20 - Amor
Desci as escadas apressada, batendo o telefone na cara de Alec. Todos ainda estavam lá embaixo, por sorte. Carmem e Eleazar cochichavam algo, James zapeava pelos canais da televisão, enquanto Jasper e Edward olhavam para Alice, que tinha o olhar vago, fixado em ponto algum. Era como se estivesse presenciando algo que nenhum de nós pudesse ver, como se fosse uma memória sua.
De repente, ela piscou e seus olhos voltaram ao normal, fixando-se em mim.
― Alec está em Forks ― ela falou e não era uma pergunta. ― Era com ele que você estava falando.
Assenti com a cabeça, mordendo o lábio inferior. James ouvira tudo e já estava ao meu lado. Olhei para ele, sentindo medo por ele e por Ângela. Ele pareceu entender o que meu olhar significava, me puxando para seus braços e me dando um abraço reconfortante.
― Eu vou consertar as coisas para nós. Fui eu quem meteu todo mundo nisso, eu vou consertar ― ele assegurou, passando a mão em meus cabelos.
― Bella, acho melhor vocês irem atrás de Ângela antes que Alec o faça. Ele não falou nada, mas com certeza este é o motivo de ele estar em Forks ― Alice falou, olhando alarmada para mim e James.
― Certo ― concordei. Soltei James e olhei-o. Aquele tão conhecido vinco de preocupação estava ali, bem no meio de sua testa. ― Vá ficar com Ângela. Eu vou encontrar Alec.
― Você não pode ir sozinha ― ele retrucou rapidamente.
― Ela não vai estar sozinha ― Edward pronunciou. ― Eu vou com ela.
― Edward, não se meta nisso, por favor, Carlisle vai ficar uma fera e... ― comecei a protestar, mas ele me interrompeu.
― Não estou pedindo sua permissão. E eu não me importo com o que Carlisle pensa ou não dos meus atos ― ele vociferou, cerrando os punhos com força enquanto falava.
Eu não tinha forças e nem queria discutir com ele. Então, simplesmente dei de ombros, me rendendo e aceitando que ele fosse comigo.
Carmem e Eleazar observaram tudo calados, ainda sentados no mesmo sofá. Olhei para eles e os dois vieram até nós.
― Bella, se não se importa, não queremos nos envolver com isso. Você sabe que somos seus amigos, mas não queremos comprar briga com os Volturi ― Eleazar falou, parecendo realmente constrangido de estar me dizendo aquilo.
― Não se preocupe ― tentei sorrir, mas não tinha certeza se estava conseguindo ―, eu entendo vocês. Podem ficar aqui se quiserem. Não sei que horas eu e James estaremos de volta ― "Se é que vamos estar de volta", pensei ―, mas podem ficar à vontade. A casa é de vocês.
― Obrigada, Bella ― Carmem falou, sorrindo. ― Amanhã estaremos indo para a Noruega. Se tudo der certo hoje, por que não vai conosco?
Olhei para Edward. A Noruega. Eu tinha certeza que ele lembrava de eu ter dito que adorava aquele lugar. Ele deu um meio sorriso para mim.
― Se tudo der certo, vou pensar na proposta ― prometi a ela. ― Agora acho que deveríamos nos apressar.
Todos concordaram e, alguns minutos depois, eu e Edward estávamos no carro com Alice e Jasper, enquanto James estava em meu carro, indo para a casa de Ângela. O plano era não deixar Alec chegar até ela antes de termos conseguido conversar com ele.
Por sua vez, tentaríamos, nessa conversa, convencê-lo a apenas transformar Ângela. Era um preço alto a pagar, mas era a melhor opção que tínhamos. Deixar que Alec a matasse não era algo que estávamos considerando como opção agora.
Alec disse que estaria me esperando na casa do meu "velho amigo" Carlisle, que havia oferecido abrigo a ele durante sua passagem pela América. Claro que havia.
Jasper estava dirigindo o Porsche, Alice sentada ao seu lado, eu e Edward no banco de trás. Edward havia passado a mão ao redor de meu ombro, me puxando para repousar a cabeça em seu peito, aconchegando-me em um abraço.
