Cartas

Capítulo Treze

O sábado começou tenso para James, ele não sabia se estava mais ansioso para o jogo ou para o encontro com Lily à noite. Na verdade sabia, estava muito mais tenso com o encontro. Antes mesmo do café da manhã, parou para falar com ela na entrada da sala principal.

- Lily – ele começou, passando a mão por entre os cabelos – você vai sair comigo hoje à noite, não vai?

Ele precisava perguntar, afinal ela ainda não tinha confirmado, apenas não havia recusado. Ele sabia que ela iria, mas não tinham falado sobre isso a semana toda e ele estava, pela primeira vez na vida, inseguro com um encontro.

Notou que a garota corou instantaneamente. Ele sorriu aliviado, sabia que aquilo era um bom sinal. Ela respirou fundo, tomando coragem, como se responder positivamente fosse difícil, depois de tantos anos na direção contrária.

- Sim. – ela respondeu, com um sorriso tímido, sem conseguir encará-lo.

Ele sentiu todos os órgãos dentro do seu corpo vibrarem de felicidade. Estava tão feliz que sentiu vontade de contar toda a verdade sobre Prongs pra ela naquele exato momento, ali mesmo, com pessoas indo e vindo de todas as direções o tempo todo.

- Lily, eu preciso te contar uma coisa. – decidiu começar aos poucos – É um assunto sério e eu tenho medo da sua reação.

A garota franziu a testa, confusa.

- Por que você teria medo da minha reação? Eu já respondi que aceito sair com você, o que mais você pode ter medo de me dizer?

- É que tem algo que eu venho tentando te dizer a semana inteira, desde o Baile, mas sempre acontece alguma coisa que atrapalha. – ele ajeitou os óculos que escorregavam pelo seu nariz – Mas me promete que não vai brigar comigo?

Ela riu, provavelmente achando que ele iria contar que tinha feito alguma besteira que ela costumava repreender.

- Tudo bem, pode falar. – ela o encorajou.

- James, boa sorte no jogo! – passaram algumas pessoas falando.

- James, você ainda está aqui! Não vá se atrasar! – disse uma das artilheiras da Grifinória.

O maroto respirou fundo, passando a mão nervosamente pelos cabelos.

- Lily, é melhor conversarmos com calma hoje à noite. Só nós dois.

- Tudo bem, James. Boa sorte no jogo. – ela disse, sorrindo, antes de ir embora.

Com um sorriso bobo no rosto por ter Lily Evans lhe desejando boa sorte antes do jogo, ele a observou se afastar, até mais alguém lhe gritar que estava atrasado e ele começar a correr.


Assim que o jogo começou James voou para o alto, ficando acima dos demais jogadores, tentando visualizar algo dourado. Porém algo vermelho lhe tirava a atenção. Ela estava olhando para ele ao invés de olhar para o jogo que acontecia abaixo.

James se sentia muito inseguro. Sabia que ela iria pirar assim que ele contasse. Pensava em qual seria a melhor forma, a mais sutil, de contar a ela, mas não havia resposta para isto. Não tinha uma forma melhor. Havia apenas a verdade: que ele a enganara. E ela ficaria furiosa. Já estava preparado para ser ignorado no dia seguinte, talvez na semana inteira seguinte.

Gritos de comemoração lhe fizeram voltar ao momento presente. A Grifinória havia marcado pontos. Precisava se concentrar, estava no meio de um jogo! Mas concentrar-se estava muito difícil.

Resolveu voar um pouco, procurando o pomo de ouro, numa tentativa de que o vento fresco em seu rosto o ajudasse a relaxar e se concentrar. Rodou o campo inteiro, passou pelos jogadores, pelo apanhador adversário, voltou para o alto. Não viu a bola dourada em lugar algum.

