HUGO E MONICA
.:. CAPÍTULO 28 .:.
TURBULÊNCIAS
Oi, Mônica,
A viagem de trem está um tédio, então resolvi escrever. Nem parece que faz só algumas horas que saí daí... Coisas demais aconteceram nessas poucas horas... Pra falar a verdade, eu nem acredito que fui aí! Até pediria pra alguém me beliscar pra ter certeza que não tô meio fora de órbita, mas a Alice tá dando um chilique aqui...
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Hugo estava olhando a paisagem correr pela janela do trem enquanto corria com a caneta pelo papel. Ele realmente havia tentado prestar atenção no que os outros estavam conversando, mas a cada duas palavras perdia a concentração e lembrava da noite anterior. Depois de quase uma hora nessa situação, ele desistiu e fez a única coisa na qual conseguia se concentrar. Escreveu para Mônica. Mas mesmo isso não era assim tão fácil. Tinha tantas coisas passando em sua mente, tantas coisas que achava que deveria dizer, mas não conseguia encontrar as palavras. Como podia ser tão difícil escrever quando se tinha tanto pra falar?
"Hugo?" Foi trazido de volta à realidade por Kai estralando os dedos em frente ao seu rosto. "Estou pedindo tua opinião, sabe?"
"Não liga não." Ele se virou na direção de Alice e a viu com os braços cruzados diante do peito e uma expressão fechada no rosto o encarando. "Ele agora só pensa na Mônica." Hugo não gostou muito da forma arrastada que ela usou pra falar o nome de Mônica, muito menos da forma que ela revirou os olhos ao dizer, mas apenas franziu o cenho para ela, resolvendo não discutir. Pelo menos não agora.
"Desculpa. Tava meio distraído. O que era?" Tentaria mais uma vez prestar atenção.
"Deixa pra lá." Kai falou depois de trocar um olhar significativo com Alec e Alessia. "Ainda não contasse direito pra gente quem é essa tal de Mônica."
"Por favor, gente! Me poupem!" Alice se levantou num pulo. "Ele chegou cedo lá em casa e não mudou de assunto até agora! É Mônica isso, Mônica aquilo!" Ela bufou, deixando os braços caírem flacidamente ao seu lado e então lançando um olhar para Hugo. "Já percebi que tás apaixonado por ela! Será que podes mudar o assunto?"
"Eu mudar de assunto?" Hugo se surpreendeu. "Foi tu quem chamou o assunto! Eu tava aqui bem quieto no meu canto!"
"Sim. E fazendo o quê?" Ela pegou o caderno de Hugo sem qualquer cuidado e olhou a página em que ele estava escrevendo. "Como eu imaginava. Escrevendo pra ela já! Só consegues pensar nisso agora!" Eles se olharam em silêncio por alguns segundos, os demais nem se atrevendo a falar uma única palavra. "Vou fazer minha ronda pelo trem." E saiu rapidamente deixando Hugo ainda sem saber o que fazer.
Foi Alessia quem quebrou o silêncio. "E então, quem é Mônica?"
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... Mas Alec, Alessia e Kai estão querendo te conhecer. Queria poder combinar pra já. Acho que a distância vai ser mais complicada do que imaginei... Tenho que me trocar agora. Estamos chegando ao castelo.
Hugo.
Oi, Hugo!
Essa deve ser a quinta carta que eu escrevo, mas até agora não tive chance de mandar nenhuma... E sei como é, aqui também aconteceram milhares de coisas. Mil e um problemas no hospital, só pra começar... Parece que algumas pessoas simplesmente não aprendem a mexer com fogos de artifício... Ah! Conheci tua irmã hoje!...
