19 – Verdades Inconfessáveis

Estávamos na semana da peça e eu e Edward não nos falávamos há uma semana. Os últimos ensaios haviam sido extremamente tensos por conta disso, pois tínhamos que fingir para a professora que estava tudo bem.

Não era culpa minha. Eu apenas expus a ele o que estava sentindo e, se ele não soube aceitar ou lidar com isso, não havia nada que eu pudesse fazer.

Na semana anterior, por mais que minhas preocupações imediatas fossem Alec, resolvi colocar tudo em pratos limpos com Edward. Não adiantava fingir que eu não me importava; não adiantava fingir que queria que ele fosse fiel. Por mais que ele dissesse que tudo o que tinha com as mulheres das quais tirava sangue era sexo, aquilo ainda me incomodava.

Ele estava dando prazer a outra pessoa. E esta outra pessoa também estava dando prazer a ele. E, por mais que odiasse admitir, isso me deixava extremamente enciumada. Pois, se ele estava comigo, apenas eu deveria dar a prazer a ele, independente de suas necessidades por sangue.

Na quarta-feira, quando a Sra. Samuels nos deixou sozinhos para nosso ensaio, decidi que era hora de falar sobre o que estava me incomodando.

― Precisamos conversar ― falei, sentando na beirada do palco assim que a professora saiu do teatro.

Edward sentou ao meu lado e ficou calado, provavelmente esperando que eu começasse a falar.

― Vamos inverter os papeis por alguns instantes? ― sugeri, olhando para ele. Seu cenho franziu para mim e eu expliquei. ― Suponhamos que eu me alimentasse de sangue humano e você de sangue animal. E suponhamos que eu usasse o mesmo método que você: tivesse que fazer sexo com os caras para tirar sangue. Como você se sentiria, Edward?

Ele ficou algum tempo calado, me olhando, até que eu desviei o olhar do seu e me fixei em um ponto distante, nas cadeiras vazias da platéia. Eu ia lhe dar algum tempo para pensar naquilo, pois sabia que aquela era a melhor forma de tentar convencê-lo do meu ponto de vista.

Ouvi um suspiro alto ao meu lado e voltei a olhá-lo quando ele começou a falar.

― Eu me sentiria extremamente mal por isso ― ele respondeu, parecendo estar fazendo um grande esforço para falar. ― Ficaria com raiva de você e não sei se conseguiria perdoá-la.

― Parece que eu consegui provar meu ponto ― falei.

― Mas eu quero que você veja o meu ponto, Bella ― ele continuou e eu fiz um aceno com a cabeça para que ele prosseguisse. ― Você estaria reclamando muito mais se eu estivesse matando todas as pessoas das quais me alimento. Pode ser errado, mas essa forma que eu encontrei, deixa todas as vítimas vivas ao final.

― Talvez eu estivesse reclamando mais, sim. Mas isso não muda o fato de eu me sentir incomodada por você estar fazendo isso. Desde que você está saindo comigo, acho que tenho o direito de me incomodar se você transa com outras pessoas ― protestei, novamente deixando seu olhar. ― E não me diga que essa é sua única alternativa. Você sabe que há outra e você sabe que consegue.

― Vamos ter essa mesma discussão quantas vezes? ― ele perguntou, aumentando um pouco o tom de voz.

― Quantas vezes forem precisas até você começar a fazer a coisa certa ― respondi, sem titubear. Ele bufou ao meu lado, pulando do palco e ficando de pé no chão, de frente para mim. ― Você me ama? ― perguntei, de repente.

― Você ainda tem dúvidas? ― ele respondeu, parecendo exasperado.

― Então, por que não está disposto a mudar por mim? ― perguntei. Desta vez, era a minha voz se alterando. ― Eu não sei nada sobre amar alguém, mas sei que quando se ama, se está disposto a sacrifícios para estar com a pessoa amada. E essa é a minha condição, Edward ― falei, também pulando do palco e ficando de pé à sua frente. ― Se você quiser ficar comigo, vai ter que escolher: ou pára de tirar sangue humano da forma que faz, ou muda de vez sua dieta para sangue animal.

― E o que eu ganho em troca? Uma pessoa inconstante, que não me ama e nem sabe se é capaz de me amar? ― ele jogou, praticamente gritando.

― Se me amasse de verdade, você não estaria esperando nada em troca ― bradei, correndo para sair do teatro.

Desde esse dia, eu e Edward não havíamos trocado sequer mais uma palavra. Nem dizíamos "bom dia" um ao outro. Só nos dirigíamos a palavra nos ensaios, o que nem contava, pois ali eram Romeu e Julieta.

Não vou negar que eu estava me corroendo por dentro por ter feito aquilo. Não sabia lidar com relacionamentos e, sinceramente, não fazia a menor idéia se havia agido certo ao encostar Edward na parede. Meu lado passional dizia para voltar atrás e aceitá-lo do jeito que ele era.

Mas meu lado racional dizia que ele estava agindo errado, e que eu estava totalmente certa em abrir o jogo com ele e falar o que estava me incomodando; nosso relacionamento não poderia dar certo se eu simplesmente fingisse que o que ele fazia não me afetava.