A Grifinória marcou mais alguns pontos, então a Corvinal também marcou alguns, a Grifinória voltou a marcar mais pontos, e nem sinal do pomo de ouro. Talvez, se James estivesse concentrado no jogo como sempre está, já teria achado o pomo. Respirando fundo, sentindo-se culpado, ele foi dar mais uma volta pelo campo. Voou por todo o local, sem encontrá-lo. Ao terminar o circuito, cabelos vermelhos lhe chamaram a atenção mais uma vez, então percebeu que estava próximo a ela. Engoliu em seco, mentalizando que deveria se concentrar no jogo. Foi então que sentiu uma movimentação ao seu redor e ouviu um grito.

- CUIDADO PRONGS! – gritou Sirius.

James, porém, não olhou para ele ou para o balaço que vinha à toda velocidade e força em sua direção. Como que por instinto, reflexo, olhou para Lily, cujos olhos arregalados demonstravam que ela tinha ouvido o grito também.

Não houve tempo para mais nada. James foi atingido na cabeça e, inconsciente, caiu da vassoura. Foi salvo pelos professores que assistiam ao jogo.

Horas mais tarde, acordou na enfermaria. Sirius e Remus estavam lá.

- Você está bem? – perguntou Remus.

- Desculpa, cara, saiu sem querer. – disse Sirius.

Seu raciocínio estava lento e seus olhos doíam. Sua cabeça inteira doía. Tentou se concentrar para entender e responder.

- Não. E eu sei. – levou a mão à cabeça dolorida – Mas agora acabou tudo. Ela deve estar me odiando.

- Não foi a melhor maneira de contar, mas dê um tempo a ela, talvez o estrago não seja tão ruim. – aconselhou Remus.

James fechou os olhos, inconformado e dolorido.

- Tente descansar, a pancada foi feia. – disse Remus.

Ele tentou responder, mas já não conseguia, acabou perdendo a consciência novamente.

Acordou mais tarde com a enfermeira lhe dando um remédio em forma de um suco verde estranho e com gosto ruim e seu jantar. Quando estava terminando de comer, seus amigos voltaram.

- Está melhor? – perguntaram.

- Acho que sim. – respondeu ele, apesar da expressão de dor – Ela perguntou por mim?

Quando viu seus amigos se entreolharem, soube que a resposta era negativa. É claro que ela não iria perguntar por ele, ela devia estar desejando que ele morresse. Precisava falar com ela, precisava tentar explicar. Mas não poderia sair da enfermaria naquela noite.

- Precisa de alguma coisa? – perguntou Sirius, numa clara tentativa de mudar de assunto.

Foi então que James teve uma idéia.

- Sim. Traga Hermes. E também um pergaminho, tinta e pena.

- Não. – respondeu Sirius – A pancada não fez nenhum efeito?!

Apesar do olhar fulminante de James, Remus riu.

- Ora, o que custa, Sirius? Ele está na enfermaria, isso já é ruim o bastante, vamos trazer as coisas pra ele.

- Não, ruim o bastante é levar uma porrada no cérebro, ficar na enfermaria e ainda levar um fora por escrito! Isso SE ela responder.

- Sempre me apoiando nas horas difíceis, isso que é amigo! – ironizou James.

- Certo, eu trago a droga da coruja, mas depois não vem choramingar no meu ouvido o quanto agressiva é aquela garota de coração gelado.

E, bufando e a passos firmes, Sirius foi embora.

- Não liga pra ele, apenas seja sutil, eu acho que ela vai responder sim. – disse Remus, antes de também ir.

Alguns minutos depois Hermes voou enfermaria adentro, trazendo as coisas para James, que tratou logo de escrever.


Lily estava sentada encolhida perto da janela, olhando para a noite escura e juntando silenciosamente as peças do quebra-cabeça em sua mente. Sentia-se traída, enganada. Ele tinha mentido, a iludira. Sentia-se como uma tola que caíra na armadilha patética de crianças malvadas. Annabelle também estava no quarto, em sua cama, mas não se atrevia a dizer uma palavra.