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Mônica precisava sentar. As costas doíam, as pernas reclamavam e os pés latejavam pelas últimas sete horas sem descanso correndo de lado a outro do hospital. Esgueirou-se pelos corredores até um consultório vazio e suspirou quando sentiu o corpo tocar na poltrona acolchoada. Assim que permitiu que seu corpo relaxasse, sentiu os olhos fechando e com esse simples gesto a imagem de Hugo parado à sua porta voltou a lhe preencher os pensamentos. Seus dedos tocaram levemente seus lábios, um gesto automático que se repetia cada vez com mais freqüência. Nunca imaginou que ansiaria tanto pelo toque de Hugo... Do jeito que ia, teria sorte se ainda estivesse sã quando se encontrasse com ele em Hogsmeade. Preparava-se para passar a hora do almoço sonhando acordada, mas foi descoberta antes do que pretendia.
"Almoçar?" Ela abriu os olhos e encontrou Scorpius mantendo a porta aberta. Ensaiou um 'não', mas seu estômago deu um ronco alto em resposta. Não fazia idéia de que estava com tanta fome... Sorriu levemente encabulada, mas acenou positivamente e se levantou. Ele sorriu e ela caminhou ao lado dele em direção ao refeitório, mas ele a puxou para a entrada do hospital. "Vamos almoçar em outro lugar. Quero te apresentar uma pessoa."
Ela pensou em desistir do convite, mas apenas respirou fundo e o seguiu até o Caldeirão Furado. Estava realmente curiosa em quem ele lhe apresentaria... Por mais que gostasse de Scorpius, não eram bem amigos. Sua curiosidade foi saciada logo que passaram pela porta no entanto. Se ele ter beijado a garota que já nos aguardava não fosse suficiente, os cabelos ruivos e o sorriso tão igual ao de Hugo teriam posto o ponto final. "Rose, certo?" Sorri e estendi a mão para ela. "Finalmente um rosto para o nome." Já a havia visto antes, mas a situação não foi nem um pouco propícia para que eu gravasse o rosto dela.
"Posso dizer o mesmo. Não via a hora de encontrar a garota que fez meu irmão perder o apetite." Ela riu e a risada dela era tão parecida com a de Hugo que fez Mônica rir com ela. "Isso é a coisa mais surpreendente que poderia ter acontecido."
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... Ela é um encanto. Não é à toa que Scorpius se apaixonou. Até eu estou apaixonada por ela! Pena que foi pouco tempo, tínhamos que voltar logo para o hospital. Mas algo me diz que vamos nos ver mais vezes. E porque a Alice estava dando chilique? E eu adoraria conhecer teus amigos, quem sabe quando for pra Hogsmeade te fazer uma visita. E quanto à distância, eu prefiro não ficar pensando a respeito... Por mais difícil que seja.
Beijos,
Mônica.
Bom dia!
Acordar e receber uma carta tua é ótimo, mas descobrir que tenho concorrência nem tanto. Vou ter que disputar tua atenção com minha irmã agora? E se tu fosse irmã dela tu não a acharias tão apaixonante... Rose pode ser bem irritante quando quer. E, se tratando do Hugo aqui, ela normalmente quer.
As coisas aqui estão tumultuadas também, os professores parecem maníacos quando se trata de N.I.E.M.'s! Mal sobra tempo pra dormir com tanto trabalho que passam! Isso sem contar outros compromissos...
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Hugo estava exausto, física e mentalmente, e coberto com uma mistura de terra e suor que só tornava a situação mais deplorável. Mas nem por isso o sorriso desapareceu de seu rosto. Se sentia realizado. Sabia que iam aprovar o projeto que ele propôs, ainda mais que o Professor Longbottom ficou entusiasmado também, mas receber a notícia oficial e finalmente colocar a mão na terra... Queria pular, correr, dançar... Queria Mônica...
