0.9 – Uma conclusão, um jogo

~Bella's POV~

James e eu decidimos que seria melhor sair para caçar agora, enquanto podíamos nos distanciar bastante e por alguns dias. Como só tínhamos aula na segunda, poderíamos aproveitar os três dias de folga para ir até as montanhas.

Eu havia acabado de "devorar" um leão da montanha particularmente suculento, enquanto James terminava de sugar o seu. Sentei-me à beira de um lago, apenas para lavar as mãos. Anos de prática haviam me feito habilidosa, de forma que agora eu já não me sujava tanto enquanto caçava.

James, ao contrário, sempre tinha que levar uma camisa reserva. Não por que ele não fosse habilidoso também: James adorava brincar com a "comida". Logo, sempre que terminava a caçada, ou ele estava com a blusa rasgada, ou repleta de sangue. Uma idiotice, se você quer a minha opinião.

Ele sentou-se ao meu lado, tirando completamente a blusa, que agora era só um pedaço de trapo. Lavou-se no lago e vestiu a blusa limpa.

— Um dólar pelo seu pensamento – ele falou, fitando o mesmo ponto indistinto que eu procurava.

— Que pobreza. 27 euros e eu conto exatamente no que estava pensando — retruquei.

— Gracinha — ele respondeu, dando um leve tapa em minha nuca.

— Pensava em Edward –— soltei sem pensar.

James bufou.

— Novidade. Não pagaria nem um centavo por esse pensamento. — Olhei-o de soslaio. — É óbvio que você pensava nele. Você faz isso o tempo todo.

— Por favor, não comece — respondi bruscamente. Já havíamos tido aquela conversa inúmeras vezes e eu não queria repeti-la agora.

— Tudo bem — ele respondeu e permanecemos em silêncio.

Eu observava uma formiga que carregava uma folha que deveria pesar, pelo menos, dez vezes mais o seu peso. Mas eu apenas olhava a formiga, meus pensamentos em rumos totalmente opostos.

James estava certo quando disse que ultimamente eu pensava em Edward o tempo todo. Mas não era minha culpa, quem controla seus pensamentos?

A verdade é que depois da conversa com ele e depois que eu contei tudo a James, parei um pouco de me preocupar com Carlisle e suas mentiras idiotas. Eu estava mais centrada em Edward. Para ser mais específica: no que eu havia sentido quando ele me beijou.

Eu odiava admitir isso, mas eu havia sentido algo nunca visto antes quando seus lábios tocaram os meus.

Por mais que tenha sido por pouco tempo, eu sentia como se aquilo fosse totalmente certo agora, apesar de eu ter repelido ele no impulso do momento. Eu queria mais daquilo, queria entender porque eu tinha a sensação de que eu precisava de Edward do meu lado. E isso era tão ridículo que nem mesmo para James eu podia admitir.

— Bella, ele vai fazer a escolha certa — James disse bruscamente, tentando adivinhar meu pensamento.

— Eu sei que vai. Não é exatamente com ele que eu me preocupo — retruquei, pegando um galho do chão e esfarelando-o entre os dedos.

— Vai ficar tudo bem, Bellinha. Pare de ser tão paranóica e apenas deixe acontecer. — Ele passou o braço em volta de meus ombros, puxando-me para um abraço de lado. — Pare de potencializar seus problemas, deixe para se preocupar com as coisas apenas quando elas realmente acontecerem.

Não era a primeira vez que ele me dizia isso, mas agora eu entendia muito bem onde usar essas palavras em minha vida. Era o certo a ser dito, o certo a ser seguido.

Resolvi que tentaria ao máximo seguir seu conselho.

Acampamos por mais um dia nas montanhas, apenas para ter o prazer de ficar algum tempo ao ar livre e sem fingir ser quem não éramos. No domingo de madrugada voltamos para casa. Eu havia deixado o carro em um ponto escondido na estrada para La Push, de forma que todos pensavam que eu e James havíamos viajado de carro.

O domingo passou indistinto: arrumamos a casa – não que tenha nos dado algum trabalho, super velocidade é algo realmente útil – e ficamos conversando e procurando besteiras na televisão o resto do dia e a noite.