Lily tinha em suas mãos as cartas antigas que recebera dele. Estava relendo e vendo como podia ter sido tão idiota de não perceber antes. Era tão óbvio! Ele sempre tentava melhorar a imagem de Potter, falando bem de Potter! Por Merlin, que ódio que ela sentia lendo como ele teve coragem de falar dele mesmo! Como ele se atrevia a fazer isso?? Sem falar em como ele sabia sobre a confusão com Remus, sobre o acidente na aula de herbologia, sobre saber até mesmo que não fora Remus a enfeitiçar a planta! Como ela não percebera que Prongs era James quando percebeu que James lançou o feitiço na planta?? Estava tudo TÃO interligado! Fora outros detalhes que passaram despercebidos, como ele ter dito que estaria NO jogo, ao invés de ir AO jogo, como somente um jogador diria; ou quando ele disse que seria um príncipe em uma vassoura, ao invés de qualquer outro animal; ou quando demonstrou conhecer muito bem Siruis e Annabelle, até prevendo as reações deles depois do encontro.

A garota amassou as cartas que tinham em mãos e as jogou no chão ao seu lado, furiosa, com os olhos lacrimejando numa mistura de decepção e raiva.

Hermes entrou no quarto, passando por ela na janela, mas Lily não quis a carta que a coruja insistia em tentar lhe entregar. Annabelle então se levantou e foi até lá, tirando a coruja de cima de Lily. Pegou o pergaminho.

- Eu não quero saber. – disse Lily, com uma voz rouca de mágoa.

- Mas eu quero! – respondeu Belle, abrindo o pergaminho e lendo – Oh, Lil!

- Eu não quero saber! – repetiu.

- Ele diz que pode explicar! Que sente muito!

- EU NÃO QUERO SABER! – gritou Lily, tentando tampar os ouvidos com as mãos numa atitude infantil.

- Que não foi uma brincadeira! Que ele nunca mentiu pra você e que o que ele sente por você é verdade!

Lily abaixou as mãos e olhou para a amiga. Os olhos brilhando ao lacrimejar. Annabelle esticou a mão, lhe oferecendo o pergaminho. A ruiva pegou o pedaço de papel amarelado e a outra voltou para a cama.

"Querida Lily,

Eu posso explicar, espero que você esteja lendo isso e, se estiver, que não rasgue o pergaminho antes de terminar de ler.

Eu sinto muito, eu queria te contar, mas não daquele jeito! Eu venho tentando te contar desde o Baile de Máscaras, eu disse que queria conversar com você! Inclusive hoje de manhã! Eu quase consegui te contar!

Por favor, acredite em mim, isso nunca foi uma brincadeira pra mim. Eu nunca menti pra você, eu disse que se lhe contasse quem eu era nós não continuaríamos a conversar. Eu precisava omitir isso, pra que você pudesse me conhecer de verdade, sem me rotular de idiota, prepotente, mimado ou irresponsável, ou qualquer outro dos vários adjetivos pejorativos que você tantas vezes já usou.

Por favor, me dê uma chance.

O que eu sinto por você é de verdade.

Com amor,

James."

- Finalmente uma carta assinada. – disse Lily, fria e sarcasticamente, olhando para aquela letra que lhe era tão familiar.

Ela parou mais um tempo olhando pela janela, até que pegou uma pena e escreveu algo. Depois amassou o pergaminho e o jogou no chão.

- Vá embora. – disse para Hermes.

A coruja, triste, obedeceu e Lily fechou a janela.

Annabelle jogou magicamente os papéis na lixeira, enquanto ia em direção a sua amiga. Ajoelhou-se em frente à ruiva, as sobrancelhas arqueadas para baixo, como quem sente pena pelo sofrimento alheio.

- Lil, não fica assim, conversa com ele, vocês vão se acertar.