― Você está bem? ― ele perguntou, mas não me deu tempo de responder. ― É muito chata essa coisa de só você ler minha mente. O contrário também deveria acontecer.
― Deixe meus pensamentos comigo, é mais seguro ― respondi e ele riu um pouco. ― Estou bem, sim. Um pouco nervosa, mas bem.
― Vai ficar tudo bem. Amanhã estaremos indo para a Noruega, você vai ver ― ele falou e eu tive que olhá-lo nos olhos depois dessa. ― O que foi?
― Você vai comigo para a Noruega? ― perguntei, embora não parecesse precisar.
― Qual a parte do "vou com você a qualquer lugar" você não entendeu? ― ele retrucou, falando devagar, como se eu fosse retardada.
― Não pensei que fosse tão sério assim ― respondi a primeira coisa que me veio à mente, mas me arrependi quando sua expressão endureceu.
― Você não quer que eu vá? ― ele inquiriu, com certa dureza.
― Não, não é isso ― respondi rapidamente. ― Apenas estou um pouco surpresa. Acho que não estou acostumada com isso.
Ele riu e eu voltei a me recostar em seu peito, sendo envolvida por seus braços quentes. Mesmo não estando acostumada, eu gostava daquilo. Gostava de ter Edward perto de mim. Ainda não havíamos conversado, de forma que eu não sabia o que iria acontecer quando voltássemos dessa viagem. Mas deixei para me preocupar com isso depois, pois eu nem sabia se iria mesmo para a Noruega no dia seguinte.
Nem sabia se haveria um dia seguinte.
Me recostei mais em Edward ao pensar nisso. Eu não sabia quando seria a próxima vez que poderíamos ficar assim. Nem sabia se haveria uma próxima vez. De repente, lembrei de algo que havia deixado escapar.
― Alice! ― gritei e ela se sobressaltou em seu banco, me olhando assustada. ― Você sabe! Você sabe o que vai acontecer depois que Alec vir Ângela. Sabe qual decisão ele vai tomar. Me diga, por favor.
Ela voltou a olhar para frente e se remexeu desconfortável no banco. Eu tive medo. Por que ela estava demorando a me dizer? O que ela vira, afinal?
― Alice? ― chamei, soando insegura.
― Bella, eu não vi nada do que você gostaria, não vi final feliz para ninguém ― ela respondeu, falando de uma vez, como se quanto mais rápido falasse, maiores fossem as chances de ela estar errada.
― Ah ― respondi, porque não conseguia encontrar nada melhor para dizer.
Respirei fundo, Edward me prensando com mais força contra seu corpo. Ouvi quando ele pensou exatamente o mesmo que eu.
"As visões sempre podem mudar. Alice não pode prever se alguém vai mudar de idéia. Não confie tanto."
Quando chegamos na estrada que dava para a casa dos Cullen, um grito de Alice fez Jasper parar o carro.
― O qu... ― Edward começou a falar, mas todos nós vimos a expressão estranha, vazia, que preenchia o rosto de Alice naquele instante.
Ela piscou rapidamente, seus olhos voltando a entrar em foco. Sem esperar que perguntássemos, ela disse o que havia visto.
― Alec mudou de idéia. Desistiu de esperar por Bella na casa de Carlisle e está indo para a casa de Ângela. ― Parei de respirar quando ela disse isso. ― Para lá agora, Jaspe. Ele já está quase chegando! ― ela gritou ao namorado, que deu meia volta com o carro.
Não fiz nenhum comentário, abrindo a boca apenas para dar a direção correta a Jasper. Os braços de Edward continuavam em volta do meu corpo, mas dessa vez eu não conseguia simplesmente me encostar nele e ficar calma.
Quando entramos na rua que Ângela morava, um carro conhecido estava estacionado à sua porta. Bem, conhecido para Edward, Alice e Jasper, pois os três falaram juntos "Carlisle". Então era isso, Carlisle viera junto com Alec. Como eu não suspeitara que isso aconteceria? Se Alec fosse matar a mim ou a James, claro que Carlisle gostaria de estar presente.