A chuva caía pesadamente quando chegou a hora de irmos à escola na segunda feira. Me arrumei totalmente absorta, não conseguindo parar de pensar no que Edward me diria hoje. A que conclusões ele havia chegado? Já saberia dizer quem estava certo, em quem ele acreditava?

Eu e James acabamos nos atrasando, por minha insistência de não querer chegar muito cedo à escola para não encontrar Edward. Quando eu estacionei o carro, todos já haviam entrado e James e eu fomos os últimos.

Ele foi para a sua aula e eu para a minha. Mal poderia esperar por Trigonometria com Edward. Ugh.

Entrei na sala, carregando comigo um pequeno olhar mal-humorado do professor, que ditava um problema para que todos copiassem.

Sentei apressadamente, nem me dando ao trabalho de olhar para Edward e começando a copiar o problema que o professor ditava. Ele ditou cinco problemas seguidos e nos deu o resto da aula para resolvê-los. Como não tinhamos que entregar no mesmo dia, a maioria dos alunos começou a conversar através de bilhetes, mantendo o silêncio e não querendo chamar a atenção do professor, que lia um romance antigo, sentado à mesa.

Eu não tinha mesmo com quem conversar, isolada na minha cadeira no fundo da sala, dando qualquer coisa no mundo para ler os pensamentos da pessoa à minha frente. Mas, ao que tudo indica, eu não precisava ler seus pensamentos: ele os externou me passando um bilhete, que eu peguei assustada.

"Preciso falar a sós com você. Se importa em almoçar comigo hoje?"

Se eu tivesse um coração vivo, ele com certeza estaria batendo totalmente descompassado agora. Rabisquei uma resposta rápida.

"Se estivermos no horário de almoço, no refeitório, não será uma conversa a sós e você sabe muito bem disso"

Passei o papel rapidamente de volta a ele, tomando o cuidado de não deixar os fofoqueiros da sala verem. Edward leu e em menos de um minuto eu já tinha a resposta em minhas mãos.

"Você está certa. Mas preciso muito falar com você e tem que ser hoje. Podemos nos encontrar depois da aula, então?"

Eu mal poderia esperar para saber o que ele queria me dizer, apesar de saber exatamente sobre o que era. Justamente por saber sobre o que era.

"Ok. Me espere após a Educação Física."

Devolvi o bilhete a ele no mesmo instante em que Jessica Stanley lançava um olhar sorrateiro em nossa direção. Rezei para ela não ter visto, mas não achava que eu tinha tanta sorte assim, pois seus olhos estavam cravados nas mãos de Edward.

Decidi, depois de dois segundos de pensamento adolescente, que pouco me importava o que ela e suas amigas estavam pensando ou que tipo de boatos poderiam rolar sobre mim e Edward – sim, pois eu tinha certeza que já estavam rolando boatos. Eram, na maioria, invenções, salpicadas com muita maldade. Dane-se, eu já havia visto muito mais maldade do que todos aqueles pirralhos juntos, eles teriam que rebolar muito se quisessem mesmo me atingir de alguma forma.

No almoço, contei a James rapidamente na fila da comida que encontraria Edward após a aula. Ele não falou nada, simplesmente porque sabia que eu tinha conhecimento profundo o que ele estava pensando naquele momento: que poderia ser perigoso, que eu estava correndo ao encontro, ao invés de correr contra. Agradeci silenciosamente por ele não ter falado nada, pois eu não daria ouvidos, de qualquer jeito.

Mal senti o tempo passar, até a aula de educação física.

Nas próximas duas semanas, jogaríamos vôlei em duplas. Eu e Edward juntos, obviamente. O professor, apesar dos protestos, tirou a primeira aula apenas para explicar as regras e as táticas de jogo. Como se houvesse alguém ali que realmente não soubesse disso.

Sentamos em fileiras na quadra, Edward, de alguma maneira, conseguindo vir sentar ao meu lado, trazendo vários pares de olhos curiosos consigo. Não trocamos palavra, mas eu posso imaginar o porquê: quando ele sentou ao meu lado, alguém esbarrou em seu corpo e ele cambaleou um pouco para perto de mim, fazendo nossos braços roçarem de uma forma extremamente agradável.

