Cartas
Capítulo Quatro
Quando Lily saiu do banho, encontrou seu amigo Hermes em sua cama.
- Ele ficou bicando o vidro até eu abrir a janela! – disse Annabelle.
- É, ele pode ser muito insistente. Me pergunto se o dono dele também é.– disse a sorridente ruiva, sentando-se e pegando a carta.
"Querida Lily,
Por favor, não fique chateada comigo, mas eu preferiria continuar a conversar com você sem me identificar. Tenho medo de perder isso que nós estamos tendo agora, seja lá o que isso for, quando você souber quem eu sou. Nunca fui tão sincero com alguém assim antes. Nem mesmo com meu irmão. Aliás, brigamos ontem de novo. É que eu tento conquistar uma garota que não me dá a mínima chance, ele acha que eu não deveria tentar mais. Nós não temos nada em comum, ela me detesta, não sei por que eu insisto.
Entenderei se você não quiser me responder. Você deve achar que eu sou um louco psicopata anônimo ou um idiota inseguro. Mas veja bem, não era minha intenção lhe enviar cartas anonimamente, as coisas simplesmente aconteceram! E eu fiquei muito feliz por terem acontecido. Não quero perder isso. Ainda não posso lhe explicar por que, mas saber meu nome mudará tudo. Prometo que, na hora certa, lhe contarei.
Ah, e sim, minha mãe é uma mulher maravilhosa, tenho certeza de que vocês se darão muito bem, se um dia tiverem a oportunidade de se conhecerem.
Não se preocupe com a sua irmã, nem sempre quem está de fora do mundo bruxo consegue entender nossa vida.
Atenciosamente,
Prongs."
Ao terminar de ler, os olhos verdes continuaram parados encarando sem foco o papel amarelado.
- O que foi? – perguntou Annabelle, sentando-se na cama com ela.
- Ele não quis se identificar. – respondeu Lily, franzindo levemente a testa, pensativa.
- Ih!! Ele deve ser muito feio!! Nerigudo, baixo, gordo e de olhos arregalados assustadores!
Lily então teve um ataque risos.
- Não me lembro de ninguém no castelo com essa descrição, Belle.
- Ah, por que a gente só decora os bonitos, né!
- Pode ser. – respondeu meio vagamente, voltando a encarar o pergaminho.
Annabelle tomou a carta das mãos da amiga e a leu, entre suspiros.
- Nossa... Pena que o garoto mais bonito do castelo nunca escreveria algo tão bonito e sincero assim... – disse Belle, suspirando.
- E quem é o garoto mais bonito do castelo?
- Sirius Black, quem mais?
A ruiva teve outro ataque de risos.
- Não que ele mereça a beleza que tem, mas isso é inegável! – complementou Belle – E aí? Você vai responder?
- Como não responder a um cara tão gentil que diz que tem medo de perder minha amizade?
James andava de um lado para o outro no quarto quando Hermes finalmente voltou. Ele puxou a carta rapidamente, ansioso em saber a resposta.
"Querido Prongs,
Se você se sente melhor para conversar assim, não vou insistir em querer saber seu nome. Quem sabe daqui a algum tempo não nos apresentamos pessoalmente, não é mesmo?
E quando isso acontecer, me apresente sua mãe depois. :)
Você tem razão, eu não culpo minha irmã porque sei o quanto é difícil entender a existência da magia pra quem sempre viveu pensando que isso era mito.
Já o seu irmão deve estar tentando te proteger, pois parece que essa garota pode lhe magoar muito. Tente ser compreensivo com ele, que só está preocupado com você.
Aliás, o seu amigo doente já está melhor? Espero que sim.
Atenciosamente,
Lily."
James respirou aliviado. Finalmente relaxou os ombros. Sentou-se na cama e releu a carta. Estava tão feliz que precisava responder. Pegou um pequeno pergaminho e escreveu mais informalmente.
"Você é uma garota incrível, Lily.
Sim, meu amigo já está ótimo!
Boa noite minha querida,
Prongs."
Hermes rapidamente voltou a voar, porém seguindo as instruções de James para dar uma volta antes, para que não ficasse evidente a proximidade física entre eles na mesma Torre.
- Eu acho que ele gosta de você. – disse Annabelle.
- O quê?? – fez Lily, em tom de absurdo.
- Por isso ele tem medo de se identificar! E olha a resposta dele, olha como ele fala de você! Você acabou de responder e ele já mandou um recadinho fofo te elogiando e dando "boa noite minha querida"!
- Você e suas teorias, Belle!
- Minhas teorias sempre fazem sentido!
- Claro, como aquela sobre elfos domésticos na verdade serem extraterrestres disfarçados que se fingem de escravos enquanto planejam nos dominar!
- Ué, de que outra maneira você explica os superpoderes deles de arrumar os quartos e o castelo sem nunca serem vistos??
Lily riu e revirou os olhos.
- Deixa pra lá, Belle, boa noite.
- Eles nem usam varinhas! Só estalam os dedos!!
- Boa noite, Belle!
No café da manhã do dia seguinte, Lily não conseguia parar de rir com as suposições de Annabelle sobre cada rapaz que passasse.
- Aquele ali no fundo, ele é narigudo, pode ser seu correspondente misterioso. Ou então o gordinho ali na mesa lufa. Já pensou no dentuço da corvianal? Por Merlin, tomara que ele não seja muito feio!
- Belle, só porque ele não quer dizer quem é não significa que ele seja horrendo!! Talvez seja outro motivo! Ou talvez ele só seja inseguro, tenha baixa auto-estima, sei lá!
- Lily, Lily, sempre querendo ver o lado bom das pessoas. Até mesmo dos sonserinos que não te mereciam... só nos marotos que você não vê nada de bom. Não que eles mereçam, - ela acrescentou logo – mas isso chega a ser injusto...
