17 – Escolhas
Edward não me deixou dirigir na volta. Alegando que eu estava nervosa demais e acabaria jogando o carro em uma árvore, ele simplesmente pegou as chaves em meu bolso e conduziu o veículo até a minha casa. No caminho, pude ver a sua expressão furiosa crescer mais e mais.
― Você está bem? ― perguntei, mesmo que a resposta fosse óbvia.
― Não ― ele soltou.
Ainda estava aborrecida demais por ter caído na estupidez de ir à casa de Carlisle. Eu sabia que, obviamente, não era culpa de Edward termos sidos interrompidos. Na verdade, se havia alguém culpado ali pelo que havia acontecido, esse alguém era eu. E eu não conseguiria me perdoar tão fácil por ter cometido aquele erro.
― Não se martirize. A culpa é minha ― soltei, de repente, externando meus pensamentos.
Ouvi Edward apertar o volante com mais força.
― Não seja ridícula. Eu é quem não deveria ter levado você até lá ― ele bradou, culpa se espalhando por cada palavra.
― Bem... ― Comecei, pensando nas palavras que havia ouvido em sua mente enquanto estávamos na casa de Carlisle. ― Ouvi quando você pensou na visão de Alice e no que poderia ter dado errado. Pelo que eu entendi, você também não teria como saber que Carlisle iria voltar para casa hoje.
― Eu sabia que não deveria confiar tanto nessas visões estúpidas ― ele devolveu, mais para si mesmo do que para mim.
Eu queria confortá-lo, dizer que não havia problema e que logo eu iria "esquecer" o incidente. Mas não havia como. Eu não poderia passar tão facilmente por cima do fato de Carlisle ter me chamado de mentirosa. O simples fato de lembrar disso, fazia a raiva arder em minha garganta e minhas mãos se fecharem em punhos.
― Você deveria ter me deixado socá-lo ― falei sem pensar.
― Eu teria apreciado a cena, mas não acho que você sairia ilesa ― ele respondeu, a voz ainda dura. ― Carlisle não tem receios quanto a matar, Bella.
Aquelas palavras me atingiram com uma verdade absoluta: eu também não tinha receios quanto a matar, desde que a vítima fosse Carlisle.
― Eu não iria morrer pelas mãos dele ― falei, minha voz menos que um murmúrio. ― Também não pensaria duas vezes antes de matá-lo.
Edward respirou fundo, pisando no acelerador como se aquilo pudesse acalmá-lo.
Conforme a raiva foi diminuindo em meu peito, pude começar a ver o lado racional da questão. Consegui me colocar no lugar de Edward e quase pude ver a situação em que ele se encontrava. A mulher por quem ele estava apaixonado queria que o pai dele morresse. E seu pai também não teria escrúpulos quanto a matar essa mesma mulher.
Era desesperador, salvo por uma coisa: Edward estava sendo enganado. Eu não podia suportar a idéia de ele ter vivido essa mentira por tanto tempo e, agora que a verdade veio à tona, não se importar em saber em qual dos dois deveria acreditar.
― Você tem que escolher um lado ― falei, de repente me dando conta do quanto aquilo precisava ser feito. ― Carlisle não vai tolerar que você fique saindo comigo e morando sob o mesmo teto que ele. Ele não é muito do tipo que aceita pessoas que ficam em cima do muro.
Edward respirou fundo mais uma vez, desacelerando à medida em que chegávamos à Reserva em tempo recorde.
― Vou pensar a respeito ― ele respondeu, curto e simples, me deixando frustrada.
Sim, frustrada, pois eu esperava que ele viesse com toda a sua filosofia de não ter que escolher um lado. Talvez eu não fosse a única a perceber o quanto o acontecimento de hoje afetaria nosso relacionamento. Poderia até mesmo apostar que Edward havia chegado à mesma conclusão que eu: se ele quisesse "tranqüilidade" nesse fogo cruzado em que e Carlisle o havíamos metido, ele teria que escolher um lado.
