Cap 17 – Um Dia e Uma Noite.
Pelo o resto da noite o clima estranho permaneceu entre nós. Eu não tinha certeza por quanto tempo isso duraria e não tinha parado para pensar em quais as conseqüências que poderiam causar. Mas quando Kevin perguntou a Thiers:
- O que foi?
- Perdi a fome. – Thiers respondeu baixo.
Eu comecei a me preocupar. Se eles não me aceitassem mais na casa deles, onde eu iria morar? Se eu não estivesse mais com Thiers não haveria motivo para eles me abrigarem lá após a transformação. Kevin com certeza ficaria feliz de me ter de fora, de me fazer morar pelas ruas e pelos os cemitérios que nem ele teve que fazer.
Por isso eu nunca quis amigos, ou um namorado. Quando você os perde você fica sem rumo. É difícil voltar a auto-suficiência.
Kevin decidiu deixar a caçada para outro dia, então ele, Thiers e eu fomos embora, enquanto Hosun e Dan continuaram caçando.
A caminhada foi silenciosa. Percebi que nós estávamos indo a direção da minha casa, e eu comecei a me perguntar se eles me deixariam lá, cancelando os planos das lições de vampiro para sempre. Foi quando eu avistei o cemitério, o mesmo cemitério no qual eu havia estado uma vez.
Os dois pularam o muro com facilidade, eu fui mais lenta, foi preciso que Thiers me empurrasse de um lado e o Kevin me amparasse do outro. O que posso dizer?? Educação física nunca foi minha matéria favorita.
Andamos cemitério adentro, bem no fundo, onde havia os grandes mausoléus. Kevin parou na frente de um deles, tirou uma chave do bolso e abriu o portão. Os dois fizeram sinal para que eu entrasse. Aquilo estava muito estranho, eles pretendiam me enterrar viva ao algo do tipo? Kevin e Thiers entraram atrás de mim sem dizer nada.
O espaço era grande, havia dois caixões ali dentro, um preto e um marrom. Kevin se dirigiu ao caixão preto.
- Vamos dormir aqui. – Kevin informou.
- Quando você diz aqui, você quer dizer dentro do caixão? – eu perguntei horrorizada com a idéia de dormir dentro de um caixão, num mausoléu, em um cemitério!
Thiers deu uma risada baixa, passando por mim com seu sorriso assustador de sempre, que me acalmou por um momento, até ele ir até o outro caixão e abri-lo!
Alívio. O caixão estava vazio.
Thiers então tirou um saco de dormir de dentro dele, revelando o seu interior roxo.
- Eu imaginei que você não iria querer dormir dentro do caixão. – Ele disse, me entregando o saco de dormir e um travesseiro.
- Obrigada. – eu agradeci.- Vocês dormem dentro do caixão? – eu tive que perguntar, apesar de saber que eu descobriria isso logo mais.
- Dormimos. – Thiers disse sorrindo, parecendo aliviado por algum motivo. – Te vejo segunda no cursinho. – Thiers disse então, se aproximou me dando um beijo na testa e foi embora.
Ótimo. Agora eu estava sozinha com o Kevin até segunda-feira! Nós conseguiríamos agir civilizadamente um com o outro ou me enterrar viva ainda era uma hipótese?
Kevin abriu o caixão preto que lhe pertencia, revelando o interior vermelho também vazio, e deitou-se dentro dele, mantendo a tampa ainda aberta.
Eu me apressei para arrumar o meu saco de dormir, um pouco longe de Kevin, e me deitei no chão frio. Eu ainda podia ver uma parte do rosto de Kevin de onde estava.
- Então...- eu comecei a dizer, sem certeza se deveria tentar começar uma conversa, mas a curiosidade ganhou de mim. – Isso aqui é de vocês? – eu perguntei, me referindo ao mausoléu.
- Não. – Kevin respondeu sem nem olhar pra mim, continuando a fitar o teto.
- Então isso pertence a... gente morta? – eu perguntei na dúvida. O quanto errado era roubar o mausoléu dos mortos?
- Isso. – Kevin disse normalmente. – Mas não tem perigo. Todos os parentes desse casal já estão mortos, então ninguém virá visitá-los.
- Como você pode ter certeza disso? – eu indaguei.
