N/A : Finalmente vinte!
Textos em italico são de um narrador observador
Cap 23 – Vinte.
O homem de cabelos compridos pretos observou a garota até que ela sumisse de vista, então sacou um celular do bolso de seu sobretudo e discou o número.
- Let me talk with Elizabeth.[Deixe-me falar com Elizabeth.] – o vampiro disse ao telefone. Ele não teve que esperar muito tempo para obter uma resposta.
- Andrey? – uma voz feminina respondeu do outro lado da linha.
- Sou eu, líder. – ele respondeu. – Estou ligando por causa da garota, creio que ela percebeu.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Ótimo. Estarei aí o mais rápido possível. – Elizabeth disse.
- Estarei no aeroporto, líder. – Andrey respondeu fazendo uma reverencia, mesmo que a líder não pudesse ver.
- That the games begin![Que os jogos comecem!] – ela disse por fim, teatralmente, antes de desligar o telefone.
- Sam? Você ta legal?? – perguntou Hosun bondosamente enquanto eu continuava paralisada na porta de entrada em posição como se esperasse que alguém fosse arrombá-la a qualquer momento.
- Ele está atrás de mim. – eu respondi sombriamente.
- Quem?? – perguntou Thiers tentando deixar a conversa mais racional.
- Ele! O cara estranho que sempre está aqui na frente. - eu disse espiando pela cortina, para ver se ele estava lá, não estava. – Ele é um vampiro.
- O gótico? – perguntou Hosun.
- Ele não é gótico, é um vampiro! Eu sei! Ele está me seguindo a um tempão. – eu disse.
- Porque ele estaria seguindo você? – perguntou Kevin com ar de deboche.
- Por ordem da minha vó. – eu comecei a explicar, mas Thiers me interrompeu.
- Sua vó? Mas você não disse que ela morreu? – ele perguntou.
- Minha avó materna sim, mas a paterna... – eu tentei continuar.
- Peraí! Seu pai não era um vampiro? – perguntou Kevin irritado.
- Sim, mas...
- Então como a mãe dele ia estar viva?? Quantos anos o seu pai tinha? – Kevin perguntou.
- Não sei, mas o caso é que não é a mãe humana do meu pai a quem estou me referindo, e sim a mãe vampira...
- A mãe dele era vampira? – perguntou Dan. – Então ele também era um meio vampiro?
- Não, não. – eu disse tentando pensar. – Ela o mordeu, e o adotou como se fosse um filho.
- Que estranho. – disse Dan. – Mas porque ela ia querer matar você?
- Porque sou meio vampira. E porque meu pai a abandonou pra ficar com a minha mãe, uma humana, ela não gosta de humanos, nem de meios vampiros. – eu expliquei.
- Tá, se é assim, porque ela não te matou ainda? Acho que seria bem fácil, não? - perguntou Hosun. Thiers a lançou um olhar reprovador.
- Ela está esperando eu me tornar vampira. – eu disse.
- Porque? – perguntou Hosun
- Porque não tem graça matar uma quase humana, ou algo assim... – quanto mais eu falava, mais as minhas palavras pareciam absurdas.
Eu esperei por novas perguntas, mas elas não vieram. Os quatro vampiros me encaravam confusos e duvidosos da minha sanidade mental.
- Isso não faz sentido. – disse Dan por fim.
- Faz sim.
Eu me surpreendi ao ouvir alguém dizer isso, e fiquei ainda mais surpresa ao constatar que fora Kevin quem o disse.
- Como disse? – eu perguntei, só pra ter certeza que tinha ouvido certo. Os outros 3 vampiros o encaravam esperando a mesma coisa.
- Faz sentido. Tem muitos vampiros tão orgulhosos deles mesmos a ponto de fazer isso. – ele disse.
- Tão orgulhosos quanto...você? – Dan perguntou o que estava na cabeça de todos os presentes.
- Eu não sou orgulhoso. – Kevin respondeu zangado. Ao ver a cara de descrença de todos acrescentou. – Não a esse ponto.
- Então, o cara ali fora vai te matar quando você se tornar vampira? – perguntou Hosun, tentando acreditar na história, já que Kevin tinha acreditado.
- Eu...Eu não tenho certeza...- eu disse começando a duvidar.
- Há um minuto atrás parecia ter. – Hosun disse confusa.
