III - TENTANDO UM RECOMEÇO
Notas: Aos que esperaram, comentaram e praticamente me imploraram por uma continuação, meus agradecimentos sinceros. É muito gratificante saber que estão gostando e acompanhando minha história. Sem mais delongas, boa leitura!
_ Hey... acorde. – uma voz desconhecida chamava-o ao longe, sentiu que o tiravam do chão e depois o depositavam em algo macio, o sofá provavelmente.
Tentou abrir os olhos, mas eles estavam pesados. Não conseguia se mexer ou falar qualquer coisa.
_ Hey, cara. – alguém dava tapinhas em sua face – Acorda!
_ Humm... – aos pouquinhos conseguia reagir, seu corpo saia do torpor – Uru...
_ O que?
Achou que o rapaz pudesse estar delirando. Colocou a mão em sua testa, mas não tinha febre. O que o levara a desmaiar?
_ Uru... – abriu os olhos minimamente, piscando várias vezes, até que as figuras embaçadas tomassem formas e cores – Quem... é você?
Havia um loiro debruçado sobre si, com uma expressão preocupada, tinha o cabelo espetado e uma faixa estranha no nariz.
_ Akira. Suzuki Akira. – apresentou-se, sorrindo aliviado – Sou seu vizinho. Eu saía para caminhar quando ouvi um grito, a porta estava aberta, então eu entrei e te encontrei desmaiado. O que houve? Se sente melhor?
Esse cara falava demais. Era o que pensava o moreno, olhando ao redor, tentando ver seu loirinho. Sentia a cabeça latejar e seus olhos lacrimejarem devido à dor.
_ Uru... Cadê... ele? – apoiou os cotovelos no sofá e ergueu-se, sendo ajudado pelo estranho a se sentar.
_ Uru? – ergueu as sobrancelhas, confuso – É o seu gato? Algum bichinho?
_ Bichinho? – agarrou a frente das vestes de Akira e aproximou seus rostos – Não chame Uruha de bichinho! Quem você pensa que é? – berrou alto, extravasando sua raiva.
_ Calma, eu... desculpe. Confundi. – sorriu amarelo, tentando se afastar – Já que você parece bem eu vou embora. Er... poderia me soltar?
_ Some. Da. Minha. Casa! – praticamente rosnou as palavras sem soltá-lo ou afastá-lo de si.
_ Eu só queria ajudar, sinto muito!
_ Não pedi sua ajuda! – empurrou-o, fazendo o loiro cair do sofá – Desapareça!
_ Ok, já vou. – levantou-se e saiu correndo, lançando um último olhar para trás.
_ Nossa, ele acordou estressadinho! – zombou o baixinho, observando a cena, sentado em uma árvore.
_ E você esperava que ele estivesse sorrindo, Ruki? – perguntou o outro anjo, postado ao lado do carvalho.
_ Ah, eu nem judiei tanto assim dele. – mas seu sorriso perverso dizia o contrário.
_ O que você fez? – indagou curioso.
_ Levei ele para o inferno, claro! E você?
_ Fiz o Uruha reviver o reencontro deles. – falou baixinho.
_ Kai-chan! Nunca esperaria isso de você! – começou a rir descontrolado – Por que não tenta uma vaga no inferno?
_ Cala a boca, demônio! – agitou as asas nervosamente.
_ Já fizemos nosso trabalho, buscamos e trouxemos as almas de volta, hora de procurar outra diversão. – e desapareceu, deixando o anjo sozinho.
_ Vocês vão conseguir. Tenho fé em vocês. – sussurrou ao vento, para que ele levasse um pouco de esperança aos dois pecadores.
Após se certificarem que ambos estavam bem, decidiram dar um rumo em suas vidas, não podiam ficar parados de braços cruzados, esperando que o castigo chegasse ao fim ou quebrar as regras para ver o que aconteceria.
Talvez a idéia do anjo moreno para arrumarem o serviço não fosse tão banal. Não seria apenas para sustentarem a casa, seria uma distração, uma nova experiência, uma razão para não ficarem juntos o dia todo, servindo de tentação para o outro.