Jasper estacionou atrás do carro de Alec e eu vi que meu carro estava ali, estacionado na garagem de Ângela. Fiquei um pouco aliviada ao saber que James já estava aqui.
Todos parecemos prender a respiração antes de sair do carro. Edward apertou minha mão e me disse algo em sua mente.
"Tudo vai dar certo"
Assenti com a cabeça, querendo profundamente acreditar em suas palavras, mas sentindo, lá no fundo, que nem todos teriam um final tão feliz assim.
Descemos do carro e, a princípio, não vimos qualquer sinal de movimento na casa. Nos aproximamos um pouco mais, apurando os ouvidos e foi quando eu ouvi algo que me fez estancar no lugar.
― Vocês dois vão morrer, não tem acordo ― Alec falava e eu ouvia o coração acelerado de alguém, que só poderia ser Ângela, bater em resposta.
Por sorte, ela parecia estar sozinha em casa. Menos pessoas para defender.
― Vamos invadir ou seria melhor bater normalmente? ― Jasper perguntou.
― Acho melhor entrarmos normalmente ― Edward respondeu. ― Eles devem ter ouvido quando chegamos.
― Certo ― falei.
Sem esperar por eles, fui até a porta e toquei a campainha. Em dois segundos, Alec estava parado à porta, me dando um sorriso brilhante que mostrava mais dentes do que eu gostaria de ver na boca de um assassino.
― Minha Bella! ― ele falou, abrindo os braços para me abraçar.
Ouvi Edward rosnar atrás de mim.
― Onde estão Ângela e James? ― perguntei, cruzando firmemente os braços, demonstrando claramente que não pretendia abraçá-lo.
― Não vai me cumprimentar, querida? ― ele falou, fingindo falso desapontamento. Sustentei seu olhar, até que ele deu um suspiro e respondeu à minha pergunta. ― Lá em cima. Ainda não fiz nada com eles. Ainda.
― Vai me deixar entrar ou não? ― perguntei, erguendo uma sobrancelha para ele.
A verdade é que eu tinha, sim, muito medo dos Volturi. Mas vendo Alec ali, na minha frente, não pude deixar de ser com ele como fui antes de saber que ele era um Volturi.
Conheci Alec em um interior da França, quando estava de passagem com Carlisle. Àquela época, não sabíamos nada sobre os Volturi ou que havia alguma realeza nesse mundo vampiro. Alec nos explicou tudo ― omitindo, é claro, a parte sobre ele mesmo ser um Volturi.
Lembro de ele ter sido o primeiro vampiro pelo qual me interessei. Era o cara mais bonito que já havia visto na vida; nas duas vidas. Então, quando ele começou a me jogar indiretas e a insinuar outras coisas comigo, eu não tive como não ceder.
Nos despedimos na França mesmo, após um final de semana maravilhoso. Ele me disse que voltaria para a Itália, mas eu jamais liguei seu nome ao dos Volturi. Jamais, até eu mesma ir à Itália e encontrar Alec vivendo entre eles. E, por mais que eu soubesse das histórias horríveis da realeza, soubesse também que Alec era quem fazia o trabalho sujo de Aro, não conseguia vê-lo totalmente como um inimigo.
― Vejo que trouxe companhia ― ele falou, ao invés de responder à minha pergunta, olhando para os três parados atrás de mim. ― Hey, você deve ser Alice. Aro fala muito de você.
― Mande Aro se fo... ― Edward começou, mas eu o interrompi.
― Por favor, mantenham a calma, ok? ― pedi, olhando para todos. ― Alec, acho que não estamos aqui para resolver problemas pessoais, certo?
― Não, mas pensei que poderíamos aproveitar a ocasião, já que faz tanto tempo desde que você nos visitou na Itália. ― Ele tentou levar a mão até meu rosto, mas Edward, me puxou rápido para trás. Alec levantou uma sobrancelha ao ver a postura protetora de Edward comigo e deu um sorriso cínico. ― Parece que alguém aprisionou a fera hein, Isabella?
― Alec, não me faça perder a paciência. Me deixe ver Ângela e James, por favor ― pedi.