- Não importa. – Thiers finalmente se manifestou. – Não podemos arriscar, você tem que se esconder quando seu aniversário chegar.
- Quando é seu aniversário? – perguntou Kevin.
- 16 de junho. – respondemos eu e Thiers em coro.
- Isso é daqui a um mês! – disse Hosun.
- Menos de um mês. – disse Kevin. – Temos que pensar em um plano.
Kevin e Thiers punham esforços para pensar em um plano rápido que envolviam viagens ao Chile até a acampamentos em cemitérios, enquanto Hosun, Dan e eu continuávamos duvidosos se tudo isso era necessário. Porque afinal eu tive tanta certeza disso quando olhei para o homem de cabelos compridos? Podia ser apenas paranóia, não podia? Eu não tinha coragem de levantar essa possibilidade agora, apesar de pensar que Hosun e Dan concordariam comigo, não quando Thiers já estava tão preocupado e Kevin tão envolvido.
Então escutei calada e apenas esperei incerta até o dia do aniversário, desejando como nunca, que ele nunca chegasse.
Na madrugada do dia 14 junho nós começamos a nos preparar. Kevin decidiu que seria muito estremo todos abandonarem a casa para um lugar incerto quando a teoria da perseguição não era comprovada, apesar dele acreditar nela piamente. Então a decisão foi tomada em grupo, eu ficaria no cemitério próximo, no mausoléu dos pais do Thiers até quando fosse seguro sair. Parecia óbvio demais, e por ser tão óbvio que era tão brilhante. E era melhor do que esperar sentada a morte chegar.
Ninguém dormiu da madrugada do dia 14 até o início do dia 15, a tensão era muito grande. Eu teria que sair a luz do dia. Essa era a parte do plano que eu tinha mais medo. Eu sairia de manhã cedo, quando o sol ainda não é forte, devidamente agasalhada para me proteger dos raios solares, com um vampiro tal proteção não era suficiente, mas como eu ainda era, ainda que por pouco tempo, meio vampira, esperávamos que para mim bastasse.
Naquela manhã eu me senti indo para guerra. Os quatro me olhavam temerosos e incertos, eu sentia o receio deles e sabia que eles podiam sentir o meu medo. Quando o sol começou a nascer eu soube que era a hora de partir. Eu não sabia quando voltaria a vê-los, se é que voltaria a vê-los, então a despedida era desconfortável. Nunca fui uma pessoa emotiva e não sabia lidar com isso. Me levantei, anunciando com esse ato que estava indo.
- Tome cuidado, Sam! – disse Hosun vindo correndo para me abraçar.
Desconcertante.
- Até mais, Sam. – disse Dan otimista, também me abraçando.
Mais desconcertante.
Thiers então se aproximou, sem o seu sorriso habitual, o qual alias eu não via há algum tempo, tamanha era sua preocupação, talvez desnecessária. Ele passou suas mão pela minha cintura e literalmente me agarrou ali mesmo.
Imensuravelmente desconcertante!
- Eu vou te buscar logo, Sam. Eu prometo. – ele disse quando parou de me beijar, me abraçando apertado, como se não quisesse soltar. Sorri para ele quando ele me largou, era melhor não dizer nada.
Então, chegou a pior parte de todas. Kevin. Ele estava perto da porta, eu não poderia passar sem falar nada a ele, mas pensava que talvez fosse isso que ele esperava que eu fizesse.
Mas quando fiquei frente a frente com ele, eu simplesmente soube o que eu queria dizer.
- Kevin. – eu comecei, falando baixo para que só ele ouvisse. – Como...como é a transformação?
Eu fiz a perguntava que havia me assombrado a cerca de um ano. Eu só podia perguntar isso a ele para não deixar o meu medo transparecer aos outros, principalmente agora, e porque eu sabia que os outros três tentariam amenizar a verdade de alguma forma, ao contrario de Kevin, que não teria dó de mim, e não me privaria de nada.
- É incômoda. – ele disse no mesmo tom de voz que eu, e parou. Por um momento achei que ele só me diria isso, mas para meu alivio ele continuou. – É como se você estivesse morrendo.
- Dói? – eu perguntei.
- Dói. – ele respondeu.
