Cartas

Capítulo Seis

Lily franziu a testa diante da carta, sentada no chão sobre os joelhos no quarto deserto, recostada ao pé de sua cama.

Um sentimento de desconfiança surgia dentro dela. Ele parecia saber demais. Talvez ele estivesse muito mais próximo do que ela imaginava. Mas como? Precisava esclarecer isso.

"Prongs, me responda com sinceridade, como você pode saber de tudo isso? Ou você é um mago muito sábio ou você está próximo e nos conhece muito bem. Você é amigo de Sirius Black?"

Esperar pela resposta foi um longo exercício de domínio da ansiedade.

"Querida Lily,

A verdade é que eu entendo bem essa situação toda porque eu já fui assim como Black, agi exatamente como ele pelos seis anos que passei nesse castelo. Mas esse ano, não sei por que, não tenho agido assim. O ano mal começou, eu sei, não é mérito nenhum meu.

Mas agora, vendo sua visão, entendendo como as garotas se sentem em relação a caras assim, vejo que eu fiz a coisa certa, mesmo que pelos motivos errados.

Sabe aquela garota que eu tento conquistar? Agora eu entendo porque ela sempre me recusou. Realmente, ela não é uma garota para uma noite só, agora eu vejo isso.

E agora eu tenho os motivos certos pra fazer a coisa certa.

Que meu irmão não leia isso, mas começar a conversar com você foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Acho que eu nunca tinha parado pra realmente ouvir uma garota... e imagino que você esteja decepcionada comigo lendo isso agora..."

E realmente Lily estava decepcionada. Não esperava de forma alguma que aquele rapaz gentil e educado com ela desde a primeira carta fosse, pelo menos até pouco tempo atrás, um cara como Sirius Black. Bom, mas ele não podia ser exatamente como Black, afinal ele estava amadurecendo e, mais ainda, sendo sincero com ela. Ele não podia ser tão ruim assim.

Ficou olhando para o pergaminho por um tempo, pensando no que responder. O mínimo que podia fazer era ser igualmente sincera.

"Querido Prongs,

De fato estou um pouco decepcionada, pensei que você fosse um cara mais maduro e não do tipo que descarta garotas, mas fico feliz por ter te ajudado a enxergar isso e refletir sobre os seus atos, para que nunca mais aja dessa maneira lamentável.

Boa noite, até amanhã,

Lily."


No dia seguinte Lily estava distraída pensando sobre o seu amigo misterioso quando começou a reparar em Annabelle totalmente ignorando Sirius Black ao longo do dia, deixando o maroto profundamente irritado. À noite ela recebeu uma carta de Prongs perguntando como sua amiga estava e ela lhe respondeu contando como ele havia acertado em tudo.


A semana passou agitada, os treinos de quadribol estavam intensos, o primeiro jogo seria em menos de duas semanas, com a grifinória enfrentando a sonserina.

Além disso a escola estava animada com o passeio a Hogsmeade no fim de queria treinar também no sábado, mas parecia ser o único disposto a perder o passeio.

- Tá maluco! – disse Sirius, no café da manhã de sexta – Eu vou pra Hogsmeade!

- Como se tivesse alguma novidade naquela vila velha! – ironizou James – Por que você quer tanto ir? Convidou quem?

- Annabelle. – respondeu, passando a mão pela nuca, claramente não querendo admitir.

- Já vai sair com ela de novo? – estranhou James – E em um encontro? Na semana seguinte?? Desde quando você faz isso??

- Desde quando você escreve cartinhas! – respondeu Sirius, furioso.

- Certo. – disse James, cruzando os braços – Treinamos só domingo então. Vou desmarcar a reserva da quadra, antes que algum sonserino faça um escândalo por não termos usado a quadra reservada.

James se levantou e ia deixando o salão, quando viu a ruiva entrar. Já que não ia treinar, podia ir a Hogsmead também. Sabia que a amiga inseparável não ficaria com ela, então não custava nada tentar.

Se aproximou da garota, com um sorriso no rosto e passando a mão pelos cabelos lisos desarrumados.

- Olá, Evans! – disse ele, fazendo a garota parar a sua frente.

- Olá, Potter. – ela respondeu, sem animação alguma.

