HUGO E MONICA


.:. CAPÍTULO 23 .:.

SAINDO DA TOCA


"A gente já está atrasado, sabia?" A voz de Rose ecoou pelo corredor fazendo Hugo grunhir enquanto mergulhava no guarda-roupa. Era um armário pequeno, com uma mixaria de roupas, então como é que ele havia perdido o casaco ali? Definitivamente as roupas dele fugiam, não havia outra explicação. Desistiu e pegou o casaco amarelo mesmo. Até mesmo ele sabia que aquele casaco ficava horrível com qualquer roupa, mas era melhor que passar frio. Desceu as escadas correndo e com um pulo estava ao lado do demais. "E não é que ele demorou tanto tempo só pra poder escolher a melhor roupa?" Rose zombou. O que não era uma novidade... Na verdade, ele acharia que ela estava doente se deixasse passar uma única oportunidade de rir dele...

"Porque não colocasse aquele casaco preto, filho?" Hermione disse ao entrar na sala, colocando seu casaco. "Ficas tão bonito com ele..." Na verdade ela pretendia dizer que ele ficava 'mais bonito do que com esse', mas se conteve a tempo.

"Eu não achei." Ele colocou as mãos nos bolsos e implorou com os olhos que seu pai o tirasse daquela situação. Sabia que logo ia começar o sermão da organização do quarto. E ninguém precisava ouvir sermão na véspera de Natal...

"Deixa o garoto." Ele riu enquanto guiava a esposa com um abraço para a porta. "Além do mais, ele só vai precisar do casaco enquanto estiver na rua." Antes de sair, ele olhou para o filho mais uma vez e riu. Hugo suspirou. Talvez fosse melhor passar frio... Na última vez que usou aquele casaco, haviam passado uma semana chamando ele de gemada... Mas as dúvidas se dissiparam assim que ele atravessou a porta e o vento gelado atingiu seu rosto. Caminhou até o ponto de aparatação sob as risadas da irmã e em alguns segundos já estavam os quatro em frente à Toca.

"Alguém resolveu celebrar o orgulho de sua Casa, é?" Hugo ouviu assim que se aproximaram mais da casa. Olhou para o lado e encontrou Lily rindo sentada no banco do jardim. Com um aceno os outros cumprimentaram a garota e se dirigiram para dentro da casa, mas Hugo caminhou até ela.

"Muito engraçadinha... Mas sabes que eu tenho orgulho de ser o primeiro e único Weasley a não ir pra Grifinória." Ele riu e sentou ao seu lado. "E tás fazendo o que aqui fora? Esperando virar picolé?"

Lily soltou uma risada e bateu levemente com o ombro no braço de Hugo. "E eu é que sou engraçadinha, né? Mas se meus ouvidos congelassem eu não iria me incomodar." Hugo apenas passou o braço sobre os ombros da prima. Ele já imaginava a história. O relacionamento entre Lily e seus pais não era dos melhores ultimamente. E pode-se dizer que ela não fazia nada para melhorar. "Acredita que eles ainda estão reclamando do meu cabelo? Fala sério, já faz quatro meses que eu pintei, tava na hora de mudarem de assunto, mas não... E aqui ainda tem a tia Audrey pra fazer coro com eles..." Ela rolou os olhos e bufou, mas logo depois um sorriso surgiu novamente no rosto dela. "Então eu disse que estava inclusive pensando em fazer uma tatuagem e saí... Vou dar um tempo pro assunto morrer antes de voltar." Hugo apenas riu. No fundo não duvidava que a prima fizesse uma tatuagem. Parecia que ela realmente queria aproveitar tudo que pudesse antes de sair de Hogwarts. "E eles que parem com a história mesmo, porque se o assunto não morrer eu vou dizer que a tatuagem vai ser uma Marca Negra no braço." Okay, talvez ela inclusive ajudasse a piorar a situação...

"Queres que teu pai enfarte?" Hugo deu uma risada nervosa. Ele sabia que o tio iria realmente ter um piripaque se a filha fizesse uma tatuagem daquelas... "Sério mesmo. Ele vai ter um treco. Tu não podes dizer uma coisa dessas nem de brincadeira." Lily não falou nada, mas Hugo notou uma diferença no semblante dela. Ele sorriu, realmente esperando que ela tivesse desistido da idéia, e se levantou, estendendo a mão para ela. "Vem, vamos entrar antes que meu nariz fique congelado pra sempre." Diante da hesitação dela, ele acrescentou. "Eu deixo tu ganhares no xadrez."