Ele olhou para todos nós e, depois de considerar algo, deu de ombros, dando um passo para o lado a fim de nos deixar entrar. A casa de Ângela era modesta, pequena, mas muito aconchegante, como eu imaginara.
― Aqui em cima, Bella! ― James falou e eu subi as escadas, procurando a direção de sua voz.
Encontrei-os em uma espécie de sótão. Bem, era um sótão, só que estava limpo demais para parecer com um. Ângela havia sido amarrada a uma cadeira e James estava ao seu lado, com Carlisle perto, vigiando os dois.
― Vocês estão bem ― falei, aliviada, dando um passo em direção aos dois, antes de ser detida por um braço forte. Que pertencia a Carlisle. ― O que pensa que está fazendo?
― Não se aproxime ou eu mato os dois ― ele falou, nossos rostos não se tocando por muito pouco.
― Vai embora daqui, seu idiota. Isso não é sobre você ― rugi, entre dentes.
― É aí que você se engana, Isabella. Me interessa muito mais do que você possa imaginar ― ele respondeu.
― Bella, venha para cá, faça o que ele diz ― Alice falou, parada perto da entrada do sótão, que consistia em um buraco no chão. ― Ele pode machucar Ângela. Por favor.
Considerei o que ela dizia e, apenas por medo de machucar Ângela, recuei, indo me juntar a ela e Jasper. Edward e Alec sugiram, um atrás do outro, pelo buraco. Alec começou a andar de um lado para o outro na frente de Ângela, me encarando com a expressão sombria.
― Espero que seja rápida para se despedir dessa humana ― ele falou, parecendo um pouco entediado. ― Sabe como é, tenho coisas mais importantes a fazer aqui do que tirar a vida de uma mortal.
― Você não vai tirar a vida de ninguém hoje ― respondi, tentando deixar minha voz o mais convincente possível.
― Não vou? E é você quem vai me impedir, Isabella? ― ele respondeu, sorrindo cinicamente para mim. ― Oh, gostaria de vê-la tentar. Seria tão sexy.
― Por que você não cala a merda dessa boca? ― Edward bradou.
Ele estava atrás de mim, mas eu estava totalmente consciente de seu corpo alerta, a poucos centímetros de encostar no meu. Procurei sua mão e apertei-a, esperando que ele entendesse que essa não era a hora de desafiar Alec.
― Quem é você, por acaso? ― Alec falou, parecendo, pela primeira vez, realmente notar Edward.
― Meu filho mais novo ― Carlisle pronunciou, com desprezo, como se estivesse se referindo a um rato morto.
― Oh ― Alec falou. ― Estou perdendo algo aqui? Por que seus filhos estão do lado da defesa da humana e você está contra ela?
― Porque eles são imbecis demais para perceberam a realidade à sua volta ― Carlisle bradou, olhando para seus filhos. ― Acham que os humanos merecem um bom tratamento. Não vêem nossa raça como superior.
― Talvez você não tenha sabido educá-los, Carlisle ― Alec falou, parando ao lado dele e depositando uma mão em seu ombro. ― Deveria me deixar levá-los para Volterra comigo. Aro daria um jeito nisso.
― É uma boa opção ― Carlisle respondeu, um vestígio de divertimento passando em seu rosto.
― Carlisle? Me mandaria mesmo de volta para Volterra? Para Aro? ― Alice choramingou e eu nunca havia visto tanto medo em seu rosto.
― Por que não? Talvez assim você aprenda o que realmente importa ― Carlisle respondeu, parecendo achar aquilo realmente divertido.
― Você não presta ― Edward falou e eu, mais uma vez, apertei sua mão.
― E você se acha melhor só porque está andando com essa daí? ― ele fez um gesto em minha direção.
Senti a raiva ferver em meu corpo. Apertei a mão de Edward com força, tentando buscar algum controle para não cometer nenhum erro. Respirei fundo, encarando Carlisle, que sorria triunfante para mim.
