Cartas
Capítulo Cinco
Lily acordou com Annabelle sentada em sua cama, metralhando-lhe a falar.
- Que bonitinho! Vocês estão compartilhando a guarda do filho, é? – a ruiva, ainda muito sonolenta, não entender a quem ela se referia – Olha, se você continuar cuidando bem dessa coruja assim, logo vai sobrar pra você tomar conta desse animal o tempo todo. Não que ele seja trabalhoso e sujo, não, muito pelo contrário, essa bola de pêlos brancos até que é fofo e bem quietinho. Não é mesmo, Hermes?? – terminou fazendo aquele tom de voz que os adultos usam para falar com as crianças, enquanto passava a mão nada delicadamente nas penas brancas da cabeça da coruja, deitada aos pés de Lily na cama – De qualquer forma é um abuso deixar o animal dormir na sua cama.
- Belle! – gritou Lily, já tonta – Chega!
- Ai, bom dia pra você também, amiga que acorda de mau humor.
- Eu não acordaria de mau humor se não acordasse com você me deixando tonta de tanto falar!
A ruiva se levantou e foi ao banheiro lavar o rosto. Não era ninguém antes de lavar o rosto e escovar os dentes. Só depois isso sentia-se apta para desenvolver uma conversa e raciocinar. Então voltou e sentou-se ao lado da amiga, imóvel em sua cama.
- Pronto, agora pode falar.
Annabelle abriu um sorriso malicioso.
- Se Hermes está aqui é porque você recebeu outra carta, não é mesmo?
- Mas do que isso, na verdade. – respondeu Lily, coçando a cabeça, pensando se deveria contar detalhes, já que o entusiasmo da amiga era tão exagerado que às vezes lhe incomodava.
- Como assim? – perguntou Annabelle, ávida de curiosidade.
- Bem – começou Lily, sabendo que não conseguia não contar algo a Belle – foi mais como uma troca de bilhetes, sabe? Como uma conversa...
- Ai, que legal! Sobre o que vocês conversaram??
- Ele me disse que gosta de conversar à noite e que não gosta quando lhe dizem pra não ficar nervoso antes de algo importante pra ele.
- Hum – a animação de Annabelle se dissipou – Só isso?
- Como assim "só isso?" – perguntou Lily, indignada – Ele se abriu comigo, disse coisas que não se fala para qualquer um, ele confia em mim, e ainda mostrou um lado profundo dele, sobre expectativas, aspirações, a visão das outras pessoas e...
- Ihhhhh! – cortou a outra – Já vi tudo. Tá se apaixonando...
- O quê? – fez Lily, testa totalmente franzida, cabeça balançando negativa e veementemente – Não! Claro que não! Só estou lhe mostrando que ele é um cara sensível e que nossa conversa não foi "só isso"!
- Sei, tanto faz. – disse Annabelle sem emoção e gesticulando pra deixar isso de lado – O que eu quis dizer que é que tudo o que ele falou foi abstrato demais, apesar de você achar sensível e profundo – acrescentou logo, revirando os olhos – não dá pra usarmos pra identificá-lo.
- Belle, - começou Lily, segurando os ombros da amiga – eu não tenho essa sua urgência em saber quem ele é!! Deixe nossas conversas em paz!
- É mesmo? – perguntou, levantando uma sobrancelha e o canto da boca em um sorriso – E se eu tiver uma idéia pra descobrir quem ele é?
A ruiva abriu a boca, porém nenhum som saiu dela. Voltou a fechá-la, sem saber o que dizer, ou até mesmo o que pensar.
James bebeu do seu suco de uva e devolveu o copo à mesa do café da manhã.
- Então quer dizer que Hermes dormiu no quarto da Lily essa noite? – perguntou um risonho Sirius, porém em um tom de voz baixo, já que estavam no início da mesa, ou seja, perto da entrada por onde passava muita gente.
- Sim. Ele adora ela! – respondeu sorridente – Bem que dizem que os animais ficam muito parecidos com seus donos.
- E você não acha que essa coruja pode acabar te dedurando?