Lily ignorou a mão dele e se levantou, cruzando os braços em frente ao peito. "E desde quando eu preciso que me deixem ganhar?"

"Quando tu jogas comigo, tu precisas." Hugo riu e protegeu mais uma vez as mãos nos bolsos. "Lembre que eu aprendi com o melhor." Riu ao notar que Lily rolava os olhos, cansada de ouvir ele usar a mesma desculpa sempre. Mas que culpa tinha ele de que o pai realmente era o melhor jogador da família? Os dois, então, caminharam lado a lado em direção à casa, mas antes que alcançassem a porta, os demais membros da família irromperam para o quintal. O pai de Lily apressadamente veio em direção a eles e, colocando a mão nas costas dos dois, passou a guiá-los para longe de casa. "Tio, o que houve?"

"George acabou de mandar uma mensagem. Angelina teve que ir para o hospital." Chegaram ao ponto de aparatação e ele virou para os dois, correndo nervosamente a mão pelos cabelos. "Então a ceia de Natal foi transferida para o St. Mungus. Vejo os dois lá em alguns segundos." E com um sorriso ele desapareceu juntamente como os demais.

Neste momento Hugo teve certeza que era uma das piores criaturas do universo. Sabia que deveria estar preocupado com a saúde da tia, mas assim que ouviu que passariam o Natal no hospital, o primeiro pensamento que lhe veio foi que poderia encontrar Monica. Respirou fundo, tentando se concentrar na aparatação e aliviar a ansiedade.

Alguns segundos depois, estava no saguão do hospital correndo atrás dos demais que logo já estavam todos aglomerados num corredor da ala infantil enquanto seu tio, pálido como nunca, caminhava de um lado para outro. Hugo ainda não sabia o que fazer ali. Tentava focar nas conversas cochichadas que todos da família estavam tendo, mas sempre que passava alguém de jaleco verde a concentração dele ia por água a baixo. Já estava com medo de que alguém notasse quando viu Fred, seu primo, se afastando dos demais. Apressando o passo, finalmente o alcançou quando ele se sentava numa mesa da cafeteria.

"E aí, Fred? Como tás?" Hugo perguntou, preocupado, ao se sentar em frente ao primo. Apesar de Fred ser mais velho que Hugo, eles se davam bem. E o fato de que, volta e meia, ambos ajudavam na loja de seus pais, fez com que ficassem mais próximos.

"Indo..." O rapaz ainda conseguiu colocar um pequeno sorriso no rosto, mas a preocupação ainda era evidente. Ficaram em silêncio por alguns segundos até que ele finalmente contou o que havia acontecido. "Minha mãe estava se arrumando pra ir pra Toca quando ela desmaiou... Quando a gente chegou no quarto, ela estava com bastante sangramento, sabe? Meu pai está arrasado... Ele acha que ela vai perder o bebê..." Hugo não sabia o que dizer, sabia que nada que dissesse ajudaria o primo a superar ou esquecer o que estava acontecendo. E nem poderia dizer que tudo ficaria bem; o que ele entendia de bebês e mulheres grávidas afinal? Ele era o mais novo da família, só pra começar... Então se limitou a buscar uma xícara grande de café para si e para o primo. Café sempre ajudava a melhorar qualquer situação. Mal sentara novamente à mesa quando Fred soltou uma risada nervosa. "Sabe o que é o pior? Advinha quem é que está examinando minha mãe." Hugo franziu o cenho. Para o primo estar perguntando isso, deveria ser alguém conhecido. Mas quem ele conhecia que trabalhava no St. Mungus? Tinha a Mônica, mas Fred não sabia sobre ela, sabia? Sentia a ponta das orelhas avermelhando quando o primo bateu levemente com a palma da mão na mesa. "Exatamente. O imbecil do Malfoy." Hugo soltou um suspiro aliviado. Essa foi a primeira vez que ouvir o nome Malfoy lhe causara esse efeito. Que não demorou muito a ser substituído por indignação. Não tinha mais ninguém naquele hospital pra terem mandado um Malfoy atender um Weasley?

