Quando reuni coragem o suficiente para abrir os olhos, reagi como se não estivesse ali desde a noite passada. Eu não tivera... Hmm... Tempo, para reparar na decoração do espaço.
Era um quarto bem grande. Eu me encontrava em uma espaçosa cama, e havia uma porta bem à frente. Ao lado da cama, uma mesa de cabeceira, com um abajur e um livro marcado depois da metade. Olhei em volta e as paredes tinham bonitos quadros, e uma cortina fechada. Ali deveria estar uma varanda, pelo tamanho da cortina. Logo depois da porta da tal varanda havia uma espécie de vão que dividia o aposento em dois. Dali eu podia ver umas duas poltronas pequenas, dessas de lobby de entrada, e metade de uma estante de livros. Por ali deveria ser o closet, o banheiro e afins.
Levantei-me e saí do quarto, para encontrar um corredor muito branco, e uma escadaria de aço muito polido, os degraus de vidro.
Desci e encontrei uma sala com móveis, paredes, objetos, tudo em sua maioria, brancos. Havia uma enorme televisão suspensa em uma parede próxima ao sofá de aparência confortável. Mais para a direita outro conjunto de sofás para duas e três pessoas, uma mesa de centro em vidro, com alguns papéis espalhados por esta. Chegando perto da tal mesa, eu pude analisar o conteúdo de alguns papéis. Várias imagens de mim mesma trabalhando, caminhando, mexendo no cabelo, sorrindo, dormindo, comendo, ao telefone, distraída, e várias imagens de mim no desfile que eu havia conhecido Sesshoumaru.
Só que achei estranho é que as imagens não eram digitais, como fotos. Eram desenhos. Daqueles em preto e branco, que ocupam só o centro do papel.
Peguei um que gostei um particular. Uma em que eu estou com o queixo apoiado no dorso da mão, olhando para qualquer coisa na lateral, com uma mecha de cabelo caindo entre meus olhos.
-Então mande-o ficar lá mais uma semana, é só o que posso fazer, já que ele não aceita as condições. Não quero saber se ele não gosta, deixe-o lá mais uma semana para que aprenda. Resolva isso. – olhei para trás e Inuyasha vinha se aproximando, com o telefone nas mãos. Desligou-o e colocou-o na base, em cima da mesa de jantar circular, com um vaso marfim no centro e caminhou até mim sorrindo.
Me abraçou e me cumprimentou colando os lábios nos meus.
-Pensei que fosse dormir até mais tarde... – ele passou a mão pelos meus cabelos, analisando-os.
-Geralmente acordo cedo. O que é isto? – apontei para a mesa de centro onde estavam os "meus" desenhos. Ele espiou por cima do meu ombro e deu uma risadinha.
-O produto da minha mente de manhã, de tarde e de noite.
-Fale sério.
-Não estou brincando! – ele passou a olhar meu rosto. – Falei a verdade quando disse que só consigo pensar em você o dia todo.
Eu fiquei sem saber o que falar. De verdade. Fiquei só olhando pra ele.
-Quer café? Eu fiz um pouco.
-Oh, não, não, obrigada. Não tomo café de manhã.
-O que você quer? Chocolate? Eu posso fazer.
Eu sorri. Estava sendo gentil.
-Na verdade, acho que não quero nada. Acho que... Acho que vou me vestir e... Sabe, voltar pra casa.
Ele franziu o cenho.
-Por quê?
-Bom, por que... Eu preciso voltar pra casa uma hora, não?
-Mas tem que ser agora? Você acabou de acordar. E está chovendo. Não vai conseguir um táxi com uma chuva dessas.
Eu estava um tanto aliviada. Se tem uma coisa que eu nunca quero que aconteça comigo é passar a noite com um cara e na manhã seguinte ele querer que eu suma, muda e veloz.
Aparentemente ele não queria que eu sumisse.
-Vem, vamos comer alguma coisa. Tem um bolo que a minha mãe me trouxe ontem, você vai gostar. – e saiu me puxando pela mão até a cozinha, fazendo com que eu quase ficasse nua no meio da sala.
Eu estava toda enrolada num lençol, veja bem.
-Espera, não acha melhor eu me vestir primeiro?
Ele me olhou e sorriu. Devia ser engraçado me ver tentar segurar o lençol contra o meu corpo.
-Não. Mas eu tenho uma coisa que vai servir, espere. – e subiu as escadas correndo.