- Porque esse é o mausoléu dos pais do Thiers. – Kevin disse para o meu choque. E então completou em tom de deboche. – De que outro modo nós teríamos a chave?
- Dos pais de Thiers? – eu perguntei retoricamente, Kevin sequer se deu ao trabalho de responder. Essa pergunta deixada no ar me fez lembrar de outras perguntas que foram deixadas no ar já há algum tempo. E eu não consegui deixar de perguntar. – Qual é a história do Thiers?
Kevin suspirou, como se estivesse torcendo para que eu não perguntasse isso. Então se ajeitou no caixão e disse.
- A família de Thiers veio para o Brasil com a imigração japonesa. – Kevin disse, então olhou pra mim com ar superior. – Você já deve ter ouvido falar, o centenário foi há pouco tempo.
- Thiers tem 100 anos?? – eu deixei escapar.
- 98. Ele nasceu em 25 de setembro de 1909. – Kevin disse voltando a encarar o teto. – O anivérsário dele não está longe, logo ele terá 99.
- Nossa. – eu disse pensativa, e então conclui em voz alta. - Você é realmente velho! Até Thiers é novo pra você. – eu disse me apoderando de um espírito Hosun. – Você já comemorou seus 300 anos?
- Não. Vai ser só dia 22. – ele disse sério, sem se abalar.
- Ah. – eu indaguei, o aniversário de Kevin então seria na próxima sexta, sem saber o que dizer, e sem saber como de repente a conversa sobre Thiers havia se tornado sobre o Kevin. – Então, como você conheceu o Thiers? – tentei retomar o assunto.
Ele olhou pra mim por um momento, pensando se iria ou não responder. Então disse nervoso.
- Isso não pode esperar até amanhã? – Kevin perguntou irritado. – Está amanhecendo e eu realmente queria dormir.
- Durma, oras. Não sabia que você estava com sono. – eu respondi irritada também. Cruzando os braços.
Kevin suspirou com raiva antes de dizer com os dentes apertados:
- Thiers me pediu para esperar você dormir.
- Ah. Desculpe. – eu me senti envergonhada. Mas fui obrigada a atiçar Kevin só mais uma vez – Tecnicamente já é amanhã.
- Eu quis dizer a noite. – Kevin disse sem demora.
- Tá. – eu me conformei.
Me ajeitei no saco de dormir, me virando de costas, e pude ouvir o ranger da tampa do caixão que Kevin começou a fechar.
- Kevin? – eu chamei uma última vez.
- O que? – ele perguntou sem paciência.
- O que aconteceu com o Thiers hoje, quando... você sabe? – eu perguntei timidamente.
- Ele ficou com medo de você. – Kevin disse curtamente.
- Mas você não pareceu achar estranho... – eu comecei, mas fui interrompida.
- Thiers espera que você aja de um certo jeito. Do jeito humano. Ele ficou feliz de ter acertado que você não queria dormir no caixão. – ele explicou, com os dentes trincados.
- Mas ele vive falando que eu sou igual a você. – eu disse. – Não deveria ter surpreendido ele.
- Não teria surpreendido se você já fosse vampira, mas como ainda não é. – ele disse com certo ácido na voz. Sublinhando novamente o fato de eu ainda não ser vampira. – Você não deveria ser como eu ainda. – ele disse a última frase num tom diferente, pensativo.
Como eu não disse mais nada, ele logo se virou e fechou a tampa do caixão, para finalmente descansar em paz.
Acordei quando ainda era dia, mas continuei deitada, pensativa, o caixão de Kevin ainda estava fechado, o que significava que ele ainda estava dormindo.
Pareceu passar pouco tempo quando a tampa do caixão finalmente foi aberta. Kevin olhou para conferir se eu já estava acordada, vendo que sim. Fiquei na dúvida se lhe desejava um bom dia ou boa noite, então acabei não dizendo nada.
Kevin levantou do caixão silenciosamente, arrumou o cabelo, penteando com os dedos, então se virou para mim e disse:
- Vamos. – ele disse como uma ordem. E eu obedeci.
Enquanto Kevin voltava a trancar a porta do mausoléu dos pais de Thiers, eu fiquei debatendo comigo mesma se eu deveria trazer o assunto à tona tão rápido. Enquanto andávamos porta a fora do cemitério e passamos por um homem estranho de cabelo comprido e terno que nos encarou, Kevin decidiu por mim e começou a contar:
- Eu morei no interior por um tempo. Nas áreas menos habitadas, como nos canaviais, ou nos cafezais. Foi quando conheci Thiers.
