13 – Duas Conclusões

~Bella's POV~

James era burro. Ou não tinha medo da morte.

Não que eu achasse que Victoria poderia matá-lo. Não mesmo. Até porque, antes que ela pudesse sequer pensar nisso, eu mesma me encarregaria de dar um fim nela.

Mas Victoria não era a coisa mais perigosa do nosso mundo. Vivíamos sob leis.

E James violara a mais importante delas.

Na tarde em que James deveria ter ido encontrar Victoria, ele simplesmente não foi. Disse que ainda não estava pronto para dar satisfações a ela e não decidira muito bem o que fazer quanto a Ângela.

Ângela. A causadora, mesmo que indireta, de todos os problemas em que James nos metera.

Estávamos andando pela praia, aproveitando o tempo úmido que a chuva grossa que caíra a tarde toda havia deixado.

― James, o que aconteceu com Ângela? ― perguntei e ele ficou mais ereto andando ao meu lado. ― Não pense que eu não percebi o quanto ela estava confortável hoje com todo aquele papo vampiro.

― Eu ia contar a você, eu juro ― ele começou, colocando as mãos nos bolsos. ― Ângela descobriu o que somos.

― Como assim? Descobriu? Você ficou louco, cabeção? exclamei, indignada com a burrice do meu melhor amigo.

― Ela descobriu, Bella. Bem, eu facilitei as coisas quando quase bebi o sangue dela, mas...

― Você o quê? ― gritei, encarando-o incrédula.

― Calma, garota. Foi um momento de fraqueza, ok? ― ele tentou se defender, mas não soava convincente nem para si mesmo.

― Não, não está nada "ok"! ― continuei gritando. Não entendia de onde vinha todo aquele histerismo, mas tinha um bom palpite. ― James, como você pôde ser tão burro? Já imaginou o que vai nos acontecer se os Volturi souberem que você contou a ela? E o pior ― aumentei ainda mais o tom de voz, fazendo algumas aves voarem assustadas ― o que vai acontecer quando os Cullen souberem? Quando Carlisle souber?

― Quer parar de gritar? ― ele falou e eu me surpreendi ao ouvir sua voz tão calma. ― Eles só vão descobrir se alguém contar. Os Volturi, eu digo. E quanto aos Cullen, eles provavelmente descobriram primeiro que você, com aquele dom da baixinha...

― Isso é sério, James ― bradei, cruzando os braços e ficando na frente dele, fazendo-o parar de andar. ― Você não pensou que estaria nos colocando em risco? A mim e a você? Ou pior: a Ângela?

― Claro que pensei, Bella ― ele respondeu como se realmente não parasse de pensar nisso. ― E não pense que não tentei corrigir. Mas Ângela é muito mais perceptiva do que você imagina.

― Tenho certeza que você poderia dar um jeito se quisesse ― retruquei, andando até a beira da praia. Olhar para o mar sempre me fazia voltar à racionalidade.

― Aqui nós vamos precisar confiar um no outro ― ele disse, chegando perto e me abraçando por trás. Não fiz nenhum gesto de retribuição ao carinho. ― E em Ângela.

― E se ela nos trair? Você não pensou nisso? ― continuei, soando meio derrotada.

― Pensei. Mas você sabe, tanto quanto eu, que Ângela tem um coração de ouro. Ela jamais faria algo que prejudicasse alguém tanto quanto isso nos prejudicaria.

Ele tinha razão. Pelo pouco que conhecia de Ângela, sabia que ela jamais colocaria a mim e a James, e a qualquer outro, em risco.

― Tudo bem. ― Suspirei. ― Vamos confiar nela.

Ele me abraçou mais forte e eu virei de lado, envolvendo meus braços em sua cintura.

― Vai ficar tudo bem ― ele murmurou, passando as mãos suavemente em meus cabelos ― Eu jamais colocaria você em risco, Bellinha.

Eu queria muito acreditar em suas palavras. Mas meu "sexto sentido feminino" me dizia que aquilo não acabaria por ali. Ou melhor: dizia que aquilo estava longe de acabar.

#

Edward esteve estranhamente quieto durante a aula de Trigonometria ao meu lado. Não trocamos mais que algumas palavras, apenas para ele me dizer que continuaríamos as perguntas na aula de Educação Física.

