0.7 – Isabella Swan

James me ajudou a terminar de arrumar a biblioteca e acabamos indo novamente para o telhado, ficar deitados a noite inteira, admirando o céu nublado noturno de La Push.

— O que aconteceu entre você e Victoria hoje, James? — perguntei, deitada com as mãos cruzadas atrás da cabeça, depois de um longo silêncio entre nós.

Ele não respondeu de imediato. Pelo contrário: James, que até então estivera deitado na mesma posição que eu, sentou-se de frente para mim, cruzando as pernas como se fosse meditar. Colocou as mãos nos joelhos e, olhando para baixo, começou a responder.

— Eu não sabia que sentia tanta falta dela, Bella. Para falar a verdade, eu nem pensava mais em Victoria. — Sua voz estava aparentemente calma. Mas era perceptível que o nervosismo estava ali, devidamente camuflado. – Mas quando nos encontramos... No segundo seguinte em que nossos olhares se encontraram, caímos um nos braços do outro.

— Isso seria lindo, se não fosse alarmante — comentei simplesmente, tentando esconder a preocupação em minha voz, mas sem obter muito sucesso.

— Fique tranqüila, Bellinha. Eu sei me cuidar, não há por que se alarmar — ele respondeu, com olhos perigosos finalmente me encarando.

Sentei de frente para ele, imitando sua posição de meditação. Apoiei os cotovelos nos joelhos, descansando o rosto sobre minhas mãos cruzadas. Nós agora estávamos muito próximos e essa proximidade era essencial para que ele sentisse a gravidade de minhas palavras.

— Não deixe que ela faça sua cabeça – falei seriamente, sustentando seu olhar. — Você não me disse, mas tenho certeza que Victoria não mudou seus hábitos alimentares. Eu espero que você seja forte, James.

Ele rolou os olhos para o céu antes de responder.

— Apenas confie em mim. Eu sei o que estou fazendo, Bella — ele respondeu gravemente. Subitamente um sorriso apareceu em seus lábios e eu franzi o cenho. — Agora você, hein? Cullen já está caidinho.

James havia insistindo nessa história o tempo inteiro desde que voltamos da praia. Ele argumentava que se Edward não tivesse nenhum interesse em mim, ele não viria me avisar para não ir à aula amanhã. Eu tentei derrubar seus argumentos dizendo que Edward também tinha interesses nisso, mas James era impossível quando cismava com algo.

— Pára com isso, cabeção. Você vai ver que não é nada disso – retruquei, voltando a deitar com os braços cruzados sob a cabeça.

Ele deitou ao meu lado, imitando minha posição.

— E você vai ver que eu estou certo. Vai por mim, Bella, eu sei reconhecer um homem quando ele está interessado.

— Pois eu espero que você esteja muito errado. Não preciso de mais complicações em minha vida, muito obrigada – devolvi irônica.

— Bella, Bella... Acho que você deveria acreditar um pouco mais em destino.

— E eu acho que você deveria pôr mais os pés no chão.

Ele riu baixinho e permanecemos em silêncio.

Eu estava tentando controlar, mas era muito difícil esconder a ansiedade que tomava conta de mim. Há muito tempo eu não me sentia tão apreensiva e curiosa. Era tão incômodo que fosse Edward a me causar isso...

Pior do que isso, era a pergunta insistente e sem resposta em minha cabeça: por que me interessava tanto o que Edward sabia a meu respeito? Afinal, ele era apenas um garoto, mais de três séculos mais jovem e filho de Carlisle. Esses fatos seriam suficientes para me afastar dele, mas pelo contrário: tudo o que eu queria era que as 10h do dias seguinte chegassem e todas as minhas perguntas fossem respondidas de uma vez.