Aquele calor magnifico surgiu no mesmo instante em mim, consequentemente, ele também sentiu. Preferi ignorar isso, tratando de me afastar o máximo que o espaço permitia, sem levantar suspeitas, de Edward.

Mas aquilo não queria passar. Eu já havia ficado próxima de Edward outras vezes, e nada era como agora: era como se nunca houvéssemos interrompido o contato. Eu continuava a sentir o calor e imagino que ele sentia também, pois ocasionalmente lançava olhares para o ponto onde havíamos nos tocado, como se procurasse a fonte do calor.

A hora passou se arrastando. Foi a aula mais devagar do dia, não sei se pela minha apreensão em ouvir o que Edward diria, ou pelo incômodo em estarmos sentindo aquilo sem termos qualquer ideia do que poderia significar.

Quando a aula finalmente acabou, não me dei ao trabalho de trocar o uniforme de Educação Física, já que havia vestido totalmente à toa. Peguei minha mochila, Edward pegou a dele, e seguimos lado a lado até o estacionamento.

— Onde podemos conversar? - ele finalmente falou.

Pensei sobre isso. Achei que seria uma oportunidade única para o pessoal da escola se nos vissem saindo juntos para conversar. Daria uma fofoca das boas. Não que eu importasse, mas sabia que para conviver entre os adolescentes as vezes era preciso entrar no jogo deles.

Reunindo toda a força de vontade e paciência que eu não tinha, tomei uma decisão.

— Acho melhor que não seja agora, nem aqui — respondi. Ele ergueu as sobrancelhas, confuso. — Você sabe, não quero dar mais motivos para fofocas.

— Ah sim. — A compreensão perpassou seu rosto. — Então, onde e quando?

Felizmente, eu já havia pensado nisso.

— Bem, você me mostrou o seu "esconderijo" — falei, referindo-me à clareira. — Agora é minha vez de lhe mostrar o meu.

Ele deu aquele sorriso torto perfeitamente irritante antes de responder.

— Certo. E onde fica esse esconderijo? — ele perguntou, dando um passo em minha direção. Bem, pelo visto eu não estava sozinha por achar que não precisava haver distância alguma entre nós. Mas pelo menos eu sabia controlar isso.

— Me encontre na entrada da reserva La Push, às 17h, hoje — respondi. — E sem atrasos desta vez, por favor.

Ele sorriu um pouco e acenou com a cabeça. Perto demais, perto demais.

— Certo, Bella. Nos vemos logo mais — ele murmurou e saiu, andando em direção ao seu carro.

Procurei por James e ele estava a alguns metros de distância; encontrei seus olhos em meu rosto e ele estava com aquela expressão perigosa, os olhos pequenos. Fiquei imaginando o que ele me diria, sem dificuldade alguma para isso.

— Bella... — ele começou, mas eu interrompi.

— Poupe o discurso, James. Eu sei o que você vai dizer — afirmei. — Eu estou tendo cuidado. Mas entenda que não posso me afastar. Não ainda.

Fiquei feliz que ele tenha se contentado com isso, pois fomos em silêncio até em casa.

Ás 17h, eu estava com meu carro estacionado na entrada da reserva. Não passava de uma estrada deserta, de mão dupla, então eu veria quando Edward chegasse, vindo ele de qualquer lugar. Na verdade, marcar um encontro aqui teve duplo sentido: eu percebi que não sabia onde os Cullen moravam, e achei que teria um bom palpite se visse de onde Edward vinha. E também precisava de um ponto de referência que ele conhecesse.

Com um minuto de atraso, Edward chegou. Mas, para minha total infelicidade, ele veio de carro. E não qualquer carro: reconheci um Porsche, amarelo berrante. Wow. Aquele era um carro bonito.

— Você está atrasado — reclamei, assim que ele estacionou seu carro poucos metros à frente do meu e desceu.

— Segundo o meu relógio, estou no ponto — ele falou, consultando um relógio de pulso.

Meu lado "mente adolescente", que, eu percebera tarde demais, vinha à tona geralmente na presença de Edward, interpretou aquele "estou no ponto" no sentido pervertido da palavra. Óbvio que eu não externei esse pensamento.

— Que seja – concordei, com um dar de ombros. — Por que você veio de carro? E com um carro tão chamativo? Será ainda mais dificil esconder os dois.

