HUGO E MONICA
.:. CAPÍTULO 22 .:.
QUANDO CHEGA O FIM DE NOVEMBRO
Hugo olhou mais uma vez para o relógio e grunhiu. Dez para as duas e ele ainda não havia escrito nem metade do trabalho de Runas. E por quê? Porque não conseguia pensar em mais nada além de sua patética situação. O destino realmente devia ter senso de humor. Não tinha outra explicação. Afinal, por que, de tudo que ele podia ter herdado do pai, tinha que ser a falta de jeito com as mulheres?
Ele finalmente havia acreditado que tudo tinha mudado quando Monica o chamara pra conversar aquela tarde no parque. Apesar de não saber bem o que ela podia querer com ele, quanto mais ele conversava com ela, mais ele sabia que nunca teria chance. Se bem que ele nunca imaginou que teria uma chance com Sarah... Quer dizer, ele ainda lembrava de quando viu ela pela primeira vez na estação de King's Cross. Hoje ele entendia porque todo mundo começou a rir dele, mas na hora ele não conseguia desviar os olhos. Ela parecia uma fada. E então esse ano, de repente, ele se viu com ela nos braços. Nunca imaginara que isso fosse possível, ainda parecia um sonho. Um sonho que se transformou em pesadelo depois daquele dia das bruxas quase um mês atrás.
Ainda estava perdido nesses devaneios quando ouviu alguém o chamando. "Hugo?" Virou e viu Alice bocejando e vindo em sua direção. "Que tás fazendo acordado ainda?"
"Tentando traduzir essas Runas..." Ele virou algumas páginas do livro e suspirou. "Falta metade ainda."
"Certo..." Alice sentou-se de lado no sofá encarando o amigo. "E desde quando tens dificuldade em Runas?" Ele largou a pena e correu a mão pelos cabelos, mas não respondeu. "Sarah, Monica ou as duas ao mesmo tempo?"
Hugo não conteve uma leve risada. "Digamos que as duas e nenhuma. A Sarah disse que precisamos conversar amanhã... E sabes o que isso significa..." Ele suspirou e descansou a cabeça no encosto do sofá. "Eu sempre estrago tudo... Sou um fracasso. Devia saber que não ia durar três meses..."
"Pára com isso. Não é porque alguma coisa sai dos teus planos que tu és um fracassado sabe?" Hugo sorriu sabendo que ouviria mais uma vez o discurso. Ela sempre dizia o mesmo quando ele estava se sentindo um lixo em relação à sua vida amorosa. "Além do mais, não tavas todo incomodado por causa do ciúme dela? De repente vai ser bom vocês terminarem, sabe... Só tens dezessete anos, não tá na hora de encontrar um amor pra vida toda mesmo."
"Mesmo assim, Alice." Hugo interrompeu o discurso. Desta vez não iria adiantar pois ele sabia que o estrago havia sido grande. "Primeira coisa, não estamos falando de qualquer garota, mas da Sarah. Eu fiquei anos esperando uma única chance e quando finalmente a oportunidade chegou, eu não dei conta do recado. E não posso nem dizer que ela não tem razão..." Como ele podia querer que ela acreditasse que ele não sentia nada pela Monica, se ele mesmo não acreditava que isso fosse verdade? Ele não podia negar que adorava ficar com ela. Monica era bonita, não da mesma forma que Sarah, mas era. E não só isso, ela era também divertida e inteligente. E não só academicamente, ela conversava sobre todo tipo de assunto e conseguia deixá-lo interessante. Hugo só não sabia dizer porque ela ainda aturava conversar com ele...
"E a razão é a Monica..." Alice resmungou com um meio sorriso.
"Patético, não? Quer dizer, o que alguém como a Monica ia querer com alguém como eu?"
"Isso quem tem que decidir é ela, não achas?" Alice respondeu enquanto se ajeitava no sofá. Hugo lhe lançou um olhar confuso e ela abriu ainda mais o sorriso antes de responder. "Tens que parar de desistir antes de tentar. Ela não te acha irritantemente chato, senão não teria perdido o tempo dela respondendo tuas cartas até hoje."
"Achei que não gostavas da idéia de me ver apaixonado por ela..." Hugo resmungou, mas não conteve um leve sorriso ao notar que a amiga não era mais tão contrária à idéia.