Mesmo se arrastando, as horas finalmente passaram. E agora eu estava dirigindo meu Vanquish à loja dos Newton. O dia amanhecera nublado, sem muitos indícios de que o sol apareceria. James resmungou mais vezes do que eu pude contar que Edward nos enganou e não haveria sol algum, reclamações estas que eu prontamente ignorei.

Estacionei o carro em frente à loja pontualmente às 10h e não havia qualquer sinal de Edward. Jurei a mim mesma fazê-lo em pedacinhos bem pequenos, do modo mais torturante, se ele me deixasse plantada ali.

Estava pensando em todos os métodos de tortura que eu já havia visto pelo mundo, me perguntando qual faria mais efeito em um vampiro, se o tailandês ou o chinês, quando alguém bateu no vidro do carona, me sobressaltando.

Claro que só podia ser ele.

Abri a porta e saí do carro, acionando o botão do alarme para trancá-lo. Encarei Edward interrogativamente sobre o carro e ele limitou-se a me dar aquele sorriso torto irritante.

— Para onde vamos? – perguntei a ele, dando a volta na parte de trás do carro e ficando ao seu lado.

— Conheço um lugar onde ninguém poderá nos interromper – ele respondeu. De repente, seus olhos faiscaram nos meus e ele aproximou o rosto alguns milímetros do meu. – Ou será que você tem medo de ficar sozinha comigo onde ninguém pode nos achar?

Sustentei seu olhar por longos minutos antes de responder.

— Pelo menos um dia na sua vida não seja tão idiota. – Ele gargalhou e, por mais bonito que fosse aquele som, aquilo me irritou profundamente. – Vamos ou não? Que eu saiba, hoje vai fazer sol, não temos muito tempo.

— Ok, então me siga – ele falou ainda rindo. – E tente não ser vista.

Edward saiu caminhando normalmente pela calçada, as mãos despreocupadas nos bolsos em um estilo que se poderia chamar de "elegantemente desleixado". Depois ele queria que as meninas do colégio não ficassem babando.

Fiquei observando-o de longe até suas costas desaparecerem em uma curva que levava a uma trilha que se embrenhava pela floresta.

Esperei alguns minutos e segui cuidadosamente o rastro deixado por seu cheiro ao longo do caminho, me certificando de que não estava sendo vista.

O rastro se embrenhava cada vez mais fundo e, assim que estava fora da vista de qualquer um, comecei a correr em minha velocidade. Confesso que já estava começando a ficar desconfiada do que Edward poderia querer com tudo aquilo.

O cheiro foi ficando mais forte e eu percebi que estava me aproximando de Edward. Conseguia avistá-lo ao longe, parado de costas para mim, em frente ao que parecia ser uma abertura no meio da floresta. As árvores ali já não eram tão densas e era possível ver alguns raios de claridade passando.

Corri ainda mais rápido, adorando poder ser eu mesma por alguns instantes, aproveitando ao máximo o vento em minha pele, a sensação de plena liberdade que aquilo me causava.

Alcancei Edward em poucos segundos, parando ao seu lado e olhando na mesma direção que ele.

Era uma espécie de clareira, aberta no meio da floresta densa. O espaço circular era completamente tomado pelas mais variadas flores; o capim crescia baixo em alguns pontos, inexistindo em outros, mostrando que o lugar era visitado com freqüência.

— É lindo, Cullen – reconheci baixinho, dando um passo para dentro da clareira, sendo imediatamente seguida por ele.

— Voltou a me chamar de Cullen?

— Você não gosta? – perguntei, virando de frente para ele.

Ele levou uma das mãos aos cabelos, desalinhando-os nervosamente. Ignorei toda a sensualidade daquele gesto, concentrando-me apenas em decifrar sua expressão, que era um misto de confusão e divertimento.

A confusão eu poderia entender, mas o divertimento estava além da minha compreensão.