E agora ele estava ao meu lado na quadra, sentado no chão, assim como todos os outros que conversavam enquanto o professor não começava a sua aula monótona.

― Hoje eu começo as perguntas ― comentei.

Ele sorriu torto antes de responder.

― Ontem eu respondi várias suas, pensei que eu teria um bônus, não? ― ele retrucou, me olhando de lado.

― Certo ― bufei e ele riu. ― Mas eu tenho uma super importante. ― Estremeci um pouco ao pensar na pergunta que queria fazer.

― As minhas também são. Mas, eu vou ser cavalheiro e vou deixar você começar ― ele falou, fazendo um gesto com a mão que lembrava muito uma reverência.

― Certo ― repeti, respirando fundo para buscar coragem para o que viria a seguir. ― Como você se alimenta? Digo, você mata as pessoas ou...? ― Não consegui concluir a pergunta, a expressão dolorida de Edward me fazendo perder a pouca coragem.

― Pergunta complicada ― ele disse, simplesmente.

Pensei que ele responderia, mas o professor logo pediu que todos fizessem silêncio e começou a falar alguma coisa sobre algum esporte. Minha atenção, porém, estava toda em Edward, totalmente imóvel ao meu lado.

― Lembre-se de respirar ― sussurrei e ele expirou, murmurando um "obrigado" rápido.

A tensão entre nós era quase palpável, a aula demorando quase o dobro do tempo para acabar. Quando o professor, finalmente, nos liberou, quinze minutos antes de o horário terminar, eu me deixei ficar na quadra até que Edward estivesse fora de vista.

Saí praticamente correndo para o meu carro, mas suspirei ao ver que ele me esperava encostado no Vanquish, com as mãos nos bolsos, parecendo perfeitamente... bem, perfeitamente lindo.

― Pensou que eu deixaria você fugir? ― ele comentou, casual, mas sem conseguir esconder a tensão.

― Não, não pensei ― menti descarada, também me encostando ao carro ao seu lado.

― Você é uma péssima mentirosa, sabia?

― Como você poderia saber? Não me conhece nem há um mês, Edward ― devolvi, piscando de lado para ele.

― É verdade... ― ele concordou e ficamos em silêncio.

Eu sabia que havia tocado no ponto mais frágil da nossa relação ao perguntar sobre a alimentação dele. Mas aquela pergunta, na verdade, fazia parte de algo em que eu havia pensado muito no dia anterior.

James passara uma boa parte da noite passada me fazendo perguntas sobre Edward. E foram essas perguntas que me fizeram pensar em várias coisas que eu não havia considerado antes.

― Como anda aquela sua... ligação com Edward? ― James perguntou, no nosso habitual local de conversar: deitados sobre o telhado.

― Bem, eu já descobri algumas coisas sobre ela ― respondi, franzindo o cenho para a noite escura.

― Não quero nem saber como você descobriu essas coisas ― rolei os olhos, mesmo sabendo que ele não poderia ver ―, mas o quê, exatamente, você descobriu?

― Alguns pontos importantes. Por exemplo, eu já descobri que consigo bloquear os pensamentos dele, se estiver devidamente concentrada nisso.

― Então você realmente lê os pensamentos dele? ― James se apoiou no cotovelo para me encarar.

― Leio. Mas apenas quando a minha pele exposta ― dei ênfase à palavra, pois isso também era algo que eu havia descoberto: só funcionava se nos tocássemos pele a pele ― toca a dele, também exposta. Mesmo que estejamos nos tocando, eu posso bloquear o pensamento dele, se fizer esforço o suficiente.

― Que estranho ― James respondeu, parecendo curioso e intrigado ao mesmo tempo.

― É. E tem mais: é quente. Quase como se eu pudesse ter a temperatura humana de novo. É incrível ― completei, voltando a ficar pensativa.

Ficamos em silêncio e eu imaginei que James estava pensando sobre as causas daquela possível ligação, pois era no que eu pensava. Mas, quando ele falou, vi que seus pensamentos haviam tomado rumos totalmente diferentes dos meus.

― Bella, já parou para pensar no que aconteceria se você e Edward realmente se envolvessem? ― James disse, agora sentando totalmente ereto ao meu lado.

― Como assim? Isso não tem chance de acontecer, James ― retruquei imediatamente. Mas, depois que as palavras saíram, eu não tive tanta certeza se aquilo era verdade.

