Título: Pecadores

Autora: Aislyn Rockbell Matsumoto

Fandom: The Gazette

Gênero: Romance, yaoi, drama, anjos, demônios

Avisos: Estupro, homossexualismo, violência

Classificação: +18

Sinopse: "Vocês estão condenados a nascer e morrer todos os dias. Nunca mais poderão ficar juntos. Sempre que tentarem burlar essa regra, irão sofrer antes de morrerem dolorosamente. Dia após dia".

CAPÍTULO I – PELE DE HUMANO

Acordou aos poucos, sentindo algumas dores pelo corpo, principalmente nas costas, onde antes havia um belo par de asas.

Percebeu que estava deitado no chão frio, abriu os olhos devagar, acostumando-os com a claridade do lugar.

Virou para fitar o teto, se arrependendo no mesmo instante em que suas costas tocaram o piso frio.

Sentou-se com um pouco de dificuldade, olhando ao redor, tentando descobrir onde estava, mas seus olhos pararam no homem desacordado a uma curta distância de si.

Não confiando nas forças de suas pernas, engatinhou até o moreno, parando perto de sua cabeça. Suas roupas continham sangue seco, bem no lugar de onde sairiam suas asas negras.

_ Aoi? – chamou baixinho, levantando a mão para tocá-lo, mas parando ao perceber o que faria – Aoi, acorde!

Como se atendesse ao chamado do loiro, começou a dar sinais que logo despertaria. Levou as mãos à cabeça, sentindo-a latejar um pouco e uma ardência tomar conta de seu corpo.

_ Uruha? – virou o rosto, encontrando o loiro ao seu lado, um singelo sorriso brotando de seus lábios.

_ Como se sente? – perguntou docemente, quase se perdendo na escuridão em seu olhar.

_ Dolorido, mas bem. – falou roucamente, tentando se sentar.

_ Agora que acordaram, podemos conversar com mais calma. – as atenções foram voltadas para o moreninho sentado num pequeno sofá no centro do cômodo, sustentando um pequeno sorriso.

_ Seu desgraçado! – Aoi levantou-se rapidamente e partiu para cima de Kai. Teria acertado-o, se uma dor aguda não o tivesse derrubado no chão – Argh!

_ Aoi! – o loiro caminhou até seu lado, visando erguê-lo, mas parando no mesmo instante – Você está ferido, não pode se esforçar.

_ Dói... – gemeu baixinho, encolhendo o corpo.

_ Vocês agora são humanos e como tal, terão nomes de família, documentos e uma história. – levantou-se calmamente do sofá, andou a passos firmes até o moreno erguendo-o facilmente como se levantasse uma pluma, logo o depositando onde estava sentado – Precisarão trabalhar, pagar contas, fazer compras. A casa não se manterá e não cuidará de vocês sozinha. Nesta pasta – que surgiu em suas mãos – têm alguns dados que lhes serão úteis. Concedi a vocês o direito de ficarem juntos. A única regra é: não se toquem. Nunca! Vocês sabem que as conseqüências podem ser terríveis.

E assim como apareceu na sala, desapareceu num piscar de olhos.

_ É isso que ele chama de conversar? – murmurou o moreno – Foi mais um monólogo.

Uruha caminhou até o sofá, pegando a pasta no chão e sentando-se na ponta do móvel, tomando cuidado exagerado para não encostar no outro.

_ Vamos ver como eles puderam nos ajudar. – falou mais para si mesmo do que para o parceiro – Humm... você agora se chama Shiroyama Yuu, tem 28 anos, nasceu em Mie, cidade do interior do Japão, veio para Tóquio à procura de emprego.

_ Droga! Estamos na capital?! – ergueu-se do sofá, sentando ao lado do loiro – Que grande ajuda!

_ Não reclame, pelo menos ainda estamos juntos. Vamos conseguir passar por cima desses probleminhas.

_ Certo. – concordou desdenhoso – E sobre você? – apontou para a pasta.

_ Vejamos... Takashima Kouyou, 26 anos, vim de Kyoto. O que acha? – levantou os olhos para o moreno.

_ Inútil! Eles só nos deram nomes. Vamos ter que procurar empregos sozinhos! Será que eles têm noção do quanto isso é difícil numa cidade tão grande como essa?

_ Tenho certeza que eles pensaram nisso. Planejaram cada detalhe. Não facilitariam nosso castigo. – suspirou profundamente, tentando se acalmar – O que vamos fazer primeiro?

_ Não consigo nem andar direito sozinho, não podemos procurar emprego agora, a não ser que queira ir sozinho. – e com um aceno negativo do loiro continuou – Bom, vamos ver o que tem na casa e depois nos preocupamos com isso.

_ Tudo bem. – levantou-se, largando a pasta no sofá – Não que eles fossem nos dar muita mordomia, mas pelo menos temos um teto.

_ Claro. E eu deveria estar agradecido por isso? – olhou-o de soslaio – Acha mesmo que isso aqui é uma casa decente? Está mais para um casebre!

_ Pra mim aqui está bom. – deu de ombros – Consegue se levantar sozinho?

_ Está me chamando de inútil, fraco ou algo do tipo? – tentou mostrar indignação, mas sorriu.

_ Não, seu bobo! – riu do bico que o moreno fez, estavam tentando quebrar o gelo, pois dali pra frente, nada era certo.

_ Mesmo se eu não conseguisse, você não poderia fazer muita coisa. – abaixou a cabeça, deixando o rosto ser coberto por seus cabelos.

_ Aoi...