- Obrigada. – eu disse por fim, agradecida que ele tivesse respondido sinceramente, agradecida por tudo que ele havia feito até então. Num tom de voz mais alto eu disse a todos. – Eu vou abrir a porta, melhor se afastarem. Tchau.
Eles deram as costas, se escondendo nas sombras, e eu abri a porta e saí, sem olhar pra trás.
A luz do sol apesar de ser ridiculamente fraca, para os meus olhos era muito forte. Coloquei os óculos escuros que Hosun havia me emprestado. Eu também estava usando uma capa de couro gigante com capuz de Thiers, botas de combate de Kevin e luvas de couro de Dan. O capuz cobria quase completamente o meu rosto, então não havia nem um pedaço de pele exposta ao sol.
A caminhada curta pareceu extremamente longa naquela manhã. Pulei o portão do cemitério, que ainda não tinha aberto, com alguma dificuldade. Passei por alguns túmulos, procurando o mausoléu certo, não demorei a encontrá-lo.
Abri a porta, e entrei. Quando fechei a porta atrás de mim notei pela primeira vez o quanto era escuro lá dentro, nem parecia que era dia. Na vez que eu havia estado lá com Kevin, por estar acompanhada não cheguei a notar a escuridão sufocante, o pouco espaço claustrofóbico. Quanto tempo eu teria que ficar lá sozinha e sem noticias?
Por sorte eu pensei em trazer um relógio. O ponteiro se movia lentamente, de dois em dois minutos eu olhava pra ele esperando que já tivesse passado meia hora.
Não conseguia dormir, ficava imaginando o que Thiers estava fazendo, se ele também não conseguira dormir de preocupação, ou se ele finalmente havia tido um dia de sono completo em seu caixão. Eu desejei ter avisado a minha mãe, mas eu não quis preocupá-la. O que eu diria a ela? Que realmente estavam me seguindo e que eu me esconderia no cemitério esperando que não fosse verdade? Mas e se eu não pudesse dar noticias quando meu aniversário passasse?? Ela não ficaria preocupada igualmente? E se eu realmente morresse assim que completasse 20 anos? Será que Thiers avisaria a ela?
Conforme o tempo passava, mais os meus pensamentos ficavam idiotas. O problema de passar muito tempo sozinha é que você é obrigada a ficar calada, e quando fica calada começa a pensar, e quando pensa muito, acaba pensando besteira.
Eu já havia passado por isso antes, obviamente, passei praticamente 18 anos sem ter ninguém pra conversar a não ser a minha mãe, mas agora era diferente. Por isso eu sempre preferi a auto-suficiência. Não importa quantos amigos você tenha ou o quanto eles queriam estar com você, nos piores momentos você se vê sozinha.
Depois do que me pareceu uma eternidade, finalmente a noite chegou. 20 horas, 21, 22, 23, 23:30. Dia 16 chegava mais perto a cada segundo.
00:00
Esperei algo acontecer, mas não houve nada. Absolutamente nada.
Afinal o que deveria acontecer? Kevin disse que doía! Que parecia que estava morrendo. Mas eu não sentia nada. Será que ele inventou isso para me assustar? Um golpe baixo quando eu já estava caída e com medo? Kevin seria capaz de brincar desse jeito?
Há alguns meses atrás eu juraria que sim, mas agora eu sabia que não era verdade. Kevin nunca faria algo do tipo. Kevin não era mau.
Foi quando parei pra pensar que Kevin nunca conheceu um meio vampiro, ele não sabia como a transformação acontecia. Talvez não acontecesse nada de extraordinário.
Coloquei a mão sob o lado esquerdo do peito. Meu coração ainda batia.
00:01
Eu não era a Cinderela.
E tão pouco me tornaria abóbora no último soar da meia noite.
Conforme a noite foi passando, mais preocupada eu ficava. E se no final das contas eu não me tornasse vampira? Tinha alguma coisa errada comigo? Afinal das contas minha mãe havia mentido pra mim sobre ser meio-vampira? Vampiros nunca existiram, Thiers, Kevin, Hosun e Dan eram todos frutos da minha imaginação?
Olhei para o meu relógio e já era quase de tarde. Porque Thiers não havia vindo me buscar ainda?? Ele disse que viria!
