11- Quem é você, Edward
Consegui me desvencilhar das piadinhas e das perguntas de Edward aquela tarde, indo para casa com James logo após o término dos testes.
Eu só podia dizer uma coisa: era muito azar para uma pessoa só. Por que logo eu, logo eu, que fui obrigada a fazer os testes, fui escolhida para o papel principal? Eu nem culpava Jessica, ou até mesmo Lauren, por ficarem com raiva. Elas queriam muito mais o papel do que eu. Tudo bem, não vou negar que gostei e já estava animada para isso. Mas não deixa de ser azar.
Chegamos em casa e eu subi para o meu quarto sem trocar mais que duas palavras com James, pedindo apenas para ele me deixar quieta. Eu queria pensar sozinha, me concentrar e reunir a minha força para lidar com tudo o que estava acontecendo.
Olhei para a cama enorme que James colocara no meu quarto, ainda com os mesmos lençóis de quando chegamos aqui. Eu nunca a havia usado.
Deitei no centro da cama, apenas fechando os olhos e libertando meus pensamentos em todas as direções. Nessas horas, eu queria ser capaz de dormir. No sono, estávamos quase sempre seguros de nossas aflições. Ou queria, pelo menos, ter aquela coisa que eu vi uma vez em um desses filmes de bruxaria. Penseira, acho que era esse o nome. Queria poder tirar da cabeça, mesmo que por alguns instantes, metade dos pensamentos que me assombravam.
Depois de um tempo indeterminado deitada, senti o celular vibrar no bolso do casaco. Peguei-o rapidamente e abri um sorriso quando vi de quem se tratava.
― Tanya! ― gritei, cumprimentando-a. ― Como está?
― Bella! Estou ótima! E você? Como está Forks? ― sua voz se dividia entre animação e preocupação.
Decidi que minha amiga não precisava saber de todos os detalhes do que se passara aqui. Claro que eu não esconderia dela minha ligação com os Cullen, mas não entraria em detalhes. Eu não a queria preocupar mais ainda.
― Estamos muito bem ― comecei a dizer, me pondo a detalhar fatos irrelevantes de meu cotidiano com James.
Falei da escola, de Angela, das garotas com inveja, da aula de Educação Física e da peça de teatro em que eu seria a protagonista. Falei da casa que eu James morávamos, da Reserva La Push e de como céu por aqui era sempre nublado.
― Fico aliviada que você esteja bem ― Tanya ressaltou, depois que eu terminei meu monólogo. ― Estive preocupada com a ausência de notícias, sabe como é...
Mesmo ela não falando, eu a conhecia bem demais para saber o motivo de sua real preocupação.
― Fique tranqüila quanto a isto. Nada disso está me incomodando e eu começo a me acostumar com a idéia de ter vindo morar em Forks ― assegurei a ela.
Após ela ter me dado notícias de Kate e Irina, e também de Carmem e Eleazar, que haviam passado por lá, desligamos, comigo prometendo que iria retornar a ligação o quanto antes.
Fui até a varanda do meu quarto e fiquei ali, simplesmente admirando a vista deslumbrante de um céu nublado e um mar cinzento. Ouvi alguém subir as escadas e logo James estava ao meu lado, seguindo o meu olhar para o horizonte.
― Tanya ligou ― informei a ele. ― Deixou lembranças a você.
― Obrigado ― ele respondeu. ― Victoria também ligou.
Olhei para ele, instantaneamente alarmada, e um vinco se formara em sua testa, parecendo ter sido esculpido ali.
― E então? ― perguntei.
― Ela quer que eu vá até ela amanhã ― ele disse, tentando parecer casual, mas falhando. ― Ainda não sei muito bem o que fazer quanto a isto.
― Se eu fosse você, tratava de decidir logo. Victoria não é alguém com quem se possa brincar ― alertei. ― E você sabe disso muito bem ― acrescentei.
― É, eu sei ― ele respondeu tristemente. ― Só ainda não sei o que fazer quanto a Angela.
― Conte a verdade a ela. Posso não ser experiente em relações, mas sei que mentiras não são o caminho certo.
Ele me olhou sério por um instante e depois sorriu.
― Você está certa, para variar ― ele assumiu, passando um braço ao redor dos meus ombros. Deitei a cabeça em seu peito e ficamos apenas contemplando a paisagem, até que escurecesse completamente.
― James?
― Sim?
― Apenas, por favor, não machuque muito Angela. Ela me parece muito sincera com relação a você. ― Lembrei do sorriso dela após a minha atuação com Edward. ― Bem, ela me parece sincera com relação a tudo, na verdade.