_ Vamos lá, temos muito que arrumar por aqui – suspirou cansado. _ O que acha que podemos fazer? – questionou o loiro distraído, sentado num dos braços do sofá. _ Eu faço qualquer coisa que precisar. Talvez trabalhe em alguma boate como dançarino – sorriu maroto. _ Boates não funcionam de madrugada? – e recebendo um aceno como resposta continuou – Você tem que estar em casa até a meia noite, Cinderela. _ Você esta a par dos contos de fada, uh? – e riu da cara do loiro. _ Bobo, foi só uma comparação. – fez um bico.
_ Melhor nos mexermos se quisermos comer na próxima semana. – levantando-se do sofá puído, caminhou para um dos quartos. _ O que vai fazer? – caminhou atrás do outro curioso, observando-o analisar o guarda-roupa. _ Vestir algo decente e sair pra rua. Procurar alguma plaquinha de 'temos vagas'. – fez o sinal de aspas com as mãos – E depois só o tempo dirá. _ Eu vou também. – caminhou até o outro quarto para se arrumar também.
_ Aqui nos separamos – pararam em uma esquina – Ao entardecer voltamos pra casa pra ver o que conseguimos. Quem chegar primeiro espera o outro pra preparar o jantar!
_ Duvida que eu vou te esperar? – olhou-o indignado – Eu não seu usar um fogão ou cozinhar qualquer coisa que seja, Aoi!
_ Até breve... – e estendeu a mão, querendo tocá-lo, mas parou o movimento no ar quando o loiro se afastou.
_ Não torne as coisas mais difíceis. – seus olhos lacrimejaram.
E ficando de costas para o moreno, pôs-se a correr entre as ruas. No começo aquele castigo parecia fácil, poderia ficar ao lado de seu amado, mas só agora percebera que não tocá-lo seria doloroso.
Já começava a escurecer quando Uruha finalmente voltou para casa. Estava com uma expressão cansada e abatida. Andara a tarde toda e não conseguira nada, mas para um primeiro dia era aceitável. Rezava para que o moreno tivesse mais sorte.
_ Oi! – parou a poucos passos da entrada, quando ouviu alguém o chamar – Você mora aí?
_ Moro sim. – respondeu desconfiado – Algum problema?
_ Ah, deixa eu me apresentar. Sou Akira, meus amigos me chamam de Reita. – estendeu a mão – Sou seu vizinho.
_ Ur... Humm... – limpou a garganta – Kouyou.
_ Você divide a casa com o cara moreno? Ele está melhor? É que hoje de manhã ouvi um grito e encontrei-o desacordado. Fiquei preocupado, sabe. Ele começou a delirar e chamar Uru...
_ Ah, sim, ele está melhor! – a presença do outro não lhe parecia perigosa, podia confiar e esperava que seu sexto sentido acertasse – Obrigado por ajudar.
_ Não foi nada! – sorriu, se sentindo tranqüilo, recebendo em troca um sorriso infantil.
_ Você mora aqui muito tempo? – talvez ele pudesse ajudar.
_ Mais ou menos quatro anos. Vocês se mudaram ontem não é? Eu vi um pequeno caminhão de mudanças.
_ Isso... nós decidimos tentar a vida na cidade grande. Você não saberia de algum lugar pra trabalhar? Preciso de um emprego, meio urgente...
_ Posso dar uma olhada... Quando eu for trabalhar amanhã, procuro algo pra você e te falo a noite, tudo bem?
_ Claro, seria ótimo! – sua vontade era saltitar de alegria, mas conteve-se.
_ E o seu amigo? Também precisa de emprego?
_ Ainda não falei com ele, vou perguntar daqui a pouco.
_ Certo, se precisar também, me avise. Vou ver o que posso fazer.
Mal sabiam os dois loirinhos que eram observados pelo moreno, por uma das janelas da casa. Sorte de Akira que o olhar do demônio não matava, pois o ódio ao ver a proximidade dos dois era palpável.
Sentia seu sangue ferver a cada sorriso trocado, a cada vez que o cara estranho aproximava um passo, queria matá-lo por chegar tão perto de seu anjo, quando ele era impedido de trocar um simples abraço.
Observou os dois conversando por um longo tempo, Uruha nem se lembrava que o moreno estava em casa sozinho, aguardando seu retorno. Ele não se importava...
_ Ele se importa sim! – esmurrou a parede, descontado sua raiva.
Não podia ter esse tipo de pensamento mesquinho. Tinha que arrumar um modo de passar por cima da punição.
Era melhor tomar um banho e refrescar a cabeça, podia tentar se afogar no chuveiro ou na pia.