Eu estava acordada direto há dois dias e duas noites, minha sanidade já havia me deixado, eu me sentia doente, com febre, pois meu coração parecia estar batendo mais rápido, me provando que eu estava viva e não era uma vampira. Me levantei e rumei para a porta um pouco tonta, fiquei cega por um momento por ter levantado muito rápido, e por estar fraca por não ter comido nada, encontrei a fechadura e as cegas abri a porta.
A claridade foi extrema. Eu estava na escuridão completa há tanto tempo que meus olhos queimaram ao ver luz, luz do sol. Instintivamente eu levei os braços para a frente do rosto me protegendo, quando eu senti a minha pele queimando.
Eu ainda estava com as luvas e o casaco, mas ao levantar os braços na altura dos olhos a manga do casaco desceu um pouco, deixando a pele do meu antebraço exposta.
A dor me fez recuperar minha sanidade mental e voltar pra dentro. Sentei-me no chão segurando meu braço, esperando meus olhos se acostumarem com a falta de luz de novo. Tomei coragem para tirar a mão de cima da parte da minha pele que fora exposta, ainda doía. Minha pele onde o sol havia atingido estava com pequenas bolhas e a vários tons mais escuro que a minha pele normal. Conforme o tempo foi passando as bolhas foram saindo, mas a marca não saiu, apenas escureceu, se tornando quase preta.
Que burrice foi sair lá fora.
Me lembrei então da cicatriz que o vampiro de cabelos compridos tinha na bochecha esquerda. Era parecida com a minha! Teria ele sido queimado pelo sol também? Será que a marca nunca sairia?
Continuei olhando o relógio, sem ter muita certeza do que eu esperava acontecer. Já era noite do dia 16. Era com toda a certeza o meu aniversário agora! Minha mãe me disse que eu havia nascido à noite. Mais ou menos 21:00.
Então minha respiração se tornou ofegante, meu coração batia três vezes mais rápido do que batera durante o dia todo e seis vezes mais rápido do que o de uma pessoa normal. Eu conseguia sentir o sangue passando rápido pelas minhas veias, muito rápido pelo meu corpo todo. Tentei me levantar, mas ao fazer isso notei que estava tentando levantar algo preso a mim que era pesado e balançava molemente. Olhei para ver o que era e vi o meu próprio braço, mas eu não conseguia senti-lo, pus o meu outro braço por cima deste e senti como se segurasse uma madeira gelada, eu não senti o toque. Quando tentei me levantar senti dor nas minhas pernas, elas também estavam sem sangue e duras como o gelo, tentar me mexer doía, doía bastante, como se o meu sangue não fosse suficiente para o corpo todo. Não vi escolha senão continuar deitada. Olhei para o relógio no pulso do meu braço sem vida.
21:03
Foi essa a hora que eu nasci, há exatos 20 anos atrás.
Meu coração batia rápido, cada vez mais rápido, vinte vezes mais rápido que o normal, como se quisesse compensar em velocidade o sangue que não dava conta de mover todos os membros do corpo. Era como um ataque cardíaco, eu sentia como se estivesse morrendo.
Finalmente, meu coração parou de bater. E eu caí em um sono profundo, um sono tão profundo quanto a morte.
Então era assim que era morrer?
No sono eu sonhei. Eu me sentia flutuando, mas ao mesmo tempo eu sentia o chão duro e frio em baixo de mim. Pensei ter ouvido passos acima de mim. Acima? Eu não estava flutuando? Passos apressados. Mãos. Mãos sacudindo o meu braço gelado. Uma voz.
- Sam.
Tentei abrir os olhos, pareceu ser preciso fazer uma força descomunal para isso. Mas eu os abri.
- Sam. – Thiers se materializava na minha frente dizendo isso. – Nós temos que ir. Eles levaram Hosun!
" Busco nas sombras emoções enfraquecidas em meu coração
Aqui não há luz
Continuo vagando no beco dos sonhos
A escuridão cobre meus olhos
Não vejo o ontem, o hoje nem o amanhã
Busco a resposta
Aonde neste mundo..aonde devo ir?Se o acaricio, em seguida se quebrará
Não necessito este clima de amabilidade. Minta pra mim.
A porta do meu duro coração segue fechada
Não posso respirar, luto em agonia
Agora, sozinho me rendo a esta debilidade
Com o pecado do egoísmo. " [Darkness Eyes – Dong Bang Shink Ki.]