Por outro lado, eu tinha medo de perdê-lo. Medo que ele decidisse que eu não valia a pena a mudança e se afastasse de mim de vez. Nunca havia me sentido daquela forma com alguém antes, mas sentia que se Edward resolvesse me deixar, eu ia demorar demais a superar. Mais do que isso: sentia que talvez não conseguisse superar.

Hoje era a primeira quarta-feira que ficávamos a sós, depois da briga. Quando a Sra. Samuels saiu, fechando a porta do teatro, peguei minhas coisas e já estava prestes a sair quando ouvi um breve "espere" vindo de Edward.

Parei com a mão na maçaneta da porta, virando lentamente para olhá-lo. Ele estava sentado no palco, exatamente no mesmo ponto em que estava na semana anterior, me encarando com seus olhos escuros.

― Pode me ouvir por um minuto? ― ele pediu, fazendo uma careta.

Suspirei fundo.

― Não estou com paciência para ter aquela mesma discussão hoje. É sobre isso que vamos falar? ― respondi, soando meio bruta.

― Só quero esclarecer algo ― ele explicou, falando devagar.

― Certo.

Sentei ao seu lado no palco, apoiando as mãos na lateral do corpo e apenas esperando-o começar a falar.

― Alice conseguiu falar com Carmem e Eleazar. ― Meu corpo instantaneamente ficou alerta. ― Eles estavam aqui nos Estados Unidos, por sorte. E concordaram em vir aqui conversar conosco.

― Isso é maravilhoso! ― falei, olhando para ele, que também quase sorria. Quase. ― Mas há algo errado. Não me esconda, o que está acontecendo?

― Carlisle descobriu o que estávamos fazendo ― ele falou, bagunçando ainda mais os cabelos. ― Ficou uma fera comigo e com Alice, disse que não ia tolerar uma afronta desse tipo. Disse que eu tenho uma semana para me afastar de você.

― O quê? Como ele...? ― Fiquei sem palavras. Se afastar de mim?

Uma coisa era nós estarmos brigados. Outra bem diferente era ele se afastar totalmente de mim. E por causa de Carlisle. O ódio queimou em minha garganta. Aquele homem traiçoeiro e mentiroso estava tentando me afastar do homem que eu gostava. E ainda estava tentando ferrar minha vida com os Volturi.

Não ia deixar Carlisle acabar comigo desse jeito, enquanto eu apenas olhava.

― Carmem e Eleazar devem estar chegando terça-feira na cidade ― Edward continuou. ― Vou conversar com eles e... bem, decidir o que vou fazer.

Ele desceu do palco com um pulo, virando de frente para me olhar.

― Em alguns dias eu vou saber a verdade, Bella. ― Ele estava sorrindo torto. ― Tenha uma boa noite.

― Espere! ― gritei, antes que ele conseguisse sair do teatro. Quando sua atenção se voltou para mim novamente, eu mordi o lábio em hesitação antes de conseguir falar. ― Eu quero estar com você. Quero estar com você quando for interrogar Carmem e Eleazar.

Ele pareceu pensar um pouco, olhando diretamente em meus olhos. Suas sobrancelhas, de repente, se ergueram e ele finalmente falou.

― Vou pedir que eles nos encontrem em sua casa. Eu e Alice iremos até lá. Pode ser? ― ele sugeriu.

― Ótimo ― concordei, balançando vagamente a cabeça. Ficamos algum tempo nos encarando, até que eu falei. ― Não se afaste de mim.

― Eu não quero fazer isso ― ele respondeu, me dando as costas e saindo do teatro.

Fui para casa naquele dia cheia de pensamentos sobre Edward. A possibilidade de ele me deixar doía mais do que eu conseguia admitir. Por mais que eu soubesse que em alguns dias a verdade viria toda à tona, eu não sabia o quanto minhas palavras o haviam magoado ou como ele reagiria quando soubesse de tudo.

Eu sabia que não havia dito mentira alguma: quem ama, simplesmente ama, sem esperar nada em troca. Mas eu não sabia como Edward interpretaria aquilo. E gostaria de saber quando eu fiquei tão dependente dele e do que ele achava.

― Eu lembro de ter dito que isso poderia acontecer algum dia ― James falou, enquanto eu estava abrindo meus pensamentos para ele àquela noite. ― Era inevitável você se apaixonar por ele, Bella.

― Isso é tão estranho para mim. Sofrer por estar apaixonada. Não parece fazer parte do que eu sou, entende? ― confessei a ele.

Estávamos sentados no sofá da sala, conversando enquanto James assistia a um jogo de beisebol. Ele tirou os olhos da tela para responder à minha última pergunta.

― Talvez Edward esteja mudando quem você é. ― Ergui as duas sobrancelhas para ele. ― Na verdade, você não é a mesma desde que veio para Forks e conheceu Edward, Bella.

― Como assim? ― perguntei, intrigada.

― Eu diria que ele amoleceu seu coração. Colocou um pouco mais de sentimentos nesse corpo morto. E fez essa cabecinha ― ele deu um tapinha do lado da minha cabeça ― ser um pouco mais racional.

― E você acha que isso é uma coisa boa? ― falei, insegura.

― É ótimo. Talvez, apenas agora, você esteja vivendo de verdade. ― Ele voltou seus olhos para o jogo. ― Principalmente no quesito sexual.