O que dizer numa situação dessas? Não havia nada a ser feito, pois era a pura verdade. Não poderiam se tocar, se ajudar, nada.

_ Desculpe. Não devia ter falado isso. – ergueu o rosto, passando as mãos pelos cabelos negros – Não queria te chatear...

_ Não me chateou. – caminhou até parar à sua frente e ajoelhou – Não importa o que aconteça, vamos enfrentar juntos. Qualquer coisa que eu possa imaginar que irá acontecer parece pequena e simples diante do fato que não posso abraçá-lo.

_ Eu prometi que ia dar um jeito nisso e vou cumprir! – um brilho esperançoso passou por suas íris – Não podem nos manter afastados por muito tempo.

_ Sabe, talvez fosse menos doloroso se eles simplesmente apagassem nossas memórias. – sua voz foi sumindo – Mas me aflige mais saber que não lembraria de você, dos seus toques, seus lábios nos meus. – e tocou delicadamente nos próprios lábios, como se o gosto do moreno ainda estivesse ali – Prefiro ter você comigo e não te tocar do que esquecer tudo que já passamos.

_ Eu faria tudo de novo, sem me arrepender por nenhum mísero segundo! Ah, Uru... o que eu não daria pra te ter em meus braços...

_ Que cena tocante! – debochou o loiro baixinho, escorado no batente da porta da cozinha – Eu quase consigo vomitar!

Assustado, Uruha virou o rosto para olhá-lo e caiu sentado entre as pernas do moreno, tocando-as com as costas.

_ Opa! Parece que vocês se tocaram! – seu sorriso aumentou – Vou ter que puni-los!

_ Você não vai tocar no Uruha! – levantou-se, postando à frente do loiro, que ainda não movera um dedo – Saia daqui! O que aconteceu aqui foi culpa sua!

_ E quem liga se a culpa é minha? – aproximou lentamente.

_ Fique onde está! – gritou desesperado.

Não permitiria que aquele monstro tocasse seu anjo. Ele não deixaria que o machucasse.

_ Uruha, corre! – pediu para o amante, assustado e estático aos seus pés – Agora!

_ Correr? – e sua risada preencheu o ar, mandando arrepios por sua coluna – Acredita mesmo que ele conseguiria fugir se eu decidisse atacá-lo?

_ Você não vai fazer nada com ele! Terá que acabar comigo primeiro!

_ Aí não teria graça em vê-lo sofrendo sozinho. Vou manter os dois bem vivos. – parou a poucos centímetros do casal.

_ O que você quer? – perguntou entre dentes, sua respiração saindo entrecortada.

_ Diversão! – sorriu, fazendo uma carinha inocente – Na verdade vim explicar minha parte do acordo.

_ Kai já explicou. Agora pode ir embora.

_ Ele não contou a parte divertida! – abriu um sorriso contente – Por que não me convidam pra sentar? Posso responder à todas as perguntas de vocês.

_ Sua presença não é bem vinda aqui! – elevou novamente a voz.

_ Como estamos nervosos hoje! – com um rápido movimento, ajoelhou-se na frente do loiro e segurou seu queixo – Então vou falar com o Uru-baby! – e sorriu mais diante do medo do anjo.

_ Tire suas mãos... – mas foi cortado novamente por Ruki, que com apenas um aceno o lançou contra a parede.

_ Sabia que você pode cuidar das feridas desse demônio, Uru-baby? – encarou-o sério – Também pode pegar nas mãos dele sem sofrer nada. Pode tentar se quiser...

_ Como assim? – sussurrou o loiro, tremendo levemente.

_ Kai exigiu que os mantivesse juntos. Eu pedi que não se tocassem... intimamente. – e o sorriso diabólico que adornou seus lábios deixou o anjo mais apavorado – Não perderia a oportunidade de vê-los de mãos dadas, mas no fundo desejando por mais. Um cuidado dos machucados físicos do outro, mas as feridas do coração só aumentariam. Vocês se desejariam tanto, mas nunca se satisfariam, nem sozinhos. Esse joguinho vai durar até que vocês enlouqueçam. Até que matem um ao outro.

_ Nunca! – Aoi puxou-o por trás, jogando-o no chão de qualquer jeito – Aposto que teria mais prazer matando você!

_ Tente, se puder! – e desapareceu, deixando apenas um pedaço amassado de papel no chão.

Trocando um olhar com o loiro, que agora chorava silenciosamente, pegou o bilhete e leu em voz alta:

"Nada de abraços, nada de beijos,

Nada de carícias, nada de amor.

Mas como eu sou um bom demônio,

Deixo que peguem nas mãos,

Que curem as feridas,

Que sequem as lágrimas.

Contudo, o desejo e a loucura

Os consumirão pouco a pouco

Até que a morte os separe."

_ Ele é muito poético! – esnobou o moreno, sorrindo enviesado.

Amassou o papel, deixando-o cair ao chão, lágrimas correndo também por sua face, o olhar perdido em algum ponto na parede. Não sucumbiria àquelas palavras, não mataria o outro para se ver livre do castigo. Pois era aquilo que Ruki queria, vê-lo matar seu amor para mostrar que o sentimento não era verdadeiro. Para provar que ainda era um demônio, um monstro assim como ele.

_ Pelo menos, por agora... por enquanto é o bastante. – ainda com o olhar distante, aproximou-se de Uruha e tocou-lhe a face, secando suas lágrimas – Te amo.

E isso foi suficiente para o loiro desabar completamente. Chorando compulsivamente, espasmos sacudindo seu corpo, soluços escapando de seus lábios.