Chegamos à minha casa e a luz da sala acesa indicava que James estava lá dentro. Edward estacionou em frente à casa e desligou o motor do carro. Por um tempo que pareceu interminável, ficamos ali, cada um com seus pensamentos, sem falar nada um ao outro.
― Posso fazer uma pergunta? ― Edward falou de repente.
― Claro ― respondi automaticamente.
Pelo tempo que a pergunta demorou a ser feita, pensei que viria algo bem complicado por aí. Mas não.
― Se estivesse no meu lugar, qual caminho você tomaria?
Aquilo não era o que eu esperava que ele perguntasse. Levei algum tempo pensando nas respostas, tentando adaptar a situação à minha realidade.
Eu acreditava que Edward estava com Carlisle apenas por uma conveniência. Uma espécie de gratidão, por Carlisle tê-lo ensinado a viver no mundo dos humanos sem levantar suspeitas. Acreditava também que isso tinha a ver, em parte, com Alice, a irmã que Edward parecia amar mais que tudo. Ao mesmo tempo em que não visualizava Edward vivendo sozinho, como nômade. Por isso a necessidade de viver em um grupo como o de Carlisle.
Mas eu não tinha nenhuma dessas razões. Não possuía nenhuma espécie de gratidão por meu criador, havia aprendido muitas coisas sozinha e havia me acostumado como nômade. Mesmo depois que fui "morar" com as Denali, ainda me sentia como se não pertencesse a um grupo especificamente.
Não gostava de construir vínculos afetivos, portanto, vivia facilmente sem as irmãs, conservando a amizade delas enquanto viajava pelo mundo. James era o mais próximo que eu tinha de uma família, mas mesmo sem ele eu conseguiria sobreviver.
Cheguei à conclusão de que, se eu estivesse no lugar de Edward, iria buscar fatos: provas que me dissesse quem, afinal de contas, estava falando a verdade. E, quando eu descobrisse que tudo que vivera até agora era apenas uma mentira, deixaria minha "família" sem olhar para trás, levando apenas uma grande traição comigo.
Mas eu não estava no lugar dele. Se Tanya ou James me traíssem, seria fácil recomeçar sem eles. Para Edward, não. Percebi que ele não conseguiria recomeçar tão facilmente sem Alice ou, até mesmo, sem Carlisle.
― É diferente para mim ― disse, finalmente, escolhendo as palavras com cuidado. ― Eu fui nômade por muito tempo, Edward. Vi e vivi muitas traições, então, posso dizer que já sei lidar com elas. ― Fiz uma pausa para que ele absorvesse cada palavra. ― Eu realmente não sei o que faria se estivesse no seu lugar, mas temo que teríamos reações diferentes: eu saberia abandonar sem olhar para trás. E sem pensar duas vezes.
Não sabia se ele havia encontrado algum sentido em minhas palavras, mas tentei fazer com que elas soassem as mais verdadeiras possíveis. Não era a minha vida, não eram as minhas escolhas.
― Você acha que eu tenho medo de abandonar Carlisle caso comprove que ele está errado? ― Edward compreendeu.
― Sim. Não vejo outro motivo para você não querer que a verdade venha à tona ― confirmei.
Ele tirou as chaves do contato, entregando-as a mim. Saiu do carro e eu o segui.
― Eu não via dessa forma ― ele falou, de costas para mim, de pé na calçada, voltado para a praia, com as mãos nos bolsos. ― Mas talvez você esteja certa. Talvez eu realmente tenha medo de deixar essa segurança que Carlisle criou para nós.
Fui até ele, abraçando-o por trás e repousando a cabeça em suas costas.
― Não tenha medo ― falei, tentando deixar meu tom o mais doce que consegui. ― Eu estarei aqui para você caso tenha que recomeçar. Não tenha medo da verdade.
Ele virou-se de frente para mim, tomando-me em um abraço que instantaneamente aqueceu nossos corpos.
― Obrigado, Bella ― ele disse em meu cabelo. ― Prometo que vou tentar fazer a coisa certa.
Nos despedimos com um beijo longo e logo a seguir ele corria de volta para sua casa. Tive medo pelo que estaria esperando-o quando ele reencontrasse Carlisle.