"Isso foi antes de me contares o que houve em Hogsmeade." O que não ajudou Hugo a entender nada. Naquele dia não haviam conversado nada de mais, só tomaram sorvete enquanto ela contava sobre a rotina no hospital e ele sobre como estavam as coisas em Hogwarts. "Ela não teria ficado tão chateada com o lance da Sarah se não gostasse de ti."
Hugo riu e sentou-se de frente para a amiga. "Tá bom, Alice. Agora conta outra."
"Não estou brincando. E quer saber minha opinião? Se tu tivesses que escolher entre as duas, eu diria pra escolheres a Monica. Sabes por quê?" Hugo acenou negativamente e Alice suspirou. "Não lembras da nossa conversa no último Reveillon?"
"Lembro." Hugo agradeceu que o salão não estava muito iluminado, porque cada vez que ele lembrava daquela noite ele ficava incrivelmente vermelho. Seus pais não pouparam subterfúgios para mostrar como eles gostariam que Alice e Hugo ficassem juntos. E tinham argumentos interessantes. Tão interessantes que os dois conversaram seriamente a respeito. E ao final Alice convenceu Hugo que não custava tentar. O resultado foi desastroso e nunca passou de um simples beijo e um pedido de desculpas. Ele realmente não sabia como Alice podia falar tão naturalmente sobre o assunto. A única coisa boa daquilo tudo foi colocar uma pedra sobre o assunto, pelo menos entre os dois, já que nunca contaram pra ninguém do ocorrido. Mas a verdade é que Alice tinha razão em trazer o assunto à tona. Todo o sentimento de carinho, respeito, admiração e proteção que ele sentia por Alice valiam para Monica. Não que ele não gostasse de Sarah, mas era diferente. Não sabia bem explicar, só sabia que Monica era uma espécie de Alice por quem ele se sentia atraído fisicamente. E por mais que nunca tivesse uma chance real com ela, sabia que isso sempre significaria mais que qualquer paixonite de adolescência. "E sei o que queres dizer..."
Alice sorriu e abraçou Hugo. "Agora vamos terminar com essa tradução de uma vez, ok?" E se debruçou sobre o livro ditando para ele o que devia escrever. Podia querer uma amiga melhor?
Monica digitava freneticamente. O texto estava praticamente pronto em sua cabeça, precisava apenas transferi-lo para o papel. Havia começado a pesquisar há mais de um ano, mas nos últimos meses havia negligenciado o trabalho. E por quê? Porque havia seguido os conselhos de Kate e resolvido tirar uma semana de folga. E nessa semana de folga tinha que ter aparecido o Hugo. Veio com aquele jeito despreocupado e de sorriso fácil, e ela foi se deixando levar, foi se contagiando com o entusiasmo, quase acreditando que tudo podia ser tão simples quanto ele imaginava. E deixou tudo mais de lado e pra quê? Pra descobrir que era só coisa da cabeça dela, nada além de imaginação. Só pra descobrir que ele já tinha uma namorada. Então o que foi tudo aquilo, todos os gestos, os toques de mão? O tempo que ela passara com ele sempre pareceu tão verdadeiro... Será que ela se enganou tanto e ele estava só brincando com ela? Não, isso não era o Hugo... Até mesmo Scorpius lhe dissera isso. Hugo era tímido e cheio de idéias malucas, principalmente se o assunto fossem criaturas mágicas. Monica riu ao lembrar de como os olhos dele brilhavam quando falava sobre o assunto.
Com uma batida na porta, Monica saiu dos seus devaneios e se deu conta que parara de digitar, só não saberia dizer quando isso ocorrera. Ao se virar para a porta, encontrou Phillip encostado no batente da porta, com os braços cruzados sobre o peito e aquele sorriso sarcástico de sempre. "Posso saber o motivo do sorriso bobo? Não é por minha causa, né?" Ele riu e se sentou ao lado dela na cama.
