Capítulo 2 – Londres, 1949
Benjamin C. Whittaker levava uma vida tranquila. Tinha 22 anos e era de uma família aristocrata, dona de uma grande empresa do ramo de construção de navios. Ben, como todos o chamavam, amava navios e se interessava bastante pelos negócios da família, o que deixava seus pais orgulhosos. Sempre fora um bom filho e um aluno brilhante, o que continuava a demonstrar durante seu curso de engenharia naval na universidade.
Ben era sem dúvida um ótimo partido, além de muito bonito. Muitas moças o cobiçavam, mas nenhuma parecia interessá-lo. Seus pais, Henry e Emily Whittaker, desejavam que ele fizesse um bom casamento, mas respeitavam a privacidade dele e não insistiam quando percebiam que ele não tinha intenção de cortejar nenhuma das jovens aristocratas que lhe eram apresentadas. Eles sabiam que Ben tinha uma sensibilidade incomum para os rapazes de sua idade, além de ser romântico e de já ter dado mostras de que se casaria apenas por amor, independentemente dos interesses sociais.
O que eles não sabiam é que Ben já tinha em sua mente a imagem da mulher dos seus sonhos. Na verdade a imagem não era de todo nítida, mas um elemento ele conseguia ver com clareza: os olhos azuis e brilhantes como as mais preciosas safiras. Ele sempre sonhava com aqueles olhos, desde criança, e tinha certeza de que um dia os encontraria e que a dona deles certamente roubaria o seu coração. E ele mal podia esperar esse momento.
Certa noite, Ben acordara no meio da madrugada. Acabara de ter um sonho, o mesmo que vez ou outra visitava suas noites de sono: sonhava com um portal que se abria em uma árvore e que pessoas a atravessavam. Aquele sonho o deixava angustiado, pois ele tinha a sensação de que uma parte de seu coração atravessava aquele portal, deixando-o despedaçado. "De novo esse sonho... e de novo essa dor...", pensou ele. "Gostaria muito de saber o que esse sonho significa e por que eu sinto esse vazio no meu peito..."
Ben passou alguns minutos tentando lembrar detalhes do sonho, mas era inútil. Ele não conseguia distinguir faces, nem sabia o contexto daqueles acontecimentos. Quem eram aquelas pessoas? O que aquele portal significava? A única coisa que ele via com clareza era aquele par de olhos azuis que o perseguia desde sempre. A dona dele também desaparecia pelo portal, e era essa a origem da angústia de Ben.
Em meio a tantos questionamentos, Ben acabou vencido pelo cansaço e adormeceu novamente.
"Por todos os deuses, não aguento mais isso!", exclamou Susana, fechando seu livro bruscamente. Ela não via a hora de terminar logo as provas finais e entrar de férias. Era tudo tão entediante... Ela gostava do seu curso de psicologia, mas sem dúvida sair com suas amigas era mais interessante do que ficar trancada em seu quarto no alojamento estudando para os exames.
Aos 21 anos, Susana estava em seu terceiro ano na universidade. Depois de terminar o colégio, ela demonstrou um desejo muito grande de conhecer novos lugares e novas culturas, ao mesmo tempo em que não fazia a menor ideia do que fazer da vida. Acreditando ser inútil deixá-la confinada em casa ou obrigá-la a ingressar na universidade sem saber exatamente o que queria, seus pais permitiram que ela fizesse algumas viagens para conhecer coisas novas.
Seus irmãos, apesar de desgostosos com ela por conta de seu atual estágio de total negação em relação a tudo o que se referisse a Nárnia, resolveram apoiar suas viagens e ajudaram a convencer os pais a permiti-las. Eles achavam que ela não estava bem emocionalmente e que precisava mesmo tirar umas "férias" da própria família e de Finchley, se ausentar um pouco e quem sabe recuperar a razão, que, como Edmundo costumava dizer, ficara em Nárnia junto com a sua lanterna nova.
Depois de um ano em meio a viagens e festas com as amigas, Susana finalmente resolveu ir para a universidade. Apesar de ter se desinteressado pelos estudos, ela sentia que devia isso a seus pais e decidiu cursar psicologia, carreira pela qual ela sentia certa simpatia. Mas seus interesses continuavam concentrados em futilidades.