Entrei em casa, ciente de que estava com uma ruga de preocupação do rosto, encontrado James jogado no sofá, assistindo a um jogo qualquer de beisebol.
― Pensei que você não ia voltar hoje ― ele falou, sem me olhar.
― Não era mesmo para eu ter voltado.
Algo em minha voz deve ter denunciado que não estava tudo bem comigo, pois James instantaneamente voltou a cabeça em minha direção quando eu falei. Seus olhos foram do vinco em minha testa ao colar que estava em meu pescoço.
― Quer me contar o que aconteceu? ― ele falou e eu sentei ao seu lado no sofá, me dedicando a dar-lhe os detalhes do que acontecera na casa de Carlisle e da conversa que tivera com Edward.
Quando terminei meu relato, via a ruga de preocupação que estava em minha testa se formar na testa do meu amigo.
― Você realmente não deveria ter ido até lá ― ele comentou simplesmente.
― Bem, agora não há como voltar atrás ― ponderei. ― Alguma notícia de Victoria?
― Não ― ele respondeu, seco, mas pude notar que isso também o estava preocupando. ― Vamos subir?
― Vamos.
Passamos a noite deitados no telhado, ignorando a chuva fraca que caía, conversando sobre a vida e nossas preocupações.
A cada vez que James tocava no nome de Angela, minha preocupação por ela crescia. Todas as vezes em que ele falava dela, um carinho enorme, uma preocupação quase paternal trasbordava de suas palavras. Só o que pude perceber é que eles estavam realmente envolvidos, e que Victoria teria que fazer muito mais que uma chantagem para conseguir separar os dois.
Na segunda-feira, Edward chegou atrasado. Sentado ao meu lado, sua respiração estava forte, mesmo que ele nem precisasse respirar, o que era um sinal de que ele estava claramente estressado.
― O que aconteceu? ― perguntei, quando a aula acabou e todos começaram a sair da sala.
Sua expressão abrandou quando ele me olhou nos olhos. Ele continuava sentado, enquanto eu estava de pé ao seu lado. Suas mãos envolveram minha cintura e ele me puxou para sentar em seu colo.
― Você tinha razão ― ele disse, olhando para nossas mãos entrelaçadas. Eu tentava, a todo custo, conter o fluxo rápido de seus pensamentos para mim. ― Vou ter que fazer uma escolha.
Meus olhos, que estavam cravados no chão, subiram para procurar os seus. A íris escurecida pelas lentes me encarava com uma tristeza intensa. Levei uma das mãos até seu rosto, acariciando-o com as pontas dos dedos.
― Então, faça ― aconselhei com a voz suave. ― Um dia você iria ter mesmo que fazer isso. Faça suas escolhas. E não tenha medo.
Seus lábios tocaram brevemente os meus antes de nos levantarmos para irmos para nossas próximas aulas.
Passei o dia absorta, preocupada com Edward. Na hora do almoço, ele, Alice e Jasper não sentaram à nossa mesa. James e Angela estavam focados demais um no outro para que pudéssemos conversar.
Eu não sabia se James já havia falado sobre Victoria com Angela, mas ela não estava agindo como se estivesse com medo que eles fossem descobertos. Por mais que soubesse, eu às vezes duvidava que Angela pudesse entender a gravidade com que a "lei do sigilo" era tratada em nosso mundo.
Por outro lado, era fascinante observar o jeito como ela e James se tratavam. Ela dispensava a ele um olhar quase adorador, como se ele fosse a melhor coisa ali naquele refeitório. Ele a tratava como se ela fosse de porcelana, repleto de cuidados e preocupações. Não era preciso ser especialista para perceber que aqueles dois estavam completamente apaixonados. Mais do que isso: Angela, apesar do pouco tempo, já amava James. E vice-versa.
Hoje ensaiaríamos cenas novas da peça. Apesar do frenesi sentido por todos no teatro, era como se eu e Edward apenas não estivéssemos ali. Quando chegou a hora do nosso ensaio extra, estávamos tão absortos que a professora nos chamou a atenção.
