Cap 12 – Em Casa.
Eu acordei no dia seguinte às três horas da tarde em dúvida se tudo realmente havia acontecido, e se tivesse, se eu voltaria a me sentar com eles no dia seguinte. Thiers era legal, ele me acompanhou até certa parte do portão na saída, e disse:
- Até amanhã.
Entendi que isso significava que ele estaria me esperando na saída da escada de incêndio, mas eu não tinha certeza se era uma coisa boa. Dan era simpático, quase não falou comigo, mas mostrava-se confortável com tudo aquilo, como se eu estivesse lá há bastante tempo. Mas Kevin. Kevin era o grande problema. Ele não me queria lá, e talvez esse fosse o motivo de eu querer ir lá mais ainda, provar que ele está errado, que a intimidação dele não funcionou, irritar ele! E foi isso que me levou a seguir Thiers para a sala de aula no dia seguinte.
Tomei cuidado para não me sentar na cadeira de Kevin, dessa vez, sentando-me a esquerda de Thiers, deixando a cadeira do corredor para Kevin. Logo este chegou com a mesma expressão irritada de ontem, e com Dan em seus calcanhares animado.
- Você veio!!! – Dan disse pra mim animado.
- Vim. Porque não viria? – perguntei a ele, olhando repentinamente para Kevin, o desafiando que eu viria não importa o que ele pensasse.
- Achei que tivesse se assustado com o...- Dan começou a falar, mas foi interrompido por uma voz feminina vinda do meu lado esquerdo.
- Oi Sam. Posso te chamar de Sam?
Quando olhei para o lado e vi Hosun sentando-se na cadeira ao meu lado, Dan ocupou a cadeira ao lado desta.
- Oi Hosun. Pode, claro. – eu disse confusa, me perguntando o que ela estava fazendo sentada no meio de um monte de vampiros. Kevin parecia mais irritado ainda com a presença dela.
- Resolveu não matar mais aula, Hosun?? – Thiers perguntou sorridente, como se já a conhecesse.
- Aahh. Eu cansei de correr atrás daqueles humanos babacas, é entediante, eles deixam o jogo muito fácil. – disse ela. – Aaah Kevin. – chamou ela com uma nota de arrogância na voz. – Você esqueceu isso em casa. – Ela disse atirando a carteirinha do cursinho dele por cima da minha cabeça de Thiers, com presição. Kevin pegou, mal-humorado, sem dificuldade a carteirinha voadora.
- Como você passou pela catraca sem a carteirinha?? – perguntou Thiers rindo abertamente.
- Passei junto com o Dan. – disse Kevin, cruzando os braços, com ar superior.
- O jeito certo é falar com aquela mulher que fica do lado das catracas. –Hosun disse tão mal-humorada quanto ele. – Meu irmão não tem porque te encobrir sempre que você esquece, e você esquece vezes demais.
- Foda-se. – Kevin lançou a ela junto com um olhar de ódio que parecia poder matá-la, mas ela nem ligou, voltando-se pra mim, falando animada novamente.
- Então, Sam. Se acertou com o Thiers??? – perguntou ela feliz.
- Você!!! – eu exclamei. – Você é a irmã do Dan?!?! – eu disse sem certeza.
- Sou. – ela respondeu sorrindo. – Desculpa, esqueci de te contar esse detalhe?
- Mas...Você deveria ter 54 anos!!! – eu exclamei incrédula sem me dar conta do óbviu.
- Não me lembre disso!!! Eu me sinto velha. Prefiro pensar que terei 18 anos eternamente, afinal é o que acontece tecnicamente. – disse ela muito rápido, divertida, com um humor bem parecido com o de Dan. – Gostaria que eu esfregasse na sua cara que você tem... er, quantos anos você tem mesmo?? – ela perguntou. Ela falava tão rápido que precisei de alguns segundos para conseguir absorver o que ela tinha falado.
- 19! – eu disse, tentando absorver as várias informações que me foram atiradas no último minuto.
- 19??? – ela exclamou. – Que injusto!! Você é tão nova!!! Tinha esquecido, o Dan me disse que você era quase humana ainda. Não te ofendi quando disse que os humanos são babacas, né?? – perguntou ela atropelando as palavras.