― Pode deixar. ― Apesar de não poder ver sua voz, eu sabia que ele estava sorrindo. ― Angela tem um coração de ouro. Eu jamais deixaria que algo acontecesse a ela.
― Mas também não deixaria nada acontecer a Victoria ― pressupus.
Ele hesitou antes de responder.
― Não. Desde que ela não ultrapasse limites, eu daria qualquer coisa por ela― ele respondeu e eu sabia que dessa vez não havia qualquer vestígio de sorriso nele.
Na manhã seguinte, eu e Edward éramos o assunto de todas as conversas. Por onde quer que passássemos, juntos ou não, eu podia distinguir nossos nomes em meio a burburinhos e sussurros.
Entrei na aula de Trigonometria me sentindo mal humorada com isso. Mas o sorriso deslumbrante que Edward deu ao me ver entrar na sala apagou qualquer vestígio de humor negro de mim.
― Bom dia, Julieta.
― Olá, Romeu.
Havíamos chegado cedo e o professor ainda não estava em sala. Alguns alunos estavam fora de suas carteiras, indo conversar com outros colegas, enquanto outros rabiscavam algo no quadro. Ninguém parecia estar prestando muita atenção em nós.
― Vai assistir aos testes de hoje? ― Edward me perguntou.
― Sim. James vai estar lá e eu estou curiosa para descobrir o que o cabeção aprontou ― respondi, um sorriso maroto brincando em meus lábios.
― Se eu não me engano, você me deve uma resposta ― ele jogou, virando para me olhar.
Virei para ele também e sustentei seu olhar, levando um momento para responder.
― Verdade ― concordei. ― Por que eu vim para Forks.
Suas sobrancelhas se ergueram e ele se inclinou levemente em direção a mim enquanto eu respondia.
― Na verdade, não há um motivo explícito. James me convidou e eu vim ― comecei. ― Nunca gostei de manter residência fixa por muito tempo e achei que não me custava nada tentar, depois de velha. E por que não em Forks? A cidade é perfeita.
Edward não parecia estar acreditando cem por cento no que eu estava dizendo, mas, ainda assim, contentou-se com aquela resposta. Tudo bem, eu escondi algumas partes da verdade, mas ele não teria mesmo como descobrir o que eu escondi.
― Acho que isso me dá o direito de perguntar algo ― completei, rezando para o professor não entrar em sala naquele instante.
― Obviamente ― ele respondeu, erguendo uma sobrancelha e sorrindo torto.
― Quem é você, Edward? De onde você veio, como foi transformado e, o mais importante, por quê? ― soltei, mal parando para puxar o ar.
Ele riu baixo antes de responder, mal mostrando os dentes.
― É bem mais que uma pergunta ― ele retrucou.
― Bem, então escolha apenas uma e responda ― sugeri.
Para meu total azar, o professor entrou na sala naquele instante e, como em todos os outros dias da semana, se pôs a ditar problemas.
Quando eu e Edward terminamos a tarefa – o resto da sala ainda estava na metade dos testes – fomos juntos à mesa do professor. Após ele ter corrigido – tanto eu, quanto Edward acertamos todos – fomos liberados da sala de aula.
Edward abriu a porta de uma sala vazia e fez sinal para que eu entrasse. Não havia ninguém nos corredores àquela hora, logo não seríamos vistos. Mesmo assim, eu ergui uma sobrancelha, querendo saber o motivo daquilo.
― Entre e eu responderei não apenas uma, mas todas as perguntas que você fez ― ele explicou, mantendo a porta aberta para que eu passasse.
Entrei na sala, sentando na mesa do professor e jogando minha mochila em uma carteira vazia. Edward me seguiu, pegando uma cadeira e sentando de frente para mim. A mesa era, obviamente, mais alta, de forma que eu o estava olhando de cima.
Apoiei os braços atrás de mim, sustentando o peso do meu tronco com os cotovelos, esperando que ele começasse a falar.
― Primeiro, antes que eu comece a falar, quero que me prometa algo ― ele estreitou os olhos para mim.
― Claro ― concordei.
― Prometa que manterá a mente aberta e não irá julgar nada nem ninguém. Apenas ouvirá.
Senti que lá vinha bomba por aí. Mas, pensando por um outro lado, era até justo que ele me pedisse isso, contando que eu iria ouvir algo que fora provocado por Carlisle. Era de se pensar que eu já estaria julgando antes mesmo que ele começasse a falar.
― Tudo bem, como você quiser ― assenti.