― O que há com vocês dois hoje? ― ela perguntou, mas não esperou resposta. ― Espero que não desistam do papel, agora que estamos tão perto.
― Não vamos desistir ― eu respondi. Olhei para Edward e de novo para a professora. ― Vamos nos engajar mais agora, eu prometo.
― Certo.
Depois de um olhar desconfiado, ela mandou voltarmos à cena que ensaiávamos antes. Era uma cena do segundo ato, em que Romeu e Julieta vão à igreja para que Frei Lourenço case os dois.
O papel do Frei seria feito por um garoto que eu não conhecia até então, Sam Uley. Hoje ele havia ficado no nosso horário extra para ensaiar e não parecia muito feliz com isso.
― Que o céu sorria para este ato santo, sem que horas tristes venham perturbar-nos ― Sam falou, interpretando Frei Lourenço.
No início do ato, apenas Romeu e o Frei estão presentes. Fiquei ao lado, escondida na coxia, esperando minha hora de entrar em cena.
―... basta que as mãos nos juntes com palavras consagradas; e que a morte, depois que o amor devora, faça o que bem quiser ― dizia Edward, parecendo realmente concentrado no falar apaixonado de Romeu. ― A mim já chega poder chamar-lhe minha.
― Essas alegrias violentas tem fim também violento, falecendo no triunfo, como a pólvora e o fogo, que num beijo se consomem. ― Estremeci quando Sam pronunciou estas palavras. Como sempre, eu associava a peça à minha vida real com Edward. E as semelhanças realmente me assustavam. ― O mel mais delicioso é repugnante por sua própria delícia, confundindo com o seu sabor o paladar mais ávido. Tem, pois, moderação, que o vagaroso, como o apressado, atrasam-se do pouso.
Essa era a minha hora. Assim que a fala terminou, entrei no palco, me posicionando perto de Sam Uley, de frente para Edward.
― Eis a dama que chega; uns pés tão leves não gastarão jamais a pedra eterna ― Sam-Frei Lourenço disse. Meu olhar estava inteiramente concentrado em Edward e o dele em mim.
E assim foi o resto do ensaio. Mesmo quando não deveríamos, nossos olhares estavam um no outro. Nossa sorte foi a professora tomar aquilo como algo pertinente à peça, como se quiséssemos dar um ar mais apaixonado aos nossos personagens.
Quando a professora nos liberou, Edward me seguiu até meu carro, mesmo que o seu estivesse estacionado a cinco vagas de distância. O estacionamento estava vazio, Sam e a professora já haviam ido embora. Uma chuva grossa havia caído durante a tarde toda, tudo parecia mais deserto que o costume por ali.
― Como foi ontem com Carlisle quando você voltou para casa? ― perguntei a Edward.
Nos encostamos lado a lado no carro, sem preocupação por estarmos molhando nossas roupas. Edward demorou algum tempo para me dar a respostar, mas quando falou, sua voz transparecia tudo que o havia atormentado durante o dia inteiro.
― Carlisle estava me esperando na sala quando cheguei ― ele falou, o tom de voz sombrio. ― Ele mal esperou que eu entrasse. Quando passei pela porta, já estava jogando todo tipo de injúrias para cima de você. É claro que eu não ia ficar calado ouvindo tudo aquilo.
Eu queria saber o que Carlisle estava falando a meu respeito. Mas tinha medo de perguntar, pelo simples motivo que eu sabia que isso ia despertar aquele ódio animal em mim, aquele que eu direcionava apenas a Carlisle. E eu sabia que estava cansando Edward por pensar nisso.
― O que você disse a ele? ― perguntei, ao invés de dizer o que realmente queria.
― Pensei que você ia perguntar o que ele estava falando ― Edward adivinhou e eu pude ouvir o sorriso em sua voz. ― Eu disse apenas que ele não tinha o direito de me fazer ouvir aquelas coisas. Que eu não ouvia você chamá-lo por aqueles nomes absurdos, então, que ele tivesse o mínimo de respeito por você.
― Carlisle não deve ter gostado muito disso ― concluí, sem conter um sorriso de satisfação por Edward ter me defendido.