Voltou vinte segundos depois com um pano vermelho e amarelo embrulhado na mão esquerda.
Parou de frente pra mim e abriu o tal pano, que eu descobri ser uma camisa de um time de basquete que eu nunca havia ouvido falar: Dogs.
-O que acha? – e virou a camisa para que eu pudesse ver as suas costas. Estava escrito "Inuyasha", em letras grandes e amarelas, além de um enorme número 1. Era uma camisa bem grande.
-O que é isso? – eu perguntei, já imaginando.
-Meu uniforme da liga de basquete do colégio. Gosto bastante dela. Acho que vai servir.
Ele enfiou a camisa por cima da minha cabeça, devagar. Eu soltei o lençol e coloquei os braços nas mangas. Apesar de ser uma camisa grande, deixou minhas pernas bem descobertas. Ele reparou isso.
-Oh, não, Inuyasha. Eu não vou vestir o calção também.
-Não, é claro que não vai. Eu gosto assim. – me sorriu e me puxou para a cozinha, que por sinal era muito bonita. Tinha aqueles balcões atrás do fogão, onde a pessoa que está cozinhando pode colocar os pratos, e do outro lado do balcão, quatro lindos bancos daqueles altos, de aço bem brilhante com almofadas pretas.
Acabou que ele fez chocolate pra mim, e eu o tomei acompanhada de um delicioso bolo confeitado.
Rimos muito, ele é capaz de ser bastante engraçado. Soube de muitos casos de garotas estapeando Miroku, ainda no colégio. E soube de casos em que Inuyasha conseguia garotas para ele, e vice-e-versa. Até de um caso em que eles dividiram uma garota uma vez.
-Eca! Que nojo!
-Não ao mesmo tempo, se é isso o que você está pensando!
Respirei aliviada. Quer dizer, por mais que eu ache que ele não faria uma coisa dessas, os homens podem ser bem... Liberais nesse assunto.
-Sempre que ele queria uma garota que gostasse de mim, eu a arranjava para ele, e ele fazia o mesmo comigo. E desta vez nós dois queríamos a mesma, e ela parecia nutrir bastante afeto por ambos. Ela pensava que não sabíamos que ela estava se dividindo entre mim e ele, e nós não vimos motivos para desmentir. Era divertido.
-E quando tempo durou?
-Ah, pouco tempo. Começou a ficar um pouco nojento quando ela se despedia dele e ia ficar comigo quase que imediatamente. Ela ficava com o perfume dele. E o contrário também. Aí contamos a ela.
-E o que ela disse?
-Que agora que sabíamos, poderia ficar muito mais interessante.
-Não acredito! Que mulherzinha!
Ele sorriu em concordância.
-Será que eles repararam o nosso sumiço ontem à noite?
-Acho difícil, estavam muito concentrados em sumir para notar que alguém sumiu.
-É, pode ser. – eu ponderei.
E aí ele me beijou de novo. Estava fazendo isso cada vez que ficávamos cinco segundos sem falar nada. E eu estava gostando bastante.
Quando nos separamos eu notei que, sem que eu percebesse, ele me fez levantar do banco onde eu estava sentada e me abraçou até que eu ficasse em pé entre as pernas dele, e meus braços já estavam confortavelmente descansados ao redor de seu pescoço.
-Posso te contar um segredo? – ele sussurrou no meu ouvido, e eu apenas balancei a cabeça em resposta. –Eu nos imaginei exatamente assim, desde a primeira vez que eu vi você.
-Depois que trombamos?
-Não. Aquela foi a primeira vez que você me viu. Eu já a conhecia.
Eu o olhei confusa.
-Já?
-Já, três meses antes, em um shopping. Eu ia me encontrar com Sango para resolver alguns assuntos legais, e quando eu cheguei vocês duas estavam se despedindo. Você estava cheia de pastas nas mãos, e já estava indo embora. Eu não sabia se corria para que Sango me apresentasse a você, ou se ficava esperando você ir embora para olhar você mais um pouco.
Aquilo me chocou. Quer dizer, a quem não chocaria? Ele já havia me visto muito antes de eu cair nas graças dele! E havia realmente ficado atraído por mim.
-Uau, eu não sabia.
-Ninguém sabia, nem Sango. Achei que você fosse comprometida, e seria... Complicado, resistir a você se eu a conhecesse e fosse comprometida com algum conhecido.
Eu sorri.
-Acho que vou tomar um banho.
-Posso ir com você? – ele se levantou do banco.