— Bella, o foco hoje é você. Teremos tempo para falar sobre mim depois. – Ele se aproximou de mim e eu, instintivamente, recuei um passo. Edward sorriu torto e cobriu a distância entre nós com meio passo, parando a milímetros de tocar em mim. Eu podia sentir seu hálito gostoso tocar meu rosto, nossas respirações se cruzando no curto espaço que separava nossos corpos.

Edward levantou a mão para tocar meu rosto e eu, mais uma vez, recuei. Não era justo que eu soubesse o que ele estava pensando sem que ele soubesse disso. Eu queria ouvir as palavras de sua boca.

Ele estava franzindo o cenho para mim, tentando entender meus gestos. Dei-lhe as costas antes que aquele olhar me levasse a algum ato insano.

— Acho melhor não nos desviarmos do foco, então – sussurrei mais para mim mesma, sabendo que ele obviamente podia ouvir.

Edward andou pela clareira, sentando em um espaço onde a vegetação era particularmente escassa. Me juntei a ele, sentando ao seu lado com as pernas esticadas, apoiando o corpo nos cotovelos.

— O que você quer saber? – ele perguntou olhando para o céu. – 3, 2, 1... – Edward contou rapidamente, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, e mal ele pronunciou o "1", o sol surgiu milagrosamente por trás das nuvens, fazendo nós dois brilharmos e parecendo dar vida a tudo na clareira.

— Como você...? – balbuciei, incapaz de completar a frase.

— Você sabe, eu e minha família temos uma visão mais ampla do futuro – ele respondeu à pergunta incompleta.

— Isso é outra coisa que você vai me explicar depois.

Ficamos alguns segundos nos encarando, vendo nossas peles reluzirem à luz do sol. Edward desviou o olhar para as árvores à nossa frente e eu agradeci silenciosamente por ele ter me libertado da hipnose de seus olhos.

O que era isso? Desde quando ele me influencia tanto assim?

— Você ainda não respondeu à minha pergunta – ele acusou, ainda sem me olhar.

— Quero saber tudo – respondi. Esta resposta já estava ensaiada há tempos. — Tudo o que você sabe.

Seus olhos encontraram os meus e ele estudou meu rosto por alguns segundos. Não sei o que ele viu ali, mas, seja lá o que for, fez um vestígio de sorriso aparecer em seu rosto. Ele voltou a olhar para frente e então começou a falar.

— Você nasceu na Inglaterra, em 1650. Ou melhor, foi transformada nesse ano. – Sua voz estava anormalmente grave. Pelo visto, não era só eu que me sentia desconfortável com o assunto. — A típica história da garota indefesa...

Olhei-o com uma sobrancelha erguida e, para meu espanto, ele sorriu. Mas logo voltou a ficar sério e continuou.

— Carlisle também foi transformado nesse ano. E, ao contrário de você, ele não sabia nada do que estava acontecendo e, quando completou a transformação, não sabia o que havia se tornado. — Seus olhos ficaram ainda mais escuros, fitando as árvores à nossa frente. Desejei poder ver as imagens que se passavam em sua cabeça agora. — Tudo o que ele conseguia ver era a sede. Sede de sangue. Mesmo que não pudesse entender isso.

Um silêncio súbito pairou entre nós. Não um silêncio incômodo. Era mais um presságio. Como a calmaria antes da tempestade.

— E então você deu a "sorte" — ele fez as aspas no ar — de ser a primeira pessoa a passar em frente ao beco escuro em que ele ficou jogado por três dias durante a transformação. Quando ele entendeu que o que precisava era sangue, você estava ali, oferecendo uma oportunidade imperdível a ele.

— Eu nunca tive sorte — comentei ironicamente.

— Segundo ele, até hoje Carlisle não sabe explicar como não matou você. Talvez esse seja o dom dele, o autocontrole. — Eu tive que bufar com isso. Vi pelo canto do olho Edward dar de ombros. — Apesar de Alice viver dizendo que esse é o meu, o dele é a sensibilidade. Carlisle não gosta disso, ele acha que soa meio homossexual.