― Não tem, Bella? Então, vamos considerar a situação hipotética de vocês se apaixonarem.

― Bota hipotética nisso ― insisti.

― Certo. Hipotética ― O tom de James demonstrava claramente que ele não acreditava que houvesse algo de hipotético na história. ― O que você faria, Bella? Ficaria com ele, mesmo sabendo que ele mata pessoas para se alimentar? Ou tentaria mudá-lo, assim com eu tentei com Victoria?

― A resposta não é óbvia? ― retruquei como se ele fosse idiota.

― Ok, mas e se ele não quisesse mudar?

Dessa vez, eu não tinha resposta. Era uma pergunta e tanto. O que, realmente, me fez refletir... E se eu não conseguisse mudá-lo? Eu, um dia, seria capaz de me apaixonar tanto, a ponto de aceitar o que eu mais odiava?

― Bella?

Era Edward, me puxando de volta para o presente e interrompendo meus devaneios.

― Desculpe. Estava apenas pensando ― respondi, olhando para ele, que me encarava com o cenho franzido.

― Você quer ou não ter sua pergunta respondida?

― Então você vai mesmo responder? ― Eu estava mais do que surpresa. Pensava que teria que praticamente arrancar a resposta dele à força.

― Vou, é claro, Desde que...

― Eu mantenha a mente aberta. Certo, já contava com isso ― completei, fazendo-o sorrir.

O sinal tocou e os alunos começaram a sair dos prédios, inclusive a irmã dele, Alice e seu namorado, Jasper, e James e Ângela.

― Pelo visto, nossa conversa fica para outra hora ― disse a ele, enquanto os outros vampiros se reuniam a nós.

― Ligo para você mais tarde ― ele disse, já se afastando em direção ao carro de Alice, que acenou animada para mim, e eu prontamente retribuí.

― Mas você não tem meu número.

― Tem certeza que não? ― Edward devolveu, entrando no carro, estacionado a apenas duas vagas de distância.

Um dia, eu iria descobrir como ele sabia tanto. Porque, obviamente, Alice não poderia ter adivinhado o número do meu celular... Ou poderia?

― Bella, podemos deixar Ângela em casa? ― James perguntou, interrompendo o segundo devaneio do dia.

― Claro ― respondi, cumprimentando Ângela com um aceno.

Ainda era incrível para mim o modo como ela se comportava perto de nós. Era quase como se fôssemos humanos comuns, como se a vida dela não estivesse em constante risco em nossa presença.

A tranquilidade dela me assustava, levando em conta as circunstâncias em que ela descobriu a verdade.

À tarde, enquanto eu relia "Orgulho e Preconceito" na biblioteca, meu celular tocou no quarto e eu corri para atendê-lo.

Era Edward.

― Como você sabe meu número? ― perguntei assim que ouvi a voz inconfundível dizer "alô?

Bella, geralmente as pessoas atendem o telefone dizendo "Alô" ou até mesmo "Olá". ― ele retrucou.

― Ligou para me irritar? Porque, se for por isso, pode ir desligando.

Claro que não. Não se esqueça que o interesse nessa ligação é muito mais seu do que meu, querida.

Pior é que era verdade.

― Onde nos encontramos?

Como você sabia que eu queria marcar um encontro?

― Vai querer me contar tudo pelo telefone?

Tudo bem, tudo bem. Me encontre na clareira. Ainda lembra como chegar lá, não é mesmo?

Me limitei a grunhir uma resposta, ignorando sua risada baixa.

― Que horas?

Às 17h está bom para você?

― Claro, Até mais.

Desliguei e olhei o visor do celular. Já eram 16:49h.

Edward às vezes sabe ser irritante, isso é fato comprovado cientificamente.

Saí de casa apressada, deixando um bilhete rápido para James, que eu não conseguira encontrar em lugar algum, e pegando as chaves do carro.

Em cinco minutos, eu estacionava em frente à loja dos Newton. E, para meu azar, quem estava parado em frente à loja era exatamente o último Newton que eu queria ver agora.

― Veja só quem está aqui, Isabella Swan ― Mike disse, largando a vassoura que ele usava para varrer a frente da loja e vindo ao meu encontro enquanto eu acionava o alarme para trancar o carro.