Ele continuou me encarando por algum tempo antes de, finalmente, decidir que eu estava falando a verdade. Sua expressão relaxou e ele começou a contar a história, como se estivesse apenas comentando a previsão do tempo.
― Nasci em Liverpool, Inglaterra, em 1923 ― ele começou. ― Morei com meus pais a vida toda. Tínhamos uma vida tranqüila, tão simples quanto pode ser a vida em um interior industrializado da Inglaterra. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, no entanto, tudo mudou. Em 1940, Liverpool foi atacada pela Luftwaffe alemã.
― Eu lembro. Foram dias terríveis. Eu fiquei longe da Europa na época, passei uns anos na América do Sul, mas acompanhei todos os detalhes da Guerra ― concordei pesarosa.
― Então você deve saber que o número de mortos foi bastante alto ― ele insinuou e eu assenti. Se ele parasse ali, eu já poderia adivinhar o resto da história. ― Meus pais estavam perto quando a Alemanha explodiu uma bomba na nossa cidade. Eles morreram na hora. ― Mesmo ele sendo muito bom em esconder as emoções, sua voz havia ficado mais grave, mais saudosa. Seus olhos estavam direcionados para o chão, mas eu tinha certeza que as imagens que ele via eram tempos muito diferentes de agora. ― Carlisle estava na cidade na época. ― Abri a boca, mas ele me deteve. ― Não me pergunte por que, eu não faço idéia.
― E você nunca teve curiosidade em saber? ― perguntei.
― Não ― ele respondeu, rápido demais. ― Eu queria vingar a morte dos meus pais. Matar o maior número de alemães que conseguisse. Carlisle, sabendo dessa história, me contou o que ele era. Disse-me o que eu seria capaz de fazer se o deixasse me transformar. ― Uma expressão furiosa aparecera em seus rosto e seus olhos vermelhos agora apareciam, a lente totalmente derretida. ― E eu não pensei duas vezes em aceitar a oferta ― ele concluiu, a voz amarga.
Ficamos algum tempo em silêncio, tempo este em que eu esperei ele se acalmar para voltar a interrogar.
― E você não perdoa Carlisle por isto? ― sugeri.
(N/A: Música = Emergency – Paramore)
― Carlisle não é o único culpado, Bella ― ele defendeu, me lançando um olhar exasperado. Era a primeira vez que ele me olhava nos olhos desde quando começou a contar a história e eu me assustei. Havia culpa estampada em cada linha do seu rosto. ― Eu pedi para ele fazer isso. Eu quis. Ele me deu a opção de aceitar ou não e eu aceitei. A culpa é muito mais minha do que dele.
― Não, Edward. Se você quer se culpar, eu não vou impedi-lo. Você talvez até tenha alguma culpa. ― Saí de minha posição relaxada, sentando ereta e com os braços cruzados. ― Mas Carlisle se aproveitou da sua fraqueza. Ele sabia que, de cabeça quente como você estava, acabaria aceitando a primeira oportunidade de vingança.
"And I can't pretend that I don't see this
It's really not your fault,"
E eu não posso fingir que eu não vejo isso.
Realmente, não é sua culpa.
Edward abriu um sorriso sombrio. Não havia humor algum ali, apenas uma amargura infinita.
― Depois que a Guerra acabou e eu matei o maior número de alemães que consegui, Carlisle me convidou a me juntar a ele ― Edward continuou, como se eu não o tivesse interrompido. ― Eu aceitei, mas agora começava a perceber as conseqüências da escolha que havia feito. E começava a me arrepender disto. E, se quer, saber, eu pensei que iria conviver com esse arrependimento para sempre.
"The scars they will not fade away"
As cicatrizes, elas não sumirão
― Posso imaginar porque você estava arrependido ― falei, franzindo o cenho para ele. ― Mas por que mudou de idéia? O que te fez pensar diferente?
Ele me olhou, um sorriso brincando em seus lábios. Não havia mais aquele humor negro. Agora ele parecia quase maravilhado enquanto me olhava.
― O que mais seria? ― Ele agora sorria abertamente. ― Amor, Bella. Eu pensei que, me tornando o monstro que sou agora, eu jamais poderia ter os sentimentos humanos bons de novo. Então chegou Alice. Aquela nanica me fez perceber que eu ainda poderia amar alguém, mesmo como irmã. E agora ― ele levantou e andou até mim, ficando de pé entre as pernas que eu mantia penduradas. Seu hálito roçou meus lábios, suas mãos repousaram em minhas coxas. ― Agora vem você e confirma as minhas suspeitas e expectativas.
