Cap 16 – Predador.

Depois de sofrer o toque de realidade de que eu teria que me mudar de casa quando a transformação ocorresse, percebi que eu era obrigada a contar a minha mãe quem realmente eram os meus novos, e únicos, amigos. Ou melhor dizendo, o que eles eram.

Isso não era fácil de se contar para uma mãe: Tenho quatro amigos vampiros, e vou morar com eles ano que vem para não matar você acidentalmente.

E ainda mais sobre Thiers, ela percebeu que havia algo a mais entre Thiers e eu. Nenhuma mãe gostaria de saber que a filha está namorando um vampiro. Principalmente uma que já namorou um vampiro e sofreu as conseqüências. Então eu acabei decidindo adiar o máximo o possível essa revelação. Infelizmente isso não demorou muito, quando um dia Thiers chega pra mim e diz:

- Você tem um encontro! – Thiers disse sorrindo assustadoramente.

- Er.... e eu posso saber quando?? E onde?? – eu perguntei.

- A pergunta mais importante é: Para o que?! – Thiers disse misteriosamente.

- Para o que?? – eu perguntei desconfiada.

- Você vai aprender o modo de vida de um vampiro! – ele anunciou orgulhoso.

- Hum... legal... e como é isso?? – eu perguntei.

- Bem... Vai durar o fim de semana inteiro. Você vem até aqui no sábado a noite e ficará direto nas ruas até o amanhecer, onde vai aprender a caçar, a analisar a presa e os locais. E depois vocês vão passar o dia no cemitério e ... – Thiers falava, mas eu interrompi.

- Peraí. O que você quis dizer com "vocês"? – eu perguntei, já esperando pela resposta que estava por vir.

- Você e o Kevin. – ele disse com o sorriso contido, esperando a explosão.

- COMO QUE È?? – eu dei o ataque. – Você não vai junto??

- Não. Eu iria inibir você. – Thiers disse tentando ficar sério.

- Ahh sim, e o Kevin não vai?? – eu disse sarcasticamente.

- Kevin é o melhor professor para vampiros que já existiu! – Thiers disse com admiração. – Ele que ensinou a nós todos. Até Hosun aprendeu com ele.

- Mas... mas... – eu comecei a gaguejar.

- E além do mais, - Thiers continuou. – è uma boa oportunidade para vocês se conhecerem melhor.

Em condições normais já seria ruim o bastante ficar um fim de semana inteiro na companhia de Kevin. Agora, com a recente insinuação de Thiers que eu e Kevin formaríamos o par perfeito, ficar sozinha com o Kevin um dia e duas noites, parecia pior ainda! Eu me sentia mais confortável odiando o Kevin do que em dúvida se eu deveria amar ele ao invés de Thiers.

Kevin sempre me surpreendia ao aceitar coisas que eu nunca achei que ele aceitaria ao meu respeito. Como ir morar com ele, apesar de todo o ódio de eu ter ganhado Thiers e não ele. Porém isso, pelo menos, estava longe de acontecer. Talvez Kevin me matasse antes de que eu tivesse que ir morar com eles. Mas o tal do "encontro" seria nesse final de semana. Isso era muito próximo, considerando que estávamos na sexta-feira.

Eu não tive como me negar a comparecer a esse evento que Thiers anunciou com tamanha alegria. Mas algo em minha expressão facial o fez aceitar que passássemos todos juntos a noite de sábado. Já era alguma coisa. Então, eu simplesmente me conformei, e ensaiei como eu falaria para minha mãe que iria passar duas noites com um vampiro.

- Mãe. – eu comecei dizendo. Normalmente eu costumava chamar minha mãe de Rossana, como se ela não fosse minha mãe, e sim uma amiga. Mas quando o assunto se tratava desse, ela era minha mãe, não minha amiga. – Eu tenho um anúncio a fazer. – eu disse com a garganta seca.

- Um anúncio??? – ela riu-se. – Diga.

- Sabe os meus amigos do cursinho??? Hosun, Dan, Kevin e Thiers?? – eu começei.

- Sei. É sobre o Thiers que você quer falar não? – ela disse, tentando adivinhar o que eu ia dizer.

