Cartas

Capítulo Doze

Lily não conseguia dormir, a adrenalina lhe impedia. Estava deitada em sua cama, segurando com força o lençol que a cobria e encarando a escuridão. Pouco tempo de depois ouviu Annabelle entrar. Sentou-se abruptamente, assustando a outra.

- Menina, quer me matar do coração? – perguntou Annabelle, sussurrando.

- Vem aqui, preciso falar com você!! – sussurrou Lily.

A outra entrou em sua cama e elas se isolaram fechando a cortina de dossel magicamente.

- Eu beijei Potter. – a ruiva metralhou.

O maxilar de Annabelle despencou e seus olhos se arregalaram. Em seguida, ela gritou de animação.

- Ahh!! Não acredito! Como aconteceu? Conta!!

- Eu não sei! – disse Lily, desespero em sua voz, então começou a contar tudo em alta velocidade – Nós viemos juntos pra torre, aí antes de subir eu perguntei se tinha sido ele que tinha impedido aquela planta venenosa de me atacar, ele disse que sim, eu disse que nunca tinha imaginado que essas coisas um dia pudesse acontecer, como dançar com ele, sair com ele, ser salva por ele, ele disse que tinha mudado e pediu de novo uma chance e quando eu vi ele tava me beijando e eu não sei o que deu em mim que eu correspondi! Eu correspondi!!

- Uau! – fez Annabelle – Espera, você disse "sair com ele"??

Lily pressionou os lábios e desviou o olhar.

- Ele me convidou de novo, pra sair sábado... eu... eu não recusei.

- Ahh!! – Belle gritou novamente, abraçando a amiga – Eu sempre soube que vocês iam ficar juntos!!

- Sempre soube nada! – disse a ruiva, se desvencilhando dos braços da amiga – Simplesmente aconteceu.

- É, você ainda está surpresa porque só agora saiu da fase de negação... – disse como se pensasse em voz alta.

- Negação? – repetiu Lily – Eu não estava em negação.

- Claro que estava! Há dias, talvez semanas, que vocês dois estão nesse clima de romance e só agora você percebeu...

- Não era clima de romance, era clima de... – Lily procurava uma palavra que pudesse descrever a situação – de paz! Nós não estávamos saindo, namorando, nada, só deixamos de brigar! Ele amadureceu e eu deixei que ele se aproximasse, só isso...

- Claro... – concordou Belle, embora sarcasticamente, o que a outra não percebeu por estar mais preocupada com outra coisa.

- Mas o que eu faço agora??

- Como assim, Lil?

- O que eu faço com Prongs?

- Ah, não esquenta. Ele vai entender... – Annabelle riu.

- Eu adoro esse príncipe encantado, sabe? – começou Lily, com um ar de sonhadora – Mas eu queria alguém real, alguém que esteja ao meu lado, entende?

- Entendo, James Potter é bem real, deu até pra sentir o sabor, não é?

Lily jogou seu travesseiro em Annabelle, apesar de ter rido.

- Mas o que você vai fazer? Vai contar pra ele?

- Eu não sei, Belle, não sei como falar com ele, vou esperar que ele me envie uma carta... e vou explicar a situação...


Na manhã do dia seguinte, depois de uma noite mal dormida, Lily se cansou dos pensamentos que não deixavam sua mente em paz e resolveu procurar algo para ler, em uma tentativa de esvaziar a mente. Talvez, concentrando-se em um bom livro, conseguisse não pensar. Mas foi uma tentativa frustrada, porque assim que chegou à biblioteca percebeu que havia se esquecido de algo muito importante. Deparou-se com o motivo dos seus pensamentos.

- James! – ela deixou escapar, pelo susto de reencontrá-lo tão cedo, tropeçando em uma cadeira.

O maroto quase deixou cair no chão a pilha de livros que segurava, tamanho foi o susto de ouvir a garota dizer seu nome pela primeira vez. Ele sorriu, colocando os livros em uma mesa.

- Bom dia, Lily!

- Er... bom dia! – ela respondeu, nervosa – Eu tinha me esquecido da sua detenção...

Ele riu.

- Meu ego é grande, mas nem tanto. Eu sei que você não vem à biblioteca por minha causa. Não você... – ele riu novamente, passando a mão por entre os cabelos despenteados.

Lily estreitou os olhos na direção dele.

- Não se preocupe, – ele começou a se explicar – hoje parece que estão todos descansando do baile, só você acordou cedo.

Só então a garota notou que eles estavam sozinhos na grande sala. O nervosismo aumentou, o coração acelerou, ela corou e engoliu em seco.