― Bem, já vi que vocês tem alguns problemas pessoais para resolver, mas receio que isto já esteja me entediando, então, por que não vamos ao que interessa? ― Alec perguntou, voltando a andar de um lado para o outro. Ele colocou a mão no queixo, como se estivesse pensando. ― Pelo que vejo aqui, temos uma humana que sabe da nossa existência. Alguém deve ter contado isso a ela, obviamente. E esse alguém só pode estar neste sótão. Quem será?
Ele olhou para todos nós, deixando para fixar seu olhar em mim por último. Sorrindo, ele se aproximou a passos lentos, parando a poucos centímetros de mim. Ouvimos Edward rosnar atrás de nós, mas o ignorei.
Ignorei porque eu já sabia como tirar James e Ângela daquela situação.
Por mais que eu jamais voltasse a corresponder, Alec sempre insistiu comigo. Sempre fazendo piadas, nunca perdendo uma oportunidade de me irritar ou me tirar do sério. E eu sabia que ele seria capaz de fazer algo se eu pedisse.
― Eu ― respondi à pergunta que ele havia feito. ― Eu contei a Ângela. Na verdade, ela meio que descobriu. Mas é culpa minha.
Não ousei olhar para ninguém, rezando para que James ficasse de boca fechada e apenas embarcasse na história. Eu sabia que todos ali ― menos Alec e Carlisle ― tinham consciência de que foi James quem contou a ela. Mas seria mais fácil eu negociar com Alec. Ele não teria consideração nenhuma por James. Por mim, porém, poderia ser que ele pensasse duas vezes.
― Oh, Isabella, por que você fez isso, tesoro mio? ― Ele era alguns centímetros mais alto do que eu, de forma que tive de levantar a cabeça para olhá-lo nos olhos. ― Aro não vai gostar nada de saber que você está metida nisso.
― Aro não precisa saber de nada ― retruquei, reunindo toda a coragem que eu nem sabia que possuía. Alec ergueu uma sobrancelha para mim e eu apressei a explicação. ― Vamos resolver isso aqui mesmo, Alec, por que não? Não precisamos meter Aro nisso.
Sua outra sobrancelha se ergueu e ele ficou algum tempo apenas me encarando.
― O que você propõe? ― ele falou, por fim.
Respirei fundo, tomando coragem para expor minhas idéias e fazer Alec acreditar que aquilo poderia dar certo.
― Eu sei que, pela lei, você deveria matar a mim e Ângela ― comecei e ele assentiu, cruzando os braços, fingindo pleno interesse no que eu dizia. ― Mas nós dois sabemos que não precisa ser assim, não é mesmo? Quer dizer, você teria mesmo coragem de me matar? ― Deixei minha voz o mais doce possível. Edward soltou minha mão e eu tive medo por ele. Medo que ele não entendesse o que eu estava fazendo. ― E quanto à Ângela, podemos apenas transformá-la. Assim nosso segredo será o segredo dela também.
Alec estreitou os olhos para mim, mas eu podia perceber que ele realmente estava pensando no que eu estava dizendo. Mas, é claro, Carlisle não ia deixar as coisas se resolverem fáceis assim.
― Alec, isso não faz sentido ― ele falou. ― Você sabe que eles têm que ser punidos. É a lei.
― Eu sei a lei, Carlisle, obrigado ― Alec retrucou, ainda olhando para mim. ― Sabemos também que o que Bella está dizendo é totalmente plausível. Eu não sei, entretanto, se poderia deixá-la viva, Isabella. Você sabe que quebrou nossa principal lei.
― Por favor ― pedi a ele, em minha voz mais suplicante. ― Ângela, pelo menos. Deixe que ela seja apenas transformada. Não a mate, não foi culpa dela. A culpa foi totalmente minha, por favor.
― Bella... ― James falou, mas eu lancei um olhar ameaçador a ele, esperando que ele entendesse que não era a hora de ele falar. Ele pareceu entender, pois recuou.
Olhei para Ângela, que tinha um pano amarrado à boca, impedindo-a de falar qualquer coisa. Ela, no entanto, não parecia estar fazendo qualquer esforço para se soltar ou para falar algo. O medo era visível apenas em seus olhos, que me encaravam suplicantes.
