainda questionando minha inteligência.
- Eu não tenho nada disso!!! – eu respondi.
- Como não?? Você não se lembra de ter sido mordida??? – ele perguntou.
- Mordida?? Eu nunca fui mordida! – eu disse cruzando os braços.
Thiers não conseguiu formular outra pergunta, só ficou me olhando com um ponto de interrogação gigantesco flutuando em cima de sua cabeça.
- Meu pai era vampiro. Minha mãe é humana. – eu disse sabendo que isso esclareceria as coisas.
Então ele ficou boquiaberto, e parecia não estar mais me vendo na sua frente, como se estivesse vagando em pensamentos. Quando seus olhos se focaram em mim de novo ele conseguiu dizer:
- Você não é uma vampira!!! – ele disse em tom de acusação, brincalhão.
- Não. Sou meia vampira, segundo a minha mãe.
- Eu não sabia que isso era possível!! – disse ele apoiando a cabeça na mão, atordoado. – Nunca ouvi sobre um caso assim. Talvez não exista outra. Talvez você seja única!
Por alguma razão não me surpreendi e nem me senti especial por isso. Eu nunca me encaixaria em nenhum lugar, seja entre os humanos ou entre os vampiros.
- Porque você fugiu de mim? – ele perguntou novamente, ainda sem ter certeza.
- Eu estava em uma irritante fase de negação, quando você me obrigou a aceitar isso. – eu disse me sentindo boba por ter passado por isso. Por tê-lo culpado por isso. Agora, dizendo em voz alta, parecia tão tolo.
- Como a crise da adolescência. – riu-se ele.
- Pois é. – eu admiti.
- Então você... er... me perdoou por isso? – ele perguntou debochado.
- Ainda estou pensando no assunto. – eu disse brincando.
- Me desculpe. – ele disse num tom formal falso.
- Está perdoado. – eu respondi.
O sinal de inicio da primeira aula tocou. Enquanto as pessoas começavam a entrar eu me virei para ele pretensiosa e indaguei:
- Agora é a sua vez. – eu disse tentando sorrir do jeito que ele sorria, sabendo que nunca pareceria igual.
Ele riu. E então olhando para cima da minha cabeça, ao invés de para mim, ele disse:
- Então primeiro eu vou te apresentar a família. Samantha, esses são Kevin e Daniel. – ele disse indicando pessoas atrás de mim. Foi quando eu notei que a estranha energia estava lá de novo, bem perto de mim.
Virei pra trás e vi, o vampiro bonito e o de piercing na orelha rosa parados no corredor olhando para mim.
- Pode me chamar de Dan. – disse o do piercing alegremente. Então passou por mim para sentar-se no outro lado de Thiers, deixando uma carteira livre entre eles, a qual seria preenchida pelo vampiro bonito, que agora eu sabia que se chamava Kevin.
Kevin não disse nada, mas me olhou profundamente, me lançando um olhar de ódio que refletia toda a energia que emanava dele. Passou por mim elegantemente, já sem me olhar, e ocupou o lugar ao lado de Thiers.
Logo que Kevin sentou, cruzando os braços e com cara de poucos amigos, ouvi, embora ele tenha dito bem baixo, ele indagar para Thiers:
- Ela está sentada na minha carteira.
[Unwanted – Avril Lavigne]
"Foi assim que aconteceu
Eu estava com um sorriso no rosto
E me sentei corretamente
Eu queria te conhecer
Eu queria te mostrar
Você não me conhece
Não me ignore
Você não me quer lá
Você apenas me expulsou(...)"