Encarei seus olhos vermelhos, totalmente consciente de seus dedos massageando minhas coxas sobre a calça jeans e sua boca há alguns centímetros da minha.
― Eu? ― Ergui uma sobrancelha. ― Mas o que eu tenho a ver com tudo isto?
Acho que tive medo da resposta.
― Você é tudo isso ― ele respondeu, descendo os olhos até meus lábios e infiltrando a mão em meus cabelos. ― Todos os sentimentos bons. Eu sei que você é capaz de me mostrá-los.
― E como você poderia saber? ― Eu agora encarava seus lábios, tão perto que eles estavam de encostar nos meus.
Ele não respondeu. Ao invés disso, fechou os dedos em torno dos cabelos em minha nuca, puxando-me levemente para si. Seus dedos tocaram minha pele e o calor se espalhou a partir da nuca até o resto do meu corpo em questão de segundos, enquanto Edward tocava meus lábios gentilmente com os seus.
"And you do your best to show me love
E você faz o seu melhor para me mostrar o amor"
Dessa vez, não havia pressa. Não havia receio da minha parte. Não estávamos em público. Nada.
Apenas seus lábios macios tocando os meus. Sua língua, que deveria ser gelada, mas que eu sentia quente, fazendo o contorno da minha boca. Quando ele intensificou o aperto em minha nuca, usando a mão livre para apertar, simultaneamente, minha coxa, eu abri os lábios para dar passagem à sua língua, cruzando os braços em volta de seu pescoço e puxando-o para mais perto de mim.
Sua língua explorava cada ponto da minha boca, com uma curiosidade gostosa e, ao mesmo tempo, excitante.
Aquele deveria ter sido nosso primeiro beijo. Sem interrupções, sem repulsa.
Estávamos tão envolvidos em nosso mundo particular, apenas concentrados em decorar cada traço do paladar um do outro, que eu não saberia precisar quanto tempo passamos ali, nem saberia dizer por que finalmente Edward interrompeu o beijo.
Mas, quando nossas bocas se soltaram, eu abri os olhos apenas para fixá-los nos lábios entreabertos de Edward, ele fazendo o mesmo com os meus. Sua respiração fazia cócegas em minha pele e ele deu aquele sorriso torto.
― Isso responde sua pergunta? ― ele disse, levando a mão que estava em minha coxa até minhas costas, sem nunca deixar de tocar meu corpo.
― Responde ― murmurei, abrindo um sorriso.
O sinal tocou e eu dei um pulo na mesa, fazendo Edward rir audivelmente.
― Qual a sua próxima aula? ― ele perguntou, apanhando nossas mochilas. Fiz menção de pegar a minha, mas ele apenas me lançou um olhar magoado e eu o deixei carregar.
― Biologia ― respondi.
― Vamos, eu levo você até lá.
E sem que eu pudesse responder ou protestar, ele me conduziu pelos corredores, andando tão próximo que eu podia sentir a corrente invisível de calor que nos ligava. Por onde quer que passássemos, os olhares nos acompanhavam. E os cochichos também, mas eu fazia questão de não ouvir o veneno daqueles rumores.
Chegamos à porta da sala de Biologia e Edward entregou minha mochila, encostando-se de lado na porta da sala, me impedindo de entrar.
― Respondi todas as suas perguntas de hoje. Agora se prepare para as minhas ― ele disse, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha.
Logo após termos saído da sala, ele havia passado em seu armário para colocar as lentes de contato, de forma que agora seus olhos estavam escuros novamente.
― Eu não tenho medo de nada, Edward ― devolvi, também cruzando os braços sob os seios.
Ele aproximou o corpo do meu, baixando os olhos para ficarem à minha altura. Não recuei, sentindo novamente sua respiração tocar meu rosto.
― Não mesmo? ― ele sussurrou, tão perto que eu senti o gosto de seu hálito doce tocar meu paladar.
Antes que eu pudesse formular qualquer resposta coerente, ouvimos um pigarro e eu imediatamente dei as costas para Edward, encarando o Sr. Banner.
― Olá, Sr. Banner ― eu disse, sorrindo sem jeito.
― Olá, Swan. Podem desbloquear a passagem? Isso está pesado.
Só então percebi que ele carregava uma série de caixas e, pelo jeito como sua voz estava saindo sofrida, deveria mesmo estar pesado.
― Oh, me desculpe, precisa de ajuda? ― ofereci, mas ele nem respondeu: logo que desbloqueamos a passagem, ele correu para a mesa e colocou as caixas lá em cima.