― Olá, Mike ― cumprimentei, tentando sorrir.

― Que bons ventos a trazem? ― ele disse, sorrindo tanto que eu não via como seu maxilar não deslocava.

― Vim visitar uma amiga aqui perto ― respondi com a primeira desculpa que me veio à mente.

― Ah, já fez amigos por aqui então, hein? ― Ele não parecia tão animado realmente com a ideia quanto queria demonstrar.

― É.

― Bella, posso te dar um conselho? ― ele disse, imediatamente diminuindo o tom da voz e se aproximando para falar comigo em tom de conspiração. ― Se afaste dos Cullen. Eles não são bem vistos por aqui.

― E o que eles fizeram para merecer essa fama? ― perguntei, fazendo força para não rir.

― Eles não parecem ser boa gente. Na verdade, me dá calafrios só em olhar para aquele tal Edward ― ele disse, e um arrepio percorreu seu corpo.

Em uma palavra chula: veado.

― Bella? Algum problema? ― a voz musical, desconfortavelmente familiar soou na direção da calçada e eu me virei a tempo de ver Edward, parado com as mãos nos bolsos, encarando a mim e Mike.

― Não. Mike estava apenas me dando uns conselhos, mas eu já estou de partida ― respondi, piscando discretamente para ele.

― Ah, bom. Até mais, então, Bella, Mike ― ele disse, e eu aproveitei a distração de Mike para seguir o caminho oposto ao que Edward fazia.

Andei alguns passos, até ter certeza que já estava fora da vista de Mike e de qualquer outro transeunte, e entrei na floresta, começando a correr em direção à clareira. Cheguei em menos de um minuto, já encontrando Edward de pé no meio do círculo, com as mãos nos bolsos, de costas para mim.

― Parece que o Newton gosta mesmo de você ― ele disse, enquanto eu me aproximava cautelosamente por trás.

― Eu sei muito bem do que ele gosta ― respondi irônica.

Quando já estava a dois passos de chegar até ele, Edward virou de frente para mim, rapidamente envolvendo minha cintura com um dos braços e levando a outra mão à minha nuca.

― Você não sabe o quanto eu sinto falta de te tocar, Isabella ― ele disse, seus lábios roçando perigosamente nos meus. ― Esse calor quase humano que você emana... ― seus lábios macios desceram até meu pescoço, depositando um beijo molhado no lugar exato onde a "artéria dos vampiros" passava, provocando um frenesi incontrolável em todas as minhas células.

― Edward... Pensei que...

― Pensou? ― Mais um beijo molhado, desta vez no decote da blusa justa que eu usava, quase perto de um seio.

― Pensei... ― Outro beijo, perto do outro seio. ― Pensei que tivéssemos vindo aqui por outro motivo.

Os beijos cessaram, fazendo meu corpo tremer em protesto e Edward quase rosnar de raiva.

― Certo ― ele disse, me soltando gentilmente e dando um passo para trás. ― Outro motivo.

Respirei profundamente.

Respirar. Respirar era bom, ajudava a tensão sexual a dissipar.

Nos encaramos por dois segundos, que pareceram mais como duas horas, e ele suspirou, passando a mão nos cabelos em um gesto nervoso.

― Tudo bem. Você pediu. ― Ele sentou no chão, dando duas palmadinhas na grama para que eu sentasse ao seu lado. Fiz o que ele pedia, sentando de forma a manter uma distância segura dele. ― Por onde quer começar?

― Onde vocês caçam? ― perguntei, sem titubear.

― Carlisle designou alguns pontos de caça para nós. São pontos isolados, onde ninguém possa desconfiar ― ele respondeu tranquilamente.

― E como... Bem, como vocês fazem isso? O que fazem com os corpos quando acabam? ― soltei, em um fôlego só, antes que perdesse totalmente a pouca coragem.

Ele, desta vez, não respondeu logo. Contei, mentalmente, quase um minuto, até que sua resposta viesse.

― Nós, geralmente, não matamos as pessoas. ― Ele franziu o cenho, parecendo reconsiderar algo. ― Bem, eu não faço isso. Os outros que respondam por eles.

― E como você consegue não matar? ― perguntei, soando intrigada demais, até para mim mesma.

― Não vou negar a você que é difícil. Mas, com anos, de prática, você acaba conseguindo.