- Quer sair comigo? Em Hogsmeade? – perguntou, sorridente.

A ruiva o olhou, semi-cerrou os olhos e respirou fundo.

- Sim. – respondeu ela.

Os olhos do outro se arregalaram e ele engoliu em seco. Realmente não esperava aquilo, seu plano de conquistá-la através das cartas ainda estava em execução. As cartas, pensou James, ela estava aceitando só para vê-lo ficar chocado, sem reação. Então sorriu. Seu "eu anônimo" tinha grande influência sobre ela.

- Mesmo? – perguntou ele.

- Não. – ela respondeu, sorrindo sarcasticamente – Só queria ver a sua reação. Na verdade eu já tenho planos. Tchau, Potter.

O sorriso se desfez imediatamente. Ela já tinha planos? Ela não tinha falado nada sobre ninguém nas cartas a semana inteira, nem sobre sair em Hogsmeade. Será que ela estaria mentindo? Certamente iria dar um jeito de perguntar isso na próxima carta naquela noite. E assim o fez, ou tentava fazer, sentado no chão no quarto sozinho à noite.

"Querida Lily,

Quais sãos os seus planos para amanhã?"

James amassou o pergaminho assim que terminou de escrever e o jogou na cama por cima do ombro.

"Querida Lily,

Vai pra Hogsmeade amanhã com alguém?"

Mais uma vez o pergaminho foi furiosamente amassado. James coçou a cabeça, incomodado.

"Querida Lily,

Alguma coisa para me contar?"

À medida em que a frustração aumentava, proporcionalmente a raiva também aumentava. Mais um papel amassado jogado pelo quarto.

"Querida Lily,

Você conversou com Potter hoje, seguiu meus conselhos?"

- O que você é? Um psicopata que persegue a garota o dia inteiro no castelo? – ele já estava falando sozinho.

Amassou o quarto pergaminho com força e o jogou longe. Respirou fundo, tentando relaxar o maxilar tenso.

"Querida Lily,

Como foi o seu dia hoje? Amanhã termos uma folga do castelo, você vai pra Hogsmeade, não vai?"

James finalmente dobrou o pergaminho e o prendeu na curiosa coruja que o olhava com a cabecinha de lado, sem entender o que se passava na mente confusa de seu dono. A resposta não demorou. Parecia que havia um acordo silencioso entre eles de que estariam nos respectivos quartos no fim do dia, para conversarem antes de dormir.

"Olá, Prongs,

Sim, eu vou pra Hogsmeade, você também vai?

Você não vai acreditar, hoje James Potter veio todo sorridente pra cima de mim me convidando pra sair com ele em Hogsmeade e, pensando no que você tinha me dito, eu aceitei, respondi que sim.

Você precisava ver a cara dele, ele ficou simplesmente boquiaberto, chocado, até que a ficha caiu e ele abriu aquele sorrisão e perguntou se eu estava falando sério. Mas aí é claro que eu disse que não, que já tinha planos. Foi impagável! (risos).

De fato eu já tinha aceitado sair com o Lucas, da corvinal, já que a Annabelle vai passar o dia com Sirius Black. Estou começando a achar que você tinha razão nisso também, talvez Annabelle seja a garota que vai, pelo menos por um tempo, prender Black. Afinal, não é qualquer garota que consegue sair com Black pela segunda vez, ainda mais na semana seguinte e num encontro em hogsmeade, a maioria consegue só uma sala vazia ou um armário de vassouras! (risos)"

James teve de reler a última parte da carta umas três vezes, pois não conseguia se concentrar o suficiente pra entender o que as palavras escritas lhe diziam. Sua mente estava presa na parte em que ela confirmava que iria sair com alguém e ainda lhe dizia quem, um almofadinha intelectual e tedioso da corvinal.

Pegou sua pena, a mergulhou em tinta, mas não sabia o que escrever, sua mente parecia um borrão repetindo a imagem dela sorrindo sarcasticamente para ele dizendo que já tinha planos. A tinta na ponta da pena secou enquanto James despenteava ainda mais seus cabelos, angustiado.

Já a tinha visto saindo com outros caras antes, mas nunca tinha reagido dessa maneira. Aliás, nem mesmo com relação a nenhuma outra garota. O sentimento mais próximo dessa raiva crescente misturada com frustração experimentava quando perdia o pomo de ouro pra algum adversário.

