Respirei fundo

Respirei fundo.

E o cheiro que me invadiu era maravilhoso.

Tudo era maravilhoso naquele lugar. Abri os olhos e vi a cidade mais linda do mundo brilhar diante de mim.

Paris era magnífica.

-Bon soir, madame.

-Merci.

Entrei no lindo camarote do teatro mais maravilhoso que eu já havia visto.

Era fantástico viver com toda a mordomia do mundo, com todos fazendo tudo por você, pra variar um pouco.

Ganhar aquele prêmio foi muito melhor do que eu pensava que seria.

Bom, deixem-me explicar.

Depois de toda aquela minha história com... Ah, vocês sabem quem, eu comecei a trabalhar mais do que qualquer pessoa naquela firma. Era sempre a primeira a chegar (ficava até esperando as recepcionistas chegarem com as chaves!) e a última a sair (acabei ficando amiga dos seguranças noturnos. Eles são muito divertidos! Agora entendo porque Miroku fala tão bem deles.). Trabalhei como se a minha vida dependesse disso. Bom, tudo bem, meio que depende, porque se eu não trabalhar não ganho dinheiro, e aí eu não como. Mas vocês entenderam.

Acontece que, de tanto trabalhar, eu acabei bolando umas coleções perfeitas. Maravilhosas de verdade. Dei conta de três desfiles a cada dois meses, em seis meses no total. Você faz as contas, odeio matemática.

Checava tudo sozinha: tecidos, modelos, medidas, penteados, maquiagens, itinerários, confecção das roupas, tendências, pesquisas, influências, locações, books, cessões fotográficas, tudo!

E Sango reparou nisso. E, escondida de mim, ela falou com Naraku, que acontece que gostou muito do meu trabalho. E aí os dois, ele e Sango, resolveram me fazer uma surpresa. Enviaram meu nome e um portifólio com os melhores modelos de cada trabalho que eu havia feito nos últimos seis meses para um figurão de moda em Chicago, que estava organizando um evento que nomearia os melhores designers de cada país.

E, bom, eu ganhei.

Imagine a minha cara quando Sango e Naraku entraram na minha sala e Sango colocou um certificado na minha mesa e começou a me dizer "Amiga, comece a arrumar uma sala maior. Você é agora, oficialmente a melhor designer de moda dos Estados Unidos da América!", e o Naraku dizendo "Parabéns, Kagome. Você nos deixou muito orgulhosos."

E o prêmio eram três semanas em Paris. Quer coisa melhor?

Quer dizer, é claro que eu já havia vindo à Paris, mas vir para ficar no melhor hotel, freqüentar os melhores restaurantes, ir aos melhores eventos e comprar nas melhores grifes, tudo pago, é uma coisa bem diferente.

Acontece que fomos nós três – eu, Sango e Naraku – para Chicago para eu receber o tal prêmio (um evento magnífico! Miroku que me desculpe, mas eu nunca vi uma produção tão linda! Tirando o Oscar. E o Grammy. E o Golden Globe. Mas era o mais lindo, tirando esses. Oh, e provavelmente o casamento da Jen com o Brad Pitt. Aquele foi um arraso!), e ganhei até um troféu lindo de ouro branco.

Lindo.

E aqui estou eu, há quase duas semanas na cidade-luz.

Sozinha.

Bom, não é tão ruim, eu não tive realmente muito tempo pra pensar em solidão.

Só de noite, quando tenho que abraçar o meu travesseiro para conseguir dormir no frio.

Bom, dormir abraçada com um travesseiro não é a melhor opção quando você está apaixonada, e já dormiu com o cara em questão, e sabe como ele é capaz de aquecer todo o seu corpo só de abraçar você.

Mas tanto faz.

O caso é: Lá estava eu, pronta para assistir a produção original de Lago dos Cisnes, em uma cabine só minha - com direito a acompanhante, mas que se dane.

E quer saber? Eu não sou muito fã de ballet, ópera e essas coisas. Mas é tão lindo quando você assiste com boa vontade, sem dizer que é baboseira e que dá sono. É maravilhoso quando você presta atenção na história que há por trás dos passos dos bailarinos.

É lindo de verdade.