-Não. Fique aqui. Eu volto já. Vou deixar sua camisa em cima da cama, okay?
Ele sorriu e me puxou para perto do rosto dele.
-É sua.
Eu sorri.
-Obrigada.
Beijei-o mais uma vez e caminhei pra fora da cozinha.
Cheguei ao quarto dele e procurei pela minha bolsa, que deveria estar jogada em algum lugar.
Era uma bolsa bem pequena, fácil de esconder em qualquer lugar, e eu não fazia a mínima idéia onde a tinha largado noite passada.
Acabei por achá-la atrás do computador, na escrivaninha que havia do outro lado do quarto. Coloquei a camisa que havia ganhado lá dentro e fui tomar banho.
Depois que saí do banho, com os cabelos molhados (não havia secador de cabelo na casa dele, eu havia descoberto), e ia descer para me despedir dele, ouvi-o atender ao telefone.
-Sim? Ah, oi, como você está?
Depois que ele atendeu, o tom de voz diminuiu e ficou mais brando. Eu forcei os ouvidos, lá de cima da escada.
-E o seu pé, doeu alguma vez?
Kikyou. Foi como se um daqueles garotos que tocavam na banda da minha escola tivesse batido aqueles pratos imensos, um de cada lado da minha cabeça, e o meu cérebro começou a repetir, muito rápido: "Sua idiota, sua idiota, sua idiota, sua idiota..."
Então eu subi de volta para o quarto, e peguei a extensão.
Era errado, eu sei, mas eu precisava fazê-lo. Precisava descobrir, de uma vez por todas, o quão encantado ele estava comigo.
-... de mim, me deu os analgésicos necessários. Não vejo a hora de tirar esse gesso.
-Não vai demorar muito, só mais um pouco. – Eu o ouvi dizer, através do telefone.
-É, tudo bem. E então, vamos sair hoje? Me senti mal por deixar você sozinho ontem na festa de Miroku. Estava muito chata, e deve ter ficado ainda mais chata quando eu fui, não?
-Não estava chata. Mas eu... Não demorei muito depois que você saiu.
-Ah, não?
-Não.
-E porque, já que você gostou da festa?
-Bom, eu... Eu fiquei com sono, trabalhei muito ontem. E já que você havia saído, eu achei melhor ir dormir.
-Ah. Você falou com Kagome depois que eu saí?
-Kagome? Porque pergunta?
-Nada, só que eu reparei que ela estava com o Dr. Kouga. Você acha que há algo entre eles?
-Eles estão saindo.
-Ah, sério? Que interessante! É, até que fazem um bonito par. Não como nós dois, é claro.
-É claro. Então, aonde quer ir hoje? Podemos ir jantar em algum lugar.
Eu desliguei o telefone depois disso.
Tudo bem, é claro que ele não podia dizer que depois que ela havia ido emboraele havia me arrastado pra casa e passado a noite comigo. Pelo menos não por telefone. Mas achei que, depois da noite que passamos, e depois de tudo o que ele me disse, ele talvez fosse querer conversar com ela, e... Talvez...
É, mas isso era estúpido de se pensar. Assim como eu havia sido estúpida de não ter aceitado que Kouga me levasse pra casa ontem à noite.
Então eu levantei a cabeça, engoli a vontade de chorar que estava crescendo dentro de mim e desci as escadas, em silêncio. Parei na porta da cozinha, de onde ele ainda estava ao telefone.
-Combinado então. Ok. Eu também, tchau. – e desligou.
-Como está a Kikyou?
Ele se virou e olhou em meus olhos, como se tentando vez se eu estava zangada.
-O pé dela melhorou?
-Kagome, escute.
-Não. Não, é melhor não. Isso foi um erro. Certo? Um erro... Enorme. Eu já vou.
-Não! Não foi um erro! – ele segurou meu braço antes que eu pudesse ir embora.
-Foi sim. Eu não deveria ter continuado na festa depois de Kouga ter ido embora, não deveria ter começado a discutir com você, não deveria ter...
-Deveria sim! Deveria sim, porque foi a melhor coisa que me aconteceu desde...
-Não, Inuyasha. Já chega. Nós dois sabemos que isso nunca ia dar certo. Começou errado, e é claro que ia acabar errado. Nunca vai dar certo. Nunca. Eu já vou.
Me soltei do braço dele e saí antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Ele abriu a porta de volta e saiu atrás de mim.
-Kagome, volte aqui.