- Também... é que ele é...- eu comecei a dizer, mas ela me interrompeu, o que nos fez falar ao mesmo tempo.

- Seu namorado. – ela completou.

- Um vampiro.- eu disse, ao mesmo tempo que ela disse "namorado".

Fiquei esperando a reação dela, que demorou alguns segundos para vir, porque ela tinha absoluta certeza que eu iria anunciar que Thiers era meu namorado.

- Como disse?? – ela perguntou confusa.

- Vampiro. – eu repeti só a ultima palavra, que era a que realmente importava. – E os outros também. Eles querem que eu more com eles quando eu..., me tornar uma deles. – eu tentei dizer tudo de uma vez antes que eu perdesse a coragem. – E eu vou passar o fim de semana inteiro com eles pra começar a me adaptar....ao estilo de vida deles.

Rossana ficou calada por um momento refletindo. Ela ficou vermelha, como se ela estivesse pensando em várias coisas para dizer entre xingamentos e indagações de que eu não poderia ir, ou como o quanto irresponsável eu estava sendo ao andar com esse tipo de gente. Mas para a minha surpresa, depois de respirar bem fundo, ela disse:

- Tudo bem.

- Tudo bem??? – eu perguntei pra ter certeza que tinha ouvido direito.

- Você já tem 19 anos. Não posso obrigar você a não fazer algo, você tem que tomar suas próprias decisões e...- Rossana parou um pouco e disse mais baixo. – Eu já sabia que algum dia isso ia acontecer. Seu aniversário está cada vez mais próximo e...você possivelmente não iria poder ficar por aqui.

Eu nunca tinha parado para pensar de o quanto isso era mais doloroso para minha mãe do que para mim mesma. Talvez Thiers tivesse razão e eu fosse realmente egocêntrica como Kevin, nunca me importando com os pensamentos de ninguém em volta, a não ser com os meus próprios. Eu era o centro do universo para Rossana, e ela sabia desde o começo que nesse ponto, ela teria que deixar ir sozinha. Toda mãe sabe disso, mas nas nossas condições, a mudança era mais certa, e praticamente cronometrada.

Na noite de sábado Rossana fez questão de me levar até o portão do cursinho fechado. Embora ela usasse a desculpa de que era perigoso uma menina sair andando sozinha pela rua há essas horas, eu sabia que era porque ela queria dar uma boa olhada em Thiers e toda sua trope. Ela estacionou o carro onde normalmente estacionava quando ia me buscar, em baixo de uma árvore, distante do portão.

Kevin, Hosun, Dan e Thiers estavam encostados na parede mais em frente, escondidos da luz forte da entrada de um prédio. Kevin estava mais afastado dos outros, e olhava com curiosidade para o carro quando chegamos.

- É ele??? – minha mãe perguntou indicando Kevin com a cabeça.

- É. – eu disse sem pensar muito.

- O famoso Thiers. – ela completou, analisando Kevin.

- Não! Esse não é o Thiers, esse é o Kevin. – eu disse.

- Quem é o Thiers então?? – ela perguntou confusa.

- Aquele mais alto, o que não tem piercing rosa. – eu disse, antes que ela achasse que era o Dan.

- Ah. – minha mãe exclamou, visivelmente não aprovando a aparência de Thiers, que nunca seria o ideal de beleza para mãe nenhuma, e que ainda estava usando calça preta e uma camiseta do Marilyn Manson com suspensórios vermelhos e coturnos nos pés. Então ela voltou a atenção novamente para Kevin, que vestia uma blusa preta elegante com a cola alta e calça jeans escura, o qual continuava a encarar nosso carro com uma expressão estranha. – Você disse que esse Kevin não gosta de você??

- Não. Eu disse que ele me odeia. – eu consertei.

- Não é o que parece. O jeito como ele olha, ele parece se importar com você. – Ela disse pensativa, num tom de aprovação.

- Tchau mãe. – eu disse e sai do carro, antes que ela também dissesse que Kevin seria bem mais apropriado para mim do que Thiers.