― Aro pediu que eu fosse flexível com você ― Alec falou, me dando as costas e voltando a andar para Ângela. ― Quando estive no Alaska, as Denali foram muito gentis comigo. Aro também gosta muito delas. E nós sabemos que elas gostam muito de você.
― O que você foi fazer no Alaska, a propósito? ― perguntei.
― Não havia chegado a Volterra a notícia de que você mudara-se para Forks ― ele explicou, olhando para Ângela, que evitava a todo custo encará-lo. ― Precisava checar se a informação de Carlisle tinha algum fundamento.
― Eu não mentiria para vocês ― Carlisle defendeu-se.
Alec olhou para ele e deu uma risada sarcástica.
― De qualquer forma, precisava ter certeza que você e seu amigo não estavam no Alaska. As Denali me confirmaram que você se mudara para Forks há algum tempo ― ele continuou a explicar. ― Então, havia uma boa possibilidade de a denúncia da amiga de Carlisle ser verdadeira.
― Amiga? ― perguntei, embora soubesse exatamente de quem ele estava falando.
― Victoria ― Carlisle respondeu.
― E desde quando vocês são amigos? ― retruquei, estufando o peito para falar com ele.
― Não éramos ― ele respondeu, rápido, sorrindo como se soubesse de algo que escapava a todos nós. ― Até ela vir me procurar dizendo que tínhamos algo em comum. ― Ninguém falou nada, todas as atenções voltadas para ele, esperando ele dizer o que era esse "algo", afinal. ― Queríamos a destruição de pessoas que nos traíram.
― Eu traí você? ― gritei, perdendo um pouco do controle que estava tentando manter. ― Só porque não era conivente com as brutalidades que você cometia com todas aquelas pessoas? Só porque procurei um meio melhor de me alimentar, algo que não destruísse pessoas?
― Nós éramos amigos e, na primeira oportunidade, você me trocou por uma aventura. Me abandonou por algo incerto, quando eu mais precisava de você ― ele cuspiu, também alterando a voz.
― Pare de mentir! ― gritei mais alto, agora perdendo todo o controle. Ouvi Alice se mexer atrás de mim, mas não prestava atenção em mais nada. ―Todos aqui já sabem a verdade! Alice, Edward, digam a ele ― me voltei para os dois, que estavam lado a lado, me encarando confusos ―, digam a ele o que ouviram hoje de Carmem e Eleazar.
― Carmem e Eleazar? Então conseguiram falar com eles? ― Carlisle bradou, incrédulo, encarando os filhos.
Mas ninguém teve tempo de responder àquela pergunta, pois, antes que tivéssemos tempo, Alec voou para cima de James, arremessando-o contra a parede de trás do sótão, caindo por cima do corpo do meu amigo.
Meu cérebro levou um segundo para registrar que Ângela estava solta da cadeira, correndo em direção à saída do sótão, enquanto Alec e James lutavam estrondosamente no chão. Carlisle correu até Ângela, detendo-a antes que ela pudesse sair, torcendo seus braços para trás, fazendo-a gritar de dor.
― James! Alec! Parem! ― eu gritava, assistindo à briga sem saber como interferir. ― Edward! Jasper! Me ajudem! Façam alguma coisa!
De repente, aquela mesma onda de tranqüilidade que eu havia sentido mais cedo dominou o ambiente. Jasper estava usando seus poderes para tentar acalmar os ânimos no ambiente. De fato, quando olhei para Alec e James, parecia estar funcionando, pois agora eles não estavam mais se socando, estavam apenas de pé, um encarando o outro, embora ainda conservassem a postura de ataque.
― James, Alec, me ouçam! ― falei, esperando que eles realmente estivessem prestando atenção em mim. ― Vamos resolver isso do melhor modo. Ninguém precisa brigar nem se machucar. Por favor.
Nenhum dos dois me olhava, mas eu esperava que estivessem prestando atenção.
― Carlisle, largue Ângela ― Edward, para meu total espanto, ordenou. Sua voz soava mais ameaçadora do que eu jamais ou havia ouvido usar. ― Ela não vai fugir. Não é mesmo, Ângela?