James, por sua vez, estava adorando aquilo. Não esperava revê-la já assim, na manhã do dia seguinte, ainda mais com aquelas reações. Receara que ela acordasse no dia seguinte e se arrependesse da noite passada, voltando ao estado anterior de bloqueio em relação a ele, mas não, ela estava ali, envergonhada e sem saber o que fazer ou dizer, como uma garota apaixonada amedrontada, chamando-o pelo primeiro nome e corando. Ele nem havia enviado ainda carta alguma como Prongs, pois não sabia como deveria agir dali em diante. Estava tão feliz por estar conseguindo conquistá-la sendo ele mesmo que nem tinha mais vontade de escrever como Prongs. Queria contar logo tudo pra ela. Mas tinha medo da reação que ela teria. Talvez fosse melhor estabilizar mais os sentimentos dela em relação ele, sendo ele mesmo.

- Procurando algum livro em especial? – perguntou ele, quebrando o silêncio.

- Não, só queria ler pra esvaziar a mente. – ela respondeu, arrependendo-se quando já era tarde demais.

- Muitos pensamentos confusos? – ele sorriu, sabendo que eram sobre ele.

- Não. – mentiu, mas muito mal.

- Não quer sentar? – ele perguntou, indicando a cadeira da mesa em que estava.

- Claro. – ela respondeu, ainda envergonhada, e se aproximou e sentou.

James se sentou ao lado dela.

- Lily – ele começou, segurando a mão dela – gostei muito do baile ontem...

A respiração da garota ficou mais curta, mais rápida, parecia que faltava ar na biblioteca, apesar do grande espaço vazio e arejado.

- Principalmente da parte da sala comunal, depois do baile. – ele terminou abrindo aquele sorriso que fazia todas as garotas, e agora Lily também, derreterem.

Ela corou ainda mais, formando um todo avermelhado. Ele riu.

- Não precisa ter vergonha, Lily, não comigo.

Então, para sua surpresa, Lily sentiu o sangue do rosto diminuir de temperatura e seu coração desacelerar, embora de forma sutil. Ele a havia acalmado, sentia-se mais confortável agora.

Assim, atenuado o nervosismo inicial, eles conversaram por um longo tempo, uma conversa divertida num clima mais íntimo, que só foi interrompida já quase no horário do almoço.

- Bom dia, James! – disseram duas vozes femininas em coro, na porta da biblioteca.

- Bom dia, meninas! – ele respondeu, sorridente.

Lily não gostou de ver aquele mesmo sorriso causador de suspiros dirigido para as corvinais. Com os olhos estreitos e a testa franzida, se perguntava se não tinha se enganado sobre a mudança dele. Ele parecia o mesmo conquistador de sempre, talvez isso nunca fosse mudar. Talvez fosse melhor não se envolver com um cara assim.

James, ao voltar a olhar para sua ruiva, notou que ela estava com ciúmes. Por mais que tivesse adorado ver isso, ele percebeu que ela estava se questionando se não seria logo trocada por outra garota qualquer, percebeu que ela estava com medo de ser uma descartável. Mas como dizer a ela que não era isso, sem se denunciar, já que só Prongs sabia disso?

- Elas não vieram atrás de livros. – disse ela, com a voz fria e cortante.

- Não. Mas livros são só o que eu vou oferecer a elas. – ele respondeu, sorrindo.

- Fique à vontade, eu já vou indo. – disse, enquanto se levantava.

- Não vá ainda, – pediu James, gentilmente, segurando-a pelo pulso– já está quase na minha hora de sair, eu vou com você.

Lily olhou naquelas olhos castanhos brilhantes como os de uma criança que pede colo e não pôde recusar. Sentou-se novamente.

A conversa continuou até que finalmente era hora de almoçar. James pegou sua varinha e guardou a pilha de livros magicamente, piscando para Lily, que balançava a cabeça negativamente. Porém ela não lhe repreendeu, já que aquela detenção era injusta. A bibliotecária chegou logo em seguida e o liberou, então eles foram juntos para o salão principal.

Muito cedo para qualquer tentativa de aproximação, James controlou seu impulso de pegar na mão dela. Tinha medo de afugentá-la se não fosse aos poucos, já havia ido rápido demais na noite passada, tinha sorte de ela estar reagindo bem.

Assim, eles chegaram ao já agitado salão e se sentaram juntos à mesa da grifinória, para espanto de alguns e tristeza de muitas, e continuaram a conversar animadamente. Era possível ver os olhos deles brilhando e perceber que um era o motivo do brilho nos olhos do outro.