Lily então olhou para ela, estreitou os olhos e mais peças se juntaram no seu quebra-cabeça mental. Havia outras coisas óbvias que ela não percebera.

- Você sabia!! – disse Lily, acusadora, levantando-se bruscamente.

- Bem, eu... – Annabelle também se levantou – eu descobri... por causa do Sirius... mas... espera... eu

- Eu não acredito que você escondeu isso de mim!! Você sabia!! – a ruiva dava alguns passos para a frente, gritando diante da outra.

- Só há pouco tempo! – Belle andava para trás à medida em que a outra andava para frente.

- Como você pôde?! – havia ainda mais raiva e decepção na voz e nos olhos de Lily – Você viu minha angústia, como pôde assistir sem me contar que eles eram a mesma pessoa??

- Seria pior! Ele prometeu que iria contar! Ele tentou contar! Várias vezes!

- Mas VOCÊ não contou! Nem ele contou! Vocês dois me enganaram!

- Não, Lily! Eu nunca te enganei!

- Você... – a ruiva engoliu em seco, enquanto lágrimas desciam pelo seu rosto – vai embora, Annabelle. Me deixa sozinha!

Annabelle, vendo que nada do que dissesse seria ouvido agora, achou melhor deixá-la sozinha mesmo por algum tempo. Depois que ela saiu, Lily se jogou na cama, sentindo-se traída por todos.


Annabelle encontrou Sirius na sala comunal, o pegou pela mão e foi até a enfermaria com ele. Colocou a mão no bolso, retirou um pergaminho amassado e o entregou para James.

- Ela chegou a escrever, mas não enviou.

- Vocês brigaram? – perguntou Sirius.

- Sim. – respondeu ela, tentando parecer estar bem – Ela percebeu que eu já sabia.

- Eu sinto muito por ter te envolvido nisso, Annabelle. – disse James.

- Você não fez nada. – ela respondeu, com um sorriso triste – Eu descobri sozinha e não contei, a culpa é toda minha.

Sirius passou o braço protetivamente ao redor dela.

- Não se preocupem, eu a conheço bem, ela vai nos perdoar. Leia, James.

Quando James abriu o pergaminho amassado na enfermaria, ainda com a cabeça dolorida, viu que ela só havia escrito uma frase, mas uma frase que significava tudo para ele.

"Você está bem?"

Ele sorrriu, radiante. Mostrou o pergaminho para Sirius.

- Viu? Ela não é tão "coração gelado" assim. – disse para o outro.

- Se não fosse teria enviado a carta.

- Isso não importa. Ela se preocupa comigo. Mesmo estando furiosa comigo.

- Eu disse, ela vai nos perdoar. – repetiu Annabelle.

- E eu achando que finalmente sairia com ela esta noite – disse James tristemente – mas aqui estou, na enfermaria com vocês.

- Vocês vão sair. Outra noite. – consolou Belle – Ela gosta de você. Você sabe disso. Ela abriu mão de Prongs pra ficar contigo.

- Eu sei. Mas ela agora ela odeia a nós dois.

Os três riram.

- Pelo menos agora acaba seu complexo de dupla personalidade. – disse Sirius.

- Sim, porque ela vai matar nós dois.


Na manhã do dia seguinte, após uma longa noite de cochilos rápidos com sonhos agitados, Lily se levantou, cansada de rolar na cama. Comeu qualquer coisa sentada sozinha à mesa praticamente vazia da Grifinória, devido a hora precoce para um domingo.

Depois foi para a biblioteca, em uma de suas tentativas de fugir de seus pensamentos, mas desta vez sabendo que, estando na enfermaria, ele não poderia cumprir sua detenção.

Entretanto, assim que entrou viu que estava enganada. Lá estava ele, sentado em uma das mesas, aparentemente imerso nas páginas de um livro. Com grandes olheiras, cabelo muito mais despenteado do que o normal. Estava abatido, assim como ela. Pelo visto também passara a noite acordado.