- Não, Hermes é um cão fiel tanto quanto você! – disse James, batendo nas costas de Sirius.
- Nem mesmo acidentalmente? Tipo, entregando uma carta em local público?
- Não, eu já lhe pedi pra só me entregar correspondência estritamente no quarto! Eu não sou um gênio? – James sorria, arqueando as sobrancelhas duas vezes.
- Certo, mas... e se ela trouxer a coruja pra cá? Hermes não acabaria voando pra você?
- Meu caro amigo, Padfoot, Lily não está atrás de mim com um detetive, ele disse que tudo bem eu não me identificar, ela sabe esperar o momento certo.
- Ela sim, mas eu penso naquela amiga demoníaca dela, a de cabeços castanhos cacheados que não desgruda dela... Ontem mesmo eu a vi perguntando pra um corvinal intelectual idiota se ele tinha irmãos estudando no castelo...
- Ah, mesmo que essa garota se intrometa de detetive, ninguém nunca vai suspeitar que o irmão a que me referi nas cartas era você.
- Pessoal – chamou Remus, apontando para algum lugar atrás dele – que tal olhar pra elas lá no outro lado do salão.
James e Sirius olharam por cima do ombro de Remus e, para o total espanto dos dois, Lily e Annabelle estavam entrando no salão principal com Hermes, que pousava no ombro desta. Os olhos de James se arregalaram e ele caiu para trás, literalmente (numa mistura de susto e reflexo de fuga), dando uma espécie de cambalhota e ficando pelo chão mesmo, de quatro, tentando se esconder atrás do assento de madeira contínua. Alguns grifinórios o olharam de maneira torta, outros riram. Mas ele não se importava, levantou a cabeça apenas o suficiente para ver as duas.
- Ferrou. – disse Sirius.
- Você e essa garota têm mentes malignas gêmeas!! – disse James.
- Eu e essa garota não temos nada em comum! – disse Sirius, ríspido.
- Que tal deixar isso pra depois? – sugeriu Remus, rindo – Que tal sair de fininho, James?
- Claro. – disse o maroto, meio atordoado.
Para a sorte dele, as meninas se dirigiram ao meio do salão, passando por entre as mesas da Corvinal e da Lufa-lufa, já que duvidavam muito de que o correspondente misterioso da ruiva pudesse da Grifinória ou da Sonserina.
James se levantou e ia saindo, quando parou.
- Espera, Hermes também conhece vocês dois muito bem! É melhor irmos todos.
- Droga, sabia que ia sobrar pra mim! – disse Sirius, pegando um último pedaço de torrada e se levantando também, com a torrada pela metade para fora da boca, sendo acompanho por Remus.
Logo os três já haviam saído.
As meninas, por outro lado, estavam terminando frustradas o passeio por entre as mesas supostamente mais promissoras.
- Vamos lá, corujinha! – dizia Belle, oferecendo biscoitos a Hermes – Mostre-nos seu dono.
A garota piava (ou tentava) para a coruja, atraindo olhares questionadores e debochados.
- Piiiiiiiiiiu, piu, piu, piu, piu. Vamos lá, Hermesinho fofinho da titia.
- Belle, por favor, chega. – pediu Lily, com a mão na testa como se fosse uma viseira, numa tentativa de esconder-se – Ele não deve estar aqui, vamos pra nossa mesa.
- Hermes, menino mau, muito mau. Não quer ajudar a titia.
A coruja piou, ofendida, bicou o dedo de Annabelle e alçou vôo para fora do salão comunal. Lily abafou um riso.
Naquela noite ela recebeu outra carta do seu correspondente misterioso, confirmando suas supeitas de que ele tinha visto sua patética tentativa de identificá-lo no café da manhã.
"Querida Lily,
Hermes chegou ao meu quarto um tanto quanto irritado hoje, acho que ele não gostou do passeio pelo salão comunal com sua excêntrica amiga. (risos)."
Envergonhada, ela respondeu.
"Querido Prongs,
Me perdoe por tentar descobrir quem você é desta maneira tão traiçoeira. Foi idéia da minha excêntrica amiga, Annabelle. Ela é um amor de pessoa, mas às vezes é exagerada e obcessiva e ela quer desesperadamente saber quem você é. Eu prometo que isso não vai se repetir.
