Cap 11 – O Clã.

- Ela está sentada na minha carteira.

Não acreditei quando ele disse isso, e comecei a pensar qual era a possibilidade de ele não estar falando sobre mim. Apesar de eu não ser boa em matemática, eu sabia que a probabilidade era zero.

Depois que conclui isso fiquei em dúvida sobre outra coisa: se eu saia correndo, ou se eu mudava de lugar atirando um xingamento para ele o acusando de ser infantil.

Antes de me decidir quanto a isso observei a reação de Thiers. Ele não parecia zangado nem tão pouco sem graça com a atitude de Kevin. Pelo o contrario, ele o lançou o mesmo sorriso assustador de sempre, como se Kevin tivesse comentado como a noite estava bonita! E voltou-se para falar comigo novamente.

- E então o que quer saber? – Thiers me perguntou.

Eu mal conseguia me lembrar sobre o que nós estávamos falando antes. Olhava para Kevin estagnada. Talvez esse fosse o comportamento normal de Kevin, Thiers não viu nada demais no comentário maldoso dele. Talvez ele nem ao menos me odiasse como eu presumi.

Não, ele definitivamente me odiava. Quando ele olhava pra mim, ou mesmo quando ele não estava olhando, eu sentia que ele me odiava.

- E então?? – perguntou de novo Thiers, quando eu fiquei calada com a boca aberta encarando Kevin.

- O que??? – perguntei voltando a olhar pra Thiers.

- O que você quer saber sobre mim? – ele perguntou.

- Ahh. – eu exclamei me lembrando.

E então Kevin bufou, e eu percebi que o professor já tinha começado a dar aula. E obedecendo a Kevin, sem perceber, eu disse a Thiers:

- Deixa pra depois. – eu disse intimidada.

- Tudo bem. – disse Thiers estranhando a minha súbita cautela.

As duas primeiras aulas foram tensas. Eu não conseguia prestar atenção no que o professor estava falando, e nem tinha coragem de me mexer apesar de minhas costas estarem doendo por eu estar tão abaixada na carteira que os meus pés quase alcançavam os pés da pessoa a minha frente.

Kevin não olhou pra mim de novo. E nem fez nenhum comentário com Thiers, que eu tenha visto. Dan parecia alheio a tudo aquilo, sentado do lado esquerdo de Kevin. Às vezes ele falava algo com Thiers divertido, através de Kevin que continua com cara de poucos amigos, prestando atenção na aula, ou escrevendo.

No pouco tempo entre a troca de professores da primeira para a segunda aula eles não falaram nada um com o outro. Kevin continuava zangado, Dan brincava com suas canetas e as de Kevin, e Thiers olhava para mim pelo canto do olho com um sorriso contido. Eu me arrependi de ter escolhido me sentar lá naquela noite. Eles definitivamente formavam um grupo muito estranho.

Quando o sinal do intervalo tocou, Thiers primeiro falou rapidamente com Kevin, que também não ouvi o que disse. E logo em seguida Thiers voltou-se pra mim.

- Quer ir lá fora??? – ele perguntou animado, com o sorriso estranho estampado.

Me lembrei irresistivelmente de Michael com essa pergunta. Olhei pra Kevin pra ver se ele aprovaria o que eu queria responder a Thiers, mas ele conversava com Dan, então achei seguro responder.

- Okay.

Thiers contente me guiou através da multidão sem que ninguém esbarrasse nele. Ele parecia ter prática com aquilo. Me senti aliviada lá fora por estar longe da energia intimidadora de Kevin. Thiers parou na parte do engradado na qual nós conversamos certa vez, encostando-se nele, e esperou calado, sem olhar pra mim, eu dizer alguma coisa.

- Você é bom em desviar das pessoas. – eu comentei, sem saber o que dizer, dizendo a primeira coisa que veio na minha mente.

- Quando se é um vampiro por algum tempo, fazer isso se torna instinto. – ele disse pensativo, se virando então para mim sorrindo. – Mas estive pensando, e você não deve saber dessas coisas ainda!! É por isso que as pessoas não nos percebem, porque somos vampiros!

- Sim. Eu concluí isso sozinha. – eu contei. – Depois que a fase de negação passou, as coisas começaram a se encaixar.