Entrou no salão comunal e foi diretamente para o chuveiro, frustrado pela impossibilidade de poder vê-la, de poder sentir seu perfume ou seu toque macio. Quando voltou encontrou Kai debruçada sobre pergaminhos. Quando ouviu ela amaldiçoando a existência do planeta Júpiter, resolveu não atrapalhar: astronomia nunca foi seu forte. Então mudou o rumo e se juntou à Alec que estava organizando a pequena estante de livros do salão comunal. "Já decidiu que livro vais deixar aqui?" Perguntou ao sentar-se próximo ao amigo. Era uma tradição da casa. Todo aluno que se formava deixava um dos livros que usou em Hogwarts pra que outros pudessem usar em caso de necessidade. Hugo podia se lembrar de algumas situações em que a pequena coleção se mostrou útil nesses sete anos...
"Pensei em deixar algum de poções, mas tem vários aqui, então decidi pelo segundo volume de Astronomia básica. Só tem um e já está bem surrado." Alec nem ao menos tirou os olhos dos livros um único minuto. "Já decidisse também?"
"Acho que de todos os meus, os únicos com anotações úteis são os de herbologia e de trato... Tenho que ver qual tem menos aí."
"Herbologia, sexto ano." Alec respondeu de pronto. Suspirou e se ergueu, sentando na poltrona ao lado de Hugo. "E falando em Herbologia, devia estar divertido na estufa hoje."
"Porque tás falando isso?"
"Tinhas combinado de fazer o trabalho de Runas hoje." Hugo fechou o cenho e soltou um xingamento inaudível. Como que ele pôde esquecer? "Olha, eu não ia falar nada, até porque isso nunca importou antes... Mas dessa vez a Alice tá furiosa. Ficou o tempo todo resmungando que não dás a mínima pra mais nada, que o pai dela agora também tá ficando maluco e que odeia todo e qualquer tipo de planta." Ele terminou com um sorriso torto antes de voltar a colocar os livros alfabeticamente organizados na estante. "Fez até a gente prometer que não ia te emprestar, então seja discreto quando pegares o meu trabalho mais tarde, ok?"
"Valeu." Hugo se sentiu afundar no sofá. Desde que voltaram pra escola Alice estava estranha. Brigava por tudo ultimamente, Hugo já não sabia o que fazer... Tinha medo de falar alguma coisa que só piorasse a situação. E o pior de tudo é que Hogwarts não tinha a menor graça sem ela...
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... Estou escrevendo no meio do meu trabalho de Poções. Ultimamente tem sido difícil me concentrar pra fazer os trabalhos... Normalmente tenho Alice pra me manter focado, mas agora... Bem, melhor terminar por aqui senão vai passar da hora que posso ir ao corujal.
Abraços,
Hugo.
Ela tentava se concentrar na imagem de uma linda e suave onda lambendo a areia de uma praia deserta. A espuma da onda cobrindo seus pés e aqueles bichinhos pequenininhos que ela nunca lembrava o nome lhe fazendo cócegas. Mas essa cena foi mais uma vez interrompida por uma em que ela ataca uma morsa e bate com a cabeça do animal numa pedra da mesma praia, aqueles bichinhos pequenininhos que ela nunca lembrava o nome aplaudindo ao fundo. É... Essa cena era tão recompensante quanto a primeira. Mas Monica sabia que era na primeira que deveria se concentrar... Principalmente porque a morsa em questão era o diretor do hospital. Tudo bem que ele chamou ela pro hospital no dia de folga, cinco minutos antes dela aparatar para longe de Londres e depois de ter passado quarenta minutos sob os cuidados de Kate sendo girada de lá pra cá pra ajeitar aquele casaco e trocando de bota duzentas vezes, e só porque ele não conseguia achar o relatório que ela já havia entregue e que, estranhamente, estava guardado na gaveta rotulada "relatórios".
Mas também não tinha passado por aqueles quarenta minutos no inferno para ficar remoendo esse assunto e planejar a morte de ninguém. Precisava relaxar; respirar fundo e relaxar; respirar fundo e relaxar; respirar fundo e relaxar; respirar fundo e "Putaquepariu!" gritou saltando do banco ao sentir uma mão em seu ombro. Começou a rir assim que viu quem era seu suposto agressor. "Queres me matar do coração, é?"