― Não ― ela grunhiu, o pavor transparecendo intenso naquela simples palavra.
― Calem a boca ― Carlisle respondeu, apertando ainda mais os braços de Ângela para trás. ― Alec, vai fazer ou quer que eu faça?
― Solte-a, Carlisle ― Alec ordenou, sem tirar sua atenção de James. ― Deixe que eu cuido dela pessoalmente.
Carlisle, parecendo relutar, soltou os braços de Ângela, que correu para perto de Jasper e Alice, que haviam se distanciado de todos nós, encostando-se à parede mais próxima.
― Alec ― chamei, mas ele não me olhou. Mesmo assim, continuei. ― Parem de brigar. Somos amigos, não é mesmo? Já nos conhecemos há tanto tempo. Pelo bem de nossa amizade. Apenas converse comigo, pare de atacar James.
― Ele estava soltando-a ― Alec explicou, ainda encarando James. ― Em minutos que nos distraímos, ele soltou as cordas. Ele me desobedeceu, Isabella. Ninguém me desobedece assim.
― Ele é importante para mim, Alec ― choraminguei. Eu estava perdendo o controle da situação. Não era assim que eu imaginava resolver tudo. Me forcei a tentar ficar calma para argumentar com Alec. ― Não machuque James. Lembre, fui eu quem quebrou a lei, é a mim que você deve punir.
― Chega, Bella ― James falou, ao invés de Alec. ― Chega de se culpar por isso. A culpa também foi minha.
― James, não seja idiota ― falei, tentando transmitir a ele o aviso em minha voz. Seria muito mais fácil se a culpa fosse toda minha. Alec não tinha motivos para perdoá-lo, mas a mim talvez sim. Talvez. ― Não tente me defender. Eu sei que o que eu fiz foi errado e vou pagar por isso. Venha para cá. Venha para o meu lado, por favor.
A princípio, pensei que ele não fosse me dar ouvidos. Mas logo ele começou a se mover, andando para o meu lado devagar, sem tirar os olhos de Alec. Quando chegou ao meu lado, peguei sua mão na minha, apertando com força meus dedos ao redor dos seus, recebendo de volta o aperto.
― Deixe comigo, tudo bem? ― falei a ele, nós dois encarando Alec. ― Vou resolver isso.
Alec deu uma risada de escárnio ao ouvir minhas palavras, cruzando os braços e me olhando de cima a baixo. Olhei para James e ele, por alguns segundos me encarou de volta. Então, eu percebi que ele havia compreendido meu plano, pois suas sobrancelhas se ergueram, quase imperceptivelmente, quando eu dei uma piscadela rápida para ele. Com um último aperto, soltei sua mão e me aproximei de Alec, andando devagar.
― Bella, cuidado ― Edward murmurou.
Olhei para ele, dando um breve sorriso que eu esperava que o confortasse. Sua expressão estava extremamente perturbada, seus olhos levemente arregalados pelo desespero.
― Eu vou ficar bem ― assegurei.
Ele não suavizou a expressão e eu voltei a olhar para Alec. Andei para mais perto dele.
― Vamos resolver isso entre nós dois, ok? ― sugeri e ele assentiu, revirando os olhos. ― Não mate Ângela. Eu vou transformá-la. Se quiser, pode ficar mais três dias na cidade e esperar a transformação se completar ― argumentei, rezando para que ele não aceitasse essa sugestão, pois eu não pretendia, realmente, transformar Ângela agora. ― Ou pode me dar um prazo e depois eu mesma a levarei a Volterra para que a veja como vampira.
― E por que eu faria isso, Isabella? ― ele retrucou, com a expressão divertida. ― Ela tentou fugir. O que me garante que não vai tentar de novo? E que esse seu amigo não vai ajudá-la?
― Nos dois sabemos que ela não possuía chances reais de escapar de você ― exaltei-o, ao que ele assentiu, parecendo acreditar que eu estivesse mesmo elogiando-o. ― E, além do mais, se você me deixar viver, não vou quebrar mais nenhuma regra dos Volturi. Já entendi que minha vida ― ou seja lá o que tenho ― vale muito mais do que quebrar qualquer regra de vocês.