Eu lutei para segurar um riso que insistiu em sair. Kevin olhou pra mim bravo.
- O que é engraçado? – ele perguntou.
- É só que é difícil imaginar você e Thiers num canavial. Vocês são tão urbanos! – eu me expliquei.
- Os japoneses que vieram para o Brasil plantaram café ou criaram bicho-de-seda. Os pais de Thiers tiveram um cafezal. – Kevin explicou com um tom de voz que me fez sentir burra. – Quando Thiers cresceu, ele não queria seguir o mesmo que os pais, ele queria ir para a cidade grande. Eu só tive que convencê-lo...
- Peraí. O Thiers trabalhava no cafezal? – perguntei incrédula, interrompendo.
- Sim. Mas Thiers não gostava daquela vida, principalmente de acordar e ir dormir cedo, ele gostava do sol, mas preferia a noite, então passava madrugadas acordado. Se não fosse assim nós nunca teríamos nos conhecido. Então, como Thiers queria ir para a cidade grande, eu me ofereci para ir com ele. Ele não queria abandonar os pais, mas ele não queria desperdiçar a vida naquele fim de mundo. Mas antes eu tive que contá-lo sobre o que eu era, e convencê-lo de tornar-se um vampiro também.
- Você o convenceu??? – eu perguntei com raiva.
- Meu poder de persuasão é muito grande. – Kevin disse com uma leve contração de lábios, como se estivesse sorrindo, presunçoso. – Ele não queria desperdiçar a vida, ele já tinha desperdiçado 17 anos! Sendo um vampiro ele teria a eternidade para recuperar o tempo perdido.
- Sei. E esse foi o seu argumento, aposto. – eu disse com ácido.
- Foi. Esperamos ele fazer 18 anos, viemos para cá e o transformei em vampiro. – Kevin disse sem demonstrar culpa alguma.
- E você ainda diz que gosta dele!! – eu atirei, com raiva que Thiers tivesse caído tão facilmente. Era assim que estrupadores agiam!
- Thiers escolheu isso. Eu lhe dei uma alternativa e ele escolheu. – Kevin disse. Depois olhou pra mim com os olhos apertados. – Como você.
- Eu não escolhi isso. – eu corrigi.
- Claro que escolheu. – ele disse com o quase-sorriso presunçoso.
- Não escolhi não! – eu retruquei. – Meu pai era vampiro, minha mãe humana, eu nasci meio-vampira. Me diz, que escolha eu tive aí?
- Você está escolhendo agora. Você escolheu se tornar vampira. – Kevin disse.
- Mas aos 20 anos eu vou virar vampira, querendo ou não. Eu não tenho outra escolha! – eu teimei.
- Você sempre tem outra escolha. – Kevin disse misteriosamente.
- Qual?? – eu perguntei acidamente, sem achar saída.
- Morrer. – ele respondeu.
Eu realmente não tinha pensado nessa.
- Se você realmente acha uma idéia tão horrível se tornar vampira, se mate. Ser vampiro não é tão fácil, como você está vendo. – Kevin disse maldosamente. E com o poder de persuasão dele eu tinha medo que até o final da nossa estada juntos, ele realmente me convencesse que o suicídio era a melhor opção.
Decididamente, eu e Kevin não conseguíamos ter uma conversa civilizada. Mas eu tinha que admitir que era estranhamente divertido discutir com ele.
[Dead! – My Chemical Romance.]
"(...)Não seria maravilhoso?
Não é exatamente o que você planejou
E não seria ótimo se nós estivéssemos mortos?
Ahh, mortos"
N/A: E aí?? Para quem estão torcendo??? Thiers e Sam ; Thiers e Kevin; Kevin e Sam??
Façam suas apostas!!!
- Resposta do review da C. : Muitooo³³ obrigada. Espero q continue gostando ^^ é diferente de tudo oq vc jah viu?? O.O muitooo obrigada mesmoooo, prometo que não demoro a postar, continue mandando reviews!! Bjos
Obrigada a todos q leram, e elmbram-se de comentar o///
Bjos