Ele sorriu um pouco e eu, involuntariamente, imaginei Carlisle vestido como um travesti. Quase gargalhei, mas me limitei a sorrir também.

— E então? — falei, incentivando-o a prosseguir.

Edward ficou sério novamente. Ele parecia saber, tanto quanto eu, que agora era a parte mais importante da história. A mais tensa.

— Ele esperou sua transformação se completar e explicou a você o que havia acontecido. Bem, agora ele fazia uma idéia do que era. Depois que ele sugou seu sangue e viu você se contorcendo durante três dias, ele entendeu melhor. Você há de concordar que foi mais fácil para você, tendo alguém que explicasse, do que para ele. — Ele me olhou de soslaio e eu me limitei a afirmar a cabeça milimetricamente. — Vocês começaram aquela nova vida juntos. Era mais fácil viver em dupla do que sozinhos.

— Você está me enrolando — acusei.

Edward soltou o ar pesadamente. Mudei de posição, cruzando as pernas como se fosse meditar e virando em sua direção. Ele imitou o meu gesto e ficamos sentados frente a frente, na mesma posição.

— Segundo Carlisle, vocês não sabiam que poderia haver outra forma de se alimentar. Entenda, Bella, vocês não tinham escolha, a não ser matar humanos. — Ele sustentava meu olhar com intensidade.

Encarei-o por alguns instantes, deliberando se deixava-o continuar ou interrompia e começava a contar a verdadeira história. Decidi pela primeira opção.

— Você, porém, achava que não precisava ser assim. Até entendo que no começo você tenha se rebelado contra Carlisle, afinal, você era uma linda jovem de dezoito anos que ele condenou a abandonar todos os sonhos – sua voz soava complacente. Me perguntei se aquilo não era um pedaço da vida dele também. — Mas acho que você estava errada em abandoná-lo, Bella.

Eu já estava preparada para ouvir isso, mas mesmo assim, não consegui conter a irritação.

— Deixe para achar alguma coisa quando souber a história completa, Cullen — falei, interrompendo bruscamente nosso contato visual.

Antes que eu pudesse impedir, Edward colocou dois dedos sob meu queixo, forçando-me a voltar a encará-lo. Seus pensamentos estavam tão confusos que eu não consegui captar nada naquele milésimo de segundo que durou o toque.

— Essa é a história que eu sei. E é a que eu vou continuar acreditando, a menos que você me conte a sua versão e me dê um bom motivo para duvidar de Carlisle — ele falou.

Respirei fundo, fechando os olhos momentaneamente para tentar me acalmar.

— Tudo bem. Conclua a sua versão da história e então eu contarei a minha — disse, voltando a abrir os olhos.

O rosto de Edward enrijeceu por alguns instantes, mas logo voltou a ficar suave e ele prosseguiu.

— Carlisle disse apenas que ele deu a você duas escolhas: ou você continuava sozinha, procurando as tais fontes alternativas de alimentação, ou você continuava com ele, bebendo sangue humano, sem negar a nossa natureza.

— Nossa natureza é beber sangue, não necessariamente sangue humano – afirmei.

— Bella, mas como você poderia saber que havia outros meios? Como Carlisle poderia saber? Você acha mesmo que ele está errado em ter tanta raiva de você? — Edward defendeu.

— Não, ele não está errado em ter raiva de mim — concordei. — Ele está errado em ter raiva de mim pelos motivos que tem.

Edward ergueu uma sobrancelha interrogadora.

— Termine a sua história e eu contarei a minha — repeti.

— Não me interrompa, vamos acabar logo com isso – ele pediu e eu acenei positivamente com a cabeça. — Ele me disse que você o abandonou. Escolheu a primeira opção. Por isso ele tem tanta raiva de você. Porque você o abandonou quando ele mais precisou. — Senti um certo tom de acusação em sua voz, mas eu sabia que ele havia sido enganado, então não o culpei por me julgar mal. — Desde então, vocês não mais se falaram. Um evita a presença do outro e ele mal toca no seu nome. E aí vem a minha pergunta: depois de tudo isso, por que, afinal de contas, você se mudou para Forks? Para perto dele?