Já eram 22:00 PM quando eu me encontrei com eles. Nós saímos andando pela avenida ainda movimentada, segundo Kevin, nós primeiro iríamos analisar o lugar, então ele nos dividiu em dois grupos. Kevin e Dan atravessaram a rua, indo para o outro lado da avenida, enquanto Thiers, Hosun e eu seguimos em frente, em direção a um shopping que tinha não muito longe dali.

- Está com medo? – Thiers perguntou, notando que eu estava mais calada do que o normal.

- Não. – eu disse monossilabamente. Então Thiers me lançou um olhar interrogativo e eu continuei. – Eu só estou ansiosa.

- É Thiers, que bobão, ter medo de que?? São eles que tem que ter medo da gente! – Hosun disse animada, interpretando a minha ansiedade de uma forma diferente da qual eu havia me referido.

- Eu sei que deve ser esquisito. Você ainda é humana afinal de contas. Nós não vamos fazer você matar ninguém, ou beber sangue. – Thiers disse sorrindo, descontraído. E logo acrescentou. – A não ser que você queira.

Nós três rimos e continuamos seguindo em frente. Thiers estava tentando me explicar como eram as fases da caça, como acontecia na selva e como acontecia aqui. Nós tínhamos três fases: 1- Analisar o território. 2- Escolher a vítima. 3- Alimentação.

Era quase como ir ao mercado, só que bem mais macabro. Eles não podiam pegar qualquer um em qualquer lugar. Isso era uma irresponsabilidade, porque se alguém os visse, ou uma vítima não morresse, ou se eles caçassem sempre no mesmo lugar, eles corriam riscos inimagináveis, como uma possível caça as bruxas, como na idade média, ou um extermínio total da raça humana. Como a cadeia alimentar explica, os predadores tem que estar em menor número do que as presas para o ecossistema continuar em perfeito equilíbrio. Isso era bem mais complicado do que ir ao mercado.

Outra coisa é que deveríamos tomar muito cuidado com quem seria a vítima. Não podia ser qualquer um. Se a pessoa fosse conhecida, ou tivesse muito poder econômico, poderia ocorrer uma investigação, e se bem sucedida, embora fosse muito difícil, eles teriam que se mudar para não ser descobertos.

Thiers explicava bem, se você não se distraísse pelo sorriso dele, ou as piadas. E eu já estava me perguntando porque diabos nós precisaríamos de Kevin, afinal!

Quando estávamos passando por uma rua escura e deserta, entre um carro estacionado e uma arvore grande que dificultava a passagem. Hosun ia a frente, com Thiers logo atrás dela, e eu depois de Thiers, quando um vulto surgiu de trás do carro, parando a nossa frente, nos encurralando.

- Passa o coturno. – o vulto disse para Thiers, que ficou parado, sorrindo, igual a sempre, só aparentando estar um pouco confuso. Como Hosun, que parou para o lado, tentando sair do aperto entre o carro e a árvore. O vulto a notou, e disse ríspido para ela.

- e você não corre não!

Eu fiquei paralisada, sem saber o que fazer. Eu estava segurando minha bolsa fortemente na minha lateral, eu estar toda de preto camuflou a bolsa que também era preta, fiquei pensando em um jeito de escapar. Para um lado, para o outro. Eu não podia deixar Thiers e Hosun.

- Passa o coturno ou eu te furo! – o vulto disse outra vez. Não havia como saber se ele tinha uma arma com a escuridão.

Thiers não fez nenhum movimento e nem disse nada, ainda sorrindo assustadoramente. Hosun estava parada do lado séria e confusa. Nenhum dos dois parecia saber o que fazer, ou sequer pretender fazer algo.

O vulto então virou a cabeça para a sombra em que eu estava parada, parecendo perceber pela primeira vez que eu estava lá. Antes que eu conseguisse entrar em completo pânico, sair correndo ou fazer qualquer idiotice do tipo, um segundo vulto surgiu por trás do agressor, com o braço fechado em uma chave no seu pescoço. No movimento que o assaltante fez em reação, os dois vultos saíram da sombra, e eu pude ver com a iluminação do farol da rua que o vulto que o estava imobilizando era Kevin.