Percebendo a presença dela, ele levantou a cabeça. Ele engoliu em seco e, como se pudesse ler a mente dela, ele respondeu à pergunta muda.

- Eu não agüentava mais ficar na enfermaria, então vim pra cá, pra tentar "esvaziar a mente".

A garota permanecia parada, sem reação.

- Lily, eu... – começou ele, levantando-se e procurando encontrar palavras para se explicar – eu... nunca quis te enganar, por favor, acredita em mim...

Então, como se a palavra mágica a tivesse feito sair do transe, ela se aproximou furiosa e começou a gritar com ele.

- Não enganou? James, como você pôde?? Você me fez de idiota! Durante todo esse tempo, falando de você mesmo pra mim!! É claro que você me enganou! Você esteve comigo no Baile a noite inteira, mas me fez pensar que eram duas pessoas diferentes!! Como eu posso confiar em você um dia?? Por Merlin, James, você me beijou depois do Baile!! Depois de ter dançado comigo como Prongs!! O que você queria? Me deixar confusa? Isso não foi desprezível??

- Não, Lily, seria desprezível se eu tivesse feito o contrário, beijado você como Prongs sem antes te contar quem eu era, eu não faria isso com você! Mas quando estávamos lá na sala comunal, só nós dois, sem máscaras, eu vi que você gostava de mim por mim mesmo e eu fiquei tão feliz que não pude me conter! E você correspondeu, você também queria aquele beijo!

A garota passou a mão nervosamente por entre os cabelos ruivos.

- Eu contei pra você mesmo que estava apaixonada por você, sem saber que era você!!

Ela levou a mão bruscamente à boca, se arrependendo de ter dito aquilo, de ter admitido mais uma vez que estava apaixonada.

James se aproximou dela e segurou em suas mãos.

- Lily, eu também me apaixonei por você! Há muito tempo! Eu comecei a te mandar aquelas cartas querendo te conquistar só pra sair com você, mas logo eu me apaixonei e me vi todos os dias ansioso pelo momento de falar com você através das cartas. Eu só queria que você me conhecesse melhor antes de poder dizer quem eu era! Se eu tivesse dito desde o início você nunca teria continuado a se corresponder! E se não fosse assim, você nunca teria me deixado se aproximar de você! Eu não estava tentando te influenciar anonimamente, estava só tentando te mostrar meu ponto de vista, pra que você pudesse me enxergar como eu sou de verdade ao invés de ver apenas o James Potter prepotente que você via!

James viu nos olhos dela que ela não sabia o que fazer, não sabia o que pensar, em que acreditar, como reagir, o que dizer. As mãos dela tremiam nas suas e ele não sabia se era de raiva ou não. Até que ela finalmente falou, com a voz tremida.

- Você nem ao menos se arrepende do que fez?

- Lily, você não entende... sabe o que as pessoas dizem sobre agirem como idiota quando estão apaixonados? Comigo é o contrário! Você não vê? Eu me tornei uma pessoa melhor quando me apaixonei por você! Eu amadureci, eu mudei, eu deixei de ser um idiota! E isso tudo aconteceu por causa das suas cartas! Como eu posso me arrepender?

Ela retirou as mãos bruscamente das dele e saiu da biblioteca, correndo.

James se sentou novamente e deixou a cabeça cair sobre o livro aberto.


Lily foi para os jardins, mas achou que ali poderia ser facilmente encontrada e ela definitivamente não queria falar com mais ninguém, então foi andando pelos terrenos do castelo, até que chegou ao campo de quadribol.

Arrependeu-se assim que parou lá, pois todo o lugar a fazia se lembrar apenas dele e de como descobrira tudo: Ao ouvir Sirius chamando James de Prongs, parecia que o tempo havia parado. Ela olhou nos olhos de James por um segundo que foi o mais longo de sua vida. Sentiu como se estivesse sendo apunhalada pelas costas. Entendeu o que aquilo significava tão rápido que até se assustara. Talvez, lá no fundo, já suspeitasse disso. Mas o mais impressionante foi ver como ele se preocupou mais em saber se ela tinha ouvido do que em fugir do balaço que perigosamente se aproximava.