Sem que percebêssemos, eu e Edward, tão absortos e interessados que estávamos na conversa, nos inclinamos um em direção ao outro. Quando dei por mim, meu rosto estava há apenas alguns centímetros do dele. Nossas bocas estavam na mesma altura. E, no segundo de hesitação em que eu pensava nisso, ele fez a maior loucura do dia: agarrou minha nuca e colou nossos lábios.

Aquilo foi tão inesperado que minha reação demorou algum tempo. Era como se meu corpo não conseguisse formular uma resposta, por não entender o que estava acontecendo. Mas quando eu, finalmente, consegui entender a situação, empurrei Edward pelo peito com as duas mãos.

Mesmo eu percebendo que sua força era um pouco maior que a minha, ele entendeu o gesto e se afastou. Sua mão ainda estava em minha nuca e seus lábios vermelhos ainda estavam próximos aos meus.

— Você não deveria ter feito isso – murmurei.

Levantei correndo, me posicionando do lado oposto da clareira. Fiquei agradecida que ele não tivesse me seguido.

Virei de costas para Edward, respirando fundo e fechando os olhos. Eu não queria vê-lo. Eu não queria que ele me visse. Que ele percebesse quanto aquilo me afetara. O quanto eu havia gostado de sentir seus lábios quentes nos meus. Esse era um segredo que eu levaria para o túmulo, mesmo que vivesse mais mil anos.

— Me desculpe, Bella, eu apenas... — ele começou a se explicar.

— Sh... — interrompi. — Não fale nada, isso pode piorar sua situação comigo.

Ele obedeceu e continuou calado. Eu queria correr. Ir embora para algum lugar bem distante de Edward e da tentação que ele era, daquela... coisa – na falta de palavra melhor – que existia entre nós.

Mas eu ainda sentia a necessidade de me explicar. Por motivos que eu talvez jamais entendesse, eu não queria Edward com aquela impressão errada de mim. Ele tinha que saber a verdade.

Abri os olhos e virei novamente de frente para ele. Edward continuava sentado no mesmo lugar, com a cabeça baixa apoiada nas mãos. Andei até ele, sentando à sua frente, na mesma posição que estávamos antes.

— Espero que você nunca mais me beije sem a minha permissão. Eu não sou qualquer uma, Cullen — avisei seriamente. Ele levantou a cabeça e eu sustentei seu olhar. — Espero não ter que falar isso novamente.

— Você não terá, eu prometo – ele falou e seus olhos transbordavam arrependimento. — E eu jamais pensaria isso de você, Bella. Foi apenas... — ele parecia confuso, desgrenhando os cabelos insistentemente — apenas um impulso. Um ato impensado, me perdoe.

— Tudo bem. Desde que isso não se repita.

(N/A: Música: How Does It Feel – Avril lavigne)

Ficamos em silêncio, nos encarando. Eu sabia que era a minha vez de falar a minha versão da história. Mas eu não sabia por qual parte começar.

— É sua vez. Comece da parte que as histórias começam a divergir – Edward falou, adivinhando o que eu estava pensando.

— Parece até que você lê meus pensamentos – comentei sorrindo.

— Que coisa absurda! Até parece que isso seria possível – ele respondeu sorrindo. Achei melhor não falar nada. Ainda não era a hora.

Ficamos novamente em silêncio e desta vez eu o interrompi, criando coragem para contar a verdadeira história.

