N/A: Será que a Sam está enlouquecendo???
Pior ainda : e se fosse verdade?
Cap 22 – E Se Fosse Verdade?
As palavras de Rossana naquele dia não me afetaram. Não que eu duvidasse de sua vericidade, mas porque mesmo Rossana não tinha certeza do que estava dizendo. Eu havia me acostumado a ser vampira e a não temer nada, a não ser o sol.
Já havia passado uma semana em que eu estava morando com Thiers, Kevin, Dan e Hosun. Passavamos noites todos juntos na sala conversando. Não era sempre que Kevin participava dessas reuniões, ele costumava passar a maior parte do tempo em seu quarto, mas qaundo nos fazia companhia falava mais com Thiers, e reservava aos outros apenas comentários irônicos, enquanto olhava pela janela a rua pouco movimentada.
- O que foi Kevin? – perguntou Hosun.
- O que? – perguntou ele sem desviar os olhos da janela.
- Hoje você está particularmente quieto. Nem ironizou nada que eu disse ainda. – disse Hosun fazendo bico. No fundo ela gostava de discutir com ele.
- Eu já vi aquele cara antes... – Kevin disse pensativo, mais para ele mesmo do que para Hosun.
- Que cara? – perguntou ela correndo para o seu lado na janela.
Thiers, Dan e eu logo seguimos ela para ver a pessoa que Kevin apontava. Estava escuro, eu mal conseguia disernir uma silhueta.
- Desde quando você presta atenção em humanos? – perguntou Dan.
- Ele estava lá na semana passada também. – disse Kevin fazendo cara feia.
- Hum... Acho que posso fazer uma refeição extra essa semana, não?? – disse Hosun considerando o estranho sua proxima vítima.
- Tá louca? Na frente de casa?? – disse Thiers reprovador, Kevin pareceu concordar com este.
- Ele esta olhando pra gente, ou é impressão minha?? – eu perguntei, pensando ter visto um brilho de reflexo dos lampiões da rua nos olhos do estranho que eu mal conseguia ver.
- Não consigo ver o rosto dele. – disse Kevin.
Ninguem disse nada, confirmando silenciosamente que nenhum de nós conseguia ver.
- Olha. Ele está indo embora! – anunciou Hosun.
Tudo o que eu consegui ver foi um sobretudo preto de costas. Saimos todos da janela assim que a figura saiu do nosso campo de visão, exceto por Kevin, que continuou olhando desconfiado pela janela o resto da noite.
Depois daquela noite, eu começei a ter pesadelos.
Eu sonhava que tentava correr, mas quase não me movia, e eu nem ao menos sabia do que eu estava fugindo. Eu sempre ia parar na frente do cemitério, que era a poucos quarteirões dali, e acabava acordando dentro de um caixão fechado, no qual por mais força que eu fizesse, eu não conseguia abrir a tampa.
Eu acordava gritando, na vida real. No começo os outros vinham de seus quartos para ver o que tinha acontecido, mas depois de um tempo, só Thiers, que dormia em um caixão ao meu lado que me perguntava:
- O mesmo sonho? – ele dizia com cara de sono.
- Sim. – eu afirmava envergonhada.
- Quer vir dormir comigo? – ele oferecia gentilmente.
- Dentro do caixão? – eu ironizava. Parte do meu pesadelo era ligado com um caixão!
- Quer que eu durma aí? – ele perguntava já sabendo a resposta. Eu afirmava que sim e ele se deitava ao meu lado.
Para Thiers não era nada confortável dormir na cama, mas ele não reclamava. Esse episodio acabou tornando-se rotina, a tal ponto que quando eu acordava gritando, e Thiers nem se quer me perguntava nada indo direto se deitar comigo.
Thiers achava que meus pesadelos eram devido a proximidade da transformação, estava a cerca de 2 meses agora, mas eu sabia que não era a transformação em si que me preocupava, mas a última coisa que Rossana me disse.
Eu não estava preocupada antes, achava improvavel estar sendo seguida, mas então Kevin notou o estranho na frente de casa. Talvez não fosse ninguém, mas não conseguia deixar de me preocupar, de considerar a possibilidade. E se fosse verdade? O que eu poderia fazer?
Não tive coragem de contar nem para Thiers essa história. Kevin já havia feito um enorme favor permitindo que eu me mudasse para sua casa, e eu ainda poderia estar colocando a familia dele em perigo. Era melhor ninguém saber. Mas se fosse verdade, eu estaria os colocando em mais risco ainda, sem lhes dar a minima chance de se defender.
O sensato, eu sabia, era ir embora. Mas eu tinha forças para ir embora? Para onde eu iria? Eu teria que viver como Kevin viveu? Sozinha, pelas ruas e cemitérios, enquanto ainda era humana? Eu odiava admitir que não tinha coragem para tanto, principlamente por não saber se a suspeita de Rossana era verdadeira.