Ele riu divertido. Parecia que ele ainda não se conformava que o motivo por eu tê-lo ignorado tanto tempo foi por ele ter me dito que eu era vampira. Era como se essa fosse a melhor piada de todos os tempos. E eu me sentia ridícula por isso.

- Você não tinha várias perguntas a fazer?? – Thiers perguntou.

- Tenho. – eu disse, sem certeza sobre o que perguntar, se eu deveria perguntar. – os seus amigos...eles também são vampiros, certo?

- Certo. – ele disse, esperando por uma pergunta mais difícil.

- Hum..- eu exclamei, tentando formular a próxima pergunta. – Vocês formam algum tipo de clã, ou coisa assim?

- Depende. – ele disse rindo. – Somos praticamente uma família! Lembra que eu te contei que eu não conhecia ninguém que não fosse da família??

- Sim.

- Então. È complicado, mas também é muito simples se você for pensar. – Thiers falava animado. – Kevin é meio que o líder, porque foi ele que nos criou.

- Kevin criou vocês?? – eu perguntei sem ter certeza a que tipo de criação ele se referia.

- É! Assim, ele é quem nos transformou em vampiros! – Thiers contou. E o comentário que eu fiz mentalmente com raiva foi: -Que monstro!

- Foi ele também que nos deu um lugar pra viver e que nos ensinou tudo o que sabemos! – ele explicou como se presumisse o que eu estava pensando, era perceptível pelo seu tom de voz o quanto ele admirava Kevin. Mas mesmo que ele dissesse que Kevin já havia salvado crianças órfãs de um prédio em chamas, não mudaria o meu ódio por ele. Afinal eu também odeio crianças. – Kevin é uma pessoa ótima se você o conhecer bem.. – Thiers continuou, mas eu interrompi o seu monologo sobre como Kevin era legal.

- E o Dan? – perguntei, só para mudar de assunto.

- Dan é um bobão. – ele disse divertido. – Exatamente como eu. Tenho uma teoria que Kevin tem uma preferência por garotos metidos a palhaço, em contradição a ele que é tão sério!

E lá estava ele falando de Kevin de novo! A minha analise a distância sobre a dependência de Thiers a Kevin estava certa. Thiers era obcecado por ele. Kevin era o centro do universo!

- Porque ele é assim? – eu perguntei sem conseguir me conter na curiosidade. – Esse tal de Kevin? – eu disse com todo o desprezo que fui capaz de colocar.

- É só o jeito dele. – Thiers disse com um meio sorriso, como se escondesse alguma coisa. Vendo que eu não tinha acreditado ele completou. – Bem, e ele passou por muita coisa também. Não consigo imaginar o quanto foi difícil pra ele tornar-se vampiro!

- Ham! Ah sim, foi tão difícil que ele fez outros! – eu me ouvi acusando. Thiers não pareceu se ofender.

- Não foi difícil para mim ser vampiro! – ele disse rindo. – Pelo o contrario, foi mais fácil do que viver e do que morrer. Kevin facilitou incrivelmente as coisas para Dan e eu. Eu nunca tive um minuto de arrependimento por ser vampiro.

- E o Dan pensa assim também? – perguntei, tentando achar uma brecha que provasse que Kevin era um monstro e não esse ser admirável que Thiers tentava me convencer que era.

- Foi boa essa solução para Dan também. Mas na mesma proporção que foi bom, também foi ruim. – Thiers disse.

Eu tive vontade de gritar: - AHÁ! Mas eu me contive.

- Porque?? Dan não queria ser vampiro? – perguntei.

- Não. Tudo o que Dan queria era não deixar sua irmã sozinha. – Thiers disse. – Dan tinha 18 anos e foi mandado para a guerra do Vietnã.

- Como é que é??? – perguntei pasma. Pelo o que eu sabia a guerra do Vietnã tinha acontecido há muito tempo atrás, não sabia exatamente quanto tempo. Quase havia me esquecido dessa curiosidade sobre os vampiros, eles são imortais! Ou seja, eles na verdade são muito mais velhos que eu! – Quantos anos o Dan tem???

- Tecnicamente, ainda 18! – Thiers disse com um enorme sorriso assustador. – Essa era a idade que ele tinha em 1959, quando ele foi mandado para a guerra do Vietnã.