― O quê? ― gritei, arregalando os olhos.

― Ah, Bella, é visível a sua mudança de humor quando passa a noite com Edward. Você até sorri para mim de manhã cedo ― ele falou, tão casualmente, que era como se estivéssemos apenas comentando sobre o tempo. ― Sexo é a cura de todos os males.

― Não sei por que ainda dou ouvidos a você ― resmunguei, me recostando no sofá e tentando prestar atenção no jogo.

― Porque eu sou irresistível, seu melhor amigo e você me ama ― ele respondeu à pergunta retórica.

Dessa vez, quem deu um tapa na cabeça maior do que o normal, fui eu.

Domingo de manhã, eu e James estávamos no meu carro indo para a Forks High School. Era o dia da tão esperada peça. Bem, esperada por todos na escola, menos por mim, talvez.

― Vamos lá, Bella, anime-se ― James dizia, dando tapinhas amigáveis em meu ombro, sentado no bando do carona. ― Pense pelo lado bom: os ensaios vão acabar. Teremos tardes e, no seu caso, noites livres!

Grunhi em resposta. Eu não sabia até que ponto aquilo seria algo bom.

Quando chegamos ao teatro, todos pareciam já estar lá. A Sra. Samuels estava particularmente estressada, correndo de um lado para o outro, e quando me viu chegar com James, parecia um prisioneiro que não via o sol há décadas.

― Graças a Deus! Só faltavam vocês dois ― ela falou, me surpreendendo com um abraço.

― Edward já chegou? ― perguntei.

― Aqui ― ele mesmo respondeu e, quando eu o olhei, senti algo se remexer no fundo do meu estômago.

Ele estava mais bonito do que em qualquer outro dia que eu o tenha visto. Já caracterizado como Romeu, seus cabelos não estavam tão revoltos como de costume e a roupa lhe conferia um ar tão imponente quanto poderia ser possível ao homem mais bonito que eu conhecia.

― Você está lindo ― soltei, sem pensar, me arrependendo no exato instante em que ele sorriu torto.

― Obrigado, mas acho que você deveria ir se vestir ou vamos atrasar o evento ― ele respondeu, parecendo alheio a todo embaraço que eu estava sentindo.

Assenti com um aceno de cabeça, indo para o camarim me trocar. Mas, é claro que não tínhamos um camarim individual, de forma que eu estava dividindo o espaço com Lauren e suas amigas insuportáveis.

Comecei a me despir e lancei meu melhor olhar "ouse falar alguma merda" para ela quando seus olhos estudaram meu corpo. Entrei rapidamente no figurino de Julieta, pedindo a Ângela, que já estava pronta, para me ajudar a fechar a roupa e arrumar os cabelos.

Meia hora depois, eu era Julieta e saía do camarim para encontrar meu Romeu. Edward estava encostado à porta de trás do teatro, encarando a rua estreita, totalmente distraído.

― No que pensas, Romeu? ― perguntei, parando um pouco atrás dele.

― Na minha Julieta ― ele respondeu, virando de frente para mim.

― E o que pensava de mim? ― insisti, fingindo não sentir meu estômago revirar por saber que ele estava pensando em mim.

Mas ele não respondeu. Seus olhos percorriam meu corpo com minúcia, analisando cada detalhe das minhas vestes e do meu cabelo, descendo aos sapatos e subindo devagar, até encontrar meus olhos.

― Você está linda ― ele falou, sorrindo torto para mim. Dando um passo em minha direção, ele me alcançou, envolvendo seus braços ao redor do meu corpo e me abraçando com saudade. Retribuí o abraço, colando totalmente nossos corpos, e colocando o nariz na curva de seu pescoço. ― Nunca duvide do que eu sinto por você, Bella. [i]Minha[/i] Bella. Eu amo você, independente de qualquer coisa.

― Me desculpe pelas palavras duras ― eu pedi, enterrando a cabeça em seu pescoço.

― Eu é quem peço desculpas por tê-la feito duvidar de mim ― ele retrucou, passando a mão em meus cabelos. ― Você estava certa o tempo todo. Eu não preciso de Carmem ou Eleazar para saber a verdade.

Descolei nossos corpos, apenas para olhar em seus olhos.

― O que está dizendo? ― inquiri, franzindo o cenho ao ver que ele falava sério.

― Estou dizendo que a verdade é que eu amo você. E estou disposto a largar tudo e ir a qualquer lugar para ficar ao seu lado, mesmo que um dia você não me queira mais ― ele respondeu, acariciando meu rosto com o polegar.

Aproveitei o toque para vasculhar sua mente à procura de qualquer vestígio de que ele pudesse estar mentindo. Não. As palavras eram sinceras. Aquilo era tudo verdade.

― Meninos! Está na hora! Vamos começar em cinco minutos! ― a Sra. Samuels gritou antes que eu pudesse responder qualquer coisa.

― Continuamos essa conversa depois, ok? ― falei a Edward, correndo de volta para o camarim.

A peça toda havia sido um sucesso. O esquema de ensaios da Sra. Samuels parecia ter dado certo, pois ninguém errou fala alguma e todos sabiam sua hora de entrar ou sair de cena.