― Edward, eu já me alimentei de sangue humano ― ponderei, tentando afastar as lembranças insistentes dos corpos sem vida que eu largava pelas ruas desertas. ― Eu sei o quanto é difícil parar. Além do mais, e o veneno? Não deveria transformar pessoa?

― Pelo visto, você sabe menos do que eu esperava ― ele respondeu, inesperadamente rindo baixo. ― Não é assim, Bella. Você sabe como realmente ocorre o processo de transformação?

― Claro que sei ― respondi, embora não soasse inteiramente verdadeira. ― É só injetar o veneno e pronto.

― Sim, mas você sabe que alguns de nós podemos adquirir controle sobre esse veneno?

― Como? ― eu o encarei com a sobrancelha erguida, deixando toda a curiosidade que eu continha vir à tona. ― Controle? Impossível!

― Se fosse impossível, eu teria matado a mulher da qual me alimentei ontem ― ele retrucou, sua voz soando estranhamente vazia.

― Estou aberta a explicações ― exigi, ignorando a sensação estranha que tomou conta de mim ao imaginar Edward mordendo outra mulher.

Ele respirou fundo, unindo as pontas dos dedos e fechando os olhos, antes de começar a responder.

― Eu consegui adquirir controle o suficiente para não matar as pessoas das quais me alimento ― ele começou, ainda de olhos fechados. ― Eu mordo, tiro o sangue do qual preciso, depositando saliva na ferida para acelerar a cicatrização.

― Mas... O que você faz para não deixar o veneno escorrer para dentro da pessoa? ― insisti, intrigada demais que aquilo pudesse realmente ser verdade.

― Não sei dizer ao certo como consigo. Só o que entendo é que o veneno só sai se eu quiser ― ele explicou, abrindo os olhos para me encarar. ― O mais importante é que eu não mato a vítima. Sugo até sentir que ela ainda permanecerá viva depois da mordida. Se uma pessoa não for o suficiente, eu mordo várias para completar minha alimentação.

― Como você consegue parar? ― Era tudo em que eu pensava.

― Lembra de eu ter dito uma vez que Alice achava que o meu poder era o autocontrole? ― afirmei com a cabeça. ― Era disso que eu estava falando. Eu simplesmente consigo.

Ficamos em silêncio. Desviei o olhar do seu rosto, fixando em um gafanhoto parado, quase imperceptível entre a relva, como se estivesse morto.

O que eu teria contra Edward se ele não matava ninguém? Ele não fazia mal algum, pelo que eu pude entender. Se era só sugar o sangue, mas sem matar... Não havia problemas.

O que é isso? Que tipo de pensamento estúpido era esse? É óbvio que ainda havia problemas! Ele matando ou não, não deixa de ser algo errado. E se um dia ele perdesse esse auto controle?

Mais do que tudo isso, havia algo me incomodando. Algo que eu não conseguia saber o que era, sabia apenas que era muito importante, e que eu estava deixando escapar.

Como se meu próprio cérebro respondesse à pergunta, lembrei de uma afirmação que Edward fizera quase no início da conversa: "Eu teria matado a mulher da qual me alimentei ontem".

― Edward?

― Sim?

― Como você faz para a pessoa não sentir a dor? Porque, bem, uma mordida dói bastante para passar imperceptível. ― Era isso. Não havia como ele se alimentar de alguém sem que a pessoa percebesse.

Edward, mais uma vez, respirou fundo, e demorou mais do que o habitual para responder.

― Promete que vai manter a mente aberta? ― ele pediu, e, pelo canto do olho, podia ver seus olhos fixados em mim.

― Pensei já ter feito essa promessa ― retruquei, finalmente encarando-o.

Seus olhos estavam do vermelho mais puro e havia algo indecifrável ali... Algo que eu nunca tinha visto em Edward.

― Eu me alimento apenas de mulheres ― ele começou, exalando profundamente antes de continuar. ― Eu as seduzo e... as distraio com sexo, enquanto tiro sangue.

Meus olhos, inconscientemente, se arregalaram, e uma sensação estranha se apoderou de mim. Era algo que nunca havia sentido antes... Uma espécie de inveja, misturada com ultraje.

A única sensação que eu podia afirmar, com certeza, que conhecia, no meio daquele turbilhão de emoções, era: nojo.