Nos encaramos por alguns segundos, imóveis. Meus pensamentos estavam acelerados, meu corpo totalmente alerta e preparado para o caso de eu precisar correr ou lutar. Desejei, mais que tudo, naquele momento, que pudesse ler os pensamentos de Alec como lia os de Edward, pois Alec levantou a mão e, para meu total espanto, deslizou-a pela lateral da minha face, com delicadeza, como se estivesse apenas apreciando o toque.
Por vários minutos, ficamos parados naquela posição. Tudo em que eu pensava era que todos deveriam ficar parados, não deveriam interferir em nada. Esperava que eles já tivessem entendido que eu era a única ali que poderia fazer algo por Ângela e, ainda assim, sair viva.
Esperava, com todas as minhas forças, que a consideração que tanto Aro quanto Alec possuíam por mim fosse grande o suficiente para ele aceitar minha oferta.
Alec deixou sua mão cair ao lado do corpo e, quando seus olhos encontraram os meus, não havia mais aquele ódio. Havia algo diferente. Ternura, talvez. Não sabia se ele era capaz de sentir isso, mas era o que estava parecendo.
― Eu sinto sua falta, ragazza ― ele falou, quase sorrindo. Era a primeira vez que eu o via ser sincero. ― Talvez Aro não goste do que vou fazer, mas não poderia ser de outro jeito. Eu não teria coragem de prejudicá-la, Isabella.
Forcei um sorriso para ele, soltando o ar devagar e, num impulso, pegando sua mão entre as minhas.
― Prometo que não vai se arrepender por poupar minha vida ― assegurei. ― Não voltarei a quebrar nenhuma espécie de regra e, assim que Aro quiser, levarei Ângela, já transformada, para que ele a conheça.
Dessa vez, ele realmente sorriu para mim e, novamente me surpreendendo, me puxou para um abraço. Ouvimos uma risada alta atrás de nós dois e eu virei, a tempo de ver Carlisle, batendo palmas.
― Realmente, uma cena maravilhosa! ― ele falou, olhando para nós dois. Me afastei mais de Alec. ― Você é fraco, Alec. Não merece o sobrenome que carrega.
― Carlisle, Aro tem muita consideração por você. Não me faça cometer uma besteira ― Alec avisou.
― Deixe que eu lhe mostre como um Volturi de verdade procederia ― Carlisle falou e, surpreendendo a todos, correu para Ângela.
James estava relativamente longe dela, de forma que seu reflexo não foi rápido o suficiente para interceptar Carlisle. Quem acabou fazendo isso foi Edward, que estava parado do outro lado de Ângela, deixando-a entre ele e Alice.
E, para meu total desespero, Carlisle começou a tentar se livrar de Edward. Os dois começaram a lutar, com movimentos rápidos e precisos um contra o outro. Mas era claro que Carlisle sabia muito mais sobre aquilo do que Edward, de forma que este, logo todos nós percebemos, estava perdendo a disputa.
E foi ali, no meio de toda aquela confusão, na hora mais improvável de todas, que eu percebi algo.
Eu não estava apaixonada por Edward. Não era apenas paixão. Eu o amava. Eu tinha plena certeza disso agora, porque sabia que amar é estar disposto a dar sua vida pelo outro, caso isso seja preciso. E eu morreria por Edward. Entraria naquela briga e daria a minha vida por ele, apenas para que ele continuasse vivo. Não apenas isso: eu mataria por ele.
E foi com esse último pensamento que eu voei até os dois, entrando no meio da briga, interrompendo um soco que Carlisle estava prestes a dar no rosto de Edward. Quando Carlisle se afastou um pouco, me dando espaço para empurrar Edward para trás do meu corpo, eu fiquei frente a frente com Carlisle.
― Deixe-o fora disso. Desde o começo nós sabemos que isso é entre eu e você ― rugi entre dentes, pronta para lutar contra Carlisle.
Dar a minha vida pelo homem que eu amava, se fosse preciso.