Se forçou a escrever uma resposta, concentrando-se ao máximo para não deixar demonstrar nada disso na carta.

"Sim, eu também vou.

Viu? Foi como eu disse, ele te convidava sem nem esperar mais que um dia você aceitasse.

Bom passeio então. Vocês vão pra onde?

Sim, realmente Black está reagindo de maneira estranha, eu achei mesmo que Annabelle teria um efeito diferente sobre ele..."

Não achou que isso fosse possível, mas sua raiva aumentou ainda mais quando leu a resposta de Lily sobre o lugar em que eles iriam: o café mais romântico de Hogsmeade, o café da Madame Puddifoot. Tudo o que conseguiu responder depois disso foi se despedir e desejar a ela uma boa noite.

Socou o chão com o punho fechado, o maxilar cerrado pressionando a mordida.


- Mas você precisa me ajudar! – pedia a Sirius, durante o café da manhã.

- De jeito nenhum! Se eu levar Annabelle pra Madame Puddifoot ela vai achar que eu vou pedi-la em namoro!! Eu não entro naquela prisão perfumada por nada nesse mundo!!

- Mas eu preciso saber o que vai acontecer lá! – disse James, desesperado.

- Pega a sua capa e fica na porta, ou até lá dentro mesmo, sei lá, dá seu jeito!

- É isso!! – disse James, os olhos arregalados em animação, virando-se para Remus – Você vai me ajudar!

- Por Merlin, o que sua mente doentia está planejando?? – perguntou Remus, se divertindo com as reações do outro.

- Você entra e senta ao lado deles, pra que eu possa ficar por perto invisível sem ninguém esbarrar em mim! Eu preciso que você ocupe a mesa, só isso!

- E que fique sozinho no café cheio de casais, parecendo que eu levei um bolo... – Remus respirou fundo, mas ainda rindo – O que não se faz por um amigo...

Mais tarde, depois de Sirius ter desaparecido, Remus e James estavam em uma ruela próxima ao café, esperando que o casal entrasse. James andava de um lado para o outro, segurando a capa em suas mãos. Remus vigiava a rua e, ao mesmo tempo, observava o outro, com um sorriso no canto da boca.

Quando o casal apareceu, James se escondeu por debaixo da capa e entrou com Remus seguindo os dois. Conforme o combinado, Remus sentou-se ao lado do casal e James se sentou invisível na mesa com Remus, na cadeira oposta.

James ficou mais angustiado ao perceber que a ruiva não parecia desconfortável ou nervosa, pelo contrário, parecia estar se sentindo muito confortável em estar com aquele corvinal no café romântico bruxo.

A garçonete anotou os pedidos e o casal começou uma conversa trivial sobre as aulas. Lily também parecia à vontade na conversa. James se perguntava se aquele era mesmo um primeiro encontro. Teria ela já saído com ele antes?

Os pedidos chegaram e a conversa foi suspensa, para depois ser retomada. A ruiva bebia um chocolate quente, enquanto ele tomava um chá.

Remus bebia um café. Pegou mais açúcar e colocou em sua xícara. Ao mexer o café com a colher, começou a falar bem baixinho, como se conversasse com sua xícara.

- Engraçado, meu amigo, seu plano de conquistar a garota através das cartas teve o efeito contrário, parece que você é que se apaixonou por ela.

James pela primeira vez desviou o olhar da mesa ao lado e encarou seu amigo, embora soubesse que o outro não podia lhe ver. Entretanto não disse uma palavra. Não sabia o que responder, nem mesmo para negar.

- Ou você ainda não percebeu que está com ciúmes?

James engoliu em seco. Agora que Remus havia lhe dito, parecia óbvio. Sim, ele estava com ciúmes, desde o dia anterior, quando ela lhe dissera que ia sair com outro. Ainda mais depois de, mesmo que apenas por um breve segundo, ele ter achado que ela iria finalmente sair com ele.

Voltou a olhar para o casal e sentiu seu sangue ferver vendo o modo como o corvinal olhava para ela. Sentia seu coração batendo forte na angústia e expectativa do que aconteceria ali entre eles. Muitos casais se beijavam e o maroto temia que eles fizessem o mesmo.