― Você o quê? ― exclamei em voz alta. ― Tem noção do quanto isso soa sujo, Cullen? Sujo e... ― Eu não conseguia encontrar a palavra, tamanha era a confusão em que se encontrava meu cerébro.

― Se acalme, Bella ― Edward disse, mas sua expressão era tensa demais para que eu encontrasse a calma.

― Eu não quero ficar calma! ― explodi, levantando de um salto, sendo seguida por Edward. ― Eu sabia! O que mais eu poderia esperar de alguém que foi criado com Carlisle? Você é um Cullen, afinal de contas!

― Se acalme, Isabella ― ele repetiu e eu estanquei ao ouvir meu nome inteiro. Ele aproveitou minha deixa para continuar. ― Você poderia me dar outra alternativa, por acaso? Há outro modo de fazer isso sem que alguém sinta a dor?

― Não sei! E não sou em que devo saber, já que eu nunca precisei fazer isso! ― bradei, andando em círculos pela clareira.

― Não há outro modo, eu garanto ― ele tentou me tranquilizar, parado no centro da clareira enquanto eu ainda andava em círculos. ― Eu já pensei em outras alternativas, mas essa é a única que não acaba em morte.

― Tem certeza que é a única? ― inquiri, parando de andar e encarando-o, mesmo estando há dois metros de distância dele. ― Você nunca pensou em, por exemplo, mudar de dieta?

Vi uma sombra de algo passando em seus olhos, mas não consegui decifrar o quê. Eu não precisaria: Edward me contou o que havia pensado.

― Então é isso, não é? ― ele falou, estreitando os olhos acusadoramente para mim. ― Você está tentando me mudar. Quer que eu seja como você.

― E se eu quiser? ― devolvi, erguendo o queixo quase imperceptivelmente.

Edward bufou exasperado, passando as mãos nos cabelos.

― Por Deus, não! Quem você pensa que é para simplesmente chegar em Forks e tentar mudar o meu jeito de viver? Você mal me conhece! ― ele exclamou, sua voz subindo uma oitava.

Desta vez, suas palavras me atingiram com força. E eu devo ter deixado transparecer isso, pois Edward suavizou a expressão ao me encarar.

― Me desculpe. Eu não quis... ― ele começou, mas eu o interrompi.

― Você tem razão. Quem sou eu. Não vou mais me meter na sua vida ― respondi, e tomei o caminho que levava da clareira até a minha casa na reserva, não dando tempo para ouvir as desculpas de Edward.

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Edward, felizmente, não me seguiu no caminho de volta. Fiquei grata por isso.

Aliviada por James também não estar em casa, tirei as botas e saí descalça para andar na praia.

Edward tinha razão. Quem eu pensava que era? No lugar dele, talvez eu pensasse a mesma coisa.

"Não" disse a mim mesma. Eu jamais pensaria desse jeito. Não se a pessoa estivesse tentando me ajudar.

Eu queria fugir dali. Que ideia foi essa de vir para Forks, afinal? Cogitei três vezes em voltar para o Alaska. Mas eu era covarde demais para dar o braço a torcer para as Denali e voltar, dizendo que dera tudo errado.

Ou corajosa demais, para ficar ali mesmo sabendo que havia estragado tudo.

Enquanto deixava a água da praia molhar meus pés, lembrei da minha vida nômade. De quando eu saí a primeira vez da casa de Tanya, sozinha, para conhecer a América Latina. Não havia sido uma boa ideia, pois os principais lugares que eu desejava visitar eram sempre muito ensolarados, de forma que eu tinha de sair à noite.

Mas eu era feliz. Não havia regras, Cullens, Edward, na minha vida.

Pensar em tudo isso me fez tirar duas conclusões. A primeira: eu não iria embora de Forks. Não sem falar novamente com Edward e pedir desculpas, mesmo que ele não aceitasse. A segunda: minha vida agora gravitava em torno de Edward e de nossos momentos juntos.

E eu não iria acabar com isso.

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(N/A: Ufa, saiu o capítulo! :D

Calma... Não fiquem com raiva, tudo vai dar certo. Por falar em "dar certo", o próximo capítulo vai ser tãããão foofooo! *-*

Não sei quando ele vai sair, mas não percam!

E o que aconteceu com as reviews, hein? Tá tão ruim assim? Mimimi

Beijos e até mais. o/)