— Pensei que seu "esconderijo" fosse um pouco longe para corrermos — ele explicou, parecendo desconcertado. — Se você quiser, posso voltar em casa e deixar o carro.

— Não, isso iria nos atrasar. Vamos deixar meu carro aqui e vamos no seu. — Acho que é mais fácil o meu passar despercebido.

Ele apenas concordou com a cabeça, abrindo a porta do pasageiro do Porsche para mim. Ele achava mesmo que eu ia perder a chance de dirigir aquele carro perfeito?

— Eu dirijo. — Minha intenção não era soar como uma ordem, mas foi isso que saiu.

— Negativo. O carro não é meu, não posso correr o risco de amassá-lo contra uma árvore — ele respondeu. Ok Edward estava pedindo para morrer.

— Cala a boca, Edward, e me dá logo essa chave — resmunguei de volta.

— Você adora mandar os outros calarem a boca, não é, Bella? Um dia é você quem será calada. — Não entendi porque suas palavras soaram tão amarguradas para mim. Resolvi deixar passar. — Entra logo aí no banco do passageiro, e não reclama.

Decidi que era inútil começar uma discussão por isso agora. Estavamos parecendo duas crianças bobas brigando pelo brinquedo novo.

Entrei no carro e ele logo deu a partida. Era muito melhor do que eu imaginava. Muit mais veloz, mais macio. O carro perfeito. Por que mesmo eu não comprei um Porsche?

— Para onde devo ir? — Edward perguntou e eu me surpreendi que ele parecesse mal-humorado.

— Pegue a próxima entrada, à direita — respondi simplesmente.

Ele fez o que eu disse e logo estavamos em uma subida em espiral.

Fomos algum tempo em silêncio. Aquilo estava me incomodando. Não sei desde quando, mas eu sentia necessidade de preencher as lacunas de silêncio com Edward. Resolvi quebrar o gelo.

— O que você está ouvindo? — perguntei, sem esperar que ele respondesse e ligando o som.

(N/A: I Still Haven't Found What I'm Looking For – U2)

— Nossa! Há quanto tempo eu não ouvia isso! — respondi, reconhecendo a batida da música.

— Não diga "isso", é U2 — Edward respondeu, brusco de novo.

Eu não entendia de onde vinha aquele mau humor. Parei para prestar atenção à letra da música, tentando ignorar aquele ser estranho ao meu lado.

"I have run through the fields
Only to be with you"
Eu corri através dos campos
Só para estar com você

Edward começou a cantarolar e eu o surpreendi olhando em minha direção com uma sobrancelha erguida. O que? Ele estava querendo cantar a música para mim? Rará. Como se ele fosse o inventor dessa estratégia.

— Pegue a próxima entrada à esquerda e siga até o final. Chegaremos em dois minutos — assegurei assim que voltamos a ficar em um plano reto novamente, voltando a ficar quieta e prestar atenção à letra da música.

Me peguei cantando o refrão junto com ele. Mesmo que ele não imaginasse, aquela letra realmente estava mexendo comigo.

"But I still haven't found
What I'm looking for"
Mas eu ainda não encontrei
O que estou procurando

Desde que Edward me beijou, eu tive a estranha sensação de estar completa perto dele. Estranha, sim, pois eu não achava que estivesse "incompleta" antes. Mas quando eu penso em seu toque, em tudo o que acontece quando estamos juntos, essa "ligação", eu vejo minha vida como um quebra-cabeças. E Edward era a peça que estava faltando. É como se eu, sim, tivesse encontrado o que estava procurando.

Ah. Droga. Isso soou tão apaixonado.

Chacoalhei a cabeça, a fim de afastar esses pensamentos perigosos, e agradeci por a música ter acabado e outra com um tema mais leve começar a tocar.

Poucos segundos depois, chegamos ao final de uma trilha por onde Edward havia levado o carro. Dali para frente, era apenas floresta e floresta. Só era possível entrar a pé.

— É aqui? — ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

— É. Vamos, que tal correr um pouco? — Dei um sorriso e uma piscadela para ele, que pareceu ficar em transe.

Desci do carro e comecei a correr em direção à trilha. Olhei para trás e Edward ainda não estava me seguindo. Voltei até o lugar de onde havia partido e ele estava paralisado no mesmo lugar que eu o deixara no carro.