- Caralho. – o homem exclamou, imobilizado por Kevin, tentando se livrar do aperto, que eu conseguia imaginar que era impossível. Kevin era letal.

- Como ele nos notou?? – eu ouvi Hosun perguntar para Dan, que só agora notei que tinha chegado ali.

- Ele acredita em vampiros. – Kevin disse com um sorriso propositalmente malvado. E então perguntou para sua vítima, falando bem próximo de seu pescoço. – Não é? - Ele estava se preparando, eu quase podia sentir a mordida.

- Espera, Kevin. – Thiers chamou calmamente.

- O que??? – perguntou Kevin, ainda segurando o cara que tentava inutilmente se soltar.

- Você não acha que deveríamos perguntar para a Samantha o que fazer com ele? È a primeira vez dela. – Thiers disse.

Kevin visivelmente se segurou para não revirar os olhos, então olhou diretamente para mim e perguntou.

- O que você quer que eu faça com ele? – Kevin perguntou com olhos estreitos e expressivos, quase parecia que ele estava realmente se importando com o que eu iria decidir.

Eu pensei por um momento o que eu gostaria de fazer com o assaltante. Eu ainda estava em choque, eu nunca tinha nem chegado perto de ser assaltada na vida, afinal eu nunca saia de casa e quando saia as pessoas não costumavam notar a minha existência. Mas a raiva então flamejou no meu peito. Ele ameaçou Thiers e gritou com Hosun! Eu cheguei até por um momento a esquecer que eles dois eram vampiros e podiam se defender melhor que eu enquanto estava fazendo um plano de fuja. O homem olhava para mim, os olhos dele eram de medo e súplica. Ele não deveria ter mais do que vinte e poucos anos, era um pouco acima do peso, branco com o cabelo bem curto e olhos pretos. Estava até bem arrumado, com uma jaqueta de couro que aparentava ser nova, calças jeans limpas e tênis de marca.

- Mate-o. – eu anunciei friamente.

Sem nem mais tempo de nem um suspiro, Kevin quebrou o pescoço do homem, e o largou deixando-o cair molemente no chão. Sem vida.

Thiers, Hosun e Dan permaneceram calados quando começaram a andar, seguindo o caminho em frente. Kevin parecia extasiado, e eu pensei ter visto um lampejo de surpresa e orgulho quando eu dei a ordem da morte. Estranhei o silencio, a ausência de comentários. Thiers e Hosun não eram do tipo de ficar calados por um minuto sequer.

- O que..??? – eu comecei a perguntar pra Thiers, o puxando um pouco para trás, o fazendo parar comigo.

- Nós não matamos por matar. – ele disse sério. Olhando pra mim timidamente.

- Mas, eu achei que.. – eu comecei a me explicar.

- Kevin só iria deixa-lo inconsciente. Ele nunca teria certeza do que o havia atingido, não seria um problema. – Thiers disse então mais baixo. – Ele não era um assaltante regular, ele era só um tipo de playboy que achou que tinha encontrado alguém mais fraco. Ele, na verdade, não faria mal a ninguém. – dizendo isso, Thiers me lançou um sorriso contido, e voltou a andar com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa, atrás dos outros.

Fiquei calada por um momento me sentindo estranha. Eu não sentia que havia matado alguém. Era como se eu tivesse matado uma mosca chata na parede. Eu achava que isso era comum para eles. Para Kevin pareceu ser! Thiers não deveria ter olhado par mim daquele jeito, como se estivesse com medo de mim.

Enquanto eu me afastava do corpo estirado no chão, frio e sem vida, eu percebi que não sentia remorso algum.


[Dangerous Tonight – Alice Cooper]

" Tome outra mordida
eu ficarei bem
o que é errado logo parecerá certo
perigoso hoje a noite

(...)
Eu sou perigoso, Eu sou uma raça morrendo
Venenoso como uma centípede
Eu sou capaz da mais boba ação
Perigoso essa noite
Eu sou perigoso como uma lâmina
Mortal como um ataque cardíaco
Bem, eu não curvo e não racho
Perigoso essa noite"