Ela se sentou na areia, no meio do campo, pensando nas coisas que ele tinha lhe dito na biblioteca.

"Lily, eu também me apaixonei por você!".

Não podia negar o que tinha sentido ao ouvi-lo dizer isso. Sabia que era verdade, podia ver nos olhos dele. E sorria só de lembrar.

"logo eu me apaixonei e me vi todos os dias ansioso pelo momento de falar com você através das cartas".

Engraçado como também tinha gostado de ouvir isso. Saber que Prongs ficava tão ansioso quanto ela pelas cartas era algo que também a fazia sorrir. Ela tinha até se esquecido de como queria ouvir isso e de quanto tempo esperara para saber.

"Eu só queria que você me conhecesse melhor antes de poder dizer quem eu era! Se eu tivesse dito desde o início você nunca teria continuado a se corresponder! E se não fosse assim, você nunca teria me deixado se aproximar de você!"

Sabia que ele tinha razão, mas mesmo assim ainda se sentia enganada, traída, decepcionada.

"Eu não estava tentando te influenciar anonimamente, estava só tentando te mostrar meu ponto de vista"

De fato, as coisas que Prongs lhe falava a fizeram passar a entender James melhor. Sem isso, ela realmente continuaria sem deixá-lo se aproximar. Mas os fins não podem justificar os meios e ela definitivamente condenava os meios.

Ficou ali sozinha por um bom tempo, mas não pôde evitar companhia e conversa, contudo, durante o almoço. Algumas pessoas lhe perguntaram se ela estava bem e teve de mentir. O que iria dizer? Que não, porque tinha sido enganada por James Potter se fazendo passar por outro aluno?

Comeu pouco, cansou de ignorar os pedidos de atenção de James e Annabelle e foi para o seu quarto. Para sua revolta, foi seguida.

- Chega, Lily, vamos conversar. – disse Annabelle, entrando e fechando a porta do quarto.

A ruiva apenas a fuzilou com o olhar.

- Você pode achar que eu fui uma péssima amiga em não te contar, mas eu só queria deixar que ele mesmo te contasse, pra que vocês se acertassem e fossem felizes! Desculpa se o que eu fiz foi pensando em você!

Lily riu sarcasticamente.

- Você acha mesmo que eu iria ficar feliz quando ele me contasse? Que beijaria meu príncipe encantado e viveria feliz para sempre com ele?

- Claro que não, né! Eu sabia que você iria ficar com raiva, mas seria menos do que se você soubesse por outra pessoa, como aconteceu ontem!

- Não sei como isso poderia influenciar. – ela debochou.

Annabelle se irritou mais ainda.

- Lily, pelo amor de Merlin, você não vê?? Você se apaixonou por dois caras, descobrir que eles são a mesma pessoa é a solução perfeita!!

- Não é não!! Descobrir que eu fiz papel de idiota não é a solução perfeita!!

- Lily – Belle atenuou o tom de voz para um lamento – não se faz papel de idiota pra quem te ama! Não é como se ele ficasse rindo a cada carta que recebia e pensando que você era idiota por não saber quem ele era! Ele nunca viu por esse ângulo, ele nunca sequer pensou nisso! Ele é apaixonado por você! Ele só queria que você se apaixonasse por ele também!

- Então deve ter ficado muito feliz quando leu aquela carta em que eu dizia que era apaixonada por ele!

- É claro que ficou!! Você não percebeu que ele mal podia se conter ontem, querendo te contar tudo antes do jogo??

De fato, Annabelle tinha razão, só agora Lily se lembrara disso. Ele estava mesmo muito ansioso para contar algo e morrendo de medo da reação dela.