― Óbvio que não. ― Ele pareceu hesitar para soltar a frase seguinte. Quando ele falou, eu entendi o porquê da hesitação. ― Nunca vi Carlisle com tanto ódio. Ele quase me bateu, mas eu fui rápido o suficiente para me desvencilhar.
― Ele ia bater em você? ― repeti, incapaz de crer que Carlisle tinha chegado a tanto.
Bem, se Carlisle estivesse tentando bater em mim, eu não teria estranhado. Mas ele criara Edward, convivera com ele durante vários anos. Eu não esperaria que ele tivesse uma reação dessas.
― Ia ― Edward confirmou. ― Essas são as reações de Carlisle conosco. A raiva o deixa cego. ― Fiquei calada, apenas absorvendo suas palavras, esperando que ele continuasse. ― Depois disso, ele apenas disse que não ia aceitar essa aproximação entre nós dois. Que faria qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para nos separar.
Eu não tinha uma resposta para aquilo. Fazia muito tempo desde que eu convivera com Carlisle, e não tinha uma idéia muito precisa do que ele queria dizer com "qualquer coisa". Só esperava que ele não tentasse pôr vidas que não tinham nada a ver com isso em risco, como James, por exemplo.
Ouvi Edward respirar fundo e desviei meus olhos do asfalto para seu rosto. A íris, agora totalmente negra, mesmo eu percebendo que ele estava sem as lentes, me encarava com uma intensidade avassaladora, como se ele soubesse de algo que não queria me dizer. Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, seus braços me puxaram de encontro ao seu corpo, e eu enterrei meu nariz na curva do seu pescoço, me inebriando com aquele cheiro que já se tornara tão familiar para mim.
― Um amor que me traz tantos problemas ― ele murmurou para si, mesmo que seus pensamentos não fossem mistério para mim.
― Desculpa ― me peguei falando, mesmo sem saber se aquela era a coisa certa a dizer.
Seu riso baixo sacudiu nossos corpos, causando uma fricção involuntária entre nossos quadris totalmente colados. Edward, pelo visto, também havia percebido isso, pois repetiu o movimento, levando uma das mãos à minha cintura e movimentando meu sexo de encontro ao seu.
Deixei um gemido de contentamento escapar dos lábios, fechando os olhos para aproveitar mais a sensação daquele contato.
― Acho que você deveria ir para a minha casa hoje ― murmurei, ainda de olhos fechados.
― Não posso ― ele respondeu, depositando beijos molhados na curva do meu pescoço. ― Preciso sair para caçar esta noite. Já está ficando insuportável a convivência com esses humanos.
Todo o tesão que eu estava sentindo se dissipou. Meu corpo assumiu uma postura rígida e eu abri os olhos alarmada.
A sede. Eu havia lido os pensamentos de Edward agora a pouco. Como não pude ver isso dentre eles? Concluí que ele estava cuidadosamente evitando pensar nisso perto de mim, ou eu teria captado algo.
― Sair para caçar. Certo ― falei, apenas, descolando nossos corpos e voltando a me encostar no carro, ao seu lado. ― Às vezes, eu consigo esquecer do quanto nós somos diferentes.
― Bella, eu preciso caçar ― ele suspirou, suas palavras saindo como uma súplica. ― Você sabe que não posso ficar com sede, ainda mais convivendo com todos esses humanos.
― Eu sei, mas eu queria... ― As palavras morreram em minha garganta. Eu não podia falar aquilo. Não quando as coisas estavam indo tão bem. Não quando eu havia prometido não tentar mudá-lo.
― Você queria...? ― Edward me estimulou a continuar, mas eu sabia que não poderia.
― Não importa o que eu quero ― desconversei, ficando de frente para ele e envolvendo meus braços em seu pescoço. ― Apenas tenha cuidado. E tente não matar... ― Mas, quando eu ia concluir essa frase, algo tocou no fundo da minha memória vampira.
Edward me falando como ele se alimentava. Edward me dizendo que fazia sexo com as vítimas para tirar sangue. De repente, toda a repulsa, que há muito não sentia, me atingiu com força, e minha expressão deve ter denunciado algo para Edward, pois ele franziu o cenho e me fitou confuso.