- Não vai mais mandar cartas? – perguntou Sirius, à noite no quarto.

- Não sei o que fazer... – confessou James, largado em sua cama.

- Ela vai estranhar se não receber mais cartas...

- Na verdade eu tenho medo de "Prongs" atrapalhar agora, Padfoot. Cara, você precisava ver o modo como ela dançava ontem comigo, comigo James Potter! – ele se sentou para contar, tamanha a empolgação – Foi totalmente diferente de como ela dançou com Prongs! Com Prongs ela estava tensa, insegura, parecia hipnotizada. Comigo ela estava se divertindo, estava gostando, estava... estava sendo ela mesma... parecia... apaixonada...

- Você sabe que Prongs também é você, né? – perguntou um debochado Sirius.

- Claro que sei! – respondeu em tom frio.

- Sei lá, você parece ter desenvolvido dupla personalidade... – Sirius ria.

- Cara, você tá acompanhando o raciocínio?? – perguntou James, com raiva.

- Claro que sim! Ela gosta mais de você como James do que como Prongs!

- Exato!! Por isso tenho medo de meter o Prongs no meio e deixá-la dividida...

- É bom você contar logo tudo... quando mais demorar, mais furiosa ela vai ficar, e você sabe como ela é com raiva de você...

- Sim, seis anos de Hogwarts me mostraram isso... – James suspirou – Eu vou contar amanhã.


E foi o que ele tentou fazer. Entretanto, não conseguiu ficar à sós com ela por tempo suficiente.

Para piorar sua situação, ao final do dia o time da Grifinória recebeu a péssima notícia de alteração do calendário de jogos do campeonato de quadribol. Devido a um problema com o apanhador da Lufa-lufa, o jogo de sábado Lufa-lufa versus Corvinal teve de ser adiado e, para não atrapalhar o cronograma, adiantaram o jogo Corvinal versus Grifinória. Tendo em vista que não houve treino na semana anterior, os grifinórios estavam bem atrasados e precisariam de treinamento intensivo durante aquela semana, o que reduzia bastante o tempo disponível de James.

Quando o treino de segunda terminou já estava tarde. James foi com Sirius direto para o quarto dormir.

Na terça, antes do jantar, James estava fazendo seus deveres de casa de maneira bem corrida com Sirius na sala comunal, sabendo que depois teriam mais treino e nenhum tempo para o dever, cuja data de entrega era o dia seguinte. Estava tão concentrado que se assustou quando alguém se sentou ao seu lado.

- Precisam de ajuda? – perguntou Lily.

- Não. – respondeu Sirius.

- Sim. – respondeu James, fuzilando o outro com os olhos.

A ruiva percebeu que ele se interessava mais pela companhia do que pela ajuda em si e sorriu, embora o auxílio dela tenha efetivamente feito o tempo render mais. Ela procurava a resposta da próxima questão enquanto eles ainda respondiam a anterior, ou ajudava no encadeamento das longas dissertações que os professores pediam, de forma que fazer o dever o casa se tornou uma tarefa muito mais prazerosa para James.

O mesmo se repetiu na quarta, quando Lily, agora juntamente com Annabelle, se sentou à mesa com eles na sala comunal, ajudando na correria deles e fazendo deste um momento divertido do dia.

E na quinta não foi diferente.

O que também não foi diferente foi a impossibilidade que James encontrava de conversar à sós com Lily. Sempre chegava alguém, ou era hora de ir para aula ou para o salão principal ou para o treino. Às vezes elas também iam ao treino, terminar o dever de casa delas na arquibancada. Às vezes terminavam o deles também. James passou a limpo com a sua letra alguns deles momentos antes de entregá-los na aula.

Foi então que, na sexta à noite, James recebeu uma carta. Uma carta que o deixou extremamente feliz, porém que agravou seu problema, pois agora ela ficaria ainda mais furiosa quando ele finalmente conseguisse contar a verdade. Quando ele concordou com o plano de Annabelle, não imaginou que a carta seria tão... intensa. Agora, mais do que nunca, precisava sair com ela na noite de sábado e contar tudo.

Mas antes disso...


Durante o treino de quinta, Lily conversava com Annabelle agoniada.

- Belle, eu preciso falar com ele. Preciso explicar! A cada dia que passa eu sinto mais essa necessidade!

- Nenhuma carta ainda?

- Não! Parece que ele sumiu da face da Terra! – havia desespero em sua voz.

- Estranho... – Annabelle se limitou a dizer.