Estávamos no último ato, nas últimas cenas de Romeu e Julieta. Romeu-Edward já havia matado Páris-James, que fazia um bom trabalho "se fingindo" de morto. Julieta-Eu estava desmaiada e Romeu falava com o corpo, pensando que eu estava morta.

―... Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a última. Um abraço permiti-vos também, ó braços! Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selais este contrato sempiterno com a morte exorbitante. ― Romeu abraçou e beijou Julieta. Queria poder abrir os olhos para ver a expressão concentrada de Edward, que eu tanto adorava. ― Vem, condutor amargo! Vem, meu guia de gosto repugnante! Ó tu, piloto desesperado! Lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor.

Ouvi quando ele pegou o que deveria ser um frasquinho e bebeu o líquido que estava dentro.

― Ó boticário veraz e honesto! Tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida. ― Ouvi quando seu corpo desfaleceu ao meu lado e sua respiração cessou, encenando que Romeu havia morrido.

Seguiu-se um diálogo de Baltasar com Frei Lourenço. Quando o Frei-Sam Uley chegou mais perto de nós, eu "acordei" para iniciar o último diálogo de Julieta. Após falar com o Frei, ele sai de cena e Julieta fica sozinha com Romeu. Eu e Edward no palco.

― Que vejo aqui? Um copo bem fechado na mão de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh! Que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga, para alívio. Vou beijar esses lábios; é possível que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte. ― Moldei meus lábios os de Edward, em um beijo terno, adorando sentir seu gosto por alguns segundos. ― Teus lábios estão quentes.

Um barulho artificial de homens chegando foi feito, como se estivessem em outro compartimento.

― Ouço barulho. Preciso andar depressa ― falei, olhando para os lados até visualizar o punhal. ― Oh! Sê bem-vindo, punhal! ― Peguei o punhal, posicionando-se de encontro ao meu corpo. ― Tua bainha é aqui. Repousa aí, bem quieto, e deixa-me morrer. ― Enterrei o punhal em um aglomerado de pano que havia em minha roupa, furando o sangue artificial que estava por debaixo dos panos e começou a jorrar. Caí sobre o corpo de Edward, fingindo estar morta.

A peça, na verdade, não acaba neste ponto, mas, para dar mais efeito ― como ela mesma disse ― a professora decidiu que esta seria a última cena. As luzes agora deveriam enfraquecer, deixando a mim e Edward na penumbra. Quando ouvi a cortina se fechando, a platéia começou a aplaudir.

Eu e Edward ficamos de pé, atrás das cortinas, e demos as mãos. Os outros "atores" entraram e quando estávamos lado a lado de mãos dadas, a cortina se abriu novamente e a platéia ficou de pé para aplaudir.

Havia vários rostos desconhecidos para mim ali, mas meu olhar foi atraído para a única fileira de pessoas que eu realmente conhecia. Sentados, lado a lado, estavam Carlisle, uma mulher que deveria ser sua esposa, Alice, Jasper, Emmett e Rosalie. Todos aplaudiam, exceto Carlisle, que nos olhava com a expressão mais entediada que poderia fazer.

Olhei para Edward e ele sorria, acenando para algumas pessoas da platéia ― inclusive para Alice, que parecia estar quicando no banco. Ele olhou para mim e me mandou uma mensagem em seus pensamentos.

"Vou com você a qualquer lugar, Julieta."

Abri mais o sorriso para ele e, quando as cortinas se fecharam à nossa frente, um de seus braços envolveu meu ombro e caminhamos juntos para fora do palco.

― Vamos sair para comemorar o sucesso da peça. Todos estão convidados! ― Mike gritou e todos deram gritos e aplausos entusiasmados.

― Você vai? ― Edward perguntou, com uma de suas mãos ao redor da minha cintura, enquanto a outra acariciava meus cabelos.

― Acho que não. James e Ângela sumiram, não quero ir sozinha ― respondi. ― Isto é, você não vai, não é mesmo?

― Não ― ele respondeu, sorrindo torto. ― Não quero passar mais muito tempo perto desses garotos. Levo você para casa.

― Eu estou de carro. Não é melhor você voltar com Carlisle? Ele não me parecia muito feliz.

― Claro que ele não está feliz. Raramente o vejo feliz ― ele riu secamente. ― Pouco importa, na verdade. Vou com você.

Dei de ombros, pedindo que ele me encontrasse no estacionamento da escola. Fomos para nossos respectivos camarins, eu demorando um tempo anormal para mim para conseguir tirar toda aquela roupa e limpar a tinta que parecia muito com sangue. Pelo menos visualmente, pois o cheiro não era nada convidativo.

Quando consegui ficar bem em minhas próprias roupas novamente, fui para meu carro. Mas a cena que se passava ali perto me fez arregalar os olhos e ficar instantaneamente alarmada.

Carlisle e Edward estavam discutindo em voz baixa, mas perfeitamente inteligível. Os dois estavam com os corpos inclinados um contra o outro, Emmett segurava Carlisle, enquanto Alice segurava Edward para que não avançasse contra o pai.

― Eu vou, e pronto! ― Edward bradou.

― Vai para casa comigo! ― Carlisle vociferou de volta. ― Chega dessa palhaçada, Edward! Se for com ela, nunca mais você pisa na minha casa.

― Pai, por favor, não faça isso ― Alice implorou, parecendo realmente alarmada. ― Você vai se arrepender depois. Por favor!