"Eu?" Hugo riu e cruzou os braços. "Tu que tavas tão desligada que nem me ouvisse chegar."
Mônica suspirou e se deixou cair de volta no banco ao lado de Hugo. "Desculpa, tava tentando me acalmar... Tive que passar no St. Mungus pelo motivo mais idiota do universo antes de vir pra cá. E o diretor ainda ficou me perturbando com perguntas sem sentido! Quer dizer, sei lá, pra que ele precisa saber se eu gosto do marido da minha mãe? Porque interessa se ela pensa ou não ter outro filho? Ele nunca nem manteve um diálogo comigo que durasse mais do que dez segundos e agora vem com essa conversa..." Ela respirou fundo e tentou relaxar as mãos que teimavam em fechar-se em punho. "Isso. Me. Irrita."
Hugo colocou o cabelo dela atrás da orelha, o que fez ela se virar para ele. "Desculpa... Mas acho que é tudo culpa minha..."
"Por quê?" Ela ergueu as sobrancelhas confusa. "Andasse mandando me investigar?" Brincou.
"Não eu, mas acho que meus pais..." Pensando agora, ele se sentia um idiota por pensar que eles se contentariam em questionar Malfoy e, quem sabe, James... "Digamos que minha família têm uma certa paranóia com qualquer um que se aproxime de mim ou de qualquer um de meus primos... Devia ter te avisado." Ele suspirou... Essa história, por mais velha que fosse, ainda lhe tirava o ânimo. E antes de fazer a pergunta que temia, alcançou a mão dela e entrelaçou seus dedos. Esperava que ela achasse que a mão fria era por causa do tempo, não por estar nervoso na presença dela... "Irritada comigo agora?"
"Não..." Na verdade já não estava irritada desde que dissera que estava irritada. Se é que isso tinha lógica... Enrubesceu ao se dar conta do quanto a presença dele a acalmava. Aproximou seu rosto do dele e deu um leve beijo em seus lábios. Sentiu o sangue subir para suas bochechas e brincou. "E aqui, senhoras e senhores, temos nosso primeiro beijo em público."
"Acho que tens razão. Exceto pela falta de platéia." Hugo tentou brincar, não queria que ela notasse que estava sem graça, nem que não se dera conta de que de fato se beijaram em um local tão propenso a olhares alheios. Quer dizer, ele já nem tinha certeza se ia de fato beijar ela novamente, quanto mais em público. Seu estômago estava dando voltas e mais voltas... Isso não devia fazer bem...
"E quem ia querer estar nesse parque com tanta neve quanto hoje?" Ela então se viu sendo puxada por ele em direção ao Três Vassouras.
"Vamos? O pessoal tá esperando a gente já." Ele não sabia o que o aguardava quando chegasse lá. Queria muito que seus amigos se dessem bem com Mônica, na verdade, até esperava que isso acontecesse, mas e se fosse o contrário? Seu estômago apertou com a ansiedade e ele parou na frente da porta virando pra ela. "Nervosa?"
Ela se apoiou nos ombros dele e o beijou. Um arrepio tomou conta de sua espinha, mas achava que podia se acostumar com isso. "Nem um pouco." Mentiu descaradamente, mas quem ligava? "E isso foi público suficiente pra ti?"
Ele sentiu as orelhas queimando ao ver vários pares de olhos nas janelas. Tomou novamente sua mão antes de entrar no bar e caminhou até a mesa em que estavam seus amigos. Não pode deixar de notar os risinhos que trocaram ao ver ele se aproximando. Malditos risinhos... Pior era saber que se falasse algo a respeito as conseqüências seriam mais embaraçosas...
N.A.: Eu sei... Abandonei a história mais uma vez... Mas não foi bem um abandono, só deixei ela descansar um pouco! Bem, espero logo terminar! Beijos!