Bom, suponho que tudo se torne lindo de verdade quando você bebe seis ou sete taças do melhor champanhe de Paris. E foi exatamente isso que o garçom que me servia no meu camarote privativo me serviu durante todo o espetáculo: o melhor champanhe da cidade com petiscos.

E bom, eu meio que fiquei um pouquinho alegre. Pelo menos foi isso o que umas estrelinhas que apareciam na minha vista de vez em quando me avisaram: "Ei, você está bem alegre!".

E sabe o que? É bom ficar alegre em Paris.

O caso é que depois de eu realmente ter tirado um monte de fotos com os bailarinos (para a imprensa. Acredita? Ia sair nas manchetes "Famosa designer de moda prestigia O Lago Dos Cisnes Em Paris"! Uau!), o motorista me levou de vota para o hotel.

É isso aí, tenho até motorista.

Eu entrei no hotel e caminhei até o elevador nos meus saltos Prada novinhos e apertei o botão de número 12.

É, eu estava hospedada na cobertura! U-hú!

Sabe o que me irrita? Quando as portas do elevador estão quase fechando e algum francês idiota grita para que o porteiro, por favor, segure a porta, e sai correndo para entrar no mesmo elevador que você. Eu não suporto dividir elevador!

Ai, caramba. Vocês viram? Eu já estou virando uma daquelas madames metidas e nojentérrimas que vivem viajando para Paris!

O quão legal é isso?!

Bom, o caso é que eu já estava pronta para ignorar o tal francês idiota que ia dividir elevador comigo. Ele entrou, nem um pouquinho esbaforido por ter corrido da porta até o elevador (é um caminho meio longo), e ficou todo:

-Je suis desolé, le déteste pour attendre... Kagome?!

Juro! Falou meu nome!

Aí eu olhei pra ele e quase engasguei com a minha própria saliva.

Ia ser ridículo, não ia?

Pois é, quando eu olhei pra ele, as estrelinhas que havia aparecido quando eu levantei a cabeça rápido demais falaram "Uau! Você está alegre de verdade!"

-I-Inuyasha?!

Ah, parem de sorrir, vocês aí! Não era bom!

-Kagome, o que está fazendo aqui? – e antes que eu pudesse responder, ele me interrompeu – Ah, sim! Ouvi falar que você ganhou aquele prêmio! Meus parabéns!

-O-obrigada... Mas... O que é que você... Você está... – eu tinha meio que perdido a linha de raciocínio. Parei de falar e ele ficou me olhando, sorrindo. E então eu recuperei a fala.

-O que você está fazendo aqui?

-Ah, bom. Eu estou de férias. Aí resolvi vir pra cá. Fazia tempo que não vinha.

Eu fiquei olhando pra ele, me perguntando se as estrelinhas não estavam me pregando uma peça. E ele meio que ficou fazendo a mesma coisa.

-Você está linda! De onde está vindo?

-Ah, eu acabei de assistir a um espetáculo de ballet.

-Uau, que... Respeitável!

Eu, por algum motivo, achei o comentário bem engraçado.

-Você... Quer tomar... Alguma coisa, talvez um café? Conheço um restaurante ótimo! – ele foi logo convidando.

-Ah, bom, sabe como é, eu adoraria, mas acabei de beber um pouquinho de champanhe demais, acho que vou tomar um banho e ir pra cama.

Ai, palavras erradas. Não devia ter falado de banho e cama perto dele. Porque comecei a me imaginar tomando banho com ele, e depois... É, isso aí que vocês pensaram.

Ele parece ter imaginado a mesma coisa, porque suspirou e me olhou de um jeito meio... Que me fez pensar que eu estava pelada.

-Bom, certo então.

-Você está hospedado aqui? – Eu, sinceramente, não sabia o que esperar que ele respondesse depois de tudo aquilo que aconteceu entre nós.

-Não, não, vim entregar um documento para um amigo que está. Estou na casa dos meus pais.

-Seus pais moram aqui?

-Não, mas têm uma casa no campo.

Uau! Uma casa no campo em Paris não é pouca coisa!

Nessa hora o elevador fez aquele barulhinho pra avisar que chegou e a porta abriu no décimo segundo andar.