- Mas isso significa que ele tem pelo menos... – comecei a dizer, fazendo as contas.

- Dan tem 67 anos! – Thiers disse com um sorriso maior ainda.

- Quantos anos você tem??? – eu fui obrigada a perguntar.

- Que indiscrição! – ele disse divertido. – Outro dia eu te conto, hoje vou contar a história de Dan, que alias é bem mais interessante que a minha.

- Tudo bem. – eu concordei curiosa com a história de Dan, mas mais ansiosa pela história de Thiers. – Então, ahn, Dan foi mandado para guerra do Vietnã.

- Sim. Dan era da parte Norte do país, ou seja, da parte comunista. Como você pode imaginar, Dan não queria ir pra guerra. Dan sempre foi alegre, divertido e brincalhão, você consegue imaginar ele numa guerra?? Só se fosse pra praticarem tiro ao alvo nele! – Ele contava sorrindo. Acho que Thiers nunca ficava ou parecia triste. - Então não havia esperança, ele sabia que iria morrer na guerra, e que nunca voltaria pra casa. Dan era muito apegado a irmã mais nova dele, ela tinha 5 anos na época, e o que mais ele se sentia triste em deixar era ela. A mãe deles havia morrido quando a menina nasceu, e o pai já era velho, ele sempre soube que ele que teria que cuidar da irmã quando o pai morresse, e agora ele ia morrer antes. Então ele aceitaria qualquer coisa para não ir pra guerra.

- Ele foi pra guerra no final das contas??? – eu perguntei.

- Foi. – Thiers disse. – Mas foi aí que ele conheceu o Kevin.

- Kevin também estava na guerra??? – eu perguntei confusa.

- Estava. Mas mais como expectador. – Thiers disse com a única outra expressão que ele tinha, o sorriso contido, que era quando ele estava escondendo alguma coisa.

- Kevin foi olhar a guerra e conheceu Dan, e depois? – perguntei, sentindo cada vez mais desprezo por Kevin. Thiers notou isso, mas não comentou nada e apenas continuou contando a história.

- E então ele fez o favor a Dan de transforma-lo em vampiro. – Thiers terminou.

- Fez o favor??? – eu disse incrédula que ele colocasse dessa forma.

- Dan quis que ele fizesse assim, foi a melhor coisa que poderia acontecer a ele! Kevin resolveu o problema dele com isso. – Thiers defendeu. – Então Kevin e Dan voltaram para o Brasil, e deram Dan como morto para a família dele. Foi perfeito, ninguém teve como desconfiar de nada. Depois de um tempo Dan voltou para o Vietnã para buscar a irmã dele.

- E o pai dele? – perguntei.

- Dan esperou escondido até o pai morrer para levar a irmã com ele. – Thiers explicou. – Ninguém deu por falta dela. Eles não tinham outra família.

- E a irmã dele?? Está viva até hoje?? – perguntei.

- Ela esta por aí, sim. – ele disse sorrindo. Fiquei imaginando quantos anos ela tinha hoje em dia. Pelas minhas contas, ela tinha 54. – Você percebeu que o sinal já tocou? – Thiers perguntou me tirando dos meus pensamentos.

- Tocou?? Há quanto tempo? – perguntei assustada.

- Calma, só há uns 2 minutos. – ele disse sorrindo assustadoramente, então eu soube que era verdade.

- Ahh, menos pior, então vamos subir? – eu disse aliviada.

- Primeiro as damas. – disse ele fazendo uma reverência numa tentativa cômica, e nós fomos para a sala.

Ao entrar lá avistei Kevin e Dan sentados. Dan nos lançou um aceno contente, e ao invés de ficar incomodada com o ódio de Kevin a mim eu fiquei viajando as três aulas seguintes sobre Dan. Depois de tudo o que ele passou ele parecia feliz por ser como ele era. E dei mais razão ainda a Thiers por me achar boba com todo aquele drama de ser meia-vampira.


[Death Cab For Cutie - I Will Follow You Into The Dark]

"Se o céu e o inferno decidirem
Que eles dois estão satisfeitos
Ilumine os não sem suas placas de há vagas
Se não houver ninguém do seu lado
Quando sua alma embarcar
Então eu vou seguir você até rumo á escuridão"