― A única pessoa que vai se arrepender aqui é Isabella. De ter nascido ― ele bradou de volta.

Apenas naquele instante eu me dei conta de que estava a metros de distância deles e que Carlisle não havia percebido que eu estava ali, ouvindo tudo.

― Acho que eu não entendi direito ― falei, anunciando minha presença. ― Pelo quê mesmo eu irei me arrepender, Carlisle?

Seus olhos, agora ficando vermelhos por causa da lente derretendo pelo veneno, se fixaram raivosos em mim. Vi quando seus punhos cerraram e um sorriso cínico escapou de seus lábios.

― Vou fazer você se arrepender de ter cruzado meu caminho, Isabella ― ele falou, cada palavra sua saindo afiada. ― Alec está chegando à cidade. Você perde por esperar!

― Eu não tenho medo de você, idiota ― gritei, mesmo sabendo que não precisava disso para ser ouvida. ― Suas mentiras estão chegando ao fim. Carmem e Eleazar estão chegando à cidade. Se cuide, Carlisle.

Um berro furioso escapou de sua garganta, chamando a atenção de algumas pessoas que ainda saíam do estacionamento. Alguns curiosos até pararam para olhar e eu me forcei a tentar ficar calma.

― Vá para casa, Edward. Conversamos depois ― falei, andando rápido para meu carro e entrando.

Ainda ouvi quando Carlisle falou "eu vou matar você", antes que meu carro deixasse o estacionamento da escola.

Por um momento breve, considerei aquela ameaça. E constatei que eu não tinha medo. Não temia as ameaças de Carlisle, porque sabia que eram vazias. Se ele ainda possuía algo do Carlisle que eu conheci, aquilo eram apenas palavras. Quando realmente sua vida estivesse acabada pela verdade, ele se preocuparia mais em fugir do que em me matar.

E, bem, se ele viesse atrás de mim para vingar algo, eu estaria pronta. Matá-lo talvez não fosse nenhuma dificuldade, afinal.

Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos macabros, preferindo ocupar minha mente apenas com Edward e nossos momentos bons. Eu esperava não ter entendido errado o que ele havia dito, pois tudo indicava que ele ficaria comigo agora. Que ele aceitaria as minhas condições e pararia de transar com humanas para tirar sangue. Que ele se disporia a aceitar uma nova dieta.

Um sorriso involuntário escapou de meus lábios e algo que eu nunca havia sentido, não sabia nem decifrar, me encheu por completo. Só sabia que era bom e queria sempre sentir aquilo.

Era terça-feira. Carmem e Eleazar estariam chegando à cidade a qualquer momento. Por bem, eu e James decidimos não ir a aula aquele dia, pois não sabíamos a que horas eles estariam chegando. Alice e Edward haviam prometido vir pela manhã, mas até o meio dia ainda não haviam aparecido.

Alice provavelmente sabia a hora exata em que eles chegariam, portanto, só viria quando estivesse quase no horário.

Por volta de uma da tarde, vimos o Porsche estacionar na frente de casa. Ele e Alice desceram e eu os recebi à porta.

― Olá, Bella ― Alice cumprimentou, me abraçando.

― Olá ― respondi, abraçando-a de volta.

Ela passou por mim e, Edward, que estivera parado atrás dela, vendo nosso cumprimento com um sorriso torto, ficou instantaneamente sério ao ficar de frente para mim. Uma de suas mãos acariciou meu rosto com delicadeza e ele deu um beijo em minha testa, passando por mim e entrando em casa.

Eu entendia que aquele era um dia importante para ele, talvez mais do que para mim. Eu havia chegado em sua vida de repente, falando coisas que ele nem suspeitava sobre a pessoa que convivia desde que começara essa vida. Por mais que ele agora dissesse que não importava, que ele iria comigo a qualquer lugar, eu sabia que ele precisava descomplicar de vez essa história para ficar comigo.

Estava prestes a fechar a porta, quando Alice tocou meu ombro.

― Eu trouxe mais alguém ― ela disse, um pouco receosa. ― Apareça.

Jasper apareceu em frente à porta, sorrindo meio constrangido. Ergui uma sobrancelha, olhando de Alice para Jasper e para ela de novo.

― Você já deve saber que o dom de Jasper é sentir as emoções das pessoas ― ela começou e eu assenti com a cabeça. ― Então, achei que seria melhor trazê-lo para o caso de... ― Ela parecia estar escolhendo com cuidado as palavras. ― Bem, para o caso de Carmem e Eleazar tentarem manipular a verdade. Jasper pode sentir se eles estão falando a verdade ou não.

― Bem, tecnicamente, posso apenas captar os sinais de quando as pessoas estão mentindo, como o nervosismo ou ansiedade ― ele corrigiu, olhando para mim.

― Entendo. ― Me colocando no lugar de Alice, eu poderia realmente entender o que ela quis dizer. Carmem e Eleazar eram meus amigos, poderiam facilmente mentir para me favorecer, caso eu pedisse. Se estivesse no lugar de Edward e Alice, ia querer ter certeza de estar ouvindo a verdade. ― Que horas eles chegam?

― Pelas minhas contas ― ela olhou para o céu, visto que eu ainda segurava a porta aberta para Jasper, que não havia entrado ― em, no máximo, cinco minutos.