"I'm not afraid of anything"

Eu não tenho medo de nada

— Você estava falando tudo certo. Até dizer que eu e Carlisle não conhecíamos outros meios de nos alimentar. Nós sabíamos, sim, Edward. — Fiz uma pausa, esperando que ele falasse algo. Mas seus olhos continuavam concentrados em mim e ele não me interrompeu. — Logo que eu e Carlisle nos transformamos, nós realmente não conhecíamos. Mas começamos, juntos, a pesquisar sobre o assunto. Não foi difícil encontrar outros da nossa espécie. E logo nos encontramos dois vampiros que se alimentavam de sangue animal.

Edward me encarava com o cenho franzido.

— Eu entendo que seja difícil para você acreditar no que eu digo. Mas, acredite, é verdade –assegurei.

— Prossiga, Bella – ele limitou-se a responder.

— Eleazar e Carmem eram um casal nômade. Eles souberam da pesquisa que eu e Carlisle fazíamos e nos procuraram. Então explicaram tudo sobre o seu modo de viver "vegetariano", como eles mesmo falaram. — Fiz novamente uma pausa, esperando que Edward me interrompesse, mas novamente ele não o fez.

Uma nuvem gigantesca encobriu o sol, deixando a clareira novamente nublada e fazendo nossas peles pararem de brilhar.

— Eles nos convidaram para fazer parte do grupo deles. Eu, ávida para substituir a minha dieta o mais rápido possível, prontamente aceitei. Mas Carlisle, como você já poderia ter deduzido, não. — Respirei fundo, mordendo a língua para não soltar todas as pragas que eu conhecia em cima de Carlisle. — É por isso que ele tem raiva de mim, Edward. Não é por eu tê-lo abandonado. É porque eu tenho a força que ele não teve para me adaptar a uma nova dieta.

]"How Does It Feel to be differente from me?"

Qual a sensação de ser diferente de mim?

Seus olhos vermelho-escuros faiscavam nos meus. Eu não sabia até que ponto ele acreditaria em mim, mas estava sendo o mais sincera o possível com ele.

— É uma história muito interessante – ele finalmente falou. — Só não vejo porque Carlisle teria motivos para mentir para nós.

— Você não vê? Eu pensei que estivesse óbvio, Edward. — Ele me encarou ofendido. — Ele não quer admitir que foi fraco. Mesmo sabendo que havia outra opção, ele preferiu continuar tirando vidas inocentes.

— É muito fácil para você simplesmente falar isso e esperar que eu acredite, não é mesmo? — ele devolveu acidamente.

— Eu não esperava que você acreditasse prontamente em mim. Carlisle sabe enganar muito bem quando quer — respondi no mesmo tom. — Mas eu estou falando a verdade. Cedo ou tarde você irá perceber isso.

Continuamos presos um no olhar do outro. Eu queria muito saber o que ele estava pensando. Mas não encontrava nenhum jeito de tocá-lo acidentalmente ou sem que ele pensasse em outras intenções.

O sol voltou a iluminar a clareira, fazendo novamente nossas peles brilharem mais que tudo ali.

— Essa é a minha história, Edward. A história verdadeira de Isabella Swan, não a que você ouviu de Carlisle — afirmei novamente.

— Só o tempo poderá dizer quem está com a verdade — ele retrucou. — Por ora, não vamos nos preocupar com isso, ok?

— Tudo bem — concordei.

— Nem deixar que isso interfira em nosso relacionamento — ele completou.

— Que relacionamento? – perguntei, ficando rapidamente de pé.

Ele sorriu torto, ficando também de pé e aproximando-se de mim.

— Ora ora, já esqueceu que somos parceiros na educação física? — ele deu uma piscadela, ainda com aquele sorriso torto irritantemente deslumbrante.

Revirei os olhos, aumentando a distância entre nós. Não confiava mais que Edward pudesse controlar seus "impulsos". E já bastava, pelo menos por ora, de contato físico.

— Só uma coisinha – eu disse, depois de andar alguns metros para trás, distanciando-me dele. — Como vamos voltar para casa sem sermos vistos?