— Você não vem? — perguntei, colocando as mãos na cintura e olhando-o pelo espelho pára-brisas frontal.

Ele pareceu despertar seja lá do quê o estava prendendo ali e se juntou a mim. Corremos um pouco e eu logo percebi que ele era um pouco mais rápido que eu. Óbvio, sendo praticamente um recém-nascido, ele tinha muitas vantagens sobre mim.

Edward diminuiu o ritmo e me deixou passar a sua frente para guiá-lo. Logo chegamos ao lugar que eu pretendia mostrar a ele.

Eu descobrira o penhasco em um dia que James saiu para correr em Port Angeles e me deixara sozinha. Resolvi explorar a Reserva e acabei descobrindo este lugar, que me pareceu perfeito para qualquer coisa: seja para ficar só, seja para um encontro a dois, ou apenas para quem quer tranquilidade, que era o meu caso e de Edward.

A vista dali era perfeita: as pedras formavam uma descida íngreme até a praia. Estavamos há, pelo menos, 100 metros de altura. Eu acho. Nunca fui muito boa em medir distâncias a olho. Mas posso afirmar que era realmente muito alto.

Era possível ver quase toda a praia, as ondas quebrando no lugar onde a descida do penhasco acabava e um amontoado de pedras se formava. Os únicos som distinguíveis eram passaros, cantando m um lugar muito distante, e as águas da praia. Era longe o suficiente para ninguém nos achar ali.

Mesmo diante de tanta beleza e paz, eu fui capaz de me lembrar o porquê de estarmos ali. Retesei o corpo em apreensão, lançando um olhar sorrateiro a Edward, que ainda analisava a paisagem.

Sentei à beira do penhasco, deixando a pernas penduradas no ar. Dei dois tapinhas no chão ao meu lado, convidando Edward a sentar também. Ele fez o que eu sugeria e sentou. Perto demais.

— E então? Será que você já tem algumas conclusões para mim? — perguntei, tentando parecer despreocupada. Não funcionou.

Ele continuou em silêncio, fitando o horizonte. Questinei-me se ele estava decidindo o que me contar ou não.

— Bella, primeiro eu gostaria que você entendesse meu lado — ele falou, por fim. Fiquei feliz que sua voz parecesse tranquila. — Não é fácil ouvir de uma pessoa praticamente desconhecida que tudo em que você acredita está errado. Ou mehor, quase tudo.

Ele fez uma pausa, talvez esperando que eu dissesse algo. Mas eu não queria falar. Eu queria apenas que ele me dissesse suas conclusões.

— Bem... Minha conclusão não é nada brilhante — ele informou, passando a mão nos cabelos revoltos, parecendo um tanto desconcertado.

— Ainda assim, quero saber. E gostaria que você parasse de me enrolar — respondi.

— Tudo bem — ele respondeu. Edward virou rapidamente para mim. Virei-me também, ficando de frente para ele. Estavamos sentados tão próximos, que esse movimento nos deixou cara a cara, perto demais do que seria seguro. — Resolvi que não tem um certo nessa história. Que eu não quero escolher quem é certo ou errado agora. Você não tem provas para me fazer acreditar, Carlisle tampouco. Tudo o que tenho é a palavra dos dois, e eu não saberia dizer qual vale mais: a sua ou a dele.

Pisquei algumas vezes para ele, com a plena consciência de que meu rosto estava totalmente sem expressão. Então ele fez tanto mistério por isso? Era por isso que eu ficara tão ansiosa?

— Como você pode viver assim? Sem saber qual a verdade? — foram as únicas coisas que consegui perguntar.

Ele deu de ombros.

— Há outras verdades que me interessam agora — ele respondeu, enigmático.

— Como...?

— Você. Você é um enigma, Isabella. Eu sei que você gosta quando isso acontece — e, por uma fração de segundos, ele tocou minha mão e aquele calor maravilhoso me invadiu. Dessa vez eu não recuei o toque até que ele o fizesse, tendo a oportunidade de ler as próximas palavras em sua mente antes mesmo que ele as pronunciasse. — Mas não sei por que voê recuou do meu beijo. Não sei por que você me chama de Cullen para me irrritar. Não sei de onde você veio, o que veio fazer em Forks, o que faz morando com James, o que ele é para você. Essas sim são verdades que me interessam.

