Cartas

Capítulo Nove

Lily comeu seu café da manhã de forma distraída, tentando juntar as peças de seu quebra-cabeça, mas as peças não eram compatíveis. Pensar que era Remus fazia tanto sentido. Sendo da Grifinória, sendo próximo, sendo gentil e inteligente... mas e agora? Poderia ser qualquer um! Olhou para os milhares de garotos no salão principal e sentiu um certo desânimo misturado com frustração.

- Mas como você chegou a essa conclusão? – assustou-se com a pergunta de Annabelle, de tão distraída que estava.

- O quê?

- Que não é ele!

- Ah, sim, bom... teve as cartas ontem à noite enquanto Remus estava saindo com uma garota e agora no café eu o ouvi falar com que não gostava de algo que Prongs disse ontem que gostava.

Annabelle enrugou a testa e olhou para os marotos na mesa.

- O que foi? – perguntou a ruiva.

- Não sei... tem coincidências demais...

- O quê? Você acha que foi tudo de propósito?

- Sim, Lil, talvez Remus saiba quem é e tenha lhe contado sobre sua confusão... então eles fizeram de tudo pra você perceber que não é ele... deve ser alguém próximo a ele...

- Minha confusão? – havia raiva no tom da ruiva – Você que causou essa confusão e já está querendo começar outra!

- Mas Lily, pensa comigo, faz todo o sentido ser P-

- Não ouse dizer esse nome! – ela interrompeu – Nenhum daqueles amigos do Remus pode ser Prongs! Você não vê? Eles são completamente diferentes! É um insulto achar que Prongs pode ser aquele...aquele idiota!

E com isso, se levantou e foi embora, passando pelos marotos na mesa e olhando de maneira fixa e fuzilante para Potter. Ele até podia estar diferente ultimamente, mas jamais poderia ser um cara maduro, fofo, romântico e gentil como Prongs.


- O que eu fiz pra ela? – perguntou Potter.

- Por quê? – Remus, que estava de costas, não entendeu.

- Os olhos dela pareciam varinhas com Avada Kedrava!

- Ah, ela deve estar te culpando por alguma coisa que você não fez, pra variar... – sugeriu Sirius.

- Ou ela está tão próxima da verdade que não consegue suportá-la. – sugeriu Remus.

- Por Merlin! Eu ainda não estou pronto pra isso! E ela certamente também não está! – desesperou-se James.

- Calma, cara, se concentra no jogo esse fim de semana.

- Eu não vou perder o jogo por distração, Sirius, se é disso que tem medo.

- Espero que não mesmo!

- Hey! – chamou Remus – está na hora da aula, vamos?

Os outros dois continuaram se encarando por mais dois segundos e depois foram pra aula.

James se acalmou apenas quando teve uma surpresa em sala: Lily se sentou atrás de Remus e parecia também mais calma. Ele, ao lado de Remus, pôde ouvir a conversa.

- Remus – chamou Lily, sorrindo gentilmente, de forma amigável – obrigada pela ajuda na aula de herbologia. E me desculpe se agi de maneira estranha ultimamente.

- Sem problemas, Lily. – Remus sorriu de volta.

- Como foi seu encontro ontem? – perguntou ela.

- Ah, foi ótimo! Acho que vamos sair de novo hoje. Pelo visto o final de semana será só de fazer exercícios atrasados!

Os dois riram.

James tentou conter o sorriso que vinha do seu peito inflado de confiança e alegria, vendo que a garota não havia caído nos encantos de Remus, mas sim nos de Prongs. E agora que tinha separado as duas figuras, tudo estava de volta ao normal com Remus.

Achou melhor não falar com ela, depois de toda aquela raiva que ela demonstrara no café da manhã. Era melhor esperar ela esquecer o que quer que fosse que tinha causado aquilo.

Tentou prestar atenção na aula, mas simplesmente não conseguiu.

No final da aula, ainda a ouviu perguntar ao amigo:

- Remus, eu sei que vai parecer estranho, mas eu queria saber uma coisa... você se lembra de qual feitiço usou pra deter a planta?

O maroto franziu a testa.

- Eu não enfeiticei a planta. Só segurei você. Vai ver outra pessoa lançou o feitiço.

- Foi o que eu pensei. Obrigada. Até mais!

E, sorridente, a garota saiu. James, por outro lado, engoliu em seco.

- Se ela me perguntar por carta depois se fui eu, vou ter de responder que sim e aí ela vai saber que Prongs estava na aula de herbologia!

- Eu disse que ela está próxima da verdade. – disse Remus – O círculo está se fechando amigo...

Mas, para sua surpresa, ela tinha perguntas que julgava mais importante a fazer. E foi assim que ela respondeu sua carta naquela noite. Ela começou de forma bem genérica, abstrata, até ir diretamente ao ponto.

"Prongs, acredita em coincidência?"

"Bom, minha princesa, Hermes bater justamente na sua janela foi uma incrível e adorável coincidência."