Ele sorriu abertamente dessa vez.

— Bella, Bella... Não é só porque você é mais velha que eu sou menos esperto. — Não entendi a comparação. — Seguindo por ali – ele apontou um caminho por dentro da floresta – você vai encontrar, logo mais a frente, um caminho à esquerda. Dobre nele e siga direto.

— E isso vai chegar...?

— No quintal da sua casa – ele respondeu simplesmente. — E depois, a noite, você pode voltar à frente da loja dos Newton e pegar seu carro.

Eu tinha que tirar o chapéu, Edward era bom nisso.

— Você já vai embora? – perguntei, mas assim que as últimas palavras saíram, eu tive vontade de engoli-las. Ficou parecendo que eu não queria que ele fosse.

— Eu tenho que ir. Meus irmãos provavelmente estão pirando porque eu estou com você — ele respondeu.

— Carlisle sabe que você está aqui? — Como aquilo não me ocorrera antes?

— Sabe – Edward respondeu simplesmente.

— E...?

— E nada. Ele não falou nada.

Eu não entendia aquilo. Mas também não achava que aquela era a hora de entender. Eu tinha que me afastar o mais rápido o possível daquilo tudo. Eu precisava ficar só, colocar as idéias no lugar, tentar me preocupar com uma coisa de cada vez.

— Preciso ir – Edward falou, andando em minha direção. Levantei um braço em sua direção, com a mão espalmada, impedindo-o de avançar. Ele sorriu abertamente. — Tudo bem. Até mais, Bella.

— Até mais, Edward — falei, prendendo seus olhos por alguns instantes. — E obrigada.

— Obrigada por....? – ele franziu o cenho.

— Por ouvir a minha versão da história — expliquei.

— Eu precisava saber a verdade. Apesar de agora não saber em quem acreditar. — Ele devaneou alguns segundos olhando para um ponto indistinto e, de repente, pareceu lembrar que estava de saída. — Até segunda, Bella.

— Segunda?

— Ah, esqueci de dizer – ele falou, já entrando na floresta densa. — Falte à aula amanhã também. O sol estará fraco, mas irá aparecer.

E ele correu para dentro da floresta, me deixando novamente confusa e sem explicações. Por que ele não contava logo como sabia de tudo aquilo?

Conformei-me em correr de volta para casa, seguindo o caminho que ele havia indicado, repassando mentalmente nossa conversa.

Tudo bem, eu havia de concordar que tinha sido tudo muito esclarecedor. Mas eu ficara angustiada. Mesmo sem motivos, eu queria que Edward acreditasse em mim. Ou melhor, eu até tinha um motivo, talvez não forte o suficiente: era eu quem falava a verdade.

E a história absurda que Carlisle inventou... Não era de se admirar. Eu tinha certeza que ele inventaria algo do tipo.

Cheguei em casa com a cabeça mais cheia de "Edward" e "Carlisle" do que nunca, encontrando James na sala, assistindo televisão. Ou melhor, fingindo que assistia, pois ele zapeava tão rápido pelos canais, que era impossível ele estar se concentrando em algum deles.

— Graças a Deus você chegou! – ele exclamou assim que eu cruzei a soleira entre a sala e a cozinha. — Agora você vai me contar tudo, Isabella.

Suspirei profundamente, me preparando para contar tudo. E, seguindo o pacto da transparência, era tudo mesmo. Inclusive sobre o beijo.

(N/A: Finalmente, aqui está o capítulo tão esperado. ^^

Lá venho eu, na maior cara de pau, pedir novamente desculpas pela demora. Mas eu tenho explicação: eu estava enrolada com outra fic. Tinha que terminá-la logo, por isso acabei demorando tanto pra escrever em JLM.

Mas agora ela acabou e meu tempo vai ser todo pra cá. O próximo capítulo não vai demorar tanto assim, no que depender de mim.

Beijos e obrigada pela paciência. ^^