- Não. Nunca gostei muito de humanos. – eu disse sinceramente. Dan e Thiers riram. Kevin continuava isolado tentando fingir que não estava ouvindo.
- Ah! Então vai ser mais fácil pra você quando tiver que chupar o sangue deles. – Hosun disse meigamente.
Hosun era uma criatura muito estranha. Ela era fofa, excessivamente fofa. Ela parecia um ursinho de pelúcia que você tem vontade de apertar. Ela era baixa, pele bem branca, cabelos bem pretos e longos. Seu rosto era delicado, com bochechas maiores, apesar dela ser bem magra, ela tinha covinhas quando sorria, e usava óculos de grau de aro vermelho. Ela e Dan se pareciam um pouco, era notável que eram irmãos.
Quando a aula começou Dan e Hosun não paravam de falar, Thiers falava também, mas menos, e eu desconfiava que era porque eu estava entre eles, e ele não queria me incomodar, mas Dan e Hosun, não pareciam perceber ninguém ao redor, assim como as pessoas também não nos notavam.
Kevin às vezes falava com eles, às vezes só para mandar se calarem, ou pra lançar um comentário arrogante sobre o que Hosun havia falado. Afinal não era só a mim que Kevin odiava, ele também parecia não suportar Hosun, mas pelo menos ele dirigia a palavra a ela. Hosun nunca deixava barato e lhe dava alfinetadas sempre que tinha oportunidade. Thiers era quem mais falava com Kevin, talvez normalmente Dan conversasse mais com Thiers e Kevin do que com sua irmã, porque eu nunca a tinha visto entre eles.
Quando o sinal de inicio do intervalo tocou, Dan e Hosun se levantaram rapidamente para descer, e ela disse a mim:
- Vai ser bom ter você aqui. Me sentia sozinha sendo a única garota. – ela disse meigamente, e saiu.
Kevin não os seguiu, como fez no dia anterior, ficou sentado comigo e Thiers na sala, como poucos outros alunos faziam.
Me senti estranha de ficar com eles, como se eu devesse ter acompanhado Hosun e Dan, e me sentia tentada a fazer mais milhões de perguntas a Thiers, mas Kevin ao seu lado me intimidava.
- Então, você já conhecia a Hosun, não?? – Thiers quebrou o gelo me perguntando, com o sorriso contido estampado.
- Falei com ela uma vez. Não imaginei que ela também fosse...er...você sabe... – fiquei sem graça de dizer a palavra, com poucas pessoas ao redor, caso alguém ouvisse.
- Vampira. – completou Kevin mal-humorado, quase dirigindo a palavra a mim.
- Ela foi falar com você por nossa causa. – disse Thiers sorrindo abertamente agora, referindo-se a eles todos.
- Ham! – Kevin pigarreou, como se quisesse excluir-se dessa afirmação. Thiers simplesmente fingiu que não ouviu.
- Então você mandou ela falar comigo??? – perguntei dando entonação ao "você" para mostrar que eu sabia que Kevin não estava incluso.
- Na verdade não. – Thiers explicou. – Eu apenas falei sobre você com ela, e ela quis te conhecer. Eu pedi a ela que não o fizesse, achei que você ia perceber!
- Não percebi...Agora parece tão óbviu! As pessoas normalmente não me notam e toda aquela história. – eu disse, me lembrando da ocasião.
Thiers sorriu. Kevin parecia entediado. Quando o momento de silêncio se prolongou, Kevin bufou e saiu rápido e mal-humorado da sala.
- Quantos anos ele tem? – perguntei a Thiers.
- Kevin?? – perguntou.
- Sim.
- Acho que não devo te contar. – Thiers disse sorridente.
- Porque não?? – perguntei brava.
- Porque aí você vai ter uma idéia de qual é a minha idade!!! E também... – Thiers disse, e então acrescentou sussurando, como se fosse um segredo. – ...Acredito que ele não iria querer que eu te contasse.
- E porque isso? – perguntei incrédula.
- Crise da meia idade. Sabe como é! – disse Thiesr rindo.