"Sim, mas às vezes eu acho que você vê tudo, que sabe sobre tudo e todos, você parece onipresente! (risos). Prongs, você percebeu que eu estava achando que você era Remus Lupin, não foi? E deu um jeitinho de eu perceber que não era, não é mesmo?"

"Sim, Lily, eu percebi. E sim, sabia que ele estaria ocupado à noite e fui falar com você para que você visse que não era eu naquele encontro. E eu não sou onipresente, mas presto atenção em tudo que acontece ao seu redor. Pra dizer a verdade, eu já fazia isso antes mesmo de começarmos a trocar cartas."

"Prongs, você é alguém com quem eu não tenho o menor contato ou, quando você me vê, você fala comigo?"

"Eu sempre falo com você, princesa. Mas não muito."

"E você vai falar comigo no jogo?"

"Certamente, minha princesa."

"Prongs, por que eu nunca percebi você antes?"

"Porque a gente só enxerga o que quer ver, Lily."


Então o sábado finalmente chegou e o time foi agitado para o campo de quadribol. Lily estava ansiosa. Tinha esperanças de finalmente descobrir quem era seu correspondente misterioso. Com seu coração batendo a mil por segundo, ela chegou ao campo. Olhava para todos os lados, vendo todos os garotos e pensando coisas como "Não, esse nem me cumprimenta" ou " Esse fala até demais" ou ainda "Talvez esse, ele fala pouco comigo", mas sem a menor idéia de quem efetivamente poderia ser. E, como foi cumprimentada pelas mesmas pessoas de sempre, continuou sem saber.

O jogo já havia começado, a Sonserina estava fazendo mais pontos do que a Grifinória, mas Lily não se importava, continuava a olhar para rostos masculinos pensando se eles poderiam ou não ser Prongs.

- Lil! – chamou Annabelle, revoltada – O jogo é ali na frente!

- Nada ali na frente me interessa, Belle.

- Tem certeza? – perguntou, com as mãos na cintura.

- Por que não teria? – respondeu, virando-se para frente e vendo jogadores voando para todos os lados, exceto por um, que parou bem a sua frente, acenou e sorriu, piscando para ela, que apenas o encarou. Depois voltou a voar rapidamente, girando como um parafuso.

- Potter é muito exibido! – comentou Lily, antes de voltar a olhar para os lados.

Annabelle balançou a cabeça negativamente e, por mais que quisesse, não falou nada.

Logo James Potter pegou o pomo de ouro, o jogo acabou e a Grifinória venceu. Todos estavam pulando animadamente, exceto pela frustrada ruiva que foi embora.


James e Sirius comemoraram com o time durante a tarde inteira. Porém, antes que anoitecesse, foram ao quarto buscar Remus – já meio debilitado em razão da primeira noite de lua cheia – e seguiram para a Casa dos Gritos. Nesse meio tempo, contudo, James escreveu uma rápida carta a Lily e pediu a Hermes que ficasse com ela aquela noite.


Lily estava sentada sozinha nos jardins, de frente para o lago, vendo o pôr-do-sol. Estava remoendo sua frustração e passando mentalmente sua última conversa escrita com Prongs.

"E eu não sou onipresente, mas presto atenção em tudo que acontece ao seu redor. Pra dizer a verdade, eu já fazia isso antes mesmo de começarmos a trocar cartas."

"Prongs, por que eu nunca percebi você antes?"

"Porque a gente só enxerga o que quer ver, Lily."

- O que ele quis dizer com isso? – se perguntava ela – Será que ele já tentou se aproximar de mim e eu não lhe dei uma chance? Será que é alguém óbvio e eu não quero ver? Por que eu não iria querer ver???

Hermes então pousou ao seu lado e ela pegou a carta que ele trazia, estranhando um pouco.

- Mas já? – perguntou à coruja, fazendo carinho em suas penas – Ainda nem anoiteceu!

"Querida Lily,

Você estava linda hoje no jogo.

Adoraria conversar com você hoje à noite, mas eu e Padfoot vamos passar a noite com nosso amigo, ele está doente de novo. Para onde vamos é um segredo que eu não posso lhe contar. Mas não se preocupe, nós estaremos bem.

Hermes irá lhe fazer companhia.

Por que não vai para a festa se divertir um pouco? Aposto que ainda haverá festa lá por muito tempo! (risos)

Até amanhã,

Com amor,

Prongs."

Lily, lendo a carta, primeiramente ficou corada. Depois tocada pelo gesto de amizade deles. E pela preocupação em deixar Hermes com ela. E ainda por sugerir que ela fosse se divertir. Ele realmente parecia onipresente, como poderia saber que ela estava ali sozinha? Talvez ele tivesse uma bola de cristal ou algo mágico do tipo. Ou talvez realmente prestasse atenção nela. Resolveu não pensar muito nisso. Nem no mistério todo envolvido nas circunstâncias de passar a noite com o amigo doente em local secreto. Já estava confusa demais sem isso tudo, não iria piorar as coisas.