Fiquei agoniada durante um mês inteiro. O tempo costumava passar rápido, mas durante esse mês em particular não passou. Eu nunca saia de casa, recusei os convites de Hosun, Thiers e Dan para caçar ou ir a qualquer outro lugar. Quando todos saiam eu ficava ainda mais aflita, pensando que talvez eles nunca voltassem, esperando que a qualquer momento um vampiro arrombaria a porta e colocaria um fim a minha vida.
Sempre fui paranóica. Mas nunca tive motivo para isso. Ou pelo menos eu achava que não tinha. Talvez eu soubesse disso o tempo todo.
- Sam...Sam? Sam! – ouvia voz de Hosun me chamar longe.
- O que? – eu respondi finalmente.
- O que tem de errado com você? – ela perguntou sem delongas.
- Hosun! – Dan a repreendeu. Foi quando eu notei que eu estava encolhida em um canto escuro no chão, abraçando minhas pernas, me balançando no lugar inconscientemente, olhando para a janela. E todos me encaram com uma expressão interrogativa.
- Você esta agindo estranho a dias! Até o Kevin notou! – ela disse. Kevin a lançou um olhar de ódio quando ela disse isso.
- Desculpe. Não é nada. – eu disse. Mas quando eles continuaram olhando para mim com a mesma expressão eu disse. – É que falta pouco tempo agora, sabe... fazer vinte anos...- eu respondi, ocultando o verdadeiro motivo da minha frustação.
- Não se preocupe. – Kevin disse com a voz carregada de ironia, revirando os olhos. – Tecnicamnete você nunca irá sair dos 19!
As ironias de Kevin não me afetavam mais. Depois do que ele fez por mim e Thiers eu nem me sentia mais no direito de ficar brava com ele. Hosun normalmente era quem assumia as dores e revidava a Kevin seja lá o que fosse que ele dissese.
- Mas então Sam, eu estava te chamando antes pra te convidar pra ir comigo numa loja de roupas tão legal que eu vi outro dia, e como é coisa de meninas achei que você pudesse ir comigo. – Hosun disse esperançosa. Eu sabia que ela sonhava desde que eu apareci a ter uma companheira feminina que lhe acompanhasse em coisas que os meninos não gostavam de fazer. E eu não estava agindo de acordo com o plano dela.
- Claro. – eu disse, sem conseguir negar a ela mais uma vez alguma coisa.
- Obrigada! – ela exclamou contente, se levantando e me abraçando. – Vamos amanhã então? Temos que aproveitar que está frio e a noite chega mais depressa. Sabe, a loja fecha lá pelas 7 horas, eu vi aberta uma vez. – Hosun desembestou a falar, e teria continuado se Kevin não a tivesse interrompido.
- É aquele cara de novo! – Kevin disse da janela. Eu congelei onde estava, os outros correram até a janela para conferir.
- Tem certeza que é o mesmo?? – perguntou Thiers.
- Tenho! Veja, cabelo comprido, sobretudo preto. Mas ainda não consigo ver o rosto... – Kevin disse.
- Ahh gente, deve ser só um gótico que gosta de andar pelo cemitério. – Hosun disse do canto dela.
- Mas aqui não é o cemitério, caso você não tenha notado. – Kevin revindicou.
- Tanto faz. Porque você tá tão obsecado por esse humano, hein Kevin? – perguntou Hosun com um certo ciúme na voz.
- Não tô obsecado por ele! – Kevin se defendeu.
- Eu não achei que caras de cabelo comprido faziam o seu tipo. – ela falou emburrada, cruzando os braços.
- Não fazem. – ele respondeu envergonhado, fez menção de continuar mas se calou, afim de evitar mais uma discussão constragedora com Hosun.
Na noite seguinte eu tive que cumprir o prometido a Hosun. Quando deu 15 para as 6 nós finalmente saímos de casa. Era a primeira vez em muito tempo que eu saia na rua. Olhava para os lados freneticamente, tentava não tropeçar e tentava acompanhar o que Hosun estava dizendo. Não vi nenhum homem de cabelo comprido ou sobretudo preto pelo caminho.
Ao chegar a loja eu me acalmei um pouco, me sentindo meio estupida, começei a entender o que Hosun dizia:
- ...então o Kevin me disse que a bandana era feia, mas ele usa ela até hoje! Acho que nem lembra que fui eu que a dei pra ele.
- Foi você que deu? – Kevin costumava usar uma bonita bandana azul. – Ele realmente usa bastante.
- Viu??? Eu disse, eu disse! – ela respondeu, por algum motivo, muito feliz.
Conversamos por bastante tempo e olhamos algumas roupas. Eu achei uma blusa branca que eu tinha certeza que Rossana iria gostar, pensei que fazia muito tempo que não a via, e que eu podia passar em casa com a desculpa de dar o presente.