Ele interrompeu o contato de nossas mãos e eu continuei encarando-o, segura de que estava parecendo idiota.

Pensei rapidamente sobre o que ele havia dito. Então, com tantas mentiras e verdades nos rondando, tudo o que ele queria saber era sobre mim? Sobre a minha vida, o que faço, fiz, ou deixo de fazer? Edward era estranho.

Mas estranho ainda era eu achar tudo isso muito pertinente.

— Você realmente não teria como saber tudo isso me conhecendo há menos de uma semana — respondi. — Mas talvez eu lhe dê a chance de um dia saber tudo isso. Quem sabe aos poucos? São quase quatrocentos anos de história, você não ia querer saber tudo agora.

Ele sorriu torto e eu senti um frio na barriga ao vè-lo se aproximar, com aquele sorriso, do meu rosto.

— Você é quem sabe. Mas eu vou cobrar. — Seus olhos se iluminaram e ele pareceu ter uma ideia. — Tenho um plano. Resta saber se você topa.

— Diga.

— Vamos jogar o meu jogo. Perguntas e respostas diretas, uma por dia. Você me diz algo sobre você e eu sobre mim. Se é que você tem algum interesse em saber minha história — ele explicou, parecendo uma criança empolgada com a brincadeira nova.

Sorri com a ideia. O jogo era realmente interessante. Por motivos que nunca entenderei, eu queria saber a história de Edward. Queria muito. O jogo era perfeito!

— Eu topo. Começamos quando? — respondi, sendo presenteada com um sorriso aberto, daqueles que tirava o fôlego até mesmo de quem não precisava respirar.

— Agora mesmo. Prepare-se, Bella... Não economizarei perguntas — ele tentou parecer ameaçador, mas me fez rir.

— Já nasci pronta, querido — respondi, fazendo- soltar uma gargalhada curta.

Edward pensou por dois segundos e avisou que já tinha algo a perguntar. Fiquei pensando se ele já não estava com essa pergunta pronta. E, quando ele a fez, eu tive a certeza que sim.

— O que você tem contra o amor, Bella? Por que não acredita? — ele perguntou com olhos curiosos estudando meu rosto.

Felizmente, minha resposta já estava pronta. Ele não era o primeiro a perguntar isso. As Denali sempre questionavam por que eu não tinha um namorado ou algo do tipo. O próprio James desistira de pergunta há anos.

James, aliás, depois de ter ficado sabendo do beijo que Edward me roubara na clareira, disse que finalmente o amor poderia estar encontrando caminho em minha vida. Achei isso tão meloso, que preferi não responder e fazê-lo pensar que tinha razão.

— Não tenho nada contra o amor, Edward. Pelo contrário: eu admiro quem ama. Só acho que não é para mim essa "ternura" e "carinho". Eu não saberia dar isso a alguém — respondi.

Ele me olhava com as duas sobrancelhas erguidas, provavelmente discordando de tudo que eu falava. Eu não me impressionava com isso: todos costumavam discordar.

— "Coisa terna julgais que seja o amor? Não; muito dura: dura e brutal, e fere como espinho" — Edward disse e eu reconheci instantaneamente sua fala: era uma das falas de Romeu a Mercúcio em "Romeu e Julieta".

— Você não precisava citar Shakespeare. Até porque, tanto faz, sabia? Dificilmente vou achar alguém que me ame e me aceite como eu sou. E não estou disposta a mudar por ninguém — assegurei, desviando de seu olhar e pousando os olhos no mar.

— Você é muito pessimista — Edward disse, tirando-me dos meus devaneios e fazendo-me voltar a encará-lo. — Um dia ainda vou provar que está errada.

Eu esperava que não. Não queria Edward me provando nada, pois sabia qual era a única maneira de ele me provar isso. Na verdade, eu não sabia muito bem o que queria: quando estava longe, eu queria estar com ele; quando estava com ele, eu queria estar longe de seu olhar inquisidor. Tinha medo do que ele poderia fazer comigo.

— Teremos uma surpresa no colégio essa semana — ele comentou casualmente.

