Nos instalamos em nossos respectivos quartos e eu não pude deixar de rir quando James falou que havia um quarto de visitas também.
— Quem nós vamos receber? Carlisle? – ironizei.
— Nunca se sabe, de repente você faz alguns amigos por aqui...
— Ah, é, com certeza.
Quando terminamos de arrumar as coisas, saímos para caçar, pois os dois não se alimentavam há cerca de uma semana.
— Aqui nessa floresta de La Push só há cervos, Bella. Se você quiser, podemos esperar até o fim de semana e ir até Great Rocks Wilderness caçar ursos.
— Não, preciso me alimentar logo. Fico com os cervos mesmo, vamos às montanhas outro dia.
A caçada foi relativamente rápida e logo voltamos para a casa.
Apesar de não ter gostado a princípio da idéia de morar na praia, eu tinha que admitir que James havia tido um ótimo gosto. Meu quarto tinha uma espécie de sacada de dava vista para o mar e deixava a claridade e o vento passearem livremente pelo cômodo, pois a divisão entre a sacada e a parte de dentro era feita por uma ampla porta de vidro. Um contraste exorbitante entre a clássica construção e a modernidade.
Eu só tinha uma reclamação: para quê ocupar espaço com uma cama? E de casal, ainda por cima!
— De repente você quer trazer alguém aqui... – ele riu com malícia quando eu comentei.
James às vezes me dava nos nervos.
Havia um problema de percurso em que eu tentava não pensar muito: como a cidade era minúscula, as pessoas logo começariam a desconfiar de dois lindos aventureiros recém-chegados que não se misturavam à ninguém, logo, teríamos que freqüentar algum ambiente social. E a solução era irmos ao colégio. Ugh.
Eu havia cursado o colegial algumas vezes, mas fazia realmente muito tempo que eu não pisava em uma sala de aula. Minha vida inconstante não me exigia isso.
E eu não sabia se tinha realmente paciência para aqueles adolescentes cheios de hormônios. Nunca fui muito paciente em lidar com imaturidade.
— Vamos lá, Bella, será algo novo – James tentava me convencer.
Era sábado a noite e estávamos deitados sobre o telhado da casa admirando o céu noturno. Apesar da constante camada de nuvens, casualmente era possível ver a lua tentando ganhar espaço.
— Não sei se tenho paciência o suficiente para ficar muito tempo no mesmo ambiente com humanos.
— Você acaba acostumando. Eu sei que não há nada que você não possa fazer, garota.
Continuei admirando o céu e pensando em suas palavras. Talvez ele estivesse certo. Talvez eu pudesse mesmo me acostumar. Era apenas uma questão de tempo, e isso eu tinha de sobra.
— Tudo bem – interrompi nosso silêncio. – Nós vamos voltar ao colegial.
— Isso vai ser bom... – James sorria maliciosamente para o céu. – Todas aquelas menininhas...
— Você não vale um centavo, cabeção. – Rimos juntos.
Na segunda-feira, fomos até a escola fazer nossa matrícula. James entraria no último ano e eu no penúltimo, pois era o que nossa aparência permitia: ele aparentava 18 anos, 19 no máximo, e eu 17.
Assim ele dizia, pois eu achava que ele parecia mais um professor do que um aluno de 19 anos. Mas eu não estava com vontade de começar uma discussão sem sentido, já que ele não me daria ouvidos de qualquer jeito.
— Você só esqueceu de uma coisa – disse a ele pouco antes de sairmos. - Temos que ter a transferência de nossa escola anterior.
Ele deu um sorriso meio torto.
— Até parece que você nem me conhece, Bella.
— Não vai me dizer que você já havia pensado nisso.
Ele apenas sorriu e saiu de casa, me deixando abismada no hall.
Não foi difícil achar a Forks High School, uma vez que ela ficava – como quase tudo na cidade – perto da rodovia. Eu não entendia porque James fazia tanta questão de irmos para lá mesmo havendo uma escola na Reserva de La Push.
— Você não iria gostar da escola da Reserva. Os meninos de lá são bem piores que os daqui, eu garanto – ele explicou simplesmente.
A diretora da escola pareceu muito satisfeita em receber dois alunos novos, mesmo sendo no meio do semestre. Eu tinha lá minhas dúvidas de que havia uma contribuição significativa de James e seus "poderes de persuasão" nisso. Ela nos explicou as regras da instituição pessoalmente e disse que poderíamos começar a freqüentar logo no dia seguinte.
Quando James e eu saiamos da sala da diretora, eu senti um cheiro inconfundível vindo do corredor. Cheiro de vampiro.
Ou melhor: vampiros.
James, é claro, também havia sentido. Seu corpo se retesou e nós trocamos um olhar significativo, saindo do prédio rapidamente, mas em velocidade humana.
— Os Cullen. Eles são os únicos vampiros por aqui – disse a James assim que saímos da área da escola.
— Eles também devem estar na escola. Pelo menos os que aparentam ser mais novos.