Hugo ia começar a reclamar quando foi interrompido. "Scorpius não é imbecil." Ele se virou e viu Rose se aproximando e colocando uma das mãos sobre o ombro de Fred. Ela não acreditava que essa defesa serviria de alguma coisa, certo? Todo mundo sabia que ele deve ter feito alguma espécie de lavagem cerebral nela. Essa é a única explicação plausível para esse namoro dos dois que nunca terminava... "E ele acabou de sair do quarto. Disse que está tudo bem com tua mãe, mas estão fazendo algumas recomendações..." Rose nem precisou falar mais nada. Fred engoliu o café em um gole e caminhou de volta para o quarto. Rose ainda perguntou se Hugo ia ficar e ele indicou a caneca, a irmã deveria saber que primeiro ele ia precisar terminar o café... Rose sorriu antes de seguir o mesmo caminho que Fred, deixando Hugo sozinho.

Assim que se viu sem companhia, os olhos de Hugo não se contiveram e passaram a vasculhar os arredores. Ainda não sabia o que iria dizer ou fazer se a encontrasse. Só sabia que era isso que queria, mesmo imaginando que as chances dela não querer falar com ele eram altas...

Duas canecas depois, ainda estava sentado na cafeteria. Suspirou derrotado. Ela podia nem estar trabalhando ali hoje e ele ali, pateticamente esperando. Deixou a caneca sobre a mesa e foi em direção ao quarto de sua tia se perguntando se eles lembraram de trazer o jantar...


Enquanto nosso querido Hugo aguardava na cafeteria, Monica tentava manter o sorriso e a calma no rosto a algumas portas de distância. Mas a impaciência já começava a transparecer em sua voz. "Sra. Maple, a senhora não pode tomar nada com folhas de sempre-viva enquanto estiver tomando a poção que lhe prescrevi." Enfatizou novamente, da mesma forma que havia enfatizado exaustivamente na consulta anterior, ênfase esta que, obviamente, havia sido ignorada. "Isso anula o efeito que a gente quer. Por isso que ainda não cicatrizou perfeitamente."

"Não cicatrizou porque essa tua poção é uma porcaria." A senhora rosnou e se levantou bruscamente, sua pose de superioridade prejudicada pelas erupções em seu rosto. "Eu sabia que ser atendida por uma reles estudante que, ainda por cima, usa ensinamentos trouxas era uma péssima idéia." Ela saiu bufando da sala. Assim que a porta bateu atrás da mulher, Monica deixou sua cabeça cair sobre a mesa, batendo levemente com a testa na madeira. Ela não era paga o suficiente pra ouvir coisas deste tipo. Na verdade, ela ainda nem recebia salário. Isso sim é que é emprego... Levantou rapidamente a cabeça ao ouvir uma batida na porta.

"Estou com uma dor estranha, será que podias me ajudar? Começa aqui," disse a figura loira de Scorpius levando a mão ao abdômen enquanto um sorriso torto teimava em aparecer em seu rosto, "mas acho que vai pro meu cérebro, porque eu fico com uma vontade de estrangular qualquer pessoa que não esteja vestida de verde."

"Isso é sério." Monica assumiu uma falsa impressão de seriedade. "Estamos diante de um caso de pancrietite pacientória aguda. Mas não se preocupe, ele dura apenas algumas horas depois de entrar em contato com o agente transmissor: o paciente chato." Ela riu. Por mais que adorasse trabalhar no hospital, alguns pacientes, como a que acabara de sair, lhe faziam sentir-se da mesma forma.

"Ou, no meu caso, a família toda." Scorpius riu assim que se sentou em frente à mesa de Monica. Ela olhou para ele curiosamente, tentando imaginar o que poderia ter acontecido com o paciente pra ter toda uma família por perto incomodando. "Não sabes de quem eu estou falando? Posso assumir, então, que ainda não fosse na cafeteria, certo?" Ele deu uma risada leve e cruzou os braços diante de si. "Os Weasley chegaram em peso. Podes imaginar como eles ficaram contentes quando descobriram que quem iria atender Angelina Weasley seria eu. E, pelo que Rose me disse, meu prezado cunhado está a quase uma hora na cafeteria." Assim que ele dissera Weasley, o coração de Monica disparara. E a confirmação de que Hugo estava mais perto do que ela imaginara, não ajudou em nada. Só não sabia dizer se isso era algo bom... Não podia negar que havia deixado seu artigo, ao qual ela se dedicava há muito tempo, de lado por causa dele. E aquela pesquisa era muito importante pra carreira dela. Mas também não podia negar que sentia falta da descontração, da alegria que ele lhe passava. De uma forma que não conseguia se sentir com mais ninguém. Apesar de ser algo assustador, de repente se viu tentada a sair pelo hospital a procura dele. E, aparentemente, isso transparecia, pois nem bem pensara nisso, Scorpius levantara e disse, com um sorriso torto, ao olhar o relógio. "Devem ter passado café há uns cinco minutos. Acho que uma caneca te faria bem agora." E com uma piscadela, saiu da sala.