-Bom, é o meu. Foi... Um prazer rever você, Inuyasha.

-É, foi.

Eu saí, e a porta começou a ser fechar de novo.

E eu vi os olhos dourados dele me suplicarem alguma coisa.

E então eu resolvi, como uma amiga educada, segurar a porta do elevador antes que fechasse e sorrir pra ele.

-Sabe, eu ganhei umas garrafas de vinho quando cheguei, nós podemos abrir uma e beber uma taça. Que tal.

Ele pulou pra fora do elevador.

-Eu adoraria.

-Ah, okay. Bom, é por aqui.

Eu abri a porta da minha suíte e entrei.

-Uau... Belo lugar! – ele entrou atrás de mim.

-Eu que o diga. Ainda não consegui me acostumar com a hidromassagem. Grande demais.

-É, geralmente são.

-Sente-se, eu vou pegar o vinho.

E fui até o frigobar pegar o vinho que estava guardando pra quando passasse aquele filme com o George Clooney e a Michelle Pfeiffer, "Um Dia Especial". Ia passar na TV hoje à noite. George Clooney, dublado por um francês? Eu é que não ia perder!

Voltei e lá estava ele, sentado à mesa para dois da minha suíte.

-Quanto tempo você vai ficar? – ele me perguntou.

-Volto para Nova York em uma semana. – eu respondi, enquanto tentava abrir a garrafa.

Ele simplesmente se levantou, pegou a garrafa de minha mãe e começou a abrir ele mesmo.

-Obrigada.

-De nada.

-Quanto tempo você vai ficar?

-Ah, volto em dois dias. Ficar em Paris sozinho não é muito a minha praia.

Sozinho. Hmm. Interessante.

-E então, como está se sentindo, sendo a melhor designer de moda do país?

-Ah, bom, é um pouco estranho nos primeiros dias. Um fotógrafo de uma revista realmente passou a me seguir até a minha casa todos os dias depois que ganhei o prêmio. E toda hora alguém me liga pedindo uma entrevista. E é claro que agora eu preciso bolar uma coleção só pra mim, que não tenha nada a ver com a Takahashi, porque senão eu nunca vou ser reconhecida, tipo a Ralph Loren, ou Clavin Klein, certo?

Eu havia me esquecido, nesses seis meses, como é fácil conversar com Iuyasha. Ele deixa você à vontade.

Na verdade, fiquei tão à vontade que não vi problema em abrir mais duas garrafas de vinho.

No final, já estávamos os dois, bastante bêbados, sentados no chão (Eu sei! No chão! Com o meu vestido Gucci! Imperdoável!), brincando de vira-vira. Com vinho.

Eu devo ter perdido a cabeça.

-Certo, certo. Quando foi que você... Ficou tão bravo que chegou ao ponto de realmente pensar em matar alguém? – eu perguntei, depois de ter respondido que a coisa mais baixa que eu havia feito tinha sido sabotar a minha maior rival no colégio colocando na internet o vídeo pornô que ela havia feito com o namorado da melhor amiga dela. Não era uma coisa de que eu me orgulhava, mas naquela noite era super-engraçado.

-Difícil... Deixe-me ver... Ah, sim! Três anos atrás, quando um juiz me fez perder o caso da família que eu estava defendendo. Ele, de verdade, inocentou o cara que havia seduzido a filha do casal, engravidado a menina, abandonado-a e depois fugido com quase todo o dinheiro que tinha roubado da conta deles, porque a idiota da garota confiou nele a ponto de dar a senha.

-Justo. Agora faça a sua parte.

E ele entornou o copo de vinho. Era essa a brincadeira: todas as vezes que um achava justo o motivo do outro por ter feito alguma coisa, quem confessava tinha que virar um copo de vinho, que estávamos bebendo nos copos de uísque que havia no meu quarto.

-Bom... Vamos ver... Qual foi o momento de maior tortura pra você?

Foi nessa hora que as coisas começaram a ficar complicadas.

-Há! Fácil! Quando Kikyou me pediu pra ensiná-la a ser mais atraente pra você. – e já ia me preparar para entornar outro copo do vinho, só estava esperando ele dizer "justo". Como ele não disse, olhei para ele, e o encontrei meio que sorrindo pra mim.