A ruiva ficou séria imediatamente.
- Chega de teorias por hoje, Belle.
- Tá bom, eu não falo nos sonserinos nem nos marotos. Mas quanto ao anônimo não dá, é mais forte que eu!
Lily não conseguiu se controlar e riu.
- Certo, o que mais você tem a dizer sobre ele?
- Bom... – Belle deu um sorriso maquiavélico – Ele disse que não quer dizer o seu nome, mas não disse nada sobre você tentar descobrir quem ele é...
- O que você pretende fazer? Sair perguntando pra todo garoto do castelo?
- Não, Lil, seja mais sutil, né?! Só dar uma pesquisada básica sobre garotos com irmãos no castelo, sobre quem estava doente na volta às aulas, essas coisas... e você dê um jeitinho de conseguir mais informações nas próximas cartas!
- Tá bom, Belle... – disse Lily, ainda rindo.
Naquela mesma mesa, outras pessoas conversavam sobre o mesmo assunto, porém do ponto de vista oposto.
- Então ela te respondeu mesmo? Sem se importar em não saber quem é? – perguntou Sirius.
- Eu já disse que sim, quer que eu te mostre a carta? – James já estava perdendo a paciência.
- Você reescreveu a carta, não foi? – perguntou Remus.
- Sim. – confessou James. – Segui seu conselho sobre sinceridade.
- Fez muito bem, amigo.
- Agora tome cuidado pra não escorregar e dar mais informações do que gostaria! – advertiu Sirius, em seu tom nada sutil.
- Sim, eu também pensei nisso. – disse James, pensando no que Lily havia lhe dito sobre seu irmão estar apenas preocupado com ele.
- Do que está rindo? – perguntou Sirius.
- Eu não estou rindo.
- Você deu um sorriso sim, Prongs. – concordou Remus.
- Ah – fez James, percebendo o que tinha acontecido – Foi só por causa de uma coisa que me passou pela cabeça, não estava rindo de você, Padfoot.
- E temos que tomar cuidado com esses apelidos agora, se ela ouvir já era!
- Você tem razão, Sirius. – disse James, sorrindo novamente.
Naquela noite Sirius e James tiveram treino de quadribol e voltaram tarde para o quarto. Sirius tomou um banho rápido e desmaiou na cama. Depois James tomou um banho demorado e se sentou perto da janela, olhando a lua minguante. Escreveu um bilhete para Lily e enviou Hermes.
- Se ela estiver dormindo, não a acorde. – disse para sua coruja, que piou afirmativamente.
Hermes voou até a janela de Lily e olhou pela janela aberta para o quarto escuro. Pousou no parapeito da janela e ficou a observar. Logo a garota o viu e se sentou na cama. A coruja voou até ela, que pegou o bilhete e o leu sob a luz de sua varinha.
"Está acordada?"
Ela rapidamente o respondeu.
"Sim, ainda estou, por quê?"
Instantes depois, Hermes estava de volta.
"Por que estava pensando... queria te conhecer melhor. Posso?"
Lily escrevia no mesmo pedaço de pergaminho.
"Claro."
E ficou esperando Hermes, que veio minutos depois.
"Certo, então me diga uma coisa sobre você, algo simples que qualquer amigo seu saiba, mas que alguém de fora não saiba."
Lily pensou por alguns segundos, sem saber o que dizer. Algo simples, ele disse. Algo que seus amigos reparariam. Até que se lembrou de algo.
"Bom, eu gosto de ver o pôr-do-sol nos jardins no fim de semana... e você?"
A resposta dele não demorou muito.
"Eu gosto de conversar à noite..."
Lily riu. Escreveu rapidamente.
"É, eu percebi...rs..."
Logo ele enviou outra pergunta.
"E uma coisa que você não gosta??"
Sobre isso ela não precisou pensar muito, sabia uma resposta.
"Não gosto quando perguntam como eu me saí em uma prova, ou depois que nota eu tirei. E você?"
Ele também não demorou nada para responder.
"Eu não gosto quando dizem para eu não ficar nervoso antes de algo importante pra mim..."
Lily concordou.
"É, eu também não gosto, mas pior é quando dizem algo do tipo 'ah, você não precisa ficar nervosa, vai se sair bem mesmo! Você é inteligente!', como se tudo fosse fácil pra mim, sem precisar estudar ou me esforçar pra nada!"
Mais alguns minutos e chegou outro bilhete dele.
Sei como é, e confesso que já pensei isso de você ao te ver nervosa antes de uma prova. Mas pra mim é justamente o contrário, enquanto pra você as pessoas confiam e têm altas expectativas em você, pra mim as pessoas desconfiam e nunca acham que eu possa me sair bem, ninguém me leva à sério... Isso só prova que não se conhece uma pessoa só pelas aparências.
Lily pensou em como a situação dele também era ruim.
"Bom, então acho que tudo o que devemos fazer é não esperar nada de mim e esperar muito de você! :)"
Logo voltou a coruja.
"Hahaha, eu sempre soube que você tinha senso de humor por trás do seu ar de menina séria."
A garota riu antes de responder.
"É claro que tenho, mas não espalha, vai arruinar minha reputação. Como poderei dar foras em garotos mimados e prepotentes se eles souberem que eu não sou uma megera indomável?"
Ficou esperando outra resposta.
"Ora, você não pode culpá-los por tentar sair com você. É totalmente compreensível."
Envergonhada com o rumo da conversa, Lily achou melhor encerrá-la.
"Fico lisonjeada. Você é muito gentil. Boa noite, Prongs."
Hermes voltou uma última vez naquela noite.
"Boa noite, minha querida. Durma bem."