― Te vejo depois ― Edward disse, plantando um beijo estalado em minha bochecha e correndo para não perder a própria aula.
No horário do almoço, quando eu e James entramos na lanchonete ainda havia poucas pessoas. Pegamos a nossa comida de mentirinha e sentamos em nossa mesa habitual, sem sinal algum dos Cullen.
― Ansioso para os testes? ― perguntei a James, brincando com um garfo.
― Você não imagina o quanto ― ele respondeu, irônico.
― Ah, vamos lá, James, nem será tão ruim assim.
― Quem diria que seria você a me dizer isso ― ele retrucou, tomando um gole de Diet Coke.
James agora comia toda a comida que pegávamos, a minha e a dele. Ainda não havia perguntado o porquê, mas suspeitava que tinha algo a ver com Angela.
E, por falar nela, a mesma sentou-se na cadeira à minha frente, com o seu sanduíche vegetariano e o iogurte light, dando um beijo rápido em James e me cumprimentando com um sorriso, que eu prontamente retribuí.
― Podemos sentar? ― uma voz melodiosa e, ainda desconhecida, soou.
Olhei para cima, a tempo de ver Alice e Edward parados ao lado da nossa mesa. Ela sorria abertamente, carregando uma bandeja de comida intocada, enquanto ele mordia os lábios. Aposto que estava tentando não cair na gargalhada.
Voltei a olhar para James, que deu de ombros. Inútil.
― Claro ― respondi, sem saber mais o que dizer.
Ela e Edward puxaram cada um uma cadeira. Edward sentou na cabeceira da mesa e Alice ao meu lado. Levantei uma sobrancelha para ele, lançando meu olhar "o que está acontecendo aqui?" e ele repetiu o gesto de James: deu de ombros.
Homens.
― Então, Bella, animada para a peça? ― Alice perguntou casualmente.
Bem, já que todos estavam agindo como loucos essa semana, achei por bem entrar na dança. E, se fosse olhar por outro lado, eu já havia dirigido o carro dela. Por que não dar papo? Ela até parecia uma pessoa bem legal, com toda essa coisa de ver o futuro.
― Um pouco ― respondi, dando um meio sorriso de lado. ― Não tanto quanto deveria estar, pelo visto.
― Ah, vamos lá, anime-se. Vocês serão um par perfeito ― ela completou, olhando de mim para Edward e piscando para ele.
― É, você deve mesmo saber disso. ― Sorri, lembrando o dom perfeito de Alice.
― Edward comentou que você gosta muito do meu dom ― Alice disse, virando de lado na cadeira para poder ficar de frente para mim. ― É muito bom saber disso. Ele não gosta.
― Edward não sabe o que é bom, Alice ― retruquei, olhando para ele, que ergueu uma sobrancelha.
― Por que você não me mostra? ― ele disse, cruzando os braços no peito, como se me desafiasse.
― Ah, vocês não vão começar agora, vão? ― James reclamou, revirando os olhos.
Lembrei que Angela, a única não vampira da situação, também estava sentada ali. Olhei para ela, parecendo perfeitamente confortável sentada ao lado de James. Era uma das únicas humanas que não tinha qualquer reação a ficar perto de vampiros. Ela não sentia aquele medo natural que todos sentem da espécie, tampouco se incomodava quando James, com a pele gelada, tocava seu rosto ou pegava sua mão.
― Não briguem, crianças ― Alice falou, sempre sorrindo. ― Edward é meio quadrado para certas coisas, Bella, não ligue.
Ela falava comigo tão naturalmente, tão solta, sem receios, que eu sentia como se já fôssemos amigas há anos. Logo percebi que era difícil não gostar de Alice. Ela era meiga, extrovertida e aberta às opiniões diferentes. Tão logo ela começou a falar e todos já se viam envolvidos na conversa, sorrindo e brincando. Inclusive eu.
Pouco antes de o sinal bater indicando o fim do horário do almoço, Alice virou novamente de lado na cadeira e falou diretamente para mim.
― Vamos lá, eu sei que você está curiosa.
Pior é que eu estava mesmo. Queria saber mais sobre aquele dom dela. Queria saber tudo que ela pudesse me contar.
― Bem, acho que você me pegou ― confessei sem jeito, olhando para as mãos cruzadas em meu colo.
― Pergunte. O que você gostaria de saber? ― ela disse, me incentivando com um daqueles sorrisos animadores que, eu já havia percebido, eram muito característicos dela.