-Volte pra casa, Inuyasha. Vá tomar um banho e vá buscar Kikyou para irem resolver mais detalhes sobre o casamento.
-Pare de falar na Kikyou!
-Não, eu não vou parar. Porque Kikyou é a parte mais importante disso tudo! É a parte mais real de...
-Não, ela não é.
-Se não fosse, você não estaria usando esta aliança na mão direita.
-Kagome.
-Tchau, Inuyasha. – e entrei no elevador. Parte de mim queria que ele viesse atrás de mim, segurasse a porta do elevador, me tirasse de lá e me levasse de volta pra dentro, me forçando a ficar, não importa quanto eu esperneasse. Mas outra parte de mim queria que ele fizesse exatamente o que ele fez: ficasse lá parado me olhando, mas me deixasse ir, para que eu pudesse esquecer que um dia eu o havia conhecido e me apaixonado por ele.
Sai do prédio e no minuto em que pisei na calçada, me lembrei de que estava caindo um temporal lá fora. Menos de um minuto depois, eu já estava encharcada, e gelada até os ossos. Foi uma sorte tremenda eu ter encontrado aquele táxi, e o motorista ter me aceitado toda molhada.
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Dois dias se passaram depois daquilo. Eu estava trabalhando como nunca, para não me dar tempo de pensar nele. E estava mais ou menos dando certo.
Estava também evitando Kouga. Acho que não conseguiria olhar pra ele depois daquilo tudo. Quer dizer, eu o havia traído. Na maior cara de pau. Eu havia dormido com outro cara antes mesmo de dormir com ele! Isso não podia ser bom!
Então eu não o via desde a festa de Miroku. Só falei por telefone duas ou três vezes. E trabalhava que nem uma louca.
Também não disse nada a Sango. Nem a Miroku, nem Rin, nem Jakotsu, nem Jimmy, que havia voltado para a Inglaterra. Me tranquei num casulo de onde ninguém poderia me tirar.
E pensei que ficaria bem assim. Pensei de verdade. Talvez eu pudesse fazer aquilo pelo resto da minha vida. Me fechar para os problemas, quero dizer.
E foi nesse espírito que eu fui para casa naquele dia. Dizendo para mim mesma que eu poderia muito bem me virar sozinha, como havia feito aquele tempo todo.
Mas foi passar pela porta de casa e não encontrar ninguém pra conversar, que eu desisti da teoria.
Sentei-me no sofá e mal comecei a pensar no que fazer, e bateram na porta. Eri. Ela estava de namorado novo. Eu sabia por que ontem à noite ela fez uns barulhos muito estranhos, deu pra ouvir pela parede da sala. E sempre que ela se divertia à noite, vinha me contar no dia seguinte quando ouvia que eu havia voltado do trabalho.
-Eri, eu realmente...
-Kagome.
Olhei pra cima e encontrei quem eu menos queria ver.
Exatamente.
-O que está fazendo aqui?
-Eu... Preciso falar com você. Preciso saber o que está acontecendo com nós dois...
-Nada está acontecendo, Inuyasha.
-Está sim. – Ele entrou e andou na minha direção. –Está sim, e você sabe. Você saiu tão apressada naquele dia que eu nem tive a chance de...
-De me explicar que caso nós fôssemos continuar nos encontrando, ia ser escondido, porque você tem uma noiva e vai se casar em pouco tempo, e ela não pode descobrir? Eu já sei de tudo isso.
-Kagome, me deixe falar por cinco minutos.
Eu me sentei no sofá.
-Cinco minutos.
-Eu estou tão confuso sobre tudo! Eu não tenho mais certeza de nada que eu tinha antes! Não me importo com as coisas que eu costumava me importar! Eu não consigo mais trabalhar, não consigo mais pensar em nada... Que não seja você. Desde que nos conhecemos eu tento manter as coisas como eram, como sempre foram e como eu tinha certeza de que iriam ser. Eu tinha todo o meu futuro planejado, tudo estava certo, calculado, sem erros. Mas aí você chegou e mudou tudo, virou tudo de cabeça pra baixo, e fez com que eu quisesse que todos os planos fossem para o espaço, me fez gostar da incerteza, me fez querer viver só o presente, sem planejar o amanhã. Mas ao mesmo tempo eu sabia que não podia jogar tudo fora, porque há mais em jogo. Há mais do que apenas a minha vida. E é difícil se desapegar de tudo aquilo que eu construí por tanto tempo.
-Então não se desapegue.