Pedro a criticava bastante por seu comportamento, mas ela não se importava. Edmundo e Lúcia nada diziam, mas ela sabia que eles pensavam igual a Pedro. A verdade é que os três se tornaram extremamente irritantes. Parecia que eles se recusavam a crescer, principalmente quando insistiam em convencê-la de que aquele mundo inventado chamado Nárnia era real. Felizmente, desde que entrara na universidade, ela passava menos tempo perto de seus irmãos. Susana passava toda a semana no alojamento da universidade e só ia para casa aos fins de semana.
"Por hoje chega...", disse ela, guardando seus livros. Já era tarde para chamar alguma amiga para sair, então Susana resolveu dormir cedo. Além do mais, na noite seguinte haveria uma festa imperdível, então era bom que ela dormisse o suficiente agora. Susana então deu uma última olhada no material que levaria para a aula no dia seguinte e foi para a cama.
No dia seguinte, Susana assistia à aula sem prestar muita atenção, só pensando na festa daquela noite. Ela teria um exame em dois dias, mas achava que já havia estudado o bastante. Além disso, seu divertimento era mais importante, e ela finalmente estrearia a maquiagem nova que comprara no fim de semana anterior.
- Senhorita Pevensie? – a voz do professor chamou a atenção de Susana, despertando-a de suas divagações.
- Sim, senhor Turner? – respondeu Susana, tentando disfarçar sua distração. Será que ele a estava chamando há muito tempo?
- Pode vir aqui um instante?
Susana percebeu que o professor estava na porta da sala e que havia alguém do lado de fora. Quem seria e por que a estavam chamando? Susana se levantou, observada pelos demais alunos, e foi até a porta.
- Senhorita Pevensie, a senhora Hallward deseja falar com você... – disse ele, num tom que parecia tentar disfarçar certa compaixão.
Susana começou a ficar preocupada e voltou-se para a coordenadora.
- Querida, é melhor me acompanhar.
Susana olhou para o professor e ele assentiu, sua expressão parecia triste. A senhora Hallward então conduziu Susana até a sala da coordenação e sentou-se em um sofá, convidando Susana a sentar-se também.
- O que há, senhora Hallward?
- Susana... Você precisa ser forte...
- O que está acontecendo? Já estou ficando nervosa, diga logo!
- Querida... Houve um acidente...
No dia seguinte, Ben acordou cedo, se arrumou para a aula e foi tomar café com seus pais, como de costume. A casa da família Whittaker ficava relativamente perto do campus universitário, então ele não precisou ir para um alojamento para poder estudar. Era um privilégio poder voltar para casa todos os dias quando a maioria dos estudantes precisava morar nos alojamentos da própria universidade ou dos arredores, por morarem longe demais.
À medida que se aproximava da sala de refeições, Ben começou a ouvir a conversa de seus pais.
- Pobrezinhos... que Deus os tenha... – disse a senhora Whittaker, comovida com a notícia que o marido acabara de comentar com ela.
- Foi uma fatalidade, Emily, uma fatalidade... E o trem parecia ser tão seguro, não sei como pôde acontecer um acidente dessas proporções.
- Bom dia, pai. Bom dia, mãe. Do que vocês estão falando? – perguntou Ben, chegando à mesa.
- Bom dia, filho! – respondeu Emily.
- Bom dia, Ben. Houve um acidente terrível ontem, você não imagina... – disse Henry, passando o jornal para Ben.
"Grave acidente de trem mata dezenas de passageiros em Londres", dizia a manchete principal. A notícia dizia que entre as vítimas estava uma família quase inteira, um casal e três de seus quatro filhos. Era triste demais... Alguém acabara de perder toda a família. Ben sentiu algo estranho ao ler aquilo. Ele tinha a impressão de já ter ouvido falar em um acidente parecido... Mas quando?
- Ben? Você está bem? – perguntou Emily, notando a mudança na fisionomia do filho.
- Sim... sim, estou bem... Apenas fiquei impressionado...
- É de se impressionar mesmo... Pobrezinhos...
Ben tomou seu café em silêncio, pensativo. Ele tinha certeza de já ter ouvido falar de algo parecido antes. Não, não era isso... Por mais impossível que pudesse parecer, a impressão que ele tinha era de que se tratava do mesmo acidente. Era como se ele já tivesse tomado conhecimento daquela tragédia de antemão, como se aquela informação estivesse adormecida em algum lugar de sua mente, mas só agora viesse à tona. "Impossível", concluiu Ben. "Será que é isso o que chamam de déjà vu? Talvez seja apenas isso... um déjà vu..."
E então, meninas, gostaram do Ben? Acho que nem preciso dizer de onde tirei inspiração para batizá-lo, né... rs
Please, continuem com os reviews! I love them! =)