― Como funciona? Você pode ver qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer hora? ― Percebi que eu havia soado um tanto infantil. Mas, com o sorriso divertido que recebi de Alice, não me preocupei em ficar envergonhada. Ela parecia tão empolgada com aquilo quanto eu.
― Não é exatamente assim ― ela respondeu. ― Só posso ver o futuro das pessoas que conheço, obviamente. E só posso ver se elas realmente tomarem a decisão de fazer algo.
― Como assim? ― perguntei, virando-me também de lado na cadeira, para ficar frente a frente com ela.
― Se você estiver indecisa entre vestir uma blusa azul ou uma vermelha, eu posso ver a sua indecisão, mas não posso saber qual blusa você usará até que realmente tenha escolhido ― ela explicou.
― Isso parece um tanto incerto ― respondi. ― Então você só pode ver o futuro imediato, não o que acontecerá daqui a dez anos, por exemplo.
― Depende. Se você fizer uma escolha agora que vá repercutir pelo resto da sua vida, eu posso sim ver o que acontecerá no futuro distante ― Alice respondeu com um sorriso misterioso.
Não deixei passar o olhar sorrateiro que ela lançou a Edward nessa hora.
― Mas então como você sabia que eu seria a Julieta se isso não estava decidido? ― insisti.
― Isso já estava decidido. Quando você decidiu fazer o teste, o Destino decidiu que você seria a Julieta ― ela me explicou.
― Então que papel eu vou ganhar? ― James perguntou, do outro lado da mesa.
Alice riu, um som melodioso e gostoso, antes de responder.
― Você quer mesmo saber? Perderá totalmente a graça ― ela falou.
― Claro que quero! Menina, você sabe o que pode fazer com esse dom? Isso é uma arma poderosa! ― James exclamou, fazendo todos na mesa rirem.
Todos, menos a própria Alice, que ficou anormalmente séria. Aquilo não era certo. Alice não era o tipo de pessoa que deveria ficar séria. Tratei de dissipar a tensão dela, não percebida pelos outros, desviando sua atenção com outra pergunta.
― Então você também não consegue saber os porquês das decisões? ― continuei, puxando a atenção dela de volta para mim.
― Não. Posso apenas ver as decisões, não o real motivo por trás delas ― ela respondeu, o humor voltando ao seu rosto. ― Eu vi quando você decidiu vir para Forks, mas não sabia o porquê.
― Espera um pouco ― interrompi. ― Se você não me conhecia, como poderia saber de uma decisão que eu tomei? Você não disse que só pode ver o futuro das pessoas que conhece?
― Sim. Eu não conhecia você, mas conhecia as Denali. Tive um vislumbre do futuro delas e me concentrei em explorá-lo. Então vi você deixando o Alaska ― ela explicou. ― E depois, verificando o futuro de Edward, vi você chegar aqui.
― De Edward? ― A pergunta foi para ela, mas meu olhar estava no rosto tranqüilo dele, que parecia estar achando aquilo tudo uma piada.
Foi então que o sinal tocou e Alice se despediu de todos nós, me dando um abraço apertado e dizendo que adorou me conhecer. Ela plantou um beijo na bochecha de Edward – tendo que pular nas pontas dos pés para tal – e flutuou para a sua próxima aula. Sim, pois seu andar era tão elegante que ela mais parecia estar flutuando.
Subitamente, lembrei que Angela ouvira toda a conversa. Olhei dela para James, mas ela parecia super a vontade e parecia nem ter ouvido o que estávamos falando. Eu teria uma conversa muito séria com James a respeito disso depois.
Eu, Edward, James e Angela nos despedimos rapidamente, combinando de nos encontrarmos na lanchonete para ir aos testes depois da aula. Bem, eu e Edward nos encontraríamos na Educação Física. Ugh.
― Gostou da minha irmã? ― Edward perguntou. Estávamos sentados lado a lado no chão da quadra, enquanto o professor apontava para um quadro que ele havia montado para explicar as últimas regras do vôlei.
― Ela é ótima. Alguém não gosta de Alice? ― perguntei sussurrando.
Edward sorriu e sua mão procurou a minha. Ele entrelaçou nossos dedos e o calor percorreu nossos corpos. Péssima hora. Não era hora nem lugar para ter uma quentura anormal se espalhando pelo corpo.
O mais intrigante de tudo foi ouvir seus pensamentos. Eles estavam em um rumo totalmente desconhecido para mim, mas que muito interessava. Eram sobre Alice.
Alice é a melhor pessoa do mundo. Ela não merecia tudo aquilo... Minha irmã. Ah, o dia que eu pegar Aro, ele é um vampiro morto.