Lily conversava bastante, falando incessantemente quando o rapaz não estava a falar de suas notas, de livros ou de seu futuro brilhante. O que ela podia ter visto nele? Ele era insuportável!

O café de Remus acabou e ele pediu outro, sussurrando depois que era a única maneira de se manter acordado naquele lugar chato e cheio de incenso. James ignorou o comentário e continuou a observar o irritante casal, com seus nervos a flor da pele. Sua vontade era dar um soco naquele almofadinha. E essa vontade teve de ser reprimida como nunca antes ele precisou reprimi-la com tanta força quando o corvinal esticou sua mão cheia de dedos para segurar a delicada mão dela.

O maroto engoliu em seco mais uma vez, vendo o outro se aproximar da ruiva, no intuito de beijá-la. Aquele segundo durou uma eternidade para James, como se ele estivesse vendo a cena toda em câmera lenta. Porém, o segundo seguinte se passou em um borrão, no qual tudo aconteceu muito rápido e ao mesmo tempo.

James não segurou seu impulso e se levantou de um pulo enquanto a garçonete chegava com o café de Remus e tropeçou no espaço visivelmente vazio ocupado por James e se inclinou para a mesa em que estava o casal e deixou acidentalmente o café de Remus cair sobre a blusa do corvinal, enquanto Remus se levantava para ajudar a garçonete a não cair, Lily levava a mão à boca num grito mudo e o corvinal gritava pelo susto e pelo líquido quente caindo sobre ele.

Instaurada a confusão, James aproveitou para sair sem ser visto, ou melhor, notado, sendo seguido por Remus após deixar o dinheiro dos cafés na mesa e se desculpar com a garçonete e com o casal, como se ele tivesse causado o acidente.

Os dois marotos foram direto para o Três Vassouras e se sentaram em uma mesa bem ao fundo.

- Uma cerveja, por favor. – pediu James, o sangue quente pulsando ainda por todo o seu corpo.

- Amanteigada? – perguntou o garçon.

- Não, com álcool mesmo. – respondeu em tom seco.

James bebeu o líquido amarelo tão rapidamente que Remus protestou.

- Vai com calma, cara, você nem sabia se ela iria beijá-lo. Na verdade eu acho que foi burrice agir por impulso, você tinha que ter ficado quieto pra ver a reação dela!

- Eu não ia agüentar ver aquilo! – disse James.

Remus respirou fundo, sabia que aquilo era verdade. Só é possível pensar friamente estando fora da situação.

James se ajeitou na cadeira, ficando de forma mais largada, recostado ao encosto, apoiando o queixo e a boca no punho.

- Mas também não ia agüentar não ir lá ver os dois, não é mesmo? – disse Remus, apontando a contradição, típica dos sentimentos.

- Ok, eu confesso, você tem razão! – começou James, remexendo-se na cadeira – Eu gosto dela, de verdade! Não sei como isso foi acontecer, eu estava tentando conquistá-la, tentando mostrar a ela quem eu realmente sou, e de repente eu não consigo mais ficar sem falar com ela todos os dias e não suporto a idéia de ela sair com outro cara!

- Que tal dizer isso na próxima carta? – sugeriu Remus, sorrindo.

- Pra ela querer saber quem eu sou e me dar um tapa na cara quando descobrir que conversou esse tempo todo com James Potter??? Ela vai me odiar pra sempre! Nunca mais vai falar comigo! Eu tô muito ferrado!

- Você pode se surpreender com ela, sabia? – disse Remus, ainda sorridente – Mas ainda é cedo pra arriscar, talvez seja melhor você continuar com o seu plano e quem sabe de repente ela também não consiga mais ficar sem falar com você todos os dias e não suporte a idéia de te perder o suficiente pra aceitar você sendo James Potter?

- Merlin te ouça! – disse James - Mas se ela me contar que beijou ele eu acabo com ele!


N/A: Obrigada a F. Ismerim Snuffles F. pela idéia "Hogsmead iria bem junto com uma pitada de capa de invisibilidade". \o/ Thanks a lot, eu nem lembrava que Hogsmeade existia, mas se encaixou perfeito na estória!

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