― O que foi, Bella? ― ele perguntou, tocando meu rosto.
― Nada ― desconversei novamente, tirando minhas mãos de perto dele e interrompendo qualquer tipo de contato que pudéssemos ter. ― Vá caçar. Nos vemos amanhã.
Abri a porta do carro, sentando ao volante e puxando a porta para fechar. Mas Edward deteve este movimento, colocando-se entre mim e a porta e baixou o rosto até que estivesse a altura do meu.
― O que aconteceu? O que você ia dizer antes? ― ele inquiriu, um vinco entre suas sobrancelhas.
Respirei fundo e reuni um resquício de coragem para falar aquilo.
― Ia dizer que queria que você fosse como eu. Apenas como eu ― falei, me chutando mentalmente por ter dito aquilo.
Edward respirou fundo e soltou a porta do carro, ficando ereto novamente.
― Sinceramente, não sei mais o que dizer quanto a isso ― ele respondeu, me pegando totalmente de surpresa.
― Como assim? ― perguntei, erguendo uma sobrancelha e levantando a cabeça para encará-lo.
― Mesmo sem provas, talvez eu comece a enxergar quem está com a verdade, Bella ― ele falou, e começou a andar de costas em direção ao seu carro. ― Nos vemos amanhã, meu amor.
Com um último aceno, ele me deu as costas e correu para seu carro. Fechei a porta e dei a partida ao mesmo tempo que Edward, saindo do estacionamento e tomando a direção oposta à dele.
Enquanto dirigia para casa, não conseguia parar de pensar em suas palavras. Eu sabia, é claro, que quem estava com a verdade era eu. Carlisle havia inventado inúmeras mentiras para esconder sua fraqueza, e agora queria que eu passasse por mentirosa. Mas Edward não tinha provas de que eu ou Carlisle pudesse estar com a verdade.
O que o teria feito acreditar, de uma hora para a outra, que um dos dois pudesse estar com a razão? Eu não tinha essa resposta. Poderia pensar em alguns motivos, mas nenhum era forte o suficiente para me convencer da pequena mudança na forma de Edward pensar.
Como ele mesmo havia dito, ele estava apenas começando a enxergar. E, enquanto fazia as curvas para alcançar a Reserva, tomei uma decisão: eu iria atrás das provas e faria Edward enxergar a verdade.
No dia seguinte, não consegui esconder de Edward tudo em que havia pensado a noite inteira: que ele estava fazendo sexo com outra mulher, enquanto bebia do sangue dela.
Quanto contei isso a James, ele apenas riu, falando para eu ficar calma que Edward não me trocaria por um pouco de sangue. Mas nós dois sabíamos qual era meu real motivo de preocupação: Edward estar bebendo sangue humano, enquanto eu podia oferecer a ele outra alternativa. Ele tinha outra opção, a não ser fazer sexo com humanas desconhecidas. E isso me incomodava mais do que eu gostaria.
― Bella, eu preciso delas. Não do sexo, você sabe disso ― Edward tentava me explicar, no teatro, enquanto os outros ensaiavam as cenas em que nós não aparecíamos. ― É apenas o sangue.
― Que vem junto com o sexo ― ironizei, sem conseguir me conter.
Para minha surpresa, Edward riu. Estava sentada ao seu lado na platéia, de forma que tive de virar a cabeça para o lado, a fim de verificar sua expressão. Ele oscilava entre a diversão e o... lisonjeio?
― Alguém aqui está com ciúmes? ― ele provocou, tocando a ponta do meu nariz.
Revirei os olhos para ele e voltei a me focar no palco. Como eu não respondia nada, ele pegou minhas mãos entre as suas e começou a me mandar "mensagens mentais".
"Só tenho olhos para uma pessoa. E você sabe disso."
"Nenhuma delas chegaria aos seus pés. E, mesmo que chegassem, acho que meu coração já é seu, Isabella."
"Deixe de ser ciumenta. Você já me dá tudo – bem, quase tudo – de que preciso, não há nada mais a procurar em outra mulher."