-Aí é que está! Eu continuava dizendo pra mim mesmo para continuar com a minha vida, para continuar com meus planos... Com a minha noiva. Eu amei Kikyou desde que tenho 16 anos. Me apaixonei tão cegamente por ela que todas as garotas que tive depois dela pareciam incompletas. Tudo girava em torno dela, meu mundo era ela...
-Algum motivo especial para você estar me dizendo isso ou só acha divertido me fazer ficar com vontade de chorar?
-... Até você aparecer. Kagome, você não tem idéia da bagunça que fez em mim. Quando eu conheci você, aos poucos Kikyou foi parecendo séria demais, infantil demais, fútil demais. Até chata demais. Tudo em você era novo, diferente, desconhecido, de uma maneira tão perfeitamente... Familiar. Eu me vejo em você. Vejo em você aquilo que eu sempre quis ser, mas nunca soube. Sempre que me pegava pensando em você eu procurava Kikyou, para provar para mim mesmo que era ela quem eu queria. Que era ela a pessoa certa para mim. Mas tinha uma coisa aqui dentro que respondia para todas as ações dela. Se ela dizia alguma besteira, eu pensava "Kagome não diria isso. ". Se ela derramava alguma coisa, eu pensava "Kagome não seria tão descuidada.". Você começou a habitar minha mente, e ao mesmo tempo em que eu me esforçava para arrancar você, me prendia ao pensamento de como seria maravilhoso que você fosse minha noiva, e não Kikyou. Quando você começou a dar aulas a ela, eu me desesperei, porque ela ia começar a ficar parecida com você, e ia me fazer pensar em você cada vez mais.
Ele fez uma pausa para sentar ao meu lado no sofá.
-Quando você foi embora da minha casa, dois dias atrás, meu primeiro impulso foi de ir atrás de você, segurar a porta do elevador, te tirar de lá e te levar de volta pra dentro, forçando você a ficar, não importa quanto você esperneasse.
Tive um sentimento de deja vu nessa hora.
-Mas depois pensei que talvez aquele fosse o momento de deixar você ir. De deixar as coisas voltarem a ser como eram antes. De esquecer você e voltar a viver a minha vida de sempre. E sabe o quê? Esse pensamento me fez entrar em pânico. Pânico, Kagome. Eu entrei em pânico só de pensar que você ia sair da minha vida.
Ele parou e ficou me olhando.
-Eu não quero que você saia da minha vida, Kagome.
Pegou meu queixo e me fez olhar pra ele.
-E eu sei que você também não quer que eu saia da sua.
Eu suspirei.
-Você mesmo disse que já tem a sua vida toda planejada. Que já tem certeza de como tudo vai ser. Que tem todos os planos completos.
-E já disse que não me importo em jogar tudo fora.
-Mas eu me importo. Por que... Eu também tenho meus planos, Inuyasha. Eu também tenho projetos, também tenho...
-E todos eles me incluem. Eu sei que me incluem, Kagome.
-Como você pode saber?
-Porque eu aprendi a ler seus pensamentos, só olhando em seus olhos.
Ele levantou o meu rosto e me fez olhar nos olhos dele. Coisa que eu não queria que ele fizesse, porque eu estava à beira das lágrimas, e a última coisa que eu queria agora é que ele me visse chorando.
Ele viu meus olhos cheios de água e sorriu de uma maneira triste e feliz ao mesmo tempo.
-Está vendo? Eu nem consigo mais agüentar a possibilidade de fazer você chorar. Isso me mata por dentro.
E aí eu percebi que ele estava tremendo.
-Não... Não me faça voltar a viver sem a esperança de ver você todos os dias. É só isso que tem me dado ânimo pra acordar, pra levantar pela manhã. Não me faça voltar a viver sem você...
-Você vivia perfeitamente bem antes de me conhecer, Inuyasha. E vai viver perfeitamente bem sem mim depois de me esquecer.
-Mas eu não vou esquecer você.
-Vai sim.
-Não, não vou. Eu não quero esquecer você. Porque você já está impregnada em todas as partes da minha vida.
Então ele levantou muito rápido e me puxou pela mão, me fazendo perder o equilíbrio.
E aí ele me abraçou.
Me abraçou tão forte que chegou a doer.
-Eu não vou esquecer você... Nunca.
-Vai sim...
-Não vou esquecer porque eu amo você.