- Você está sendo idiota é agora, não entendendo o lado dele.

Lily olhou para a amiga chocada com que estava ouvindo e com o tom de voz ríspido dela.

- O cara levou um balaço na cabeça que está doendo até agora por sua causa, dê uma chance a ele.

Annabelle então saiu do quarto, deixando Lily sozinha lá para pensar.


Confusa e com milhões de pensamentos passando à toda velocidade em sua mente, um deles se destacou. Apesar de ainda estar com raiva, decepcionada e magoada, Lily pensou que ele também estaria. Afinal, ele havia dedicado meses de atenção a ela e agora ela simplesmente o abandonara.

Por todo esse tempo, durante o dia James sempre estava por perto e à noite sempre lhe enviava cartas. Sempre tentando animá-la, ajudá-la, conquistá-la. Tinha lhe dito coisas lindas naquela manhã e ela apenas fugira. Que tipo de garota corre na direção contrária quando o cara de quem ela gosta se declara para ela? Ele devia estar arrasado por ela ter duvidado dele.

Então Lily sentiu algo que superou todos os sentimentos anteriores: medo de perdê-lo.

Levantou-se como que em um pulo. Desceu as escadas correndo. Parou bruscamente na sala comunal ao ver Sirius com Annabelle. Foi até eles, ignorando o jeito repreensivo como a olhavam e a vergonha em encará-los.

- Onde ele está? – ela perguntou, em um tom de voz não muito amigável.

- Talvez tenha cansado de viver em função de você e tenha ido pra um lugar distante onde não possa ser encontrado. – debochou Sirius.

- Está no quarto? – ela manteve o tom rígido, ignorando o deboche.

- Não. – ele se limitou a responder.

- Vamos, Sirius, ajudar um pouco não vai lhe fazer mal.

- Pedir desculpas também não vai lhe fazer mal. – disse ele, indicando Annabelle com a cabeça.

Lily então se desarmou. Baixou os ombros e a cabeça.

- Certo, você tem razão. – admitiu a ruiva, que respirou fundo antes de se virar para a amiga – Me desculpa, Belle, eu fiquei furiosa com você, mas, pensando bem, eu teria feito a mesma coisa no seu lugar... acho que acabei descontando minha raiva em você, eu sinto muito.

- Tudo bem. – disse Annabelle, abraçando a amiga – Agora vai atrás dele, ele não vai te esperar a vida inteira.

Lily olhou novamente para Sirius, esperando que ele lhe dissesse onde James estava, mas o outro deu de ombros.

- Você o conhece bem, não imagina pra onde ele possa ter ido, querendo ficar sozinho pra pensar... ou pra esquecer...?

O verde se sobressaiu nos olhos de Lily quando ela os arregalou.

- Biblioteca. – ela disse, sem exatamente ser uma pergunta, sendo mais uma constatação.

- Não. – disse Sirius, fazendo uma careta – Isso é pra onde VOCÊ iria.

- Mas ele estava lá hoje de manhã. – ela argumentou, confusa.

- Sim, antes de vocês brigarem de vez.

- É, mas... onde?

- Parece que você não o conhece tão bem assim como ele dizia.

Lily então percebeu que a coisa mais óbvia nessa história toda que ela havia deixado passar era o papel de Sirius nisso tudo. Ele era Padfoot, o irmão de James. Como não tinha visto isso antes?

- Sabe, Sirius, o James me falou muito de você. – começou ela, voltando ao tom ríspido – Nunca o apoiou, não é mesmo? Você sempre foi contra, nunca gostou de mim. Não ia ser agora que iria me apoiar, não é, Padfoot?

Indignada com a falta de ajuda, ela deixou a sala comunal, tentando pensar em onde poderia encontrar James. Ela o acharia, é claro que sim! Ela o conhecia muito bem, sim, como Sirius ousava dizer o contrário? Só precisava se concentrar em James, no que ele gostava de fazer, no jeito dele, a resposta estava bem na sua frente, sabia disso.