― Como assim "quase tudo"? ― perguntei, procurando algo que ele estava tentando não pensar.
― Bem, você... ― Mas sua fala foi interrompida por um grito da professora. Ela o estava chamando para ensaiar algumas cenas com a Ama de Julieta. Ele deu um beijo em minha bochecha antes de andar até o palco para ensaiar suas cenas com Lauren.
Àquela noite, ele foi para minha casa. Eu estava tentando ser racional, não ceder ao impulso do ciúme e começar a gritar com ele pela forma como ele se alimentava. Usava comigo os mesmos argumentos que ele tinha usado, que era apenas sangue, o sexo era uma conseqüência. Mas eles não estavam funcionando e eu pretendia conversar com Edward sobre isso quando chegássemos em casa.
Meus planos, porém, foram totalmente por água abaixo quando entramos em casa e eu ouvi James ao telefone. A voz do outro lado da linha era Tanya. Mas ela não parecia amigável e seu tom urgente me dizia que algo não estava certo. As rugas de preocupação na testa de James só agravavam minhas suspeitas.
― Certo ― ele falou. ― Bella acabou de chegar, vou falar com ela imediatamente.
― Se cuidem, por favor ― ouvi Tanya responder. ― Qualquer coisa, me liguem. Mandem notícias regularmente, estarei esperando.
― Ok. Até logo, Tanya.
― Até mais.
Assim que James terminou a ligação, eu e Edward sentamos no sofá. James ocupou a poltrona e eu nem me dei ao trabalho de pedir explicações.
― Alec foi à casa das Denali procurar por nós ― ele falou e eu torci as mãos em um gesto nervoso. Senti Edward ficar ereto ao meu lado. ― Tanya não sabe o porquê de ele ter feito isso, mas ele disse apenas que estava "verificando algo".
― Mas... ― Meus pensamentos estavam a mil por hora. Eu nem sabia o que falar primeiro. ― Isso não faz sentido, James! Por que Aro mandaria Alec nos procurar em Vancouver? O que ele quer conosco?
Alec era um dos que trabalhavam para Aro Volturi. Ele fazia os trabalhos pequenos, com os quais Aro, geralmente não se envolvia. E receber uma visitar dele nunca poderia parecer uma coisa boa.
― Eu não faço idéia. Tanya muito menos ― ele respondeu, passando a mão nos cabelos longos. ― Achamos a situação toda esquisita demais, mas não temos nenhuma pista do que ele possa querer com nenhum de nós dois.
Bem, na verdade, eu acho que tinha uma pista, mas era cedo demais para tirar essa conclusão. Apoiei os cotovelos na perna e curvei minha cabeça sobre as mãos, fitando o chão, tentando ter alguma idéia.
Senti o braço reconfortante de Edward repousar sobre meus ombros, logo em seguida me puxando para seu peito. Esqueci momentaneamente as coisas que tinha a dizer para ele, apenas aproveitando o conforto de seus braços.
Sim, agora eu precisaria de conforto. Porque eu tinha um palpite muito bom do porquê de Alec está nos procurando em Vancouver. E esse palpite tinha tudo a ver com Victoria.
N/A:
Olááá, meus amores. Aqui está o capítulo novo, fresquinho para vocês.
Só pra ressaltar que todas as palavras em outras línguas que eu ponho aqui são "mode Google tradutor". No capítulo passado, o Google sacaneou comigo e fez a Bella falar errado em alemão (agradecimento mega especial à Deustch por ter me corrigido... eu ri demais também quando li o review. kkkkkk').
Só mais uma coisinha: povo que está passando pela fic e favoritando ela, porque não deixa um review, hein? Não custa nada, gente, eu garanto! Vamos lá, a fic já está quase no fim, quero saber a opinião de vocês.
O que vocês acham que Alec queria? Será que a Bella tá certa? Isso tem a ver com Victoria? E Edward está certo em continuar se alimentando do mesmo jeito? Ou isso é paranoia da Bella?
Esperando a opinião de vocês. :))
Beijos, amores. :**