"Às vezes seria melhor que fosse, mas não..." Ela podia sentir as bochechas ficando levemente vermelhas, pois sabia que Phillip entenderia do que ela estava falando. Ela precisou contar depois de ficar desesperada ao acordar ao lado dele. Era o mínimo que ele merecia, ou pelo menos era o que ela acreditava na época. Agora já não tinha tanta certeza se valera a pena. Cada vez que tocavam no assunto de alguma forma, Phillip arrumava algum jeito de fazer uma piada. Agradeceu mentalmente quando ele se limitou a rolar os olhos e ler o artigo que estava escrevendo. Observava ansiosa enquanto ele corria os olhos pelo texto quando um aviso de chamada de vídeo apareceu na tela. Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, Phillip havia aceito a conversa e assumia o controle do microfone.
"Jan! Como vai minha sogra preferida?" Ele falou assim que a imagem surgiu na tela.
"Sogra preferida é? Desde quando voltasse a namorar a Monica pra me chamar de sogra?" Riu a mulher do outro lado da tela.
"Nunca ouvisse falar que sogra é para sempre?" Ele falou enquanto desviava de Monica, que tentava tomar o microfone da mão dele. "Além disso, apesar da sardenta aqui estar de olho em outro, sei que o seu genro preferido sempre vai ser o bonitão aqui."
"Não dá bola pro que ele fala, mãe." Monica riu quando finalmente conseguiu pegar o microfone e sentar-se calmamente em frente ao computador depois de expulsar Phillip do seu quarto. "Como estão as coisas aí na Tanzânia?"
"Tudo na mesma calmaria de sempre. Rob foi até a escavação hoje, mas logo deve estar de volta. Temos dezenas de provas para corrigir ainda." Acho que este é o momento oportuno para apresentar a mãe de Monica. Janet é antropóloga e leciona atualmente na principal universidade da Tanzânia. Como vocês podem estar se perguntando como ela foi parar lá, devo lhes apresentar também Robert, atual marido de Janet, geógrafo e também professor na mesma universidade. Ele nasceu neste país africano e foi à Inglaterra fazer seu doutoramento. Curso concluído, pediu Janet em casamento e voltou ao país com ela. Moram ali há pouco mais de um ano. "E como estão as coisas aí? As meninas estão bem? E que história é essa de estares de olho em um rapaz?"
"Elas estão ótimas, assim como tudo mais aqui. Estou tentando terminar meu artigo agora." Monica propositalmente ignorou a última pergunta da mãe. Não queria falar sobre o Hugo. Queria considerar isso águas passadas, mas se todos ficassem tocando no assunto o tempo todo, seria quase impossível. "Já sabes se vens pro Natal?"
"No Natal acho que sim, mas temos que voltar antes do ano novo. É aniversário da mãe de Rob." Monica mal podia esperar pela chegada da mãe. Elas se viram pela última vez no Natal do ano anterior. "E não desconverse. Quem é o rapaz?"
Monica suspirou, devia saber que a ela não iria desistir tão fácil de arrancar a informação. "Ninguém que interesse, mãe. Águas passadas." Monica suspirou e fechou os olhos tentando se manter focada na conversa com sua mãe. Mas não conseguia conter a raiva que sentia pela falta de verdade nas palavras que acabava de pronunciar. Ela podia reforçar o quanto quisesse que Hugo não significava nada, mas no fundo ela sabia que apenas teve força pra tirar a cabeça dos livros e dos problemas do hospital por causa dele. E a história deles, se é que ela podia chamar o que eles tinham de 'história', estava longe de ser águas passadas. Ao ouvir as primeiras sílabas de protesto da mãe, Monica cortou. "Sério, vamos falar de outro assunto." Qualquer outro assunto seria melhor do que esse. Não queria pensar em Hugo. Não queria pensar na namorada dele. Por mais difícil que fosse, por mais que quase tudo a lembrasse dele, sabia que era isso que queria. Ou pelo menos o que sabia que deveria querer...
N.A.: *autora escondida em baixo da mesa morrendo de vergonha* Tentem não me odiar, por favor! Sei que até parece que abandonei a história, mas juro que não foi isso... Tanta coisa aconteceu e eu não conseguia criatividade nenhuma pra escrever esse capítulo que teve pelo menos três versões diferentes antes de eu decidir por essa. Se ainda tem alguém por aí que resolveu ler, muito obrigado e desculpas pela demora. Espero que deixem um comentário! Beijos!