Soltei sua mão rapidamente, olhando para ele com o cenho franzido.
― O que houve? ― ele perguntou.
Merda. Mancada, Bella, mancada.
― Nada ― respondi simplesmente, voltando minha atenção para o professor.
Edward voltou a pegar minha mão na sua e enquanto ele me acariciava, me esforcei para ouvir mais alguma coisa que me interessasse. Mas ele estava pensando rápido demais, em várias coisas, e eu não consegui pescar mais nada de Alice.
Esforcei-me para bloquear seus pensamentos de minha mente. Eu já tinha pensamentos demais na própria cabeça, não precisava dos dele para me encher mais.
Passamos a aula toda de mãos dadas. Eu sabia que havia algo errado ali, que talvez eu devesse retrucar e puxar a mão de uma vez por todas, mas eu não queria. Tudo que eu podia sentir àquele instante era seus dedos macios e quentes acariciando as costas da minha mão. E era tudo em que eu queria pensar naquele momento.
A aula acabou e fomos juntos – de mãos dadas, só para constar – até a lanchonete encontrar James e Angela. Que também estavam de mãos dadas.
Lancei um olhar preocupado a James, mas Edward me conduzindo pelos corredores andando de mãos dadas comigo retirava qualquer preocupação boba da minha mente. Seu bom humor era perfeitamente evidente, e eu pensei que o meu talvez também fosse.
Chegamos ao mesmo auditório onde eu e Edward havíamos sido aclamados como o casal principal. Eu e ele escolhemos cadeiras na platéia distantes de onde todos os outros curiosos de aglomeravam.
― Vamos ver quem será o meu rival Páris ― Edward comentou, praticamente deitando na cadeira e esticando as pernas para colocar no encosto da cadeira da frente.
― Você sabe que não há rivalidade nenhuma deste tipo na peça ― respondi, também relaxando na cadeira ao seu lado.
― A vida imita a arte? ― ele provocou, me lançando um olhar de lado e um sorriso torto.
― Palhaço ― respondi, embora sorrisse.
Os testes logo começaram e permanecemos em silêncio, concentrados em analisar as performances no palco. Hoje as coisas seriam mais simples, visto que apenas os papeis secundários seriam escolhidos.
Quem quisesse fazer o teste em dupla ou em grupos, poderia ficar a vontade, assim como quem preferisse fazer só. Os alunos estavam livres para decidir o que fazer: encenar, cantar, dançar, o que eles preferissem.
James e Angela encenaram uma parte de Macbeth. A obra de Shakespeare preferida de James. Sorri para ele quando os dois subiram ao palco e desejei um boa sorte que sabia que ele poderia ouvir.
Quando terminaram, os dois foram muito aplaudidos, eu e Edward fazendo coro. James, apesar de ter tido repulsa a fazer o teste a princípio, havia se saído muito bem atuando. Angela nem tanto, a timidez a havia atrapalhado um pouco, mas eu torcia para que ela conseguisse um papel.
― Você deveria ser bonzinho comigo uma vez e dizer qual o papel que James conseguirá ― provoquei Edward, fazendo-o rir.
― Eu não sou bom com você, Bella? ― ele perguntou. Pude ver pelo canto do olho que ele me encarava, mas continuei mirando o palco.
― Na maior parte do tempo, não.
Ele riu e eu o vi balançar a cabeça.
― Páris. É ele quem vai conseguir o papel de Páris ― Edward soltou, baixinho, de forma que James não pudesse ouvir de seu lugar mais a frente na platéia.
― Wow. Ele vai ficar realmente satisfeito ― comentei. ― E Angela?
― Chega de brincar de cartomante por hoje ― ele bradou, sentando ereto na cadeira.
― Por que Alice não fez os testes? ― insisti e, para meu espanto, ele sorriu abertamente antes de responder.
― Porque ela viu que conseguiria o papel de ama da Julieta e não quis se rebaixar a tanto.
Sorri também. Realmente, seria uma ama muito mais bonita e atraente que a Julieta, ia roubar as atenções da peça. Fiquei grata pela gentileza, apesar de pensar que teria gostado de contracenar com Alice.
Os testes estavam chegando ao fim e logo saberíamos qual seria o elenco completo. Enquanto esperávamos pelo resultado, James e Angela vieram se juntar à nós. James e Edward pareciam tão amigos, de um dia para o outro, que eu já nem achava mais estranho.
Mais de uma hora depois, o professor – o mesmo de ontem – pegou o microfone e subiu ao palco para anunciar o elenco.