Monica soltou um riso nervoso e, antes que se arrependesse, respirou fundo e foi à cafeteria. Não via razão nenhuma para fazer aquilo, e normalmente não faria, mas resolveu não pensar a respeito. Esse era o que ela chamava 'efeito Hugo': ela agia por impulso quando ele estava envolvido. Mas mesmo seu impulso não foi rápido o suficiente. Quando chegou ele já havia saído. Apesar de ser compreensível que, mesmo para ele, haja um limite de café que uma pessoa possa tomar, não pode deixar de sentir uma pitada de decepção. Não sabia se eles teriam outra oportunidade de se falarem, nem se deveriam ter. Ela não sabia como seriam as coisas entre eles depois do que houve. E a última coisa que queria é que tudo mudasse... Inspirou fundo e, depois de se servir de uma xícara pequena de café, foi ao balcão da recepção em busca de um novo paciente para manter sua mente ocupada.


Aquilo era praticamente um crime. Hugo não podia acreditar que eles simplesmente jogaram os gibis do Super Bruxo naquela sala repleta de crianças que não sabiam apreciar a verdadeira arte. Era quase um milagre que eles ainda tivessem todas as páginas... Resgatando aquelas preciosidades do seu futuro incerto, Hugo sentou-se numa almofada num dos cantos e passou a ler, com toda a atenção que aquelas páginas mereciam.

Estava absorto na história quando ouviu uma risada a sua frente. Ergueu os olhos e viu uma menina, que não devia ter mais de cinco anos, olhando atentamente para ele. "Não és muito velho pra estar aqui?" Ela riu.

"Eu sou velho o suficiente pra ficar onde eu quiser." Ele disse franzindo o cenho. Qual o problema dele estar na sala de recreação das crianças no hospital? Não tinha nada ali que proibisse maiores de nove anos de aproveitar o espaço, apesar da maior parcela dos usuários ser desta faixa etária. E se ele não tivesse entrado, ninguém sabe o destino que aguardaria aqueles gibis...

"O que que tás lendo?" Ela chegou perto e esticou o pescoço para tentar ver o gibi.

"Super Bruxo." Respondeu simplesmente. Meninas, por algum motivo oculto que ele não conseguia compreender, não gostavam desta obra de arte.

"Lê pra gente?" Hugo olhou que agora não só ela, mas umas oito crianças, estavam o olhando ansiosamente para ele. Dando-se por vencido, e convencido de que se entendessem a grandeza daqueles gibis essas crianças cuidariam melhor deles no futuro, ele abriu o primeiro volume da série 'Goblin Dourado' e passou a ler para elas. Não demorou muito para começar a achar ainda mais divertido ler em voz alta, ainda mais que a sua platéia sabia a hora exata de fazer suas exclamações. Estava no meio de uma cena em que a Bruxa Maravilha precisaria aliar forças com o Ultra Trouxa quando ouviu alguém chamando Catie, aparentemente a menina que lhe pedira para começar a ler, já que ela correu ao encontro da mulher.

"Mal virei as costas e tu já me desaparece desse jeito? Estou te procurando a séculos!" Ela ralhou assim que a menina lhe deu a mão. Hugo acompanhou as duas com os olhos enquanto saíam da sala, mas apenas até alcançar a soleira da porta, pois lá, encostada e com um leve sorriso no rosto estava Monica.


N.A.: Bate o sino pequenino, sino de Belém! Eeee! Chegou o Natal e *tchanana* o capítulo também é no Natal! E quanto a ele, sinto muito pelo título cretino, mas nada melhor me ocorreu. Espero que tenham gostado apesar disso. Bem, quanto aos próximos, não sei quando vou conseguir postar. Estou, finalmente de férias e, por conta disso, ficarei afastada da internet até o início de fevereiro. Mas tentarei escrever o máximo possível e, se a oportunidade surgir, postarei em janeiro. Beijos e boas festas a todos! Felicidade e saúde no ano que está pra começar! Beijos!