fantasmas inventados
(e restos de brincadeiras)
Você era único.
Hora ou outra ainda te sinto. E então percebo que é apenas o meu cheiro, que por tanto tempo que passou misturado ao seu, e apenas ao seu, virou nosso.
Eu não posso. Foi o que eu te disse naquele dia. Você não perguntou nada, apenas assentiu e foi embora. Você não podia também. E agora eu não posso mais te esquecer. Como de propósito, pensamentos sobre nosso passado quase-perfeito incendeiam minha cabeça, quase me fazendo gritar que eu não posso ficar sem você.
Era por você que eu não podia, só por você. Eu sabia que não duraríamos para sempre, eu sabia que uma hora você acordaria desse bendito pesadelo – sonho – e veria que não podíamos ser apenas um. Eu era o sujo de nós dois. O traidor do sangue, a mancha na árvore. Você era perfeito, em toda e cada uma de suas imperfeições. Não podia acontecer.
Você se calou e me fez calar quando entrou sorrateiramente no meu quarto, naquelas férias, e deitou-se ao meu lado, e apenas deitou. Você não fez nada de errado, apenas um irmão mais novo procurando proteção contra fantasmas inventados. Fui eu quem procurou seus lábios e te abraçou com uma força que dois irmãos desconheciam. Eu que acariciei seu corpo sob as vestes e fiz com que você sussurrasse meu nome, sem realmente pedir. Eu te amei primeiro, te fiz escravo do meu erro, te fiz pecar também. Você nada mais fez que me amar de volta. De um modo tão puro que ainda me dói. (Vai doer pra sempre.)
Nós fingimos. Fingimos que nos odiávamos – não estava mentindo não estava mentindo não estava mentindo –, fingimos que éramos apenas irmãos. E fingíamos tão bem que quase acreditávamos.
Sonho sem esperança, sonho desesperado.
Talvez eu tenha sentido que você ia embora. Talvez. Você nunca me falara sobre o que fazia, sobre o que pensava, sobre nada. Você apenas me permitia te sentir, e isso bastava. Eu tentava saber quem você era através de seus toques, e explorava sua mente através das minhas mãos. Sua respiração me revelava mais do que isso, porém. Tínhamos uma linguagem tão nossa, mas eu não sabia de nada, afinal.
Eu sabia que isso que você tinha em mente era maior que nós dois, e que chegaria o dia em que você teria que escolher e me deixaria. Eu aguentei a iminência desse dia por tanto, tanto tempo... No fim, eu preferi acabar com tudo de uma vez.
Eu não posso. Eu não podia suportar saber que você me deixaria, e eu sabia que quando isso acontecesse, não me restaria mais nada. Eu não podia suportar não ser o mais importante para você, como você era pra mim. Eu não podia suportar quase ter você, eu te queria por completo. Te quis por completo e agora sinto como se nunca tivesse lhe tido.
No dia seguinte ao fim, você se foi. Foi enfim de encontro ao que tanto buscava, e ninguém soube aonde estava. Me disseram que você levara um elfo doméstico. Eu nunca te entendi, mesmo.
Kreacher voltou dias depois com a notícia. Era o fim.
Dor, dor, dor, dor, dor. Dor.
Romance sem sorte e lembranças vazias. Não guardo nenhum sorriso seu na memória, é tudo respiração e dor e quase e restos de brincadeiras quase felizes.
Adeus, meu quase amor.
n/a: fanfic baseada na música almost lover, a fine frenzy. dedicada para a perv . obrigada ao leuh, que leu antes e gostou. (sim, depois de mais de oito meses de bloqueio, cá estou eu de volta! \o/)