― Certo. Pode entrar, Jasper ― tive que falar, pois ele ainda não havia se movido da soleira da porta.

Quando estávamos os cinco sentado nos sofás da sala, em absoluto silêncio, eu pareci me dar conta da real gravidade da situação. Eu sabia que eu estava falando a verdade. E hoje Edward, Jasper e Alice teriam certeza disso. Eles iriam ver todas as mentiras que Carlisle tão bem construiu, ruírem bem diante de seus olhos. Eu não sabia qual seria a reação de Jasper ou Alice, mas tinha uma vaga idéia de como Edward reagiria.

Hoje era o dia que tudo que eu guardava apenas para mim sobre Carlisle viria à tona ― coisas que nem James fazia ideia. Coisas que eu guardei por anos e que me forcei a empurrar para o fundo cérebro.

Ouvimos quando o som de um carro se aproximou de nossa casa isolada. Todos ficaram apreensivos. Levantei do sofá, onde estivera sentada entre James e Edward, não suportando mais ficar sentada. Andei de um lado para o outro, até finalmente ouvir o carro parar à entrada da casa.

Corri para a porta, abrindo-a, para encontrar meus dois amigos ali.

― Bella! ― Carmem falou, me dando um sorriso e abrindo os braços para me dar um abraço.

Deixei que ela me abraçasse brevemente, não tendo muita certeza se consegui retribuir o sorriso. Depois que ela me soltou, voltei-me para Eleazar, que me ofereceu a mão para que eu apertasse, também me dando um sorriso.

― Entrem. Quero que conheçam meus amigos ― falei, dando um passo para o lado a fim de deixá-los passarem.

Os dois entraram na casa, dando passos incertos na direção que eu apontava. Segui-os e, quando chegamos à sala, todos estavam de pé para recebê-los. Alice e Jasper estavam lado a lado, de mãos dadas, Edward ao lado da irmã e James à frente de todos.

― Bem, creio que já conhecem James ― falei, tentando não demonstrar nervosismo.

― Sim ― os dois responderam juntos. ― E estes devem ser os Cullen ― Carmem falou, não se preocupando em esconder o desprezo em sua voz.

― Correto ― falei. ― Jasper, Alice e Edward ― informei, apontando um de cada vez. ― Esta é Carmem e este é Eleazar.

Alice deu um passo à frente, ignorando o olhar reprovador que Jasper e Edward lançaram a ela, ultrapassando James e se aproximando de Carmem. Ela ofereceu a mão à mulher, que pareceu pensar várias vezes antes de decidir aceitar.

A tensão no ar chegava a ser palpável e eu nem havia percebido que não estava sequer respirando. Soltei o ar quando Alice e Carmem soltaram as mãos e me senti obrigada a quebrar o silêncio tenso que se seguiu.

― Podemos sentar? ― perguntei a todos.

Embora ninguém me respondesse diretamente, todos concordaram. Não que sentar fosse uma necessidade, mas, na forma como os sofás estavam distribuídos, todos poderiam olhar para todos enquanto conversávamos.

Carmem e Eleazar sentaram lado a lado, no sofá que antes era ocupado por Alice e Jasper, em que só cabiam duas pessoas e que ficava do lado esquerdo da sala. Alice, Jasper e Edward sentaram no sofá de três lugares, de frente para a televisão, James ocupou a poltrona do lado direito. Sentei no braço do sofá, ao lado de Edward, seus braços imediatamente envolvendo minha cintura.

Todos se encararam por alguns instantes, antes de eu olhar para James e ele fazer um gesto com a cabeça para que eu falasse algo.

― Bem, não vamos fazer rodeios, ok? Todos sabem o porquê de estarmos aqui, então, Carmem, Eleazar, podem começar a falar ― eu disse, me sentindo meio bruta por ter jogado tudo tão depressa.

Eles se entreolharam e foi Carmem quem começou a falar.

― Conhecemos Bella em 1701, na Inglaterra. Já éramos nômades nessa época e estávamos de passagem pelo país. Havíamos descoberto a dieta de sangue animal há alguns anos e, apesar da dificuldade, já havíamos conseguido nos adaptar a ela ― Carmem falou, e eu fiquei aliviada por estar tão calma e parecer tão sincera em suas palavras. ― Nessa vida de conhecer vários lugares e não ter residência fixa, acabamos conhecendo várias pessoas também. E quando passamos pela Inglaterra, ouvimos falar de dois vampiros que estavam procurando outro tipo de dieta. Eu e Eleazar sabíamos que éramos um dos poucos que podíamos ajudá-los. E foi o que fizemos: procuramos por eles. E os achamos.

Ela fez uma pausa, olhando para cada um de nós por algum tempo. Eu gostava de Carmem. Sabia que ela, à primeira vista, não parecia ser uma pessoa amigável. Mas isso era apenas pelo fato de ela ser nômade e não ter muito tempo para se arrumar ou tomar banhos regularmente. Seus cabelos às vezes pareciam desgrenhados e eu tinha certeza que ela não trocava de roupa frequentemente.

― Percebemos logo que Bella e Carlisle eram dois vampiros novos e inexperientes ― ela continuou, olhando ternamente para mim, que sorri em resposta. ― Mas Bella sempre teve um coração de ouro e era visível que ela estava interessada na proposta que eu e Eleazar fizemos.