Eu paralisei. Paralisei de verdade. Não consegui me mexer dentro dos braços que ainda me abraçavam com força. A única coisa que parecia se mexer era o meu coração, que disparou, incentivado pelo dele, que eu podia sentir, batia com muita força e em uma velocidade quase tão rápida quanto o meu.
Ah, é, e também os meus olhos, porque eu comecei a chorar.
-Amo tanto você que parece que eu vou explodir.
Nessa hora eu senti mais lágrimas pela minha bochecha. Só que não eram minhas.
-Amo tanto você que não dá pra imaginar mais um dia sem você perto de mim. Comigo.
E então ficamos um ou dois minutos em silêncio. A única coisa que eu ouvia era o meu coração, que batia tão forte que estava me deixando tonta.
Eu sempre fui uma pessoa racional. "Racional demais", segundo Sango. E toda essa razão pareceu achar uma brecha por todos os pensamentos desconexos que inundavam o meu cérebro e me disse "Eu sei que você está sentindo vontade de fazer o oposto. Mas pense. Pense nas possibilidades de isso dar certo. Ele tem uma noiva. Uma noiva que você está ajudando. Uma noiva, que vai se casar com ele. Pense nas possibilidades de ele de repente jogar fora tudo isso, mesmo que agora esteja dizendo que te ama. Pense, Kagome. Pense."
E foi por causa dessa voz que eu consegui mexer a minha mão e pegar a mão direita dele.
-Inuyasha.
Ele não se mexeu. Só apertou a minha mão.
-Inuyasha, pare e pense. Você está noivo da mulher dos seus sonhos, da futura mãe de seus filhos...
-Não.
-... E ela está esperando por você. Ela o ama. E você também a ama. Ama tanto que foi capaz de pedi-la para dividir o resto da vida dela com você.
Ele me olhou, o rosto todo molhado pelas lágrimas, os olhos dourados ofuscados pelo vermelho.
-Você vai me esquecer. Eu vou, aos poucos, sair da sua mente, porque você apenas acha que me ama. Só isso. Você só está tentando achar uma fuga pra uma certa... Rotina. E acabou encontrando. Mas você não pode fugir pra sempre. Volte para ela. Volte para os seus planos com ela. Volte a pensar em quão bom vai ser quando vocês dois estiverem finalmente casados, como sonharam tanto tempo.
-Não, Kagome...
-Você vai me esquecer, Inuyasha. Com o tempo, você vai esquecer.
Eu me soltei do abraço dele.
-Seus cinco minutos acabaram. – me virei e saí andando para o meu quarto.
-Kagome, não. Kagome...
Bati a porta e escorreguei até o chão. Estava tremendo mais do que jamais tremi a minha vida inteira. Estava sentindo uma dor insuportável no peito. E não conseguia controlar a vontade de chorar.
Peguei a primeira coisa que encontrei no chão e enfiei o rosto lá. Era uma almofada.
Então comecei a soluçar. Muito forte. Pensei que fosse desmaiar.
-Kagome, abre a porta. Kagome, por favor, abre a porta. Kagome... – ele ficava dizendo do outro lado da porta.
E tudo o que eu conseguia fazer era chorar. Chorar mais do que chorei na minha vida inteira. Chorar tão forte que a minha garganta parecia que ia rasgar.
-Kagome, por favor, Kagome... Não me peça para esquecer você, Kagome... Não me peça...
Eu queria desesperadamente abrir a porta para ele. Não deixá-lo me esquecer. Mas eu sabia que seria inútil, porque mais cedo ou mais tarde, mesmo que eu abrisse a porta agora, ele ia fazê-lo. Esqueceria que um dia me conheceu. Esqueceria que um dia sorriu tão lindamente para mim, que fez com que eu simplesmente fizesse minha vida toda girar em torno dele. Ele ia me esquecer.
Só que eu não ia.
Nunca.
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N.A.: Eu sei, eu sei, me desculpem. Sei que demorei mais do que o costume nesta fic, e sei que o capítulo foi curto demais. 14 páginas. Explicarei.
Eu viajei na Semana Santa. Fui passar a Páscoa com meus avós. E, no domingo que eu postaria este capítulo, meu computador estava a muitos quilômetros de distância. Então, não havia nada que eu pudesse fazer. Aí, quando voltei, resolvi esperar até o próximo domingo pra postar, pra não "desregularizar" o processo de postagem.
Mas aqui estou eu, com um novo cap. Espero que tenham gostado.
Reviews, please please please! Senão demoro de propósito xDD
Mil beijos,
Nat'