- Sei. Eu já tenho isso com os meus 19 anos!! – confessei a ele.
- Você é tão nova! Queria eu ter 19 anos!!!
- Ele deve ser velho. È rabugento como um. – eu atirei, com raiva de Kevin. Mas logo imendei outra pergunta. - Como eram as coisas quando você tinha 19 anos?? – perguntei, querendo ter uma dica de quantos anos ele realmente tinha.
- Eu nunca tive 19 anos. – ele disse misteriosamente.
- Ahn??? – balbuciei interrogativamente.
- Eu ainda tenho 18! – ele disse rindo assustadoramente. – Tecnicamente. – ele acrescentou.
- Não é justo!!!! Você é mais novo que eu! – eu acusei.
- Você não entendeu. Eu tenho 18 anos há bastante tempo! – ele disse tentando em acalmar.
- Não subestime a minha inteligência. Eu entendi isso! Mas eu vou ser para sempre mais velha que você!! – eu disse refletindo meu desespero.
- Mais velha que todos nós, na verdade. – ele disse segurando o riso.
- OQUÊÊ??? – perguntei me desesperando.
- È... todos nós temos 18. – ele sorriu.
O sinal tocou enquanto eu continuava parada encarando ele com os olhos arregalados e a boca aberta.
- Pelo menos eu vou poder me gabar pra sempre de estar pegando uma mulher mais velha. – ele disse lançando seu sorriso assustador de sempre enquanto todos chegavam.
- Até onde eu sei, você não tá pegando ninguém, Thiers. – disse Hosun, que chegou imperceptivelmente.
Eu e Hosun rimos, Thiers riu aparentando estar um pouco sem graça. Era difícil dizer. Vampiros não coram!
Os dias passavam sem parecer ter inicio ou fim enquanto eu estava com eles. Eu me acostumei a essa rotina rápido. O animação de Dan, a meiguice de Hosun, a gentileza de Thiers, até a arrogância de Kevin já era usual.
Dan alegrava o dia só de aparecer, não havia como ficar sem rir perto dele, ele nem precisava fazer nada, era só ele surgir com seu cabelo estranho e seu piercing na orelha rosa, que o ambiente parecia melhor. O estranho piercing rosa, segundo a ele fora escolhido por sua irmã Hosun. Hosun estava se tornando algo que as pessoas devem chamar de melhor amiga, ela sempre estava contando algo sobre o seu dia, falando mal de Kevin quando ele não estava ouvindo (ou fingia não estar), perguntando algo sobre mim, sendo minha confidente. Mas não antes de Thiers, Thiers era meu melhor amigo. Thiers não era nada parecido comigo, era alegre e brincalhão, não parecia levar nada a sério. Mas ele também era doce e gentil, apesar de ser de uma forma um tanto zombadora, com seu sorriso assustador. Ele era a personalidade que faltava em mim, que sempre fui tão amarga, auto-suficiente e arrogante. Por falar em arrogância, Kevin não havia mudado sua postura, o que me fez me dar conta que não era por minha causa que ele agia daquela forma, ele era assim! Mais antipático do que eu. Mas isso não mudava o fato de ele visivelmente não gostar de mim. Nem de Hosun, é verdade, mas comigo ele nem dirigia a palavra para provocar, como fazia com Hosun. Ainda havia algo aí.
Foi fácil me adaptar a eles, eu não precisava fingir estar feliz em sua companhia, pois eu realmente estava, eu não precisava ter medo de não ser simpática, pois eu era a miss simpatia perto de Kevin, e eu não me sentia estranha perto deles, eles eram tão mais estranhos que eu!!!
Com eles, eu me sentia em casa.
[Sam's Town – The Killers]
"Ninguém nunca teve um sonho por aqui,
Mas eu não me importo muito que esteja começando a me afetar
Ninguém retira as remendas por aqui,
Mas eu não me importo muito que esteja começando a me afetar
Tenho essa energia sob meus pés
Como se algo no subsolo fosse sair e me carregar
Tenho esse coração sentimental que bate
Mas não me importo que esteja começando me afetar (...)"