-Essa é tão boa que eu vou beber um duplo! – ele encheu o copo até a metade e virou tudo de uma vez.

Eu fiz o mesmo.

-Minha vez. Qual foi a vez em que você quis cometer um crime em público? Na frente de todo mundo?

-Ah! Fácil demais! Foram duas vezes. Uma foi quando eu encontrei você e aquele inglês metido a besta no restaurante. Fiquei com vontade de meter um tiro na testa dele. O outro foi no aniversário de Miroku, quando você começou a dançar com Kouga. Quase que eu peço o facão do cara do sushi e vou lá falar com ele.

Foi a minha vez de não conseguir não sorrir.

Ele me olhou de novo, bem no fundo dos olhos.

-E aí, justo?

-É... Bem justo.

-Então, como foram dois, é mais um duplo.

E aí viramos mais vinho.

-Hmm! Sei de uma boa! – ele falou enquanto enchia o meu copo e o dele de novo. E aí ele me olhou de uma forma meio marota e desafiadora. –Quando foi que você ficou com vontade de fazer sexo em um lugar público?

-O quê?! – eu meio que berrei, e acabou que caiu um pouco de vinho no carpete. – Você não pode me perguntar essas coisas!

-Posso sim, você disse que valia qualquer coisa. – e aí bebeu um gole de vinho direto da garrafa. – Responda à pergunta.

-Como é que eu vou saber, Inuyasha?

-Você sabe, só não quer me dizer.

-Não é isso. Eu não sei de verdade!

Era mentira. Eu totalmente sabia.

Ele me olhou nos olhos, com os próprios olhos estreitados.

-Vou fingir que acredito. E vou fazer um favor e responder eu mesmo a pergunta. E se você achar justo, vai ser um triplo.

-Certo.

Ele pegou minha mão, a que segurava o copo, e enquanto o enchia com mais três doses de vinho, disse, sem olhar pra mim.

-Quando eu deixei você em casa depois do desfile de outono. Quando nos despedimos.

E aí me olhou.

Meu queixo caiu, literalmente.

Porque foi exatamente essa a vez em que me deu vontade de fazer sexo em público, pela única vez na minha vida.

-Justo?

-Justo.

E lá se foi uma dose tripla.

-Sua vez.

Eu tive que pensar um pouco. A essa altura, as estrelinhas já haviam se juntado a alguns cometas e dançavam cancã. Com saias e tudo.

Aí eu mandei sem pensar no real sentido do que estava dizendo:

-Quando foi que você ficou com tanto tesão que esqueceu o próprio nome?

Ele deu uma gargalhada sonora.

-De novo, duas vezes. Quando nós dançamos tango nas aulas particulares de Kikyou, e no dia da festa de Miroku. Porque estava chovendo, estava frio, e no meu quarto estava fazendo mais de quarenta graus.

Aí ele ficou olhando pra mim de novo, como se eu estivesse pelada.

Eu não achei nada estranho. Nem fiquei com nem um pouquinho de vergonha. Só falei:

-Justo. – e mandei pra dentro mais um copão de vinho.

-Outra. Qual foi o momento mais feliz pra você no último ano?

-Quando você me beijou pela primeira vez.

Assim. Rápido mesmo, sem nem parar pra pensar.

Ele virou a garrafa no próprio copo, mas só caíram algumas gotinhas.

-Acabou. Vou pegar mais. - Levantou e foi até o frigobar pegar mais vinho. Esta ia ser a terceira garrafa.

Vou fazer uma pausa para dizer o quanto ele estava lindo. Usando uma camisa de lã cinza de mangas compridas e gola alta, uma calça jeans de tom também acinzentado, descalço, com uma garrafa de vinho na mão. Estava tão lindo que eu me arrepiava cada vez que olhava para ele.

Voltou com mais uma garrafa na mão, sorrindo.

Você deve estar se perguntando de onde saíram tantas garrafas de vinho.

Bom, sei lá.

Ele se sentou de novo de frente pra mim e abriu a outra garrafa. Com a mão. Sem um saca-rolha nem nada.

Lindo e forte! Ai!