― Que proposta? ― Edward falou, me surpreendendo. Olhei para ele e seus olhos eram pura curiosidade.

― Nos oferecemos para ajudá-los a se adaptarem à dieta de sangue animal. Eles viriam conosco, nós os ensinaríamos a caçar e eles até poderiam ser nômades como nós ― Carmem explicou. ― Lembro do sorriso que Bella me deu quando ouviu essa proposta. Ao passo que Carlisle ― sua voz assumiu um tom de nojo, como se estivesse falando de um bicho asqueroso ― parecia estar concordando apenas porque Bella também estava. Não parecia ser algo que ele queria realmente fazer.

― Por quê? Por que Carlisle não ia querer fazer isso? ― Alice perguntou.

― Bem, penso que Bella pode explicar isso melhor a vocês ― ela me olhou e eu assenti, soltando o ar com força. Não era algo sobre o qual eu gostaria de falar, apesar de saber que era necessário. ― Deixem-me apenas concluir a minha parte da história. ― Ela fez uma pausa, durante a qual Eleazar foi quem falou.

― Eu continuo a partir daqui ― ele falou e ela assentiu. Não era um assunto confortável para nenhum de nós. ― Levamos Bella e Carlisle, em determinado final de semana, para uma floresta no interior da Inglaterra. A garota se saiu muito bem em sua primeira caçada. Estranhou, sim, o gosto do sangue, e muito! ― ele falou, animado, como se estivesse contando algo sobre minha infância. ― Mas ela estava tão determinada a parar de beber sangue humano que o gosto parecia ser a última de suas preocupações. Desde que matasse sua sede, ela tomaria e isso lhe bastava. O cara, ao contrário ― ele falou, sua voz soando em um tom mais grave ao se referir a Carlisle ― não parecia tão disposto a aceitar com a mesma facilidade. Reclamou o tempo inteiro, não conseguindo beber nem a metade do sangue do animal que havia matado. Eu lembro de ter ouvido uma conversa entre vocês dois, Bella ― ele olhou para mim e havia algo parecido com pena em seu olhar. ― Você parecia indignada com o fato de ele não estar seguindo a sua determinação.

― Eu realmente estava ― confirmei. Pensei se aquela era uma boa hora para eu começar a falar, mas decidi que não. Esperaria Eleazar terminar.

― Não ouvi quando vocês brigaram ― Eleazar continuou. ― Mas me surpreendi um pouco quando você disse que ele não viajaria mais conosco. Você deve lembrar da conversa que tivemos depois disso.

― Lembro ― concordei. ― Você perguntou por que ele não iria conosco, e eu disse que ele apenas não queria aquela vida de beber sangue animal; que ele gostava demais do sangue humano para se importar com as vidas que estava tirando. Ele simplesmente não conseguiria se adaptar àquela nova dieta. E não faria esforço algum para tal.

― Lembro do quanto você parecia indignada com isso ― ele ressaltou. ― Do quanto ficou triste por vários dias depois que seguimos viagem e Carlisle foi para um lugar qualquer da Inglaterra.

― Ele não ficou na Inglaterra ― eu falei. Ninguém ali naquela sala sabia do que eu estava prestes a falar. Nem mesmo Carmem e Eleazar. Todos arregalaram os olhos para mim. Soltei o ar antes de prosseguir. ― Já havíamos escutado a história dos Volturi. Soubemos de coisas terríveis que eles faziam em Volterra. E, para meu espanto, Carlisle parecia total interessado nesse tipo de coisas. Quando ele disse que iria me abandonar e iria à Itálida conhecer os Volturi, eu mal podia acreditar em meus ouvidos.

― Carlisle foi para a Itália? Ele conhece Aro? ― Alice perguntou, seus olhos arregalados e uma expressão de pânico dominando seu rosto. Era incompreensível aquela reação para mim, mas parecia normal para Jasper e Edward, que começaram a tentar acalmá-la;

― Conhece. Não tive mais muito contato com ele desde aquela época, mas os boatos correm e, o que chegou aos meus ouvidos é que ele estava vivendo entre a realeza Volturi ― expliquei.

A expressão de Alice estava totalmente perturbada. Tenho certeza que, se pudesse, ela estaria chorando, pois seu rosto se contorcia como se estivesse sentindo alguma dor insuportável.

― Está tudo bem? Posso continuar? ― perguntei aos três.

― Pode prosseguir, ela vai ficar bem ― Jasper respondeu. Ele estava com o braço ao redor do ombro de Alice, que tinha os cotovelos apoiados nas pernas, o rosto entre as mãos. Senti uma onda de tranqüilidade envolvendo a sala e compreendi que Jasper deveria estar usando seus poderes para acalmar Alice.

― Conversei com Carlisle antes de ele ir embora. A verdade é que ele nunca esteve muito preocupado com as vidas que estávamos tirando ― soltei, queria olhar para Edward, mas tive medo do que poderia encontrar em seus olhos. ― Quando comecei a perceber que aquilo estava errado, que deveria haver outro jeito, e ressaltei isso a ele, ele apenas deu de ombros e falou "talvez". Tive que passar dias falando para convencê-lo a me ajudar a procurar outra dieta. Eu sabia, mesmo assim, que ele não queria isso. Ele gostava do que fazia. De como ele fazia. ― Não consegui evitar que minha voz saísse enojada nas últimas palavras.