Em minutos já era noite e uma bela lua cheia iluminava fracamente o ambiente, em um tom prateado.

- Lily!! – gritou Annabelle, atrás dela, com as mãos na cintura – Não acredito que você está aqui sozinha! Você nem parece uma garota normal!! Está tendo uma festa no castelo, sabia?? Nós ganhamos!! E se eu não voltar logo pra lá vai ter uma pilha de garotas em cima do Sirius! Então levanta essa bunda daí já! Por Merlin, Lily, por que você não é como as garotas normais que só se preocupam em com quem vão pro Baile de Máscaras??

A ruiva, que até então apenas ria da explosão da amiga, se levantou e arregalou os olhos.

- Baile de Máscaras?

- É, Lily! Halloween! Aloow? Por onde você andava? Estou tentando fazer o Sirius me convidar a semana inteira!

- Quando é? – perguntou, percebendo que sua cabeça realmente andava nas nuvens ultimamente.

- Em uma semana!!

O maxilar inferior de Lily despencou.

- Anda, vamos pra festa, esqueça um pouco essas cartas e vamos nos divertir!

Lily riu, lembrando-se da sugestão de Prongs. Pediu a Hermes que fosse para o seu quarto, levando a carta, e seguiu sua agitada amiga.

A festa, situada em uma área comum do castelo, reunia alunos das três casas e estava bastante animada. Annabelle, contudo, ficou muito irritada ao não encontrar Sirius.

- Tá vendo?! Ele já sumiu! – disse para Lily – Aposto que ele saiu com aquela loira da Corvinal!! Não acredito nisso!! Eles sempre somem nessas comemorações e vão para "festas privadas"!

A ruiva revirou os olhos. Isso era tão típico deles, não entendia como Annabelle podia esperar algo diferente. Então, paradoxalmente, Lily conseguiu afastar os pensamentos confusos e questionadores para se divertir com as outras meninas na festa, enquanto Belle ficou frustrada num canto, remoendo seus sentimentos por Sirius.


No dia seguinte, os marotos se jogaram exaustos na cama logo após o amanhecer. Graças a Merlin era domingo e eles não precisariam virar a noite e ir para aulas. James acordou, entretanto, quase nove horas, com Hermes lhe bicando.

- Vá embora. – disse ele, sonolento, sem nem procurar ver quem tentava lhe acordar.

Mas a coruja continuava a lhe bicar.

- Outch! – gritou ele, após uma bicada dolorosa. – Oh, é você. Tem uma carta pra mim? – seu tom de voz já havia amenizado.

Hermes lhe estendeu a patinha com o pequeno pergaminho enrolado.

"Querido Prongs,

Você já tem acompanhante para o Baile de Máscaras?"

Os olhos de James se arregalaram. Nenhuma pergunta sobre a noite misteriosa que passara em local desconhecido, nem sobre o jogo, nada. Apenas uma pergunta sobre o Baile. Provavelmente só ontem ela tinha se dado conta de que haveria um baile em uma semana. E definitivamente queria ir com ele.

É claro que ele queria ir com ela! Mas como faria isso? Não podia ainda se apresentar, ela ainda o odiava como James Potter. Foi então que uma palavra saltou aos seus olhos no pergaminho: máscaras.

Talvez se ele mudasse o cabelo, tirasse os óculos e colocasse uma grande máscara, ela não o reconheceria. Não falaria muito, mudaria o tom de voz, ficaria pouco tempo, o suficiente para uma dança, somente. Valeria totalmente a pena arriscar.

Sorriu.

"Não, minha princesa, você gostaria de ir ao Baile comigo?"

De repente, lembrou-se de que precisava ir para a Biblioteca, cumprir seu castigo.


Do outro lado da Torre da Grifinória, gritos acordaram Annabelle. Só restavam elas no quarto.

- Mas o que está acontecendo?? – perguntou a sonolenta garota.

- Ele vai ao baile comigo!!! – respondeu a animada ruiva.

- Agora sim você parece uma garota normal. Histericamente normal, mas normal. – disse Annabelle ainda sonolenta, mas que de repente arregalou os olhos – Espera, vocês vão se encontrar?! Pessoalmente?!

E então eram duas a gritar.

Lily, praticamente dando pulinhos de alegria, foi arrumar o cabelo para descer para o café da manhã. Ela podia não saber ainda quem ele era, mas ele certamente estaria lá e a veria. Enquanto penteava os cabelos ruivos cantarolando, Annabelle foi colocar a carta na mesa de cabeceira da amiga e encontrou a carta da noite anterior. Quando leu sobre Prongs e um amigo estarem fora a noite toda cuidando de outro amigo, as peças do quebra-cabeça rapidamente se juntaram na mente de Annabelle. Realmente, era óbvio. Lily não via simplesmente porque não queria ver. Resolveu que tiraria essa história a limpo.