— E eu ainda tenho direito a uma pergunta — devolvi. Ele conteve um sorriso e fez sinal com a cabeça para que eu prosseguisse. — Como você sabe de todas essas coisas? O que exatamente você quer dizer quando diz que "sua família tem uma visão mais ampla do futuro"?

Aquela pergunta ardia em mim todos os dias, eu precisava dela respondida o quano antes e essa era a oportunidade perfeita.

Edward abriu um sorriso enorme.

— Você é absurda, Bella. Com tantos mistérios entre nós, você resolve perguntar isso.

Dei de ombros desafiadora. Ele revirou os olhos antes de responder.

— Alice, aquela baixinha que sempre almoça comigo, é uma das minhas irmãs. Ela tem o dom de prever as coisas, por isso sempre sabemos o que irá acontecer — ele explicou.

Uau. Aquilo era o máximo. Quando era criança, eu dizia que se pudesse escolher ter um poder, seria o de ver o futuro. E o que eu ganho em troca? Ler a mente de um garoto que acabei de conhecer. Muito menos empolgante.

— Isso é realmente o máximo — respondi, apesar de achar que ele não concordava.

— É, as vezes pode ser. Mas, na maioria das vezes, é impertinente ter alguém te dizendo o que você tem que fazer para algo aconteça. — Não entendi o que ele quis dizer com aquilo. Ele percebeu minha expressão atônita e explicou. — Hoje, por exemplo. Ela viu que se eu viesse com o carro dela, você iria gostar dele e iria querer andar comigo. E foi o que eu fiz: tirei o Porsche amarelo da garagem.

Então o carro era dela? Estava começando a gostar dessa Alice.

— E como isso pode ser impertinente? — perguntei, sem entender.

— Qual é a graça de não poder descobrir as coisas, Bella? De não arriscar? Com Alice, nunca conseguimos arriscar, porque ela sabe que vai dar errado antes que aconteça.

Consegui acompanhar seu raciocínio e concluí que ele tinha razão. Não havia muita graça em viver a vida sem correr nenhum risco.

Ha un senso** — respondi, falando mais comigo do que com ele.

(N/A: ** Faz sentido, em italiano.)

Voltamos a ficar em silêncio e eu voltei a olhar a paisagem, fitando o mar. Bem, se Alice realmente poderia ver o futuro, era pôde prever que eu e James nos mudaríamos para Forks. E Carlisle pôde preparar todo o "terreno" para nos receber: ele teve tempo para inventar suas mentiras e agora era a hora de contá-las.

E Edward já me conhecia antes mesmo de eu saber que ele existia. Isso é totalmente sobrenatural. Não é algo que aconteça todos os dias. Que pensamento estúpido é esse, afinal, o que eu queria? Normalidade, sendo uma vampira?

Absurda, como ele mesmo frizara.

Vimos a noite cair, sem pôr-do-sol. Aqui em La Push eles eram raros e eu sentia muita falta disso. Em virtude do meu pequeno probleminha de brilhar no sol, não tinha visto muitas vezes ele se pôr. Mas era a minha parte preferida do dia desde que eu me entendia por gente e, coincidentemente, a melhor hora para os vampiros: o crepúsculo.

— É melhor voltarmos — Edward comentou. — Alice sabe que eu estou bem, mas o seu vampiro não vê o futuro, ele deve estar preocupado.

— Tem razão — concordei, ficando de pé.

A trilha pela qual viemos estava extremamente escura, um humano se perderia facilmente ali. Mas nós, obviamente, voltamos sem dificuldades e logo achamos o carro.

— Vai me deixar dirigir? — perguntei, sem esperança.

— Na verdade — ele respondeu, sorrindo —, Alice viu que você pediria para dirigir e disse que eu poderia fazer essa caridade no caminho de volta.

Quase dei um pulo de alegria. Definitivamente, eu gostava de Alice. Me assustei com isso: gostar de dois Cullen era um pouquinho mais do que eu pretendia.

Peguei as chaves do carro que Edward me jogou e entrei rapidamente, quase sem esperar que ele fizesse o mesmo. Mal coloquei a chave na ignição e dei a partida, ansiosa por testar aquele carro.