― O que você quer dizer com isso? ― James falou. Ele me conhecia e sabia que quando eu usava aquele tom para Carlisle, eu estava lembrando de algo que não queria. ― "Como" ele fazia?

Suspirei profundamente. Não gostava de lembrar daquelas imagens. Edward. Era por ele. Por ele que eu estava destrancando essa história, por ele que eu deveria me forçar a lembrar disso. Apenas por ele. Ele merecia a verdade. Toda a verdade.

― Carlisle não apenas tomava o sangue das pessoas ― eu comecei, não conseguindo evitar que minha voz saísse sofrida. ― Ele brincava com elas. ― Todos me olharam interrogativamente e eu prosseguir antes que pudesse ser interrompida. Fechei os olhos para deixar as imagens fluírem. ― Ele fazia as pessoas se perderem em lugares escuros, atraía elas para florestas ou lugares abandonados. Fazia com que ficassem apavoradas, correndo e chorando para todos os lados, procurando um meio de fugir dele. Mas elas nunca conseguiam fugir. E, quando ele finalmente as pegava, fazia coisas horríveis.

Era como se minha garganta se fechasse perante aquelas cenas. Assisti àquilo por muito tempo, calada, apenas porque tinha medo de censurar Carlisle. Eu mesma tinha medo dele.

― Que tipo de coisas? ― Edward perguntou. Ele apertou minhas mãos entre as suas e seu aperto me deu forças para prosseguir.

― Ele não se contentava em apenas secar o corpo. Ele torturava as pessoas. ― Antes que alguém perguntasse, me apressei a fazer um pedido. ― E por favor, não me perguntem que tipo de tortura era. Apenas porque gostava de sentir o gosto da adrenalina no sangue delas. E, depois que estavam mortas, ele desmembrava e...

Minha garganta novamente se fechou e eu não pude prosseguir. Eu lutava há tanto tempo para esquecer essas cenas, que não fazia idéia do quanto aquilo ainda me afetava. Sentia apenas ódio por Carlisle, mas evitava lembrar da origem desse ódio.

E agora, falando tudo isso em voz alta, me parecia dez vezes pior.

― Bella, eu realmente não fazia idéia de tudo isso. Por que nunca me contou? ― James indignou-se.

― Nunca contei a ninguém, James. Não gosto de ficar lembrando dessas coisas, nunca quis falar disso ― expliquei. Abri os olhos e encarei a todos, um por um, deixando Edward por último. Prendi seus olhos confusos aos meus antes de falar. ― Deixei esses detalhes de fora da nossa primeira conversa apenas porque não sabia que íamos nos envolver tanto a ponto de eu precisar provar a você que Carlisle não presta. Mas espero que você entenda agora. ― Olhei para Alice e Jasper. ― Que vocês três entendam.

Alice levantou-se e meu um abraço, forte e, ao mesmo tempo, terno.

― Obrigada, Bella. Por não nos deixar viver nem mais um dia com esse mentiroso ― ela falou em meu ouvido. ― Serei realmente sempre grata a você.

Eu queria perguntar a ela o motivo de ter ficado tão perturbada com a ligação de Carlisle com os Volturi, mas não achei que aquele era o momento correto. Ela já me parecia abalada demais com as coisas sobre o "pai".

Quando Alice me soltou, voltei a olhar para Edward. A conversa poderia ter acabado para todos ali. Mas nós dois ainda tínhamos muitas coisas a acertar. Na confusão de imagens, eu não havia captado seus pensamentos durante toda a conversa. Eu, porém, não precisaria. As perguntas estavam queimando em seus olhos, óbvias.

Antes que qualquer coisa pudesse ser falada, meu celular tocou no andar de cima. Corri para pegá-lo, atendendo imediatamente.

Isabella? ― a voz, inconfundível, perguntou.

― Alec ― respondi.

Olá, minha querida ― ele saudou. ― Que saudades eu estava da sua voz.

― Vá se ferrar ― respondi, sendo esta a única coisa que me veio à mente naquele instante.

Na confusão das coisas que haviam acontecido nesta tarde, eu havia me esquecido totalmente que Alec deveria estar chegando a Forks. Esqueci também que contar a verdade a Edward não era o maior dos meus problemas.

Adoro quando você fica toda raivosinha assim, sabia? ― ele respondeu com uma risada insuportável ao final.

― O que você quer?

Matar as saudades. Estou em Forks, minha querida. Quero ver você.

A intensidade daquela informação me atingiu brutalmente. Alec estava em Forks. E viera, segundo Aro, "checar algo". Os Volturi estavam atrás de alguém em Forks.

Minha conversa com Edward teria que esperar. Porque, agora, as únicas vidas que interessavam eram as de James e Ângela.


(N/A:

Gente, o que aconteceu com vocês? Várias pessoas passando pela fic e... cadê os reviews?

Bem, acho que não custa nada vocês comentarem, ainda mais porque eu gostaria realmente de saber a opinião de vocês sobre o bônus.

Espero que comentem. Beijos, até mais.)