— Havia três cheiros diferentes. Que eu saiba, os que aparentam ter menos idade são Jasper e Alice. - Tanya havia me contado algumas coisas sobre os filhos de Carlisle.
— Então Emmett ou Rosalie também devem estar aqui.
— Se um viesse, o outro também viria. Não é nenhum dos dois.
Fui assaltada por uma idéia nova, agarrando o volante e tentando não estraçalhá-lo, e acho que James pensou o mesmo, pois senti sua postura ficar tensa e seus punhos cerrarem.
— Eles transformaram mais alguém – dissemos juntos.
Fomos o resto da viagem em silêncio, perdidos em nossos próprios pensamentos sobre os fatos prováveis.
Eu não esperaria algo melhor dos Cullen. Eles eram monstros e não se envergonhavam nem um pouco disso.
Eu não reclamava de minha vida como vampira. Em quase quatro séculos de existência, já havia aprendido a aceitar o que era. Ainda assim, não era algo que eu desejasse para alguém: virar um ser sem alma, destinado a viver contando os dias e as noites pela eternidade.
E eu me peguei pensando no pobre coitado que havia perdido sua vida humana pelas mãos de Carlisle, assim como eu. A raiva queimou minha garganta e o ódio que há tanto eu guardava de Carlisle veio á tona, me fazendo exigir demais do meu autocontrole para não esmagar o carro em nenhuma árvore.
Na manhã seguinte, arrumei-me meticulosamente para o primeiro dia de aula. O dia amanhecera nublado, é claro, mas a chuva ainda não caíra. O que era só uma questão de horas, pois o céu estava escuro e as nuvens carregadas.
Quando apareci na sala, James me olhou de cima a baixo e soltou um assobio baixo.
— O que foi? – perguntei com uma sobrancelha arqueada.
— Você vai assim?
Olhei para meu casaco preto simples, a blusa azul-marinho que eu usava por baixo, a calça jeans preta colada ao corpo e botas pretas. Não consegui encontrar o motivo da admiração.
— Qual o problema?
— Nenhum. Só que os rapazes vão querer morrer por você e as meninas vão querer matá-la. De inveja.
Sorri para ele, pegando as chaves do carro e saindo.
— Se quiser carona, é melhor se apressar, cabeção.
— Vai me deixar dirigir?
— Claro que não!
— Nossa, Bellinha... Não seja tão egoísta. – Ele sabia que eu odiava meu nome do diminutivo
Sentei no banco do motorista e liguei o carro, levando um James emburrado comigo.
Como minha primeira aula era Trigonometria no prédio três e a de James era Educação Cívica no prédio seis, nos separamos assim que chegamos ao refeitório.
— Bella, espere – ele pediu quando eu já estava me afastando.
— Sim?
— Me prometa uma coisa.
Eu sabia o que ele ia pedir.
— Estamos passando por humanos, lembra? Não vou fazer nada com relação aos Cullen, pode deixar – tranqüilizei-o.
— Tudo bem. Nos vemos no almoço. – Ele ainda me olhava desconfiado quando se afastou.
Ainda estava um pouco cedo para minha primeira aula, mas ainda assim resolvi ir caminhando, lentamente, para a sala. Treinando meu comportamento humano.
O colégio ainda estava relativamente vazio, porém já era possível perceber os olhares curiosos sobre mim, a garota estranha recém-chegada. Ou talvez não tão estranha, pois acontecia exatamente o que James havia previsto: as meninas me olhavam com inveja, como se a qualquer momento pudessem pular em meu pescoço; enquanto os meninos me olhavam com cobiça, também como se a qualquer momento fossem pular em mim. Eu era madura demais para me importar com esse tipo de coisa, então simplesmente ignorei-os e continuei andando à procura da sala de aula.
— Com licença – alguém se pôs ao meu lado enquanto eu andava. – Meu nome é Michael Newton. Você deve ser Isabella.
Eu o olhei instintivamente, mas sem muito interesse no que ele tivesse para me dizer.
— Pode chamar de Bella – respondi simplesmente.
Continuei andando e o garoto veio atrás.
— Então... Você é nova por aqui, hein?
Gênio.
— Sou.
Percebi que havia um suor brotando em sua testa e ele parecia ter algumas dificuldades de coerência.
— Qual a sua primeira aula?
— Trigonometria.
— Poxa, a minha é inglês. Nos vemos depois então.
Ele ficou parado me olhando, certamente esperando que eu dissesse "sim, é claro". Mas eu simplesmente o ignorei e fui para a sala, lutando para manter a velocidade humana, agora tentando chegar o mais depressa possível antes que outro garoto idiota tentasse me abordar.
Entrei na sala quase no horário de começar a aula e o professor já estava em sua mesa. Entreguei a ele um formulário que ele deveria assinar para que eu levasse até a secretaria ao final do dia, rezando para que ele dispensasse as apresentações.
Mas já vi que ali eu não teria sorte, pois foi exatamente o que ele fez. E foi quando eu fiquei de frente para a turma para dizer meu nome que eu o vi.