E foi o que fiz, quando Hosun finalmente foi vencida pelas vendedoras que queriam fechar a loja, carregando duas sacolas de roupas feliz, eu avisei a ela que iria visitar minha mãe, então, ao chegar ao quarteirão do cemitério, Hosun seguiu em frente e eu subi a rua.
- Samantha! – minha mãe exclamou feliz quando me viu. – Você está bem? Esta viva! Não sabe como me preocupou. Você está tão diferente, juro que cresceu alguns centimetros.
- Sou uma vampira, mãe. Tecnicamente não morro, não mudo e não cresço. – eu respondi rindo.
- Você não tem como saber, não consegue se ver no espelho. – ela rebateu divertida. – mas e então? Me conte as novidades.
Existem coisas que nós só conseguimos contar para nossa mãe, e eu tinha algo muito importante a contar. Contei a ela dos sonhos, da minha impressão de estar sendo seguida, do estranho que Kevin viu na janela. Rossana ficou preocupada, mas tinha tanto juizo quanto eu quanto a perseguições, então juntas construimos várias possibilidades tentando adivinhar se o estranho era mandando pela minha vó, Elizabeth, ou um simples gótico desnorteado.
Não chegamos a conclusão nenhuma no final da conversa, quando percebi que já era meia noite e que Rossana teria que trabalhar o dia seguinte, então me despedi, prometendo que não demoraria tanto para visita-la na proxima vez.
Andei pelas ruas mais calma depois da conversa, realmente não havia motivo para temer pela minha vida por enquanto, se realmente Elizabeth tivesse o plano de me matar, só o faria quando eu me tornasse vampira, então eu ainda tinha um mês pela frente, aí eu poderia me preocupar.
Estava tão distraída nos meus pensamentos que fui atravesssar uma rua sem olhar direito. Um carro virou em alta velocidade a rua, eu estava bem no meio da rua, e antes de conseguir pensar se eu corria pra frente ou pra trás, paralizada, eu me dei conta que não daria tempo. Eu senti a batida antes dela acontecer, fechando os olhos esperando a morte chegar.
Mas a batida não aconteceu, eu ouvi um alto cantar de pneus a minha frente e quando abri os olhos o carro estava a menos de 30 centimetros de mim. O carro buzinou com raiva enquanto eu continua paralizada no meio da rua. Finalmente consegui me mover e atingir a outra calçada, com a mão no peito ouvindo as batidas rápidas do meu coração, havia me esquecido que ainda tinha um. Percebi que ironicamente era a rua do cemitério, o quanto apropriado seria morrer na frente do cemitério, antes até de me tornar vampira? Havia me esquecido que ainda era humana, que eu não precisava de um clã de vampiros para me matar, um simples carro podia acabar com isso tudo em menos de 5 segundos.
Meu coração parou mais uma vez quando dei de cara com um vulto de aparencia gótica na frente do cemitério. Ele olhava pra mim, usava um sobretudo, tinha os cabelos compridos e pretos, e uma pele bem branca de aparencia fragil e... uma estranha cicatriz na bochecha esquerda.
E eu me lembrei. No aniversario de Kevin, na Casa Gótica ele pediu para que o acompanhasse. Eu tinha tido a impressão, naquele dia, que eu já o havia visto antes.
E derepente várias imagens daquele mesmo vulto apareceram em minha mente. A noite que passei no cemitério com Kevin, um cara de cabelo comprido e terno estava lá, depois na lanchonete em que eu fui obrigada a comer um hamburger, ele estava a algumas mesas a frente nos encarando, na Goth House, ele me observando de longe no começo, antes de vir falar comigo e finalmente um vulto de sobretudo se afastando da janela de casa. Não era conhecidencia demais???
Passei olhando para ele, meu coração batendo a mil. Ele continuou me seguindo com o olhar, e então sorriu. Dentes afiados. Dentes de vampiros!
- Desde quando você presta atenção em humanos? – perguntou Dan.
Lembrei de Dan perguntando a Kevin. Kevin o havia notado porque ele era um vampiro! E aquele vampiro estava atrás de mim.
Saí correndo até em casa, encaixando todas os fatos, tentando achar um fio de esperança que dissese que era apenas conhecidencia, e que ele era apenas um gótico.
Cheguei em casa abrindo a porta e fechando ela rapidamente ao entrar, trancando a porta e fechando a cortina. Me virei dando de cara com Thiers, Kevin, Dan e Hosun me olhando como se eu tivesse enlouquecido.
E se fosse verdade?
"E se o sol se levantar, ele arrancará a pele dos nossos ossos
E então dentes brancos afiados como navalhas rasgarão nossos pescoços,
Eu te vi lá
Alguém me leve ao médico, alguém me leve a uma igreja
Onde eles possam tirar o veneno deste buraco enorme
E você deve manter sua alma como um segredo na sua garganta
E se eles vierem e me pegarem
Enfie a estaca no meu coração"
[Vampires Will Never Hurt You – My Chemical Romance]