-Agora é a sua vez. – ele disse depois de termos bebido a dose correspondente à minha resposta (que ele achou muito, muito, muito justa, nas palavras dele.).

-Qual foi a travessura que você mais gostou de fazer?

-De dar todos aqueles chupões em você, e te obrigar a ir trabalhar daquele jeito mesmo.

Eu ri.

-Não é muito justo. Eu tive que usar gola alta por duas semanas. E me pinicam. Eu fiquei com alergia.

-Não é justo? Era uma delícia ver você se esforçando tanto pra escondê-los, e mesmo assim, no momento em que eu chegava pra fazer mais um você não se importava de me deixar afastar a tal gola alta.

Eu balancei a cabeça e bebi, só por beber, você faz isso quando já está bêbado.

-E a sua melhor travessura?

-Exibir meus chupões e a marca de barba que você deixava no meu rosto para a vaca do apartamento do outro lado do corredor quando nos encontrávamos na caixa do correio.

-Justo! Uau, super justo! – outra dose.

E aí eu vi uma caixa de bombons que havia comprado de manhã em cima da mesa. Engatinhei até lá e a peguei. Comi um e ofereci a caixa a ele, que aceitou.

-Qual o momento mais triste da sua vida? – eu perguntei.

Ele me olhou, interrogativo.

-Triste? Pensei que fôssemos falar de coisas boas!

-Responda à pergunta.

Ele me olhou e suspirou.

-Quando você me disse para esquecer você. E não abriu mais a porta pra mim e nós ficamos sem nos ver até hoje.

Eu meio que senti um calor nessa hora.

-Isso é mais de um momento.

-Pra mim não é. Tem sido um momento que não acaba nunca. Acabou há duas horas, quando eu vi que era você no elevador.

Eu estava tão bêbada, tão feliz por estar bêbada com ele, e tão absorta imaginando mil coisas para o nosso futuro que não existia, que simplesmente sorri, me desencostei da cama e deitei no carpete.

Foi engraçado quando ele fez o mesmo. Deitou do meu lado, tão bêbado quanto eu.

E ficamos ali, comento chocolate e olhando pro teto.

-Me pergunte qual foi o momento mais perfeito da minha vida inteira, desde que eu nasci.

-Qual foi o momento mais perfeito da sua vida inteira, desde que você nasceu?

Nessa hora ele virou e deitou em cima de mim.

-Este aqui. Agorinha mesmo.

Foi então que a minha visão começou a ficar turva, e as estrelinhas pararam de paquerar com os cometas e falaram "Ihh... Lá vem aquela dor de cabeça insuportável acabar com a festa".

E sabe o que eu respondi pra elas? Que nenhuma dor de cabeça no mundo todo ia acabar com a minha festa. Não essa festa. Nunca, nunca mesmo.

-Eu tenho outra pergunta. – eu falei enquanto ele brincava de enrolar as pontas do meu cabelo nos dedos dele.

-Qual?

-Porque você está sozinho em Paris, onde está a Kikyou?

Ele riu com o canto dos lábios. Um sorriso simples e singelo.

-Estou sozinho em Paris porque não suporto mais ficar num lugar onde tudo me lembra você. E Kikyou não está comigo porque ela é a causa de eu e você não estarmos juntos em Paris agora.

-Você está bêbado de verdade. Nós estamos sim, juntos em Paris. Eu estou bem aqui.

-Mas não do jeito certo. Nós não estamos dormindo todos os dias juntos, e eu não estou fazendo panquecas pra você todas as manhãs. E você não está no sofá da sala da casa de campo fazendo esboços pro trabalho, vestindo a minha camisa favorita enquanto eu saio com o cachorro pra comprar chocolate pra você. E você não está sorrindo pra mim todos os dias de manhã, e nem pedindo pra eu dar um jeito de deixar o quarto mais quentinho, porque está nevando muito e você está com muito frio. Nem fazendo carinho no meu cabelo enquanto eu brigo com o Sesshoumaru por telefone.

Eu já estava sorrindo como se fosse a pessoa mais feliz do mundo por ele estar me dizendo isso.

Bom, naquele momento eu era mesmo.