― Queremos, mais uma vez, agradecer à participação de vocês. Sinto orgulho por ver meus alunos se interessando por uma coisa tão saudável como a atuação. ― Ouvi vários suspiros entediados na platéia enquanto o professor procurava, entre os muitos papeis que carregava, o papel com os nomes dos escolhidos. ― Sinto não ter papeis para todos, mas, aqui vão os escolhidos. Para o papel de Páris, teremos... ― Ele deixou o suspense no ar e eu troquei um olhar cúmplice com Edward. ― James White¹.
Alguns aplausos e um sorriso tímido de James. Angela beijou-o rapidamente nos lábios.
― Para o papel de Baltasar², teremos Mike Newton. ― Mike fez um gesto com as mãos como se tivesse ganhado um Oscar. ― Para o papel de Mercúcio³, Tyler Crowley. Para Benvólio, Eric.
E ele continuou anunciando os papeis masculinos. A maioria dos escolhidos eu não conhecia, lembrava apenas de seus testes.
Quando chegou a vez dos papeis femininos, o professor levou cinco minutos pedindo silêncio à Lauren e as amigas que cochichavam excitadas.
― Para o papel de ama da Julieta, teremos Lauren. ― A loira me lançou um olhar mortal, como se eu tivesse culpa de ela ter sido escolhida minha criada. ― A senhora Montecchio será Jessica Stanley e a Senhora Capuleto, Angela Weber.
Angela olhou para James e sorriu timidamente. Ele a parabenizou e deu um beijo em seus lábios, assim como ele havia feito. Edward me olhou e sorriu.
― Elenco completo. Vamos? ― ele disse, levantando e me oferecendo a mão.
Peguei a mão que ele estendia e levantei também, encarando-o.
― Bella? ― James chamou e eu desviei o olhar para ele. ― Pode esperar enquanto eu acompanho Angela até a casa dela? Volto em alguns minutos.
― Tudo bem. Não quer que eu a deixa lá?
― Na verdade, preferia que você me emprestasse o carro. Eu deixaria ela e depois voltaria aqui para te pegar. ― Ele sorriu.
Revirei os olhos e joguei a chave para ele, gritando um "não demora" e outro "cuidado com o meu carro".
Eu e Edward saímos para o estacionamento e Alice o esperava dentro do Volvo. Ela acenou para mim sorrindo e eu retribuí igualmente.
― Você está me devendo algumas respostas ― Edward avisou, parado do lado de fora da porta do motorista.
― Não pode simplesmente pedir a Alice para lhe dizer as respostas? ― sugeri, sorrindo sarcástica.
― É muito mais divertido ouvi-las da sua boca, Bella ― ele respondeu, dando um passo a frente e ficando a dois centímetros de colar nossos corpos. ― E eu não perderia uma oportunidade de ficar com você por nada.
― Tudo bem ― consegui responder, totalmente consciente de seus dedos quentes em minha cintura.
Ele baixou a cabeça para encontrar meus lábios com os seus e, apesar de saber que toda a escola – inclusive a irmã dele – estava vendo, eu não resisti. Apenas deixei que ele moldasse seus lábios aos meus e suguei o máximo que pude do seu paladar.
Nos desgrudamos sorrindo e ele afagou meu rosto gentilmente antes de afastar.
― Até amanhã, Julieta.
― Au revoir, Romeu.
"Romeu, Romeu! Ah! Por que és tu, Romeu?
Renega o pai, despoja-te do nome;
ou então, se não quiseres, jura ao menos que amor me tens,
porque um Capuleto deixarei de ser logo."
A fala de Julieta veio à minha mente, de repente, e eu sorri com as sutis semelhanças entre as histórias.
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1 – Sobrenome totalmente inventado por mim. Tia Steph simplesmente não deu sobrenome para nenhum dos nômades. que absurdo!
2 – Baltasar é o criado do Romeu na peça.
3 – Amigo de Romeu.
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(N/A: Aqui está, nem demorou tanto dessa vez, né?
E mais suspense nesse capítulo. Múahsuhauhsuahusha [/risada maligna]
E, no próximo capítulo, mais surpresas.
Falando no próximo capítulo, sinto em informar que ele talvez demore porque... Essa semana começa a labuta, né? Fim de férias. Mimimi.
E, ei, pessoinhas que estão lendo isso... Custa mandar um reviewzinho inho? Eles me fazem tão feliz.
Façam esta autora feliz e comentem o capítulo. Lembrem-se que isso é very very importante para o decorrer da fic.
Beijos e até a próxima. :D)