Depois de tudo o que havia acontecido ele devia estar triste, confuso, decepcionado com ela, provavelmente com raiva também. Para onde ele ia quando precisava tirar os problemas da cabeça? Então parou de andar e riu. Sim, era óbvio, qualquer um naquele castelo sabia o que James mais gostava de fazer: voar. A garota então começou a correr em direção à saída do castelo e, em seguida, na direção do campo de quadribol. Chegou ofegante e parou bruscamente, causando uma leve poeira de areia. Lá estava ele, sentado no chão com a vassoura jogada ao seu lado. O cabelo despenteado como se tivesse acabado de sair da vassoura. Não que isso significasse alguma coisa, já que sempre estava assim. Ela riu com esse pensamento e ele, que ainda encarava o chão, respirou fundo, provavelmente achando que ela estava debochando.

- James – ela começou, mas sem saber o que dizer em seguida.

James não disse nada. Queria apenas ouvir o que ela tinha para lhe falar. Ela não teria corrido até lá para brigar com ele de novo, teria? Mas estava tão magoado por ter se declarado e ela ter ido embora, como se não tivesse acredito nas palavras dele, que não esperava muita coisa vindo dela. Sempre soube que ela iria reagir mal quando soubesse de tudo, mas esperava que ela ao menos não duvidasse do que ele sentia.

Ela se sentou ao seu lado. Parecia nervosa, mexia as mãos de maneira ansiosa, apoiadas sobre os joelhos dobrados para cima.

- James, eu... – ela tentou começar novamente – eu sinto muito por ter saído daquele jeito da biblioteca.

- Você pensou no que eu te falei? – ele perguntou, olhando para ela – Ainda acha que eu te enganei? Que era um plano maligno pra te fazer de idiota?

- James! – ela o repreendeu, rindo.

- Acredita que eu gosto de você? – ele abriu aquele sorriso devastador.

- Acredito. – ela respondeu, com um sorriso tímido.

- E é recíproco?

Lily corou imediatamente. Então sorriu.

- Seu amigo Prongs não te contou? Eu disse a ele o que sentia por você.

James também sorriu.

- Para falar a verdade, ele contou sim. E sabe o que mais ele me contou?

- O quê?

- Que você é uma princesa, esperando por um príncipe.

Lily riu. Ele se levantou, convocou a vassoura, que voou para a sua mão, e ofereceu a outra mão a ela.

- E também que você se contentaria com um príncipe em uma vassoura, ao invés de um unicórnio.

- Não tenho tanta certeza disso. – ela disse, segurando a mão dele e se levantando também.

Ele a puxou pela mão, ficando a centímetros de distância do rosto dela. Exatamente como naquela noite do Baile, James olhou nos olhos dela e soube que ela gostava dele e que ela corresponderia ao seu beijo. Então encostou seus lábios nos dela delicadamente e logo sentiu as mãos dela envolvendo seu pescoço. A abraçou pela cintura e aprofundou o beijo. Quando se afastaram, ele riu e montou em sua vassoura.

- Então Princesa, vai vir com o seu príncipe?

Lily riu. Subiu atrás dele e se segurou pela cintura dele.

- Claro, James. – ela respondeu sorrindo.

Então James soube que eles estariam juntos pelo resto de suas vidas. Deu um impulso no chão e eles voaram alto.

Lily precisava concordar com Annabelle, havia se apaixonado pelos dois e descobrir que ele eram a mesma pessoa era a solução perfeita.

Fim.


N/A: Espero que tenham gostado do final!

Deixem reviews!

E ainda dá tempo de votar (ou de votar de novo, né, GakuenAlicefan27? rs) em "Cartas" na Premiação Potter Fics no ppfics . com!A todos que eu não pude responder às reviews por não terem conta no fanfiction, muito obrigada!Até a próxima!Beijos!