Trancou-se no pequeno cômodo, despiu-se rapidamente e ligou o chuveiro, entrando debaixo da água quente. Precisava desviar os pensamentos antes que fizesse algo idiota. Mas aquilo não estava funcionando. Imagens dos loiros conversando muito próximos vinham em flashes, cegando-lhe a razão.
Saiu debaixo da ducha, enrolou a toalha na cintura e parou em frente ao espelho. Pareceu diferente, o reflexo ali contido mostrava um homem com feições cansadas, um pouco de olheiras, um mero mortal com fraquezas. Não era o mesmo demônio sedutor e belo que fora um dia.
Então era por isso que o anjo perdera o interesse?
Ele já não era o mesmo, voltara a ser o humano que tanto desprezava ser, o humano que fora salvo de uma situação estúpida e que não fora forte o suficiente para sair daquela vida medíocre.
O outro era certamente mais atrativo. Bonito, jovem, não era um romance que seria proibido caso acontecesse.
Já vestido, passou pela janela e não se surpreendeu ao vê-los conversando, agora mais animados, escorados no muro da casa do loiro da faixa. Eles faziam um belo casal, não podia negar.
Começou a andar pela casa, sem um rumo certo, não sabia se esperava Uruha, se ia até lá chamá-lo, se preparava algo para si... eram tantos 'se' e nenhuma certeza.
Resolveu preparar o jantar, assim teria que concentrar no serviço e não precisaria pensar nos dois lá fora. Cortou alguns legumes, ainda distraído, tanto que cortou o dedo, o líquido quente escorrendo para os alimento, nem dor sentia.
Em um rápido movimento passou a lâmina pelo pulso, sentindo uma leve ardência, sangue sendo jorrado para fora do seu corpo, pingando no chão. Trocou a faca de mão e fez um corte no outro pulso, sentindo-se zonzo pela perda excessiva do fluido vital.
Para terminar, precisaria de um golpe final, segurou com as duas mãos o punho de madeira e perfurou entre suas costelas, dessa vez tudo ao seu redor escureceu, sentiu apenas um movimento às suas costas, um leve farfalhar de asas e gritando desesperado, sua alma foi arrancada de seu corpo.
_ Ele é desconfiado mesmo, não se preocupe! – riu o loiro mais alto, confortável em falar do seu moreno para o novo amigo.
_ Espero que ele não me estranhe então, não quero arrumar briga pra vocês! – levantou as mãos, mostrando-se desarmado.
_ Claro que não! Quando o conhecer vai ver que é um amor de pessoa! – falou carinhosamente.
_ Vocês formam um casal muito bonito, mesmo não tendo visto vocês juntos, me parece que se completam, como se fossem opostos. Assim como eu e meu baixinho!
_ Realmente somos opostos e nos completamos, ele me trouxe muita coisa boa e eu tento...
Foi cortado por um grito dentro da casa, Aoi chamava por ele com todas as forças, sentiu o mundo parar ao seu redor, um arrepio percorreu todo seu corpo, não sabia como conseguiu se levantar e correr até a casa.
_ Não me siga! – gritou para Reita, percebendo que ele vinha atrás de si.
Entrou correndo, trancou a porta e começou a procurar pelo moreno. Na sala não havia nada, correu para a cozinha e estacou logo no batente.
_ A-Aoi... Não, não! Aoi! – gritou pelo moreno e se aproximou tocando-lhe as costas.
Havia uma poça de sangue ao redor do corpo, que se contorcia em espasmos. Virou-o de frente, as vestes manchadas, ainda saia um pouco de sangue de seus braços, sua face estava toda ensangüentada e a faca ainda jazia em seu corpo.
_ Por quê? Aoi... por quê? – sacudiu-o desesperado – ME DIZ POR QUÊ? – chorava, gritava e apertava-o contra si, ele não tinha motivos, não podia abandoná-lo sozinho, não agora!
Notas finais: Gostaram? Odiaram? Eu sei que demorei muito pra atualizar, e peço desculpas, mas como todas as pessoas, ou a maioria delas, eu estudo, trabalho, tenho uma vida pessoal pra cuidar, e escrever é apenas um hobby. Então, se gostam do meu hobby e querem que eu o pratique mais, deixem um review, dizendo o que acharam do capítulo, se esperam por isso, o que eu posso melhorar, afinal de contas, um incentivo é sempre bem vindo!