Pra você ter uma idéia, hoje ela me veio contar que Sirius Black tem um irmão aqui em Hogwarts, na Sonserina. Nem preciso dizer que eu tive um ataque de risos quando ouvi isso, não é mesmo? Ela cogitou a idéia de que você poderia ser Sirius Black! (risos). Como se ele fosse capaz de se corresponder com uma garota! Eu acho que ele não é capaz nem de conversar com um garota se não for para agarrá-la! Mas deixa isso pra lá, eu acho que Annabelle talvez tenha uma queda por ele, por mais que não admita. Ela já recusou sair com ele, mas sei que logo ele vai convidá-la novamente e ela aceitará.
Enfin, espero que não esteja chateado comigo."
Logo veio a resposta dele.
"Imagina se eu ficaria chateado com você, Lily. Foi divertido, sua amiga teve uma idéia bem original. Mas diga a ela que não será tão fácil assim descobrir quem eu sou. (risos).
Talvez ela deva mesmo sair com o Black, eles parecem ter alguma coisa em comum. Por favor, não me entenda mal, mas é que Black também tem alguma coisa de excêntrico às vezes. (risos). Quem sabe ela não conseguirá dobrá-lo? Sempre tem uma garota diferente que consegue prender esses mulherengos, fazê-los esquecer das outras e querer só ela... especialmente nessa época de amadurecimento."
Com um riso debochado, Lily pegou sua pena e escreveu furiosamente.
"Sirius Black? Amadurecendo? Há! Só pode ser uma piada! Ou você é muito crédulo nas pessoas ou muito sem noção!"
A resposta dele, porém, veio suave.
"Lily, querida, não seja tão dura. Você não pode achar que conhece uma pessoa só porque passa por ela todos os dias durante anos. Você precisa conversar com ela para conhecê-la."
Mais uma vez Lily foi implacável.
"Talvez você tenha razão, mas eu não tenho vontade de conversar com pessoas que demonstram ser debochadas, prepotentes e infantins."
Então veio a última carta dele naquela noite.
"Bom, eu não quero discutir com você. Sinto muito se a aborreci com a conversa, só estava tentando lhe abrir os olhos.
Tenha uma boa noite, Lily."
A ruiva então ficou se perguntando se ela teria aborrecido ele com a conversa. Talvez estivesse mesmo sendo muito dura. E teimosa.
Alguns dias depois, durante os quais James e Lily trocaram cartas sobre seus dias e lições e professores, James achou que já poderia contar a Sirius sobre Annabelle sem consequências que o dedurassem como sendo o amigo anônimo da ruiva.
Era um sábado à tarde e eles estavam na sala comunal.
Como previa, Sirius foi imediatamente até a morena no sofá e a convidou para sair.
A garota levantou uma sobrancelha, desconfiada, fingiu pensar um pouco sobre o assunto, levantou o canto da boca num sorriso malicioso e finalmente aceitou.
- Evans! – chamou James, quando as duas já voltavam a conversar – Não quer aproveitar e fazer um encontro duplo? – sugeriu, piscando para ela.
A ruiva revirou os olhos, não respondeu e voltou a falar com Annabelle, ignorando-o.
Mais tarde, naquela noite, Lily estava sozinha em seu quarto, esperando Hermes chegar, se é que ele viria naquela noite. Afinal seu correspondente misterioso poderia ter planos para um sábado à noite.
No entanto, para sua felicidade, Hermes bateu em sua janela. A garota correu para abri-la, deixou a coruja pousar e pegou a carta.
"Nada de bom pra fazer num sábado à noite?"
Ela riu com a pergunta.
"Não, nada. Na verdade, estou triste. Hoje briguei com minha amiga, ela foi sair com um idiota que vai acabar partindo o coração dela. Eu disse que ela ia acabar saindo com ele. Ela não admite, mas eu sei que ela gosta dele e ele não vale nada! Ele já saiu com mais da metade do castelo e sempre despreza todas elas depois, como se fossem objetos usados descartáveis, sem valor no dia seguinte. E o pior foi o idiota do amigo dele me convidando pra sair com eles em um duplo encontro, achando que eu finalmente iria aceitar sair com ele só por que minha amiga foi estúpida o suficiente pra aceitar."