- Eu acho que ele não quer mais falar comigo porque ouviu comentários no castelo sobre mim e James... talvez ele saiba e esteja magoado comigo, decepcionado, alguma coisa do tipo... a gente tinha acabado de sair pela primeira vez, estávamos dando o próximo passo, quando eu me envolvi com James e acabou tudo! Eu sinto como se tivesse traído ele!

- Não fique assim, Lily! Você não traiu ninguém!! Vocês não eram namorados, você nem sabe o nome dele!! Como poderia estar traindo??

- Eu sei! Mas é como me sinto, não posso evitar!! Eu queria ter um meio de poder falar com ele!

- Hum... – fez Annabelle, pensativa – Se ao menos você visse Hermes...

- Hermes! Sim! Seria ótimo! – Lily tinha um tom de voz irônico – Mas nós já procuramos por ele no corujal antes e não o encontramos.

- É, mas ele não pode esconder a coruja no quarto pra sempre, quem sabe não damos sorte de ela estar no corujal justamente amanhã? – respondeu Annabelle, com um sorriso maquiavélico.

- Pode dar certo... – a ruiva ponderou, embora descrente – Vou tentar encontrá-la amanhã. Bom, já está ficando tarde, eu vou pro quarto, você vem?

- Não, Lil, vai indo. Eu vou esperar pra falar com Sirius. – mentiu ela.

Ela realmente esperou o treino terminar, mas sua intenção era falar com James. Assim que eles saíram, ela o colocou contra a parede.

- James, eu sei que você está esperando um bom momento pra contar tudo pra ela, mas sumir com Prongs não foi legal!

- Ela continua querendo falar com Prongs, não é? – perguntou James, preocupado – Eu não sei o que fazer! Já tentei conversar com ela milhares de vezes, mas nunca consigo!

- Olha, eu tenho um plano. Deixe Hermes no corujal amanhã, ela só quer mandar uma carta explicativa. Você nem precisa responder, no sábado vocês vão sair e aí tudo se resolve, você conta, ela te bate, vocês fazem as pazes e vivem felizes para sempre!

James riu com a descrição e com a animação da garota.

- Tudo bem.


E foi assim que Lily conseguiu escrever uma carta para Prongs na sexta-feira à noite.

"Querido Prongs,

Não sei qual a melhor maneira de lhe contar isto, então vou ser direta.

Eu me apaixonei por outra pessoa. Me apaixonei por alguém que está sempre ao meu lado, alguém que não tem medo de me convidar pra sair - mesmo após várias recusas minhas - alguém que ficou comigo no Baile depois de você ter me deixado...

Eu não sei como isso foi acontecer entre mim e James, eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer, ele costumava ser a pessoa que eu mais desprezava no castelo inteiro, mas aconteceu. Quando eu percebi já era tarde demais, eu já estava nervosa e envergonhada na presença dele, com o coração acelerado e um sorriso bobo no rosto.

Mas você não deve estar surpreso com isso, você sempre me incentivou a entender o lado dele e, se não fosse por você ter aberto minha mente em relação a ele, eu jamais teria entendido o ponto de vista dele e jamais teria lhe dado uma chance.

Na verdade eu fui pega totalmente de surpresa, eu simplesmente não percebi o processo, só percebi quando já tinha acontecido, quando eu não consegui mais recusar seus pedidos pra sair, quando eu não conseguia mais desejar que ele ficasse longe de mim.

Perdoe-me se te magoei, sempre gostei muito de você, esses meses recebendo suas cartas foram incríveis, foi como viver em um conto de fadas, mas eu preciso da realidade, e ele é real.

Não me entenda mal, não é que eu não queria mais falar com você, mas presumo que você já não tenha mais me enviado cartas porque ficou sabendo de James e eu. Eu sinto muito, preferia ter te contado antes, mas eu não sabia como falar com você, eu não sabia pra onde enviar uma carta, isso só foi possível hoje quando Hermes veio me visitar.

Eu sei que oficialmente eu e você não temos nada além de uma boa amizade, eu nem ao menos sei o seu nome, mas eu precisava te explicar isso tudo, não queria me sentir traindo você.

Ainda gostaria muito de saber quem você é, mas vou entender se você quiser continuar um "correspondente secreto".

Com amor,

Lily."


N/A: Pessoal, começaram as votações da Premiação Potter Fics!! Consegui inscrever "Cartas", já que completei o requisito de mínimo de 10 capítulos para fics incompletas! Votem em mim, please!!

Estou em melhor autor (Cartas), melhor romance (Namoro de aparências), melhor comédia (Adivinhando o próximo passo), melhor oneshot (Um ombro para chorar) e melhor Hogwarts (com Cartas tb)

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