— Vai com calma, ok? Acho que Alice ainda quer o carro dela — Edward comentou sarcástico.

— Relaxa, baby. Eu tenho bons reflexos — respondi, arrancando uma gargalhada dele.

(N/A: Careful – Paramore)

Liguei o som e sintonizei uma estação de rádio. Eu gostava daquela banda, mas Edward torceu o rosto quando ouviu. Ignorei-o e comecei a cantar junto, aproveitando ao máximo a sensação de dirigir aquela máquina.

Aquele carro, a partir daquele dia, era meu sonho de consumo.

Chegamos ao ponto em que eu havia deixado meu carro e eu, com todo o sacríficio, tive que sair do Porsche. De repente, meu carro não parecia mais tão convidativo.

Encostei-me na lateral do Vanquish. Eu não queria me despedir de Edward. Mas também não podia comentar isso com ele.

Ele encostou-se ao meu lado, descontraído. Ficamos em silêncio, mas dessa vez eu não senti a necessidade de quebrá-lo.

— Nos despedimos aqui, então? — ele falou.

— Parece que sim — respondi, não encontrando mais nada para dizer.

O silêncio voltou e agora sim parecia incômodo. Edward foi rápido e, apesar de ter previsto o que ele iria fazer, não pude contê-lo. Dessa vez, eu não queria contê-lo.

Ele virou-se de frente para mim, colocando uma mão de cada lado do meu corpo, ambas apoiada no carro. Ele era uma cabeça mais alto do que eu, de forma que tive de levantar o rosto para encontrar seus olhos.

Eles estavam alegres, brilhantes, na íris vermelha. Desci o olhar até seus lábios. Vermelhos, entreabertos, convidativos. Lembrei-me da sensação de tê-los tocando os meus. E decidi que aquilo era o que eu queria.

— Edward... — sussurrei.

— Bella... Eu aprendi a lição. Não vou fazer nada sem a sua permissão. Preciso ouvir de você o que você quer.

Suas mãos foram parar na minha cintura, colando nossos corpos e um aperto firme. Nossos lábios estavam a centímetros um do outro.

— V-voc-cê. — Droga, desde quando vampiros gaguejam? — Faça o que quiser. Você tem minha permissão. Por favor — eu sabia que a súplica final era desnecessária, mas não pude deixar de fazê-la.

E ele fez a única coisa que poderia naquele momento: invadiu minha boca, em um beijo furioso, coberto de desejo. Nesse instante, meu corpo todo era chamas. Concentrei-me em aproveitar aquele calor que emanava do contato entre nossos corpos, bloqueando qualquer pensamento, meu ou dele, que pudesse fluir.

Enrosquei minhas mãos em seus cabelos perfeitos, aprofundando o beijo. Edward me encostou na lataria do carro, colando seu corpo ao meu de tal forma que eu pude sentir cada célula sua correspodendo ao nosso beijo. Era bom saber aquilo, pois eu me sentia da mesma forma.

Não sei por quanto tempo ficamos colados naquela posição nos beijando, mas fomos interrompidos pelo som de um pigarro.

Interrompi o beijo e quase tive uma síncope – mesmo que eu, sendo vampira, estivesse isenta desse tipo de coisa – quando vi quem era.

Não poderia ser. Será mesmo que eu nunca teria sorte, nem nessa vida? Era a última pessoa que eu queria interrompendo meu momento perfeito com Edward. O último ser que eu gostaria de encontrar agora.

— Posso saber o que está acontecendo aqui? — Carlisle disse.

Acho que Edward estava, como dizem atualmente, ferrado. Muito ferrado.

(N/A: Aqui está o capítulo 9, babys. E agora? O que vai acontecer quando Bella e Carlisle finalmente se encontram?

Isso vocês verão no próximo capítulo. =D

E, por falar nele, creio que ele vá demorar um pouquinho para sair.

Não sei se já disse aqui, mas eu só tenho os finais de semana para escrever. Então, vou deixar a próxima postagem para quando ficar de férias, 9 de julho, porque essas próximas cenas serão beeem tensas.

E também porque estou devendo um presente para uma amiga e preciso muito finalizá-lo.

Gostaria que mais pessoas opinassem sobre um possível POV do Edward...

Beijos, amores.)