James sabia que se tratava de Sirius, citar nomes era desnecessário depois daquela conversa deles sobre Sirius e Annabelle. Estranhou o fato de ela estar tão encomodada com a situação, mesmo sabendo que era inevitável.
Mas o que o deixou impressionado mesmo foi ver a visão de uma garota sobre algo que ele também fazia. James nunca tinha pensado daquela forma. Achava apenas que saía uma noite de curtição com uma garota qualquer e que a curtição na maioria das vezes se extinguia ali. Algumas o procuravam depois e ele delicadamente as dizia que a noite tinha sido ótima, mas que ele tinha treino de quadribol, dever de casa etc, e elas dificilmente retornavam. Pensava que a saída tinha atingido sua finalidade e pronto. Nada mais. Nunca prometera nada a elas. Assim como Sirius fazia. Não sabia que elas se sentiam como objetos usados descartáveis. Nunca tinha parado pra pensar nisso. Por isso Evans nunca aceitara sair com ele. Ela não queria se sentir descartável.
James achou melhor deixar para depois sua análise sociológica sobre relacionamentos e suas próprias ações e se concentrar no caso específico de Sirius e Annabelle para ter o que responder.
Sabia que a única maneira de uma garota chamar a atenção de Sirius, assim como acontecera com ele, era se ela o ignorasse e/ou rejeitasse. E, pelo pouco que conhecia Annabelle depois de anos de convivência superficial na grifinória e pelo que Lily contava, sabia que ela não era do tipo de garota convencional. Ele riu pensando mais uma vez que era a combinação perfeita.
"Não acho que você tenha muito com o que se preocupar, Lily, sua excêntrica amiga vai saber lidar muito bem com ele, vai ignorá-lo amanhã e isso vai deixá-lo furioso. Ele vai acabar indo atrás dela e aí quem sabe eles não se entendem? (risos).
Quanto ao amigo dele, você já pensou que ele sabe muito bem ao te convidar pra sair que você vai recusar?"
James riu, de fato ele sempre sabia. Ele nem mesmo esperava mais que ela aceitasse algum dia. Convidava porque achava engraçado vê-la furiosa com ele, porque gostava de ir provocá-la, porque não sabia como falar outra coisa com ela. Ao menos não pessoalmente. Se ela aceitasse seu convite ele até ficaria chocado. Perdido. Resolveu contar isso a ela.
"Eu acho que ele nem espera que você aceite e, se um dia você aceitasse, ele ficaria completamente chocado, sem saber o que fazer."
Lily leu e releu aquela carta com muita atenção sentada sobre seus joelhos no chão do seu quarto silencioso, recostada ao pé da cama. Não esperava "ouvir" nada daquilo. Talvez ele estivesse certo sobre os dois, aquela parecia mesmo uma conduta típica de Annabelle. Talvez isso deixasse mesmo Sirius Black furioso.
Agora, quando ao Potter, foi a parte que mais a deixou boquiaberta. Ele tinha razão. Pela reação zombeteira do outro a cada fora que ela lhe dava, sem se incomodar com os diversos "não"s, ele definitivamente já esperava essa resposta. Pior! Parecia se divertir com elas. Seu correnpondente misterioso parecia ser muito sábio. Mas como ele explicaria tanta sabedoria?
Lily franziu a testa.
N/A: Tenho uma teoria de que vocês mandam mais reviews quando eu demoro mais pra postar, isso é verdade? rs
Pessoas, reviews me dão idéias! Sério! Principalmente as que comentam detalhes da história.
Aliás, queria agradecer a F. Coulomb pelo comentário sobre Hermes + café da manhã, que me fez ter a idéia de a Annabelle levar Hermes ao café da manhã pra identificar o correspondente misterioso. \o/ Thanks a lot!
Deixem reviews!
Beijos!