-Que coincidência não é? Que você também não estava lá quando eu ganhei o meu prêmio, e nem quando eu tive que viajar sozinha no avião e agora tenho que dormir todos os dias abraçada a um monte de travesseiros pra não sentir a sua falta no frio, e agora eu tenho que bloquear os pensamentos na minha cabeça, pra não me deixar pensar em você e começar a chorar, que eu tenha que pedir refeição pra um todas as...

-Eu avisei que nunca ia esquecer você.

-Você não tentou o suficiente.

-Tentei sim. Tentei com todas as minhas forças. Mas tudo me lembra você. Tudo.

-Você só está dizendo isso porque está bêbado.

-Não, não estou. Estou dizendo por que é o que eu venho sentindo nesses últimos seis meses.

Eu abri os olhos e o encontrei varrendo o meu rosto com aqueles dois pingos de ouro que eram os olhos dele.

-Bom, eu estou aqui agora, não é?

-É... Está sim...

E aí as estrelinhas falaram para os cometas: "Oooooh, ele beijou ela! Isso vai deixar uma marca permanente, sim senhor!"

E, bom, elas acertaram.

Aquele beijo bêbado é tudo em que eu consigo pensar no momento.

Foi tudo tão magicamente perfeito, tudo se encaixava tão incrível e facilmente, que eu não pude mandá-lo parar. Eu não podia, e nem queria mandá-lo parar.

E a última coisa que eu me lembro daquela noite é de ter jogado meus braços e minhas pernas ao redor dele, e que nós ficamos um bom tempo nos agarrando no carpete da minha suíte maravilhosa.

Só. Mais nada.

A próxima lembrança que eu tenho é de acordar, já na minha cama, com uma dor de cabeça insuportável, que só de abrir os olhos já doía.

E eu estava de camisola.

Eu não troquei de roupa. Eu nem sequer tomei banho, eca!

Mas quando abri os olhos de novo, achei duas margaridas no travesseiro ao lado. Tinha um bilhete.

Cuidar de você é só o que eu quero fazer, pro resto da minha vida.

Desculpe não esperar você acordar. Tinha que pegar o vôo pra Nova York.

Eu ainda não esqueci você.

Com amor,

Inuyasha.

Tinha o perfume dele. E era tão maravilhoso que até o perfume das flores se ofuscava.

Eu olhei ao redor: Não havia nenhum vestígio de que alguém havia se embebedado ali na noite anterior. Ele, de alguma forma, havia se livrado de todas aquelas garrafas vazias de vinho. Os copos de uísque e as taças estavam limpinhas, guardadinhas no lugar delas. Meu vestido Gucci estava pendurado na porta do guarda-roupa. As cortinas da janela estavam fechadas, bloqueando o sol que me traria uma dor maior do que eu já estava sentindo, e o frio que a neve trazia era bloqueado pelo edredom pesado em cima de mim.

E eu estava cheirando a sabonete.

Não era possível que ele até tivesse me dado banho.

Fechei os olhos e fiz uma força enorme para me lembrar.

E alguns flashes de mim mesma deitada da hidromassagem, com ele sentado na borda, me vieram à mente. É, era quase como se tivéssemos tomado banho juntos.

Ele havia cuidado de tudo. Inclusive de mim.

Então eu só voltei a me deitar nos travesseiros macios, jogar o edredom por cima de mim de novo, e voltar a dormir. E sonhar com ele.

Que engraçado. Parece até aquele filme, onde o mundo pode estar acabando, mas o casal principal sempre acaba feliz e contente na França.

É como eles dizem:

Para os corações solitários e desiludidos, sempre haverá Paris.

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N.A.: Olá! Aqui estou eu, pontual como um relógio suíço. Tudo bem, um pouco tarde, mas é Domingo! Como o prometido xDD

E aí? O que acharam? Inicialmente, ia ser na Itália. Talvez, muito dificilmente,na Grécia. Mas aí eu comecei a tomar aulas de francês e me ocorreu: PARIS! Porque não? Sempre amei a França de paixão, então juntei a fome com a vontade de comer, e voilá!

Espero que tenham gostado, de verdade! Estão com menos raiva do Inu? Mais raiva? Não mudou nada?!

Reviews, s'il vous plâit!

Obrigada por terem lido!

Mil beijos e